{"id":98417,"date":"2026-08-03T19:04:59","date_gmt":"2026-08-03T22:04:59","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/peru-eleicoes-presidenciais\/"},"modified":"2026-08-03T19:04:59","modified_gmt":"2026-08-03T22:04:59","slug":"peru-eleicoes-presidenciais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/peru-eleicoes-presidenciais\/","title":{"rendered":"PERU \u2013 Elei\u00e7\u00f5es presidenciais"},"content":{"rendered":"<p><em>Peru tem quase 35 milh\u00f5es de habitantes, sendo o quarto pa\u00eds mais populoso da Am\u00e9rica do Sul (atr\u00e1s de Brasil, Col\u00f4mbia e Argentina). Sua extens\u00e3o territorial \u00e9 de 1.285.216 km\u00b2, a terceira maior entre os pa\u00edses da regi\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>As \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais do Peru ocorreram em dois turnos em 2026:<\/p>\n<p><strong>Primeiro turno<\/strong>, em 12 e 13 de abril \u2013 35 candidatos disputaram a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Os dois mais votados, segundo dados oficiais, foram Keiko Fujimori (For\u00e7a Popular), de direita, com 17,18% dos votos, e Roberto S\u00e1nchez (Juntos pelo Peru), de esquerda, com 12,03%.<\/p>\n<p><strong>Segundo turno<\/strong>, em 7 de junho \u2013 Keiko saiu vitoriosa com 50,13%, enquanto S\u00e1nchez teve 49,86%. A diferen\u00e7a foi de menos de 50 mil votos.<\/p>\n<h4><strong>Instabilidade<\/strong><\/h4>\n<p>Desde o fim da ditadura Fujimori, em 2000, o Peru teve 12 presidentes. Keiko \u00e9 a d\u00e9cima terceira. A saber:<\/p>\n<p><strong>Alberto Fujimori<\/strong> (julho de 1990 a novembro de 2000): foi eleito presidente em 1990 e conseguiu prorrogar seu tempo no poder com um golpe de Estado em 1992.<\/p>\n<p><strong>Valent\u00edn Paniagua<\/strong> (de novembro de 2000 a julho de 2001): Ele foi um dos \u00fanicos presidentes do pa\u00eds nos \u00faltimos anos a n\u00e3o estar envolvido em esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o e investiga\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos 20 anos.<\/p>\n<p><strong>Alejandro Toledo<\/strong> (de julho de 2001 a julho de 2006): terminou o mandato, mas acabou preso em 2019 nos EUA, pa\u00eds onde morava desde que saiu da presid\u00eancia, investigado pelos supostos crimes de lavagem de dinheiro, conspira\u00e7\u00e3o e tr\u00e1fico de influ\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Alan Garc\u00eda<\/strong> (de julho de 2006 a julho de 2011): Ap\u00f3s seu mandato, ele foi acusado de receber propina da Odebrecht e foi investigado por acusa\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 2019, ao saber que seria preso preventivamente por seu envolvimento na Lava Jato, se suicidou. Ele era investigado por financiamento irregular de campanha, lavagem de dinheiro e tr\u00e1fico de influ\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Ollanta Humala<\/strong> (de julho de 2011 a julho de 2016): Foi condenado a 15 anos de pris\u00e3o por ter recebido recursos da construtora Odebrecht em 2006 e 2011. No dia 30 de julho de 2026, o Tribunal Constitucional publicou a decis\u00e3o que anula a condena\u00e7\u00e3o de Humala por corrup\u00e7\u00e3o, e ele foi solto ap\u00f3s passar 15 meses preso em uma base policial em Lima.<\/p>\n<p><strong>Pedro Pablo Kuczynski, PPK<\/strong> (de julho de 2016 a mar\u00e7o de 2018): Renunciou um dia antes de o Congresso discutir seu impeachment. V\u00eddeos divulgados pelo Partido \u201cFuerza Popular\u201d que mostravam uma suposta compra de votos de seus aliados em troca de obras. PPK foi acusado de ter favorecido a empreiteira brasileira Odebrecht. Inicialmente, ele negou que tivesse qualquer rela\u00e7\u00e3o com a empresa brasileira, mas depois ele reconheceu que, antes de ser presidente, sua empresa de consultoria prestou servi\u00e7os \u00e0 Odebrecht em financiamento de projetos.<\/p>\n<p><strong>Mart\u00edn Vizcarra<\/strong> (de mar\u00e7o de 2018 a novembro de 2020): Os deputados derrubaram Vizcarra depois da publica\u00e7\u00e3o de reportagens que diziam que ele recebeu US$ 640 mil (R$ 3,3 milh\u00f5es) em subornos de duas empresas que prestavam servi\u00e7os para o Estado quando ele foi governador em 2014, anos antes de assumir como presidente. Um procurador chegou a enviar um pedido de pris\u00e3o preventiva para Vizcarra, alegando risco de fuga, mas a solicita\u00e7\u00e3o foi considerada infundada pela Justi\u00e7a peruana.<\/p>\n<p><strong>Manuel Merino<\/strong> (de 10 de novembro de 2020 a 15 de novembro de 2020: A presid\u00eancia de Merino durou cinco dias at\u00e9 sua ren\u00fancia. Ele enfrentou uma onda de protestos que pediam a sua sa\u00edda por causa de duas mortes que ocorreram em atos p\u00fablicos contra seu governo. Ele era um deputado que liderou os procedimentos de impeachment contra seu antecessor.<\/p>\n<p><strong>Francisco Sagasti<\/strong> (de novembro de 2020 a julho de 2021): Sagasti assumiu a presid\u00eancia do Peru at\u00e9 que fosse feita uma nova elei\u00e7\u00e3o. Ele foi um dos poucos ex-presidentes que n\u00e3o foram denunciados por envolvimento em esquemas de corrup\u00e7\u00e3o e investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Pedro Castillo<\/strong> (julho de 2021 a dezembro de 2022): sofreu impeachment por parte do Congresso, ap\u00f3s decretar um governo de exce\u00e7\u00e3o, tentar dissolver o parlamento e declarar estado de emerg\u00eancia. Desde a posse, Castillo enfrentou acusa\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o e foi obrigado a substituir seus ministros em diversas ocasi\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Dina Boluarte<\/strong> (de dezembro de 2022 a outubro de 2025): era a vice de Castillo. seu mandato, marcado pela repress\u00e3o aos protestos que exigiam o fim da corrup\u00e7\u00e3o e da viol\u00eancia, terminou logo ap\u00f3s o Congresso aprovar uma mo\u00e7\u00e3o para destitu\u00ed-la do cargo na quinta-feira (9) por \u201cincapacidade moral permanente\u201d para enfrentar o crime organizado no pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Jer\u00ed<\/strong> (de outubro de 2025 a fevereiro de 2026): sendo o ent\u00e3o presidente do parlamento peruano, assumiu a Presid\u00eancia com a incumb\u00eancia de organizar as elei\u00e7\u00f5es gerais seguintes. Mas foi destitu\u00eddo devido a acusa\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Mar\u00eda Balc\u00e1zar<\/strong> (desde fevereiro de 2026 a julho de 2026): aos 83 anos, o deputado marxista assumiu a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica no mesmo dia em que foi eleito presidente do parlamento.<\/p>\n<p><strong>Keiko Fujimori<\/strong> tomou posse em 28 de julho de 2026 para um mandato at\u00e9 28 de julho de 2031.<\/p>\n<h4><strong>Direita domina Congresso e institucionalidade<\/strong><\/h4>\n<p>Embora Keiko Fujimori, do For\u00e7a Popular, tenha chegado \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica somente no dia 28 de julho, seu partido domina o Congresso peruano desde 2016. <strong>Karlos Tacuri Arag\u00f3n<\/strong>, antrop\u00f3logo e assessor do ex-candidato presidencial Roberto S\u00e1nchez, destaca dois marcos fundamentais a partir desse novo ciclo na hist\u00f3ria pol\u00edtica peruana.<\/p>\n<p>Em 2016, Keiko foi derrotada na campanha presidencial por Pedro Pablo Kuczynski, o PPK. \u201cNo entanto, ela mantinha uma presen\u00e7a parlamentar de 72 congressistas [de um total de 130] \u2014 exercendo, assim, um poder imenso. A partir do Congresso, ela come\u00e7ou a tra\u00e7ar uma estrat\u00e9gia \u2014 impulsionada pelos interesses centrais daqueles que trabalhavam com ela. Tratava-se de uma quest\u00e3o de financiamento \u2014 do respaldo econ\u00f4mico que ela comandava. E, de 2016 em diante, observamos aquela cl\u00e1ssica saga peruana de repetidas tentativas de impeachment \u2014 uma vac\u00e2ncia ap\u00f3s outra. Houve o caso de Pedro Pablo Kuczynski (que acabou renunciando), seguido por Vizcarra e Sagasti \u2014 uma sequ\u00eancia de eventos que desperta grande interesse anal\u00edtico, tanto dentro quanto fora da Am\u00e9rica Latina. Esse \u00e9 o momento em que o Congresso buscou exercer controle sobre o Poder Executivo\u201d.<\/p>\n<p>Arag\u00f3n avalia que o conflito pela disputa de poder come\u00e7ou ali. \u201cTeoricamente, deveria haver um equil\u00edbrio entre os poderes Executivo e Legislativo. No entanto, o Congresso foi gradualmente rompendo esse equil\u00edbrio; isso n\u00e3o aconteceu da noite para o dia. Foi um processo de eros\u00e3o lenta e constante. Agora, ao analisar a situa\u00e7\u00e3o dez anos depois, percebe-se como implementaram pequenas altera\u00e7\u00f5es legais com uma sutileza impercept\u00edvel \u2014 introduzindo medidas discretamente e acionando-as mais tarde. Ningu\u00e9m notou na \u00e9poca<strong>.<\/strong> Isso sugere que os especialistas jur\u00eddicos que os assessoravam s\u00e3o altamente qualificados; eles compreendem a estrutura do Estado por dentro, com base nas trajet\u00f3rias profissionais que percorreram no Judici\u00e1rio, no Minist\u00e9rio P\u00fablico, nos conselhos nacionais de justi\u00e7a e no Tribunal Constitucional \u2014 s\u00e3o profissionais que j\u00e1 est\u00e3o inseridos no sistema. S\u00e3o eles que deflagram a\u00e7\u00f5es e desenterram aqueles detalhes min\u00fasculos, aparentemente insignificantes\u201d.<\/p>\n<h4><strong>Estado mercantilista<\/strong><\/h4>\n<p>No intervalo entre 2016 e 2021, per\u00edodo que antecedeu a elei\u00e7\u00e3o do presidente Castillo, uma estrat\u00e9gia foi implementada a partir do pr\u00f3prio aparelho estatal. O Congresso, o Judici\u00e1rio e o Minist\u00e9rio P\u00fablico adotaram medidas para impedir a forma\u00e7\u00e3o de uma Assembleia Constituinte e a implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas que, ostensivamente, favoreciam a maioria. \u201cEssa \u00e9 a realidade subjacente. Quanto \u00e0 captura do Estado, por exemplo, existe o que se conhece como Lei Chlimper. Empresas agroexportadoras receberam um benef\u00edcio fiscal muito especial. Elas n\u00e3o pagam impostos como as outras empresas, esse \u00e9 o n\u00edvel de detalhe envolvido. N\u00e3o se tratava de implementar pol\u00edticas p\u00fablicas [para o bem comum]. Em \u00faltima an\u00e1lise, desde 2016, o Estado peruano transformou-se em um Estado mercantilista. Esse \u00e9 o termo-chave\u201d.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Arag\u00f3n, o fujimorismo de 1990 baseava-se na tecnocracia, em grande parte, porque o Estado peruano estivera \u00e0 beira do colapso antes daquele ano. \u201cHavia hiperinfla\u00e7\u00e3o, entre outros problemas. Consequentemente, uma equipe profissional de tecnocratas assumiu o comando do Estado e implementou pol\u00edticas. \u00c9 por isso que o fujimorismo est\u00e1 associado \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. O Estado assumiu responsabilidades por meio de programas como o PRONA, uma iniciativa de assist\u00eancia alimentar, por exemplo. No entanto, em 2016, o Estado j\u00e1 havia se afastado daquele modelo tecnocr\u00e1tico. Afinal, em um Estado tecnocr\u00e1tico, as entidades governamentais operam com objetivos e fun\u00e7\u00f5es espec\u00edficos. Elas t\u00eam um prop\u00f3sito, uma fun\u00e7\u00e3o. Precisam ser eficientes. M\u00e9tricas de gest\u00e3o do setor privado s\u00e3o transferidas para entidades p\u00fablicas, e indicadores de gest\u00e3o, entre outros, come\u00e7am a surgir nos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos do Estado. Tudo isso ocorre ao longo do caminho \u2014 e na busca \u2014 por um Estado eficiente sob uma perspectiva neoliberal, tecnocratas, liberais e neoliberais, assumem o comando do Estado, buscando torn\u00e1-lo eficiente\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, a partir de 2016, a situa\u00e7\u00e3o se deteriorou. Arag\u00f3n explica que essas entidades, que haviam come\u00e7ado a adotar m\u00e9tricas de desempenho espec\u00edficas, voltaram-se para o mercantilismo. J\u00e1 n\u00e3o se tratava de efici\u00eancia. Em vez disso, passaram a jogar o jogo dos neg\u00f3cios e da busca pelo lucro. E o Estado peruano come\u00e7ou a entrar em decl\u00ednio. Essa deteriora\u00e7\u00e3o do Estado peruano refletiu-se no Congresso, que teve de aprovar regulamenta\u00e7\u00f5es para sustentar esse mercantilismo. \u00c0 medida que o Estado declinava, essas entidades come\u00e7aram a convergir. \u201cAfinal, a \u00fanica coisa que nos restava \u2014 um espa\u00e7o potencial para debate, uma ilha de excel\u00eancia dentro do Estado \u2014 era o Banco Central de Reserva. Contudo, anteriormente, havia outras entidades p\u00fablicas trilhando o caminho da excel\u00eancia na gest\u00e3o p\u00fablica.\u201d<\/p>\n<p>\u201cTudo passou a girar em torno do clientelismo. Isso marcou o in\u00edcio de uma d\u00e9cada de decl\u00ednio. Veja os \u00edndices de aprova\u00e7\u00e3o do \u00faltimo Congresso: Dina Boluarte tinha apenas 2% de aprova\u00e7\u00e3o. Isso reflete a situa\u00e7\u00e3o atual e os problemas que enfrentamos. Economistas peruanos de destaque argumentam que, dado o <em>boom<\/em> das exporta\u00e7\u00f5es de min\u00e9rios, dever\u00edamos estar crescendo 36%, e n\u00e3o 3%; essa estagna\u00e7\u00e3o deve-se a essa deteriora\u00e7\u00e3o total. Foi nesse cen\u00e1rio que ocorreram as elei\u00e7\u00f5es, aquelas que acabaram de terminar\u201d. \u00a0<\/p>\n<h4><strong>Vit\u00f3ria de Castillo \u2013 explos\u00e3o popular e repress\u00e3o<\/strong><\/h4>\n<p>O segundo marco dos \u00faltimos anos destacado pelo antrop\u00f3logo \u00e9 a elei\u00e7\u00e3o de Pedro Castillo, em 2021. \u201cIsso rompeu a estrat\u00e9gia que vinha sendo desenhada desde 2016 [por Keiko]. Ele n\u00e3o estava na equa\u00e7\u00e3o. O resultado esperado era a vit\u00f3ria de Keiko [que outra vez havia disputado a Presid\u00eancia]. O plano era que tudo aquilo em que vinham trabalhando fosse consolidado a partir de 2021. Eles estavam prontos para consolidar todos os seus esfor\u00e7os anteriores. Acredito que \u00e9 exatamente isso que pretendem fazer agora\u201d.<\/p>\n<p>Mas a vit\u00f3ria de Castillo inaugurou um novo ciclo. \u201cNaturalmente, eles j\u00e1 haviam acionado diversos mecanismos jur\u00eddicos e acabaram por destitu\u00ed-lo ilegalmente \u2014 prendendo-o e tudo o mais. \u00c9 por isso que falo de um segundo ciclo, 2022\u20132023, marcado pelos massacres. Quero dizer, o Estado tomou esse tipo de decis\u00e3o e saiu matando pessoas indiscriminadamente em Puno, Ayacucho, Cuzco e Apur\u00edmac. Foi uma decis\u00e3o de Estado. E imagine s\u00f3 aquele gabinete \u2014 com o envolvimento das For\u00e7as Armadas \u2014 tomando essa decis\u00e3o. Foi assim que as coisas se desenrolaram, entramos em uma fase diferente. Uma fase totalmente diferente. Uma determina\u00e7\u00e3o de que \u2018n\u00e3o deixaremos que a mesma coisa aconte\u00e7a novamente\u2019. Em outras palavras: \u2018N\u00e3o pode haver outro cen\u00e1rio como o de Pedro Castillo. \u00c9 imposs\u00edvel\u2019. Eles aprenderam a li\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Os protestos eclodiram por cerca de tr\u00eas meses no final de 2022 e come\u00e7o de 2023, quando a vice de Castillo, Dina Boluarte, havia assumido o governo. Pelo menos 50 pessoas foram v\u00edtimas fatais da viol\u00eancia estatal. \u201cIncluindo menores [de 18 anos]. E n\u00e3o eram pessoas que participavam dos protestos. Foi um conflito de dois lados; o ex\u00e9rcito de um lado, a pol\u00edcia do outro. Eles sa\u00edram fazendo uma varredura pela cidade. Atirando, atirando, atirando. Havia um homem \u2014 um m\u00e9dico \u2014 que estava socorrendo os feridos, e foi morto; isso aconteceu em Puno. Um m\u00e9dico prestando socorro, usando o uniforme da Cruz Vermelha. Um pai de fam\u00edlia que estava ajudando algu\u00e9m que havia ca\u00eddo, ele tinha sa\u00eddo de casa e tentava levar a pessoa para um local seguro quando foi atingido. Esse evento \u2014 essa decis\u00e3o de Estado, de pol\u00edtica, de governo \u2014 marca outro marco importante. Ele nos situa no contexto em que nos encontramos hoje, em 2026\u201d.<\/p>\n<h4><strong>A esquerda no Peru<\/strong><\/h4>\n<p>No Peru, a esquerda vem passando por um processo de decl\u00ednio, admite Arag\u00f3n. \u201cO que resta \u00e9 um esp\u00edrito de dissid\u00eancia \u2014 um sentimento antissistema \u2014 aliado a um forte elemento progressista. \u00c9 isso que forneceria o elemento unificador, pois, no que diz respeito ao ativismo pol\u00edtico partid\u00e1rio, uma vez encerrado o fervor eleitoral, os partidos de esquerda no Peru frequentemente se reduzem a pequenos n\u00facleos de apenas cem, duzentas ou trezentas pessoas. O processo \u2014 a catarse eleitoral \u2014 passa. Essa catarse eleitoral alinha-se a uma certa sensibilidade \u2014 que eu poderia descrever como antissistema: n\u00e3o gostamos do <em>status quo<\/em> como ele est\u00e1, acreditamos que as coisas podem ser diferentes e compartilhamos uma vis\u00e3o progressista, n\u00e3o conservadora\u201d. Essa din\u00e2mica, explica o antrop\u00f3logo, divide o Peru em dois \u2014 o que reflete, mais ou menos, os resultados das elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E os partidos de esquerda que n\u00e3o conseguiram representa\u00e7\u00e3o no Congresso acabam como o que chamam de \u201ccoletivos\u201d, pequenos grupos que continuam trabalhando at\u00e9 o in\u00edcio do pr\u00f3ximo ciclo eleitoral. \u201cAqueles que conquistaram representa\u00e7\u00e3o, seja como senadores ou deputados, entram na din\u00e2mica estabelecida do Congresso, porque essa representa\u00e7\u00e3o permite a gest\u00e3o territorial e a implementa\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es, atividades, c\u00e9lulas locais e assim por diante. Eles operam e trabalham. Mas, em n\u00edvel institucional, minha avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 que eles seguem esse ciclo espec\u00edfico. N\u00e3o \u00e9 como se houvesse um partido de esquerda forte e definidor no Peru. Cada partido de esquerda tem sua pr\u00f3pria nuance\u201d.<\/p>\n<h4><strong>Estados Unidos<\/strong><\/h4>\n<p>Sobre a prov\u00e1vel influ\u00eancia dos Estados Unidos na pol\u00edtica peruana, Arag\u00f3n conta alguns epis\u00f3dios simb\u00f3licos. Um dia antes de Pedro Castillo fazer seu pronunciamento \u00e0 na\u00e7\u00e3o em que anunciava a dissolu\u00e7\u00e3o do Congresso, em 7 de dezembro de 2022, seu ent\u00e3o ministro da Defesa, Emilio Gustavo Bobbio Rosas, foi \u00e0 Embaixada dos EUA e tirou uma foto com a ent\u00e3o embaixadora estadunidense, Lisa Kenna<a href=\"https:\/\/fpabramo.org.br\/peru-eleicoes-presidenciais\/#_ftn1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>Num caso mais recente, durante o \u00faltimo processo eleitoral, o atual embaixador dos EUA no Peru, Bernie Navarro, atuou como observador eleitora<strong>l.<\/strong> \u201cNessa condi\u00e7\u00e3o de observador eleitoral, ele cumpriu uma agenda \u2014 uma agenda que envolvia os \u00f3rg\u00e3os eleitorais. Nenhum embaixador que tenha ocupado \u2014 ou alcan\u00e7ado \u2014 esse <em>status<\/em> tinha uma agenda espec\u00edfica. Na verdade, \u00e9 uma excelente jogada de marketing pol\u00edtico\u201d.<\/p>\n<p>Quando Bernie Navarro foi nomeado embaixador, reuniu-se com o ent\u00e3o presidente da Rep\u00fablica, Jos\u00e9 Jer\u00ed e logo publicou uma foto em redes sociais, na qual os dois aparecem comendo hamb\u00fargueres<a href=\"https:\/\/fpabramo.org.br\/peru-eleicoes-presidenciais\/#_ftn2\">[2]<\/a>. Na legenda: <em>Mudando o menu. Compartilhando um hamb\u00farguer com o presidente do Peru<\/em>. \u201cA disputa comercial que ocorre atualmente no Peru \u00e9 travada entre o capital chin\u00eas e o americano. Quando o Bernie posta sobre isso, ele diz algo como: \u2018O Peru gosta de hamb\u00fargueres agora, ent\u00e3o agora vamos comer hamb\u00fargueres\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Arag\u00f3n lembra-se de outro epis\u00f3dio envolvendo o prefeito de Lima. \u201cH\u00e1 uma foto tirada no momento em que a Embaixada dos EUA fornece asfalto para recapear Lima<a href=\"https:\/\/fpabramo.org.br\/peru-eleicoes-presidenciais\/#_ftn3\">[3]<\/a>. \u00c9 o primeiro embaixador que j\u00e1 vi distribuindo asfalto. Esse \u00e9 o aspecto mais vis\u00edvel. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 qualquer pretens\u00e3o de decoro; \u00e9 algo descarado. Acho que isso decorre da nova estrat\u00e9gia deles: a ideia de que \u00e9 preciso se autorregular: \u2018N\u00e3o me pe\u00e7a para intervir e regular voc\u00ea. Discipline-se. Porque, se eu intervier, as consequ\u00eancias ser\u00e3o severas. O Estado agora regula e disciplina a si mesmo. Autodisciplina. N\u00e3o vou desviar o olhar. Se eu relaxar, as consequ\u00eancias ser\u00e3o terr\u00edveis. Ent\u00e3o, o Estado est\u00e1 essencialmente se autorregulando, sem precisar de diretrizes externas. Essa \u00e9 a nova estrat\u00e9gia deles\u201d.<\/p>\n<h4><strong>A campanha de S\u00e1nchez<\/strong><\/h4>\n<p>Roberto S\u00e1nchez foi o candidato presidencial e \u00e9 o presidente do Juntos pelo Peru.<\/p>\n<p>Em janeiro de 2025, foi tomada a decis\u00e3o de tentar construir uma frente unida para sua candidatura \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. \u201cConsiderando o cen\u00e1rio que conhec\u00edamos desde 2016, candidatar-se sozinho teria sido suic\u00eddio pol\u00edtico. Quero dizer, dado que todo o aparelho estatal estava estruturado como uma m\u00e1quina bem azeitada, n\u00e3o se podia simplesmente aparecer sozinho. No m\u00ednimo, era preciso reunir todas as for\u00e7as progressistas que partilhavam da nossa an\u00e1lise pol\u00edtica para construir uma frente\u201d.<\/p>\n<p>Come\u00e7aram as conversas com um \u201camplo espectro\u201d de grupos. \u201cDesde Antauro Humala<a href=\"https:\/\/fpabramo.org.br\/peru-eleicoes-presidenciais\/#_ftn4\">[4]<\/a> \u2014 representando o extremo, a ala nacionalista radical \u2014 at\u00e9 for\u00e7as dentro da Igreja Cat\u00f3lica, por assim dizer. Todos foram convidados; havia cronogramas de reuni\u00f5es e discuss\u00f5es, embora cada um viesse com suas pr\u00f3prias demandas maximalistas: \u2018Eu queria uma chapa presidencial\u2019. No entanto, aos poucos, eles come\u00e7am a ceder. Mais tarde, houve conversas com os castillistas\u201d.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Havia <strong>tr\u00eas bandeiras <\/strong>principais que foram desenvolvidas durante a conversa com as demais for\u00e7as: justi\u00e7a para as v\u00edtimas do massacre, liberdade para Pedro Castillo e uma nova assembleia constituinte. \u201cEnt\u00e3o, uma vez estabelecidas essas tr\u00eas bandeiras, a posi\u00e7\u00e3o era: \u2018Voc\u00eas querem se juntar a n\u00f3s? Voc\u00eas precisam adotar nossa plataforma\u2019. No fim das contas, a \u00fanica alian\u00e7a poss\u00edvel foi com o partido de Pedro Castillo, Peru Livre.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Naquele momento, segundo Arag\u00f3n, a \u00fanica vantagem que o Juntos pelo Peru tinha era j\u00e1 estar credenciado para participar da elei\u00e7\u00e3o. \u201cComo havia participado das elei\u00e7\u00f5es de 2021, mantinha seu registro oficial. Mas havia uma regra permitindo que 20% dos candidatos fossem \u2018convidados\u2019 de fora. Esses 20% eram a parcela dispon\u00edvel para distribui\u00e7\u00e3o. Os outros 80% tinham de ser filiados ao partido\u201d.\u00a0 Com isso, o Juntos pelo Peru d\u00e1 a Antauro Humala duas vagas para candidatura ao Congresso, uma das quais para o pai dele, Isaac Humala.<\/p>\n<p>Em dezembro de 2025, Roberto S\u00e1nchez nem aparecia nas pesquisas. \u201cE \u00e9 a\u00ed que entra a outra parte da estrat\u00e9gia. Tra\u00e7amos o perfil do eleitor de Pedro Castillo do primeiro turno da elei\u00e7\u00e3o de 2021. Naquele primeiro turno \u2014 no qual Pedro Castillo foi eleito \u2014, sua base de votos era majoritariamente rural: 75%. Analisamos e dissemos: \u2018Esse \u00e9 o nosso nicho principal\u2019. Se n\u00e3o nos posicion\u00e1ssemos ali, nada aconteceria. Precis\u00e1vamos conquistar esse espa\u00e7o e, de fato, trabalhamos para captar o voto rural \u2014 come\u00e7ando pela mobiliza\u00e7\u00e3o de toda a rede rural por telefone\u201d.<\/p>\n<p>Segundo Arag\u00f3n, o processo tamb\u00e9m se baseou em dados sobre a percep\u00e7\u00e3o p\u00fablica dos eventos de 7 de dezembro (o pronunciamento de Castillo). \u201cFoi um golpe de Estado? N\u00e3o foi? Levou-se em conta a percep\u00e7\u00e3o daquele dia e como a imagem de Pedro Castillo persistia nas \u00e1reas urbanas, periurbanas e rurais. Portanto, tudo foi analisado. Assim, avan\u00e7amos. E, a partir da\u00ed, a estrat\u00e9gia orientada para o mercado ganhou forma. Aparec\u00edamos com 0,8% [de inten\u00e7\u00e3o de voto em janeiro de 2026], e a\u00e7\u00f5es espec\u00edficas come\u00e7aram a ser estruturadas\u201d.<\/p>\n<p>O primeiro, segundo ou terceiro passo espec\u00edfico foi adotar a estrat\u00e9gia que Pedro Castillo havia utilizado \u2014 o que ficou conhecido como a \u201cRota Castillo\u201d, que significava visitar todos os lugares, mas o maior n\u00famero poss\u00edvel de \u00e1reas rurais onde Pedro tinha sua base eleitoral. \u201cEra um giro, um roteiro; Roberto S\u00e1nchez trabalhava at\u00e9 a exaust\u00e3o, porque n\u00e3o h\u00e1 conectividade no Peru. Viajando por terra \u2014 estritamente por terra. Eu o levava no carro; ele dormia na estrada e depois eu o acordava: \u2018Chegamos\u2019. Uma reuni\u00e3o. Ele discursava. Depois, de volta ao carro. Muito exaustivo. Demais. E, obviamente, ele come\u00e7ou a aparecer nas pesquisas\u201d.<\/p>\n<p>Ainda assim, conta Arag\u00f3n, nenhum instituto de pesquisa falava sobre o voto rural. \u201cE n\u00f3s mant\u00ednhamos isso em segredo. N\u00e3o \u00edamos revelar o jogo, sabe? Porque as pesquisas eram feitas em \u00e1reas urbanas. Foi muito dif\u00edcil. Ent\u00e3o surgiu o debate: por qu\u00ea? Por qu\u00ea? E, mais tarde, perceberam que o voto rural existia. Come\u00e7aram a teorizar sobre o voto rural no Peru, enquanto n\u00f3s j\u00e1 d\u00e1vamos risada, porque j\u00e1 t\u00ednhamos feito o trabalho de base l\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o houve outro elemento, segundo o antrop\u00f3logo, muito importante que se destacou. \u201cTamb\u00e9m precis\u00e1vamos definir um centro simb\u00f3lico. O s\u00edmbolo do Juntos pelo Peru\u2014 um J e um P \u2014 n\u00e3o criava uma conex\u00e3o emocional. Em outras palavras, n\u00e3o havia um centro simb\u00f3lico emocional para o partido pol\u00edtico. Ent\u00e3o revisamos as coisas, e foi a\u00ed que entrou a estrat\u00e9gia do chap\u00e9u. Mas n\u00e3o se trata de grupos focais; trata-se de estar em campo. Na verdade, \u00e0s vezes, as pessoas me chamavam de Roberto S\u00e1nchez [por n\u00e3o conhecer a imagem do candidato]. Quando voc\u00ea est\u00e1 em campo, percebe o que falta na percep\u00e7\u00e3o das pessoas \u2014 inclusive na percep\u00e7\u00e3o da imagem\u201d. E Roberto S\u00e1nchez adotou o chap\u00e9u. \u201cEle colocou o chap\u00e9u em Puno e, a partir da\u00ed, aos poucos, ele se tornou o centro simb\u00f3lico e emocional da campanha\u201d.<\/p>\n<p>Nos Andes peruanos, segundo Arag\u00f3n, existem diversos tipos de chap\u00e9us. \u201cCada distrito, cada prov\u00edncia tem seu pr\u00f3prio chap\u00e9u caracter\u00edstico. No litoral, h\u00e1 um estilo mais crioulo, mais hisp\u00e2nico. A quest\u00e3o \u00e9 que n\u00f3s tamb\u00e9m brincamos um pouco com isso: as pessoas chegavam, tiravam o chap\u00e9u cajamarquino e colocavam o regional. Ele circulava usando o estilo regional, mas, no com\u00edcio, colocava o chap\u00e9u cajamarquino. O Roberto [S\u00e1nchez] praticamente poderia ter um museu de chap\u00e9us, porque as pessoas tamb\u00e9m queriam us\u00e1-lo. Nos com\u00edcios, as pessoas come\u00e7aram a aparecer usando o chap\u00e9u. Em termos de material de campanha, n\u00f3s n\u00e3o encomendamos chap\u00e9us. Encomendamos camisetas \u2014 \u00e9 o padr\u00e3o, sabe? Encomenda-se bandeiras e camisetas. Essa \u00e9 a f\u00f3rmula de sempre. Mas as pessoas come\u00e7aram a aparecer de chap\u00e9u, tamb\u00e9m os vendedores ambulantes. E quanto \u00e0s pessoas mais pobres que compareciam aos com\u00edcios, elas come\u00e7aram a fazer seus pr\u00f3prios chap\u00e9us de papel\u00e3o, de cartolina.\u00a0 \u00c9 isso que voc\u00ea ganha ao estar presente na base \u2014 algo que a metodologia de marketing nem sempre lhe diz. Porque \u2014 deixe-me lhe dizer \u2014 cada detalhe conta. Ent\u00e3o, quando a imprensa estrangeira veio ao Peru para cobrir a campanha\u2026 \u2018O chap\u00e9u! Onde est\u00e1 o chap\u00e9u? Aqui est\u00e1 o chap\u00e9u\u2019. O chap\u00e9u come\u00e7ou a ganhar vida pr\u00f3pria. \u2018Sr. S\u00e1nchez, vamos fazer uma entrevista \u2014 por favor, traga o chap\u00e9u\u2019.\u00a0 Meu conselho para o PT e sua equipe de marketing seria: pense bem sobre esse centro simb\u00f3lico-emocional. O que voc\u00ea deve fazer? N\u00f3s acertamos em cheio com o chap\u00e9u:\u201d.<\/p>\n<p>Durante a campanha, Arag\u00f3n acompanhava e analisava principalmente a tr\u00eas institutos de pesquisa, O Ipsos, franquia internacional, o Instituto de Estudos Peruanos (IEP) e a Datum. \u201cUsei esses tr\u00eas como refer\u00eancia porque analisei suas metodologias e tudo mais. Mas, na verdade, n\u00e3o uso mais a Datum \u2014 eles acabaram mostrando sua verdadeira face [colocaram S\u00e1nchez em quarto lugar no primeiro turno]. Decidi ficar com a Ipsos e o IEP. Tudo gira em torno da equa\u00e7\u00e3o, certo? Se voc\u00ea tra\u00e7ou uma estrat\u00e9gia, precisa come\u00e7ar verificando se os consumidores est\u00e3o realmente \u201ccomprando\u201d o produto. Ent\u00e3o, os n\u00fameros come\u00e7aram a surgir: 0,8%, 1%, 2% \u2014 isso foi em fevereiro e mar\u00e7o \u2014 e foi a\u00ed que as manobras estrat\u00e9gicas come\u00e7aram.<\/p>\n<p>Enquanto isso, as manchetes dos jornais, baseadas no vaiv\u00e9m das pesquisas, tinha um candidato <em>outsider <\/em>por semana ganhando as manchetes.\u201c\u2019Ah, olha, tem um novo <em>outsider<\/em>!\u2019 Depois, \u00e9 claro, os n\u00fameros ca\u00edam, mas eles j\u00e1 haviam garantido uma semana de manchetes. E impediam que se falasse sobre n\u00f3s\u201d. Nada menos que 35 candidatos e candidatas disputaram as elei\u00e7\u00f5es presidenciais no Peru.<\/p>\n<p>O Juntos pelo Peru estava seguro de que a direita n\u00e3o conseguiria penetrar no eleitorado rural. \u201cClaro, \u00e9 outro planeta, como eu costumo dizer. As \u00e1reas rurais t\u00eam um ritmo di\u00e1rio diferente; as pessoas n\u00e3o ficavam grudadas no celular. Por outro lado, nos arrasaram nas capitais dos principais centros urbanos do Peru. Em Lima, territ\u00f3rio conservador, tivemos 2,5% no primeiro turno. Nem sequer tivemos capacidade para chegar a 8 mil votos. Um desastre total\u201d.<\/p>\n<h4><strong>Segundo turno<\/strong><\/h4>\n<p>\u201cO segundo turno \u00e9 outra hist\u00f3ria. \u00c9 a\u00ed que a m\u00e1quina do seu partido pol\u00edtico \u00e9 realmente posta \u00e0 prova. Porque \u00e9 algo completamente diferente. Exige pessoal altamente especializado, e voc\u00ea precisa de uma estrutura partid\u00e1ria s\u00f3lida e robusta, capaz de gerir opera\u00e7\u00f5es n\u00e3o apenas em todo o territ\u00f3rio nacional, mas tamb\u00e9m internacionalmente. O Esteban [companheiro chileno pr\u00f3ximo ao partido] foi o primeiro a nos dizer: \u2018N\u00e3o negligenciem o aspecto internacional\u2019, porque \u00e9 nessa esfera que ele [o advers\u00e1rio] atua. O resultado foi que vencemos em territ\u00f3rio peruano por uma margem de 26 mil ou 25 mil votos. No entanto, os votos do exterior inverteram o resultado, dando a Keiko uma vantagem de 48 mil votos. Gerir a vota\u00e7\u00e3o dentro do Peru durante um segundo turno \u00e9 extremamente dif\u00edcil, considerando a enorme quantidade de se\u00e7\u00f5es eleitorais e a necessidade de 100 mil fiscais de mesa\u201d.<\/p>\n<h4><strong>Mudan\u00e7a das regras<\/strong><\/h4>\n<p>Entre o primeiro e o segundo turno das elei\u00e7\u00f5es, as autoridades eleitorais peruanas fizeram uma altera\u00e7\u00e3o inusitada nas regras a respeito das atas de vota\u00e7\u00e3o no exterior. Enquanto na primeira etapa da elei\u00e7\u00e3o as atas de apura\u00e7\u00e3o eram digitalizadas e enviadas \u00e0 sede dos trabalhos de consolida\u00e7\u00e3o dos dados em Lima. \u201cE digitalizar \u00e9 f\u00e1cil hoje em dia; basta usar um celular para converter em PDF\u201d. Mas, no segundo turno, por meio de uma nova cl\u00e1usula, o que se estabeleceu foi a obrigatoriedade do envio f\u00edsico das atas.<strong> \u201c<\/strong>O Escrit\u00f3rio Nacional de Processos Eleitorais, obviamente, a pedido do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores. Ent\u00e3o, isso \u00e9 feito com muita precis\u00e3o \u2014 seguindo rigorosamente as normas, juridicamente falando. E a\u00ed voc\u00ea acaba atolado em um debate sobre se \u00e9 uma diretriz ou uma lei geral, mas j\u00e1 est\u00e1 encurralado; a decis\u00e3o j\u00e1 foi tomada, e voc\u00ea nem percebeu na hora. Ningu\u00e9m mencionou isso porque est\u00e1vamos focados na quest\u00e3o principal. E, quando se deram conta, j\u00e1 era tarde demais.Foi um fator importante; foi uma quest\u00e3o significativa. Elaborar uma estrat\u00e9gia para o voto rural n\u00e3o \u00e9 muito complicado. Elaborar uma estrat\u00e9gia para o voto urbano-rural n\u00e3o \u00e9 muito complicado. N\u00e3o \u00e9 complicado para as principais \u00e1reas urbanas. Mas o voto do exterior \u2014 isso \u00e9 muito complicado\u201d. Um detalhe curioso, segundo Arag\u00f3n: as atas envidas da Austr\u00e1lia chegaram ao Peru antes das atas enviadas da Argentina. Da\u00ed, o antrop\u00f3logo chamar a aten\u00e7\u00e3o para a necessidade de ter rastreabilidade de todo o processo.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 preciso ter fiscais de vota\u00e7\u00e3o presentes tamb\u00e9m. Tem que ser semelhante ao sistema padr\u00e3o. No Peru, por exemplo, os c\u00f4nsules fizeram o que quiseram com a mesa de sufr\u00e1gio. Como n\u00e3o havia representantes do Juntos pelo Peru presentes, eles j\u00e1 tinham tudo combinado de antem\u00e3o. Petro fez exatamente a mesma coisa. Eles n\u00e3o tinham permiss\u00e3o para nomear c\u00f4nsules. Ent\u00e3o, \u00e9 preciso fazer uma limpa \u2014 remover todos os c\u00f4nsules atuais e colocar os seus pr\u00f3prios. Como posso dizer? A estrutura institucional das rela\u00e7\u00f5es exteriores, ou o ecossistema. Eles ocupam posi\u00e7\u00f5es muito consolidadas. E \u00e9 preciso trazer uma nova leva de c\u00f4nsules, mais voltados para a legalidade. Os c\u00f4nsules precisam ser substitu\u00eddos, e \u00e9 f\u00e1cil identific\u00e1-los.\u00a0 Mas \u00e9 preciso conquistar o apoio daquele corpo de funcion\u00e1rios lotados no exterior. N\u00f3s n\u00e3o est\u00e1vamos no governo. E, obviamente, n\u00e3o t\u00ednhamos capacidade operacional para colocar nossos pr\u00f3prios representantes l\u00e1. \u00c9 dif\u00edcil. \u00c9 imposs\u00edvel colocar representantes em toda parte; por isso, contamos com os representantes do Estado peruano que est\u00e3o alinhados conosco\u201d.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Arag\u00f3n recomenda que \u00e9 necess\u00e1ria uma estrutura normativa para o voto no exterior. \u201c\u00c9 preciso ter o processo claramente mapeado \u2014 porque digamos que eu seja nomeado Ministro da \u00c1gua, mas minha equipe de apoio seja composta por tecnocratas da era Fujimori. Eles atuam como um freio, dizendo constantemente: \u2018N\u00e3o d\u00e1 para fazer, n\u00e3o d\u00e1 para fazer, n\u00e3o d\u00e1 para fazer\u2019. Esses tecnocratas continuam em atividade, e \u00e9 prov\u00e1vel que o mesmo aconte\u00e7a no Brasil. A tecnocracia bolsonarista est\u00e1 entranhada em todo o aparelho do Estado. \u00c9 por isso que \u00e9 preciso reconstruir minuciosamente o fluxo normativo do voto no exterior. \u00c9 preciso identificar os pontos espec\u00edficos onde eles poderiam aplicar a estrat\u00e9gia que j\u00e1 utilizaram antes e onde poderiam fazer altera\u00e7\u00f5es. Voc\u00ea pode nem perceber, mas a mudan\u00e7a j\u00e1 foi feita. Ou talvez essa mudan\u00e7a j\u00e1 tenha ocorrido para eles sem que percebessem. Algu\u00e9m precisa analisar a situa\u00e7\u00e3o e, assim que eles se derem conta, devem buscar a equa\u00e7\u00e3o que melhor lhes conv\u00e9m \u2014 aquela mais pr\u00e1tica de implementar, e assim por diante\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Para Arag\u00f3n, outro ponto \u00e9 que a estrat\u00e9gia para alcan\u00e7ar quem est\u00e1 no exterior precisa ser muito refinada. \u201cLocaliz\u00e1-los \u00e9 particularmente dif\u00edcil. Quer dizer, voc\u00ea consegue localizar o ativista que mora na Su\u00e9cia, certo? Afinal, ele emigrou, \u00e9 progressista, compreende os benef\u00edcios do Estado e vai procurar o Lula \u2014 ou procurar voc\u00ea. Mas a pessoa comum \u2014 aquela que sempre votou \u2014 \u00e9 diferente. Voc\u00ea precisa chegar at\u00e9 ela, ela n\u00e3o vai vir atr\u00e1s de voc\u00ea. Voc\u00ea tem que ir encontr\u00e1-la. E hoje em dia isso \u00e9 feito com algoritmos. Envolve busca direcionada \u2014 \u00e9 uma \u00e1rea especializada da comunica\u00e7\u00e3o atualmente. Voc\u00ea mapeia e localiza essas pessoas. Primeiro, precisa levar informa\u00e7\u00f5es at\u00e9 elas, ou talvez uma campanha fortemente nacionalista \u2014 focada no Brasil, por exemplo. N\u00e3o apresente a plataforma eleitoral espec\u00edfica logo de cara, espere at\u00e9 ver que elas est\u00e3o interagindo com voc\u00ea. Ent\u00e3o identificar esses p\u00fablicos seria a minha recomenda\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Diante da experi\u00eancia rec\u00e9m-vivida, Arag\u00f3n reflete: \u201cAquelas megacorpora\u00e7\u00f5es dos EUA lidam com algoritmos e sabem onde as pessoas est\u00e3o \u2014 usando minera\u00e7\u00e3o de dados, rastreando palavras-chave ou marcas e interesses espec\u00edficos \u2014 para localiz\u00e1-las nos EUA ou em outros pa\u00edses. Mas fazer com que elas realmente votem \u00e9 outra hist\u00f3ria. Acho que 300 mil pessoas votaram no segundo turno. O cadastro eleitoral lista cerca de um milh\u00e3o de eleitores no exterior \u2014 bem, um milh\u00e3o no total, com um n\u00famero significativo fora do pa\u00eds. E a maioria dos migrantes est\u00e1 nos EUA, Argentina, Espanha e Chile. Quem consegue chegar at\u00e9 eles? Porque eles j\u00e1 est\u00e3o inseridos em outros algoritmos. O peruano que est\u00e1 no Chile tem um algoritmo do tipo A. Aquele que est\u00e1 na Argentina tem um algoritmo do tipo B. Porque o Boca Juniors j\u00e1 coloca a pessoa no ecossistema da Argentina. O peruano de Miami tem outro algoritmo, porque busca Cuba, salsa, sei l\u00e1. Ent\u00e3o, \u00e9 imposs\u00edvel que eles cheguem \u00e0s minhas plataformas de redes sociais. Apenas os hiperpolitizados chegam. Mas o eleitor comum, n\u00e3o. Ent\u00e3o, \u00e9 isso\u201d.<\/p>\n<p>Arag\u00f3n diz que aprenderam a li\u00e7\u00e3o. \u201cIsso exige jovens hipertecnologizados que realmente sabem fazer minera\u00e7\u00e3o de dados e sabem como comunicar e construir a rota dos algoritmos.Esses jovens existem no Peru, mas faltando apenas duas semanas para o segundo turno, onde \u00e9 que ir\u00edamos encontr\u00e1-los? Como \u00e9 que se estabelece a conex\u00e3o necess\u00e1ria com eles? E acho que aconteceu a mesma coisa na Col\u00f4mbia. A quest\u00e3o agora \u2014 no s\u00e9culo XXI \u2014 \u00e9 que, quando voc\u00ea tem as vari\u00e1veis \u200b\u200be os algoritmos alinhados, pode ficar tranquilo. E n\u00f3s n\u00e3o estamos preparados para esse n\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>Depois de um longo processo de apura\u00e7\u00e3o dos votos. Keiko foi eleita com 50,13% dos votos no segundo turno, em 7 de junho, contra 49,86% para S\u00e1nchez. Segundo o Escrit\u00f3rio Nacional de Processos Eleitorais (Onpe), a diferen\u00e7a foi de menos de 50 mil votos. Em 1\u00ba de julho, Roberto S\u00e1nchez apresentou um recurso perante a Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) no qual questiona a vit\u00f3ria da direitista Keiko Fujimori. Ele alega uma suposta fraude nos votos de peruanos no exterior. O Juntos pelo Peru garantiu a lideran\u00e7a da C\u00e2mara, mas perdeu a do Senado \u201cdevido a uma trai\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<\/p>\n<p><strong>Keiko Fujimori<\/strong> (Fuerza Popular), 51 anos, tomou posse em 28 de julho para um mandato at\u00e9 2031. Em seu discurso, prometeu combater a corrup\u00e7\u00e3o, fortalecer o Estado e endurecer o enfrentamento ao crime organizado. Anunciou que as For\u00e7as Armadas passar\u00e3o a liderar temporariamente as opera\u00e7\u00f5es nos Estados com maiores \u00edndices de viol\u00eancia, em conjunto com a Pol\u00edcia Nacional<strong>.<\/strong> Tamb\u00e9m prometeu ampliar o uso de tecnologia, com um sistema nacional de videomonitoramento, plataformas de intelig\u00eancia artificial para mapear e antecipar crimes e novos centros de comando para coordenar as opera\u00e7\u00f5es. Para seu gabinete, nomeou como ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores Alfonso Carlos Esp\u00e1 Garc\u00e9s-Alvear, que foi assessor de comunica\u00e7\u00e3o da Embaixada dos Estados Unidos no Peru<strong>.<\/strong> O novo funcion\u00e1rio \u00e9 bacharel em Direito pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Peru (PUCP) e mestre em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela The American University, em Washington.<\/p>\n<hr>\n<p>Notas:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/fpabramo.org.br\/peru-eleicoes-presidenciais\/#_ftnref1\">[1]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.elperuano.pe\/noticia\/198471-ministro-de-defensa-se-reunio-con-embajadora-de-los-estados-unidos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.elperuano.pe\/noticia\/198471-ministro-de-defensa-se-reunio-con-embajadora-de-los-estados-unidos<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/fpabramo.org.br\/peru-eleicoes-presidenciais\/#_ftnref2\">[2]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/usembassyperu\/posts\/changing-the-menu-sharing-an-american-burger-with-the-president-of-peru-ambassad\/1326915589482315\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.facebook.com\/usembassyperu\/posts\/changing-the-menu-sharing-an-american-burger-with-the-president-of-peru-ambassad\/1326915589482315\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/fpabramo.org.br\/peru-eleicoes-presidenciais\/#_ftnref3\">[3]<\/a> <a href=\"https:\/\/pe.usembassy.gov\/es\/embajador-navarro-presenta-soluciones-con-innovaciones-estadounidenses-para-mejorar-la-infraestructura-vial-de-lima\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/pe.usembassy.gov\/es\/embajador-navarro-presenta-soluciones-con-innovaciones-estadounidenses-para-mejorar-la-infraestructura-vial-de-lima\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/fpabramo.org.br\/peru-eleicoes-presidenciais\/#_ftnref4\">[4]<\/a> Irm\u00e3o do ex-presidente Ollanta Humala.<\/p>\n<\/p>\n<p><strong>Rita Camacho<\/strong> \u00e9 jornalista<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/mdb-ensaia-desembarque-do-governo-de-celina-apos-depoimento-de-ibaneis-rocha-oposicao-critica-afastamento\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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