{"id":98947,"date":"2026-08-06T12:00:00","date_gmt":"2026-08-06T15:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/eleicoes-desmatamento-e-super-el-nino-vai-dar-ruim\/"},"modified":"2026-08-06T12:00:00","modified_gmt":"2026-08-06T15:00:00","slug":"eleicoes-desmatamento-e-super-el-nino-vai-dar-ruim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/eleicoes-desmatamento-e-super-el-nino-vai-dar-ruim\/","title":{"rendered":"Elei\u00e7\u00f5es, desmatamento e Super El Ni\u00f1o: vai dar ruim?"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p><em>Quer receber os textos desta coluna em primeira m\u00e3o no seu e-mail? Assine a newsletter Ligando os pontos, enviada toda quinta-feira. Para receber as pr\u00f3ximas edi\u00e7\u00f5es, inscreva-se aqui.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A cada ano de elei\u00e7\u00e3o no Brasil, somos lembrados de pr\u00e1ticas que parecem nos manter no s\u00e9culo passado. Na elei\u00e7\u00e3o de 2022, por exemplo, teve empres\u00e1rio que\u00a0demitiu trabalhador que n\u00e3o votou em Bolsonaro. Isso sem falar que a compra de votos segue ocorrendo em muitos rinc\u00f5es do pa\u00eds. Mas h\u00e1 uma dessas tradi\u00e7\u00f5es obscuras que talvez n\u00e3o seja lembrada com frequ\u00eancia. Aquela de que, em ano de elei\u00e7\u00e3o, o desmatamento aumenta.<\/p>\n<p>Sim, pode parecer uma correla\u00e7\u00e3o absurda, ou sem causalidade, mas est\u00e3o aqui algumas evid\u00eancias. Fernando Henrique Cardoso, em 1995, primeiro ano de seu governo, viu o desmatamento da Amaz\u00f4nia dobrar, chegando a 29,1 mil km\u00b2; at\u00e9 hoje o n\u00famero mais alto da s\u00e9rie hist\u00f3rica (importante lembrar que os dados de desmatamento s\u00e3o publicados no meio do ano, contabilizando os 12 \u00faltimos meses \u2013 ou seja, pega o per\u00edodo eleitoral do ano anterior, que coincide com os meses mais secos da Amaz\u00f4nia). Grandes saltos tamb\u00e9m ocorreram no primeiro ano do governo Lula em 2003 e no primeiro ano de Bolsonaro em 2019 (vejam o gr\u00e1fico abaixo).<\/p>\n<p>Um dos governos que n\u00e3o seguiu a tend\u00eancia foi o de Dilma Rousseff. Em seu ano inaugural, 2011, ela pode anunciar a continuidade da redu\u00e7\u00e3o do desmatamento na Amaz\u00f4nia, algo que se deve \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica de Preven\u00e7\u00e3o e Combate ao Desmatamento (PPCDAM), criada em 2004. A queda seguiu ocorrendo at\u00e9 2012, quando o Congresso optou por alterar o C\u00f3digo Florestal, anistiando desmatamentos passados. Foi a senha para mais destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div><\/div>\n<p>Estamos falando do desmatamento da Amaz\u00f4nia, pois este \u00e9 o bioma para o qual temos os dados mais longevos e consolidados. Desde 1988, o sistema Prodes, criado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), monitora a perda da floresta amaz\u00f4nica. Os monitoramentos cont\u00ednuos da Caatinga, Cerrado, Mata Atl\u00e2ntica, Pampa e Pantanal come\u00e7aram apenas h\u00e1 uma d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, j\u00e1 temos pelo menos um estudo apontando que a tend\u00eancia de aumento do desmatamento \u00e9 tamb\u00e9m observada em outros biomas. Liderada por Patr\u00edcia Ruggiero, do Departamento de Ecologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), a pesquisa publicada em 2021 no peri\u00f3dico Conservation Letters olhou dados do MapBiomas de 1991 a 2003 em 2.253 munic\u00edpios da Mata Atl\u00e2ntica. Os resultados mostram um desmatamento adicional em anos de elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 no m\u00ednimo intrigante! Por que temos essa tend\u00eancia t\u00e3o nefasta contra nossas florestas? A hip\u00f3tese levantada pelo estudo da USP e tamb\u00e9m por pessoas com quem conversei nestes anos \u00e9 que, em ano de elei\u00e7\u00e3o, a aplica\u00e7\u00e3o da lei se torna um pouco mais branda, especialmente nos estados e munic\u00edpios. Com medo de melindrar poss\u00edveis eleitores, os governos de ocasi\u00e3o pegam mais leve.<\/p>\n<p>Outra raz\u00e3o s\u00e3o os pr\u00f3prios investimentos estatais que, como sabemos, crescem significativamente nos anos de pleito. S\u00e3o principalmente estradas, mas tamb\u00e9m represas, viadutos e outras vistosas obras de infraestrutura que contribuem para injetar dinheiro na economia e, ao mesmo tempo, derrubar algumas \u00e1rvores.<\/p>\n<p>Se a tend\u00eancia de destrui\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 algo que deveria preocupar, coloquemos ent\u00e3o sobre a mesa a perspectiva de que acabamos de entrar no per\u00edodo de Super El Ni\u00f1o. H\u00e1 uma semana, a Organiza\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica Mundial (OMM), confirmou que este fen\u00f4meno clim\u00e1tico \u00e9 um evento de alta intensidade. A superf\u00edcie do mar deve ficar, na m\u00e9dia global, at\u00e9 3 graus mais quente, o que significa que teremos temperaturas altas e eventos extremos em todo o globo.<\/p>\n<p>\u201cEspera-se que praticamente todas as \u00e1reas terrestres do planeta apresentem temperaturas mais altas do que o normal. Em conjunto, isso pode quebrar todos os recordes sazonais \u2013 e provocar efeitos ainda mais graves em todo o mundo. Estamos em territ\u00f3rio desconhecido\u201d, disse, h\u00e1 poucos dias, o secret\u00e1rio-geral da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), Ant\u00f3nio Guterrez. As maiores anomalias ser\u00e3o registradas a partir de agora, agosto, e devem durar at\u00e9 outubro, possivelmente se estendendo at\u00e9 mar\u00e7o do ano que vem, de acordo com a OMM.<\/p>\n<h2><strong>Perigosa coincid\u00eancia: elei\u00e7\u00f5es com Super El Ni\u00f1o<\/strong><\/h2>\n<p>A ventania no Rio de Janeiro certamente ficar\u00e1 como marco imag\u00e9tico para os eventos extremos que se aproximam. Mas n\u00e3o se surpreendam se, a partir de agora, surgirem cada vez mais not\u00edcias sobre secas na Amaz\u00f4nia e enchentes no Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>Assim como estamos vendo na Europa, as altas temperaturas e a estiagem trazidas pelo El Ni\u00f1o est\u00e3o gerando queimadas totalmente fora de controle. Com mais seca na regi\u00e3o Norte brasileira, a tend\u00eancia \u00e9 exatamente o aumento de queimadas.<\/p>\n<p>A utiliza\u00e7\u00e3o do fogo como instrumento de grilagem ou de consolida\u00e7\u00e3o de \u00e1reas invadidas em florestas p\u00fablicas \u00e9 algo que temos visto nos \u00faltimos anos. Foi o que ocorreu entre 2018 e 2019 quando Bolsonaro se tornou presidente. Esperan\u00e7osos de um enfraquecimento na fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental, infratores se sentiram livres para invadir e queimar.<\/p>\n<p>A aposta dos criminosos estava certa. Apenas nos dois primeiros meses do governo Bolsonaro, o n\u00famero de fiscaliza\u00e7\u00f5es ambientais caiu 29%. Al\u00e9m disso, o Ibama, que j\u00e1 vinha sendo sucateado pela falta de novos concursos de contrata\u00e7\u00e3o de funcion\u00e1rios, se viu engessado com um despacho do ent\u00e3o presidente que anulou a cobran\u00e7a de milh\u00f5es de reais em multas.<\/p>\n<p>O que poderia ser diferente desta vez? De que maneira deveriam atuar os governos em n\u00edvel federal e estadual para n\u00e3o enviar sinais de incentivo e evitar que um novo salto no desmatamento ocorra? E qual ser\u00e1 o papel dos candidatos ao Executivo para que n\u00e3o ajudem a riscar o f\u00f3sforo e a, literalmente, incendiar o pa\u00eds?<\/p>\n<p>Come\u00e7o com pontos positivos. Neste momento, j\u00e1 existem \u00f3timas iniciativas de brigadas comunit\u00e1rias para prote\u00e7\u00e3o de unidades de conserva\u00e7\u00e3o e territ\u00f3rios ind\u00edgenas. Vimos not\u00edcias promissoras em Goi\u00e1s e Mato Grosso de queimas controladas \u2013 uma medida preventiva para reduzir o material seco antes da chegada do fogo.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, se conter as chamas j\u00e1 \u00e9 um enorme desafio, barrar os mal intencionados pode ser ainda mais complicado. Por isso a responsabilidade dos candidatos \u00e9 gigante. Promessas de anistia a desmatadores ou de afrouxamento na legisla\u00e7\u00e3o ambiental s\u00e3o m\u00fasica aos ouvidos dos grileiros, traficantes de madeira e ouro.<\/p>\n<p>Seja quem for o pr\u00f3ximo presidente da Rep\u00fablica, come\u00e7ar o novo governo com florestas pegando fogo e grileiros afiando a moto-serra pode ser uma dor de cabe\u00e7a. Por um lado, temos os impactos locais cada vez mais sentidos pela popula\u00e7\u00e3o: o aumento do desmatamento se reverte em falta de \u00e1gua nas lavouras e nas cidades, problemas de sa\u00fade com as fuma\u00e7as de queimada, al\u00e9m de mais viol\u00eancia no campo.<\/p>\n<p>Por outro lado, os pr\u00f3ximos anos ser\u00e3o essenciais para posicionar o Brasil na grande transi\u00e7\u00e3o que est\u00e1 ocorrendo, permitindo que os mercados mais exigentes, como os da Uni\u00e3o Europeia, continuem abertos aos produtos brasileiros. At\u00e9 2030, espera-se que os pa\u00edses atinjam seu pico de emiss\u00f5es de gases de efeito estufa. Ou seja, para chegar at\u00e9 2050 com uma economia de baixo carbono, como prometido no Acordo de Paris, temos que manter a rota de redu\u00e7\u00e3o do desmatamento conquistada no \u00faltimo ano.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 mais do que uma utopia globalista. Significa que adotar tecnologias e pol\u00edticas sustent\u00e1veis nos tornar\u00e1 aptos a competir no mercado internacional e, ao mesmo tempo, a gerar um crescimento saud\u00e1vel para as pessoas, protegendo os nossos biomas.<\/p>\n<blockquote>\n<p><strong>Para saber mais (sobre como o Brasil conseguiu reduzir o desmatamento nos \u00faltimos 20 anos):<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>Livros: <em>Arrabalde<\/em>, de Jo\u00e3o Moreira Salles e <em>O Sil\u00eancio da Motosserra<\/em>, de Cl\u00e1udio \u00c2ngelo com Tasso Azevedo<\/li>\n<\/ul>\n<\/blockquote>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/rio-confirma-mais-duas-mortes-por-febre-do-oropouche\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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