{"id":99480,"date":"2026-08-10T16:48:28","date_gmt":"2026-08-10T19:48:28","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/um-adeus-a-lejeune-mirhan\/"},"modified":"2026-08-10T16:48:28","modified_gmt":"2026-08-10T19:48:28","slug":"um-adeus-a-lejeune-mirhan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/um-adeus-a-lejeune-mirhan\/","title":{"rendered":"Um adeus a Lejeune Mirhan"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1080\" height=\"675\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/photo_5175034553863704137_y.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/photo_5175034553863704137_y.jpg 1080w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/photo_5175034553863704137_y-300x188.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/photo_5175034553863704137_y-768x480.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1080px) 100vw, 1080px\"><figcaption>Foto: Arquivo pessoal\/Lejeune Mirhan<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Lejeune Mirhan<\/strong> em entrevista a <strong>Thiago Gama<\/strong><\/p>\n<p>Em 5 de maio de 1977, quinze mil estudantes atravessavam o Viaduto do Ch\u00e1 gritando por liberdades democr\u00e1ticas quando a Pol\u00edcia Militar lan\u00e7ou bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo sobre as primeiras fileiras. Quase todos recuaram. Um rapaz corpulento, de barba e \u00f3culos, avan\u00e7ou sozinho e chutou uma das bombas de volta na dire\u00e7\u00e3o dos policiais. A cena saiu em v\u00e1rios jornais. Ele tinha vinte anos e era conhecido como Mato Grosso.<\/p>\n<p>Quase cinquenta anos depois, o gesto continua sendo a melhor defini\u00e7\u00e3o do que ele fez da vida: devolver o que era atirado.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/15-5.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/15-5.png 680w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2025\/12\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Lejeune Mato Grosso Xavier de Carvalho nasceu em Corumb\u00e1 em 1956, quando a cidade ainda pertencia ao Mato Grosso e o estado do Sul n\u00e3o existia. O nome franc\u00eas foi escolha da m\u00e3e, Georgeta Mirhan: <em>le jeune<\/em>, o jovem. A linhagem materna vinha de s\u00edrios e arm\u00eanios chegados ao Pantanal a partir de 1913. O av\u00f4 Ibrahim desembarcou do vapor Lad\u00e1rio aos 17 anos e ali montou com\u00e9rcio e fam\u00edlia. A av\u00f3 Aznif nasceu em Alepo, escapou das persegui\u00e7\u00f5es do in\u00edcio do s\u00e9culo e casou-se em Corumb\u00e1 em 1924. Foi esse av\u00f4 que o criou at\u00e9 os 12 anos, numa casa onde se falava \u00e1rabe e onde a av\u00f3 contava as <em>Mil e uma noites<\/em>. D\u00e9cadas depois, ele diria que a causa palestina tinha come\u00e7ado ali, muito antes de virar posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Nos anos 2000, retomou o sobrenome da m\u00e3e e passou a assinar Lejeune Mirhan.<\/p>\n<p>A milit\u00e2ncia come\u00e7ou em 1975, quando se filiou ao PCdoB ainda estudante de Engenharia na FEI. Ajudou a reorganizar o DCE Livre da USP em 1976 e, no fim daquele ano, foi deslocado pelo Partido para Campinas. Trocou a Engenharia pelas Ci\u00eancias Sociais, entrou na PUC-Campinas em 1978 e no ano seguinte elegeu-se presidente do DCE, cargo que sua chapa manteria por cinco anos seguidos. Foi detido algumas vezes. Em 1979, estava entre os que receberam Jo\u00e3o Amazonas na volta do ex\u00edlio.<\/p>\n<p>Setembro de 1982 fixou o resto. O massacre de Sabra e Chatila o alcan\u00e7ou enquanto fazia mestrado e disputava uma vaga de vereador em Campinas, e a partir dali n\u00e3o houve ano em que n\u00e3o escrevesse sobre a Palestina. Foram 44 miss\u00f5es humanit\u00e1rias na Palestina, na S\u00edria e no L\u00edbano, mais de vinte livros, centenas de artigos, delega\u00e7\u00f5es de solidariedade. Em 2015, fundou a Apparte, editora criada para dar conta de publicar a pr\u00f3pria obra.<\/p>\n<p>H\u00e1 um outro Lejeune, menos lembrado, e talvez o de efeito mais duradouro. Foi ele quem fundou, ao lado de Florestan Fernandes, o Sindicato dos Soci\u00f3logos do Estado de S\u00e3o Paulo, presidiu a Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Soci\u00f3logos, ocupou a vice-presid\u00eancia da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional das Profiss\u00f5es Liberais e esteve entre os fundadores da CTB, em 2007. E foi ele quem esteve \u00e0 frente da mobiliza\u00e7\u00e3o nacional que tornou obrigat\u00f3rias a Sociologia e a Filosofia no ensino m\u00e9dio brasileiro. Todo estudante que teve uma aula de Sociologia na escola p\u00fablica deve alguma coisa a esse homem, e quase nenhum sabe o nome dele.<\/p>\n<p>Professor na Universidade Metodista de Piracicaba entre 1986 e 2006, deixou pendente um doutorado sobre Ibn Khaldun, o historiador tunisiano do s\u00e9culo 14, projeto que pesquisava desde 1993 e nunca concluiu. Escolheu o mundo em vez do t\u00edtulo.<\/p>\n<p>Esta conversa foi gravada por videoconfer\u00eancia em <strong>2 de julho deste ano<\/strong>. Ele tinha voltado do Ir\u00e3 em novembro, na companhia de outros trinta brasileiros, e falou do que viu por l\u00e1: as ind\u00fastrias que as san\u00e7\u00f5es n\u00e3o derrubaram, os m\u00edsseis que ningu\u00e9m previu, a cesta de moedas com que os BRICS ensaiam escapar do d\u00f3lar, o trem-bala que esperava ver sair do papel em Campinas, cidade onde viveu a maior parte da vida. Contou tamb\u00e9m, sem cerim\u00f4nia, que perdera amizades de cinquenta anos por n\u00e3o recuar de uma posi\u00e7\u00e3o sobre a R\u00fassia. N\u00e3o pediu para cortar a frase.<\/p>\n<p>No fim, saiu da geopol\u00edtica. Disse que era astr\u00f4nomo amador e que nunca aceitara a divis\u00e3o entre as ci\u00eancias exatas e as humanas: \u201cConsidero-me um cientista, ponto.\u201d Lembrou o paradoxo de Fermi e a hip\u00f3tese do Grande Filtro, segundo a qual as civiliza\u00e7\u00f5es avan\u00e7am at\u00e9 um funil tecnol\u00f3gico e ali se destroem, de modo que o universo talvez seja um cemit\u00e9rio de civiliza\u00e7\u00f5es que n\u00e3o passaram no teste. Disse-se preparado para uma terceira guerra convencional. N\u00e3o para uma nuclear. \u201cEu n\u00e3o quero que a humanidade acabe.\u201d<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/banner.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/banner.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2024\/03\/banner-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Ainda em julho, deu entrada num hospital em Campinas. N\u00e3o voltou a sair. Perdemos o companheiro Lejeune Mirhan <strong>na tarde de 6 de agosto<\/strong>, aos 69 anos. Deixa Rosangela Falzoni, com quem era casado desde 2011, e a filha, Alice.<\/p>\n<p>Fica o que ele disse, no dia em que disse.<\/p>\n<p><strong>Eis a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O senhor cunhou a leitura de que a economia da resist\u00eancia transformou as san\u00e7\u00f5es em um catalisador da autossufici\u00eancia cient\u00edfico-industrial iraniana. Como sustentar essa tese diante do quadro aberto pela guerra de fevereiro deste ano: o assassinato de Khamenei, o fechamento conturbado do Estreito de Ormuz, a infla\u00e7\u00e3o de quase 90% ao ano e a opera\u00e7\u00e3o que os Estados Unidos deflagraram, a <\/strong><em><strong>Economic Fury<\/strong><\/em><strong>, pelo Tesouro americano?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>De um modo geral, n\u00f3s vivemos em um mundo p\u00f3s-1991, que foi unipolar e viveu uma transi\u00e7\u00e3o. Hoje, ele n\u00e3o \u00e9 mais, pois j\u00e1 sa\u00edmos dessa transi\u00e7\u00e3o. Eu estou entre os autores que defendem que o mundo j\u00e1 \u00e9 multipolar.<\/p>\n<p>As san\u00e7\u00f5es n\u00e3o surtiram o efeito desejado. O objetivo das san\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos, a maior pot\u00eancia econ\u00f4mica, pol\u00edtica, diplom\u00e1tica e militar do mundo, ao imp\u00f4-las a um pa\u00eds menor e economicamente mais vulner\u00e1vel, \u00e9 a aposta de que esse pa\u00eds se estrangularia e viveria imensas dificuldades. Esperavam que o povo se rebelasse contra o seu governo, houvesse uma mudan\u00e7a de regime, um <em>regime change<\/em>, trocasse de governo e colocasse um governo amigo do imperialismo, o qual aliviaria as san\u00e7\u00f5es. Isso n\u00e3o funcionou.<\/p>\n<p>Vejamos o caso de Cuba: vive sob san\u00e7\u00f5es e sob um embargo desde 1960. S\u00e3o 66 anos de embargo que n\u00e3o funcionaram, pois o povo continuou no caminho socialista l\u00e1. No caso do Ir\u00e3, em particular, depois da R\u00fassia a partir de 2022 (que \u00e9 hoje o pa\u00eds mais sancionado), o Ir\u00e3 \u00e9 a na\u00e7\u00e3o mais punida pelas san\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m n\u00e3o funcionou. Sancionaram o petr\u00f3leo iraniano e, mesmo assim, eles conseguiam vender o seu produto com um certo des\u00e1gio no mercado internacional: quando estava a 70 d\u00f3lares, eles vendiam a 55. O petr\u00f3leo \u00e9 uma riqueza. Vendido por 40 ou por 50 [d\u00f3lares], qualquer valor \u00e9 significativo, porque \u00e9 um recurso abundante no Ir\u00e3. Ent\u00e3o, o Ir\u00e3 n\u00e3o perdeu.<\/p>\n<p>Eles n\u00e3o conseguiram sufocar o Ir\u00e3 economicamente. N\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o conseguiram, como o Ir\u00e3, mesmo sob todas essas san\u00e7\u00f5es, conseguiu desenvolver uma ind\u00fastria nacional. Eu estive no Ir\u00e3 h\u00e1 pouco tempo, acompanhado de mais 30 brasileiros.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 quanto tempo ocorreu essa viagem?<\/strong><\/p>\n<p>Foi em novembro do ano passado. O Ir\u00e3 \u00e9 um pa\u00eds maravilhoso, \u00e9 impressionante. Na verdade, n\u00e3o \u00e9 apenas um pa\u00eds: o Ir\u00e3 \u00e9 uma civiliza\u00e7\u00e3o. Eles desenvolveram uma ind\u00fastria tecnol\u00f3gica, metal\u00fargica e de base, apesar de todas as san\u00e7\u00f5es. Por exemplo, o Brasil n\u00e3o tem nenhuma ind\u00fastria automobil\u00edstica genuinamente nacional, sendo um pa\u00eds de 210 milh\u00f5es de habitantes; eles, com 90 milh\u00f5es, t\u00eam duas ind\u00fastrias nacionais de carros. Hoje, um autom\u00f3vel completo iraniano, com todos os equipamentos, vidros el\u00e9tricos, computador de bordo e dire\u00e7\u00e3o el\u00e9trica, custa em torno de 40 a 50 mil reais, j\u00e1 feita a convers\u00e3o do d\u00f3lar para o real. Eu andei nesses carros.<\/p>\n<p>A tecnologia que mais surpreendeu o mundo no Ir\u00e3 foi a de m\u00edsseis. Naquele acordo dos 14 pontos, que representou uma vit\u00f3ria iraniana, n\u00e3o entrou o desejo dos Estados Unidos de discutir o programa de m\u00edsseis do Ir\u00e3. Esse assunto n\u00e3o entrou na pauta, pois diz respeito exclusivamente ao povo iraniano; apenas a quest\u00e3o nuclear foi abordada. Mesmo com todo o bloqueio, eles desenvolveram uma tecnologia de m\u00edsseis teleguiados e inteligentes com velocidade de Mach 10. Para se ter uma ideia do que isso significa, s\u00e3o 19 mil quil\u00f4metros por hora. Um artefato desses chega a Londres em quatro minutos e vinte segundos. Como disseram alguns analistas, n\u00e3o adianta construir casamatas, pois n\u00e3o haver\u00e1 tempo de correr para elas. S\u00e3o 19 mil quil\u00f4metros por hora, bastando quatro minutos e vinte segundos para atingir as grandes capitais. Evidentemente, ele n\u00e3o tem essa autonomia global: a limita\u00e7\u00e3o de alcance \u00e9 de cinco a, no m\u00e1ximo, sete mil quil\u00f4metros.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, com todo o cerco das san\u00e7\u00f5es, n\u00e3o conseguiram dobrar a Rep\u00fablica Isl\u00e2mica do Ir\u00e3. Mas a grande boa not\u00edcia \u00e9 este acordo de 14 pontos. Acabei de produzir um ensaio com muitas notas de refer\u00eancia analisando esses 14 pontos, que representaram uma grande vit\u00f3ria do Ir\u00e3. Um dos poucos pontos que j\u00e1 est\u00e1 em vigor, visto que h\u00e1 muitas quest\u00f5es pol\u00eamicas gerando confus\u00e3o na aplica\u00e7\u00e3o, \u00e9 que os Estados Unidos, h\u00e1 mais de dez dias, suspenderam todas as san\u00e7\u00f5es contra o petr\u00f3leo iraniano. N\u00e3o suspenderam as san\u00e7\u00f5es totais contra o pa\u00eds, mas contra o petr\u00f3leo, sim. Portanto, h\u00e1 cerca de dez dias, o Ir\u00e3 passou a vender o seu petr\u00f3leo ao pre\u00e7o internacional da OPEP e das bolsas de Londres e do Texas, e n\u00e3o h\u00e1 uma tabela oficial para isso. Isso vai gerar um ingresso impressionante de recursos.<\/p>\n<p><strong>Como o senhor j\u00e1 abordou o acordo do petr\u00f3leo iraniano, gostaria que comentasse sobre o acordo articulado pelo segundo governo Lula, com o ent\u00e3o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores Celso Amorim, a respeito de o Ir\u00e3 poder enriquecer ur\u00e2nio. Qual \u00e9 a sua avalia\u00e7\u00e3o sobre esse acordo? Foi positivo ou negativo? Os Estados Unidos o aceitaram ou n\u00e3o, e quais foram os desdobramentos? O que o Brasil prop\u00f4s era bom?<\/strong><\/p>\n<p>Aceitaram e foi uma derrota para os Estados Unidos. Vale lembrar que o acordo de 2015, frequentemente chamado de acordo do Obama, n\u00e3o \u00e9 apenas dele. \u00c9 um acordo dos cinco membros permanentes do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU mais a Alemanha, o P5+1. Portanto, \u00e9 um acordo da era Obama que Donald Trump repudiou ao tomar posse em 2017. Voc\u00ea sabe qual era o \u00edndice de enriquecimento permitido naquele acordo?<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Era de apenas 3,67%. Hoje, em um novo acordo que ser\u00e1 assinado em breve, apesar dos problemas, o Ir\u00e3 poder\u00e1 enriquecer ur\u00e2nio a 20%. Ou seja, Trump repudiou um acordo que era ruim para eles e limitava o \u00edndice a 3,67%, e agora os Estados Unidos assinar\u00e3o um que \u00e9 muito pior do ponto de vista de seus interesses. Eles tiveram que aceitar um acordo que ainda est\u00e1 muito longe da bomba, evidentemente.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m 400 quilos de ur\u00e2nio enriquecido a 60% que n\u00e3o entraram nos 14 pontos. Os Estados Unidos queriam retirar esses 400 quilos do Ir\u00e3 e deix\u00e1-los em algum pa\u00eds, provavelmente o Paquist\u00e3o ou a pr\u00f3pria R\u00fassia. Contudo, isso n\u00e3o foi discutido; o Ir\u00e3 proclamou que esse tema n\u00e3o estava em debate.<\/p>\n<p>Por que o medo dos Estados Unidos? Para chegar a 60% de enriquecimento, \u00e9 preciso muita centr\u00edfuga e demora um certo tempo. No entanto, de 60% para 90% \u00e9 um passo muito r\u00e1pido, e a\u00ed se obt\u00e9m a bomba.<\/p>\n<p>Muitos autores, como Scott Ritter, Douglas Macgregor e o pr\u00f3prio Pepe Escobar, afirmam que o Ir\u00e3 j\u00e1 tem a bomba. Eu n\u00e3o acredito nisso. Acredito mais na fidelidade a um decreto isl\u00e2mico chamado <em><strong>fatwa<\/strong><\/em>, emitido em 2003 por Ali Khamenei, cujas cerim\u00f4nias f\u00fanebres foram iniciadas agora e reunir\u00e3o 20 milh\u00f5es de pessoas no Ir\u00e3. Esse decreto pro\u00edbe qualquer pesquisa e desenvolvimento da bomba at\u00f4mica. \u00c9 uma determina\u00e7\u00e3o que n\u00e3o foi revogada pelo filho dele, o novo l\u00edder espiritual. Portanto, considero que o Ir\u00e3 n\u00e3o tem a arma nuclear. Ele pode fabric\u00e1-la rapidamente? Acredito que sim. Tem tecnologia para fazer, mas n\u00e3o quer. Apesar disso, h\u00e1 autores que afirmam que o pa\u00eds j\u00e1 a possui.<\/p>\n<p>Mas, independentemente disso, a grande verdade \u00e9 que o Ir\u00e3 \u00e9 o grande vitorioso. O pa\u00eds hoje \u00e9 soberano para manter o seu programa nuclear focado na gera\u00e7\u00e3o livre de energia. Sabemos que a partir de 3,6% j\u00e1 se gera energia. Gerando a 20%, a capacidade \u00e9 muito mais forte e o rendimento \u00e9 significativamente maior. Ent\u00e3o, o Ir\u00e3 venceu. O pa\u00eds enriquecer\u00e1 o seu ur\u00e2nio e \u00e9 dono da sua soberania nuclear e energ\u00e9tica. Eu gostaria que o Brasil um dia tivesse essa mesma soberania.<\/p>\n<p><strong>O senhor tem descrito o Ir\u00e3 como um laborat\u00f3rio para as estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia financeira e de desdolariza\u00e7\u00e3o dos BRICS. Diante da desvaloriza\u00e7\u00e3o do rial, a moeda do Ir\u00e3, e da infla\u00e7\u00e3o recente, o que exatamente \u00e9 esse laborat\u00f3rio?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A desdolariza\u00e7\u00e3o do mundo \u00e9 um caminho inevit\u00e1vel. No entanto, n\u00e3o ser\u00e1 um processo r\u00e1pido nem f\u00e1cil para a economia mundial, que \u00e9 inteiramente indexada ao d\u00f3lar. N\u00e3o \u00e9 simples sair do d\u00f3lar.<\/p>\n<p>O bloco dos BRICS \u00e9 hoje o maior grupo de contesta\u00e7\u00e3o \u00e0 hegemonia geopol\u00edtica do G7, que j\u00e1 n\u00e3o concentra mais tanta riqueza: os BRICS j\u00e1 det\u00eam uma fatia do PIB global superior \u00e0 deles. Os BRICS n\u00e3o pretendem criar uma moeda alternativa de papel, como se chegou a dizer. Alguns autores defenderam essa proposta, e h\u00e1 quem at\u00e9 hoje ache que deva existir uma moeda f\u00edsica alternativa ao d\u00f3lar. Mas n\u00e3o \u00e9 isso; os BRICS n\u00e3o caminham nessa linha. Eles caminham na dire\u00e7\u00e3o de desdolarizar, mas n\u00e3o por meio da cria\u00e7\u00e3o de uma moeda alternativa.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como se desdolariza sem criar uma alternativa? Desdolariza-se criando a possibilidade de mercados bilaterais usando a moeda de cada um dos pa\u00edses membros, ou seja, uma cesta de moedas reconhecidas internacionalmente.<\/p>\n<p>Vou explicar. Fui a muitos congressos cient\u00edficos e pol\u00edticos em v\u00e1rios dos 30 pa\u00edses que j\u00e1 visitei. Uma vez fui ao Canad\u00e1 naquela \u00e9poca em que o real do Brasil estava na paridade de um para um com o d\u00f3lar. Senti-me um homem rico. S\u00f3 que sa\u00ed com reais do Brasil, e eles n\u00e3o valiam absolutamente nada no Canad\u00e1: tive que fazer o c\u00e2mbio. Mesmo com o c\u00e2mbio mantendo a propor\u00e7\u00e3o, senti-me rico e comprei muita coisa. Mas a minha moeda, por si s\u00f3, n\u00e3o valia nada l\u00e1.<\/p>\n<p>O que os BRICS querem hoje? Querem que eu possa chegar ao Canad\u00e1 e ter a minha moeda convers\u00edvel ali, sem passar pelo d\u00f3lar. Que eu chegue com 100 reais e compre 100 d\u00f3lares canadenses diretamente. A minha moeda passaria a ser convers\u00edvel. Claro que o Canad\u00e1 n\u00e3o \u00e9 membro dos BRICS, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o melhor exemplo.<\/p>\n<p>Mas isso j\u00e1 est\u00e1 funcionando perfeitamente entre a R\u00fassia e a China. Veja como era antes: um comerciante russo, para vender para a China (com quem divide milhares de quil\u00f4metros de fronteira), precisava pegar sua mercadoria precificada em rublos e convert\u00ea-la em d\u00f3lares para exportar. L\u00e1, o comerciante chin\u00eas comprava em d\u00f3lares e convertia o valor para o yuan, o renminbi. \u00c9 tudo com a letra erre: rublo, real, renminbi. Era um absurdo para pa\u00edses vizinhos.<\/p>\n<p>Por que a China n\u00e3o aceitava o rublo e a R\u00fassia n\u00e3o aceitava o renminbi? Agora eles est\u00e3o aceitando. Mas a\u00ed surge a seguinte quest\u00e3o: a R\u00fassia recebe o yuan, e ele s\u00f3 tem valor na China. Isso muda se houver um pacto com todos os pa\u00edses dos BRICS. Nesse cen\u00e1rio, o yuan serve no Brasil, serve na Ar\u00e1bia Saudita para comprar petr\u00f3leo: pois j\u00e1 est\u00e3o aceitando, e serve na \u00c1frica do Sul. Dessa forma, a moeda que a R\u00fassia recebe da China passa a ter conversibilidade internacional, pulando o d\u00f3lar. Essa \u00e9 a estrat\u00e9gia que os BRICS est\u00e3o adotando: o com\u00e9rcio entre os seus membros utilizando as suas pr\u00f3prias moedas.<\/p>\n<p>Isso, no entanto, gera alguns problemas. Vou dar o exemplo mais negativo que temos, o da Argentina, que \u00e9 o melhor caso para ilustrar, agravado pelo fato de ter um governo fascista. A nossa moeda \u00e9 mais forte que a deles. Se quisermos estabelecer um com\u00e9rcio bilateral direto usando nossas moedas, esbarramos em um obst\u00e1culo. O Brasil \u00e9 superavit\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Argentina. Se deixarmos de usar o d\u00f3lar e usarmos apenas reais e pesos, eles receber\u00e3o os nossos reais, que s\u00e3o aceitos no Chile, no Uruguai, entre outros lugares. N\u00f3s, por outro lado, receberemos uma pilha de pesos argentinos. O que faremos com eles? S\u00f3 poderemos gast\u00e1-los na Argentina. Como j\u00e1 comprei tudo o que preciso de l\u00e1 e sou superavit\u00e1rio, vendendo mais do que comprando, o que farei com a pilha de pesos que sobrar\u00e1? Absolutamente nada.<\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o \u00e9 uma f\u00f3rmula m\u00e1gica. Existem distor\u00e7\u00f5es que precisam ser corrigidas bilateralmente, como no nosso caso com a Argentina, em que vendemos mais do que compramos e lidamos com uma moeda inst\u00e1vel. O ac\u00famulo de uma moeda que s\u00f3 pode ser gasta no pa\u00eds de origem n\u00e3o dar\u00e1 certo se n\u00e3o houver demanda de compra proporcional.<\/p>\n<p>A regra geral \u00e9 esta: comercializar na mesma moeda. Por isso a import\u00e2ncia da cesta de moedas. \u00c9 claro que o peso argentino n\u00e3o entrar\u00e1 nessa cesta de moedas convers\u00edveis por ser inexpressivo. Tudo indica que os componentes ser\u00e3o o rand da \u00c1frica do Sul, o renminbi da China, o rublo da R\u00fassia, o real do Brasil e a r\u00fapia da \u00cdndia. Essa cesta ainda est\u00e1 em discuss\u00e3o e demandar\u00e1 tempo, mas todos os passos apontam para a substitui\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar nas trocas do bloco.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m \u00e9 contra o d\u00f3lar. Os Estados Unidos t\u00eam o direito de ter a sua moeda. O que n\u00e3o se sustenta mais \u00e9 que essa seja a \u00fanica moeda do com\u00e9rcio internacional, um modelo fixado em 1944 e que j\u00e1 dura 82 anos. \u00c9 imperativo desdolarizar e romper com a ditadura do d\u00f3lar. O pior n\u00e3o \u00e9 eles terem a sua moeda, mas sim utilizarem o d\u00f3lar como arma de guerra, bloqueando reservas soberanas, como fizeram com a Venezuela e com a R\u00fassia. Isso coloca em xeque todo o modelo de estabilidade financeira e econ\u00f4mica internacional.<\/p>\n<p><strong>Essa cesta de moedas precisaria de algum lastro?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. O lastro \u00e9 dado pelas commodities, pelas mercadorias que s\u00e3o compradas e vendidas. O \u00fanico pa\u00eds que se preocupa com lastro neste momento \u00e9 a China, que est\u00e1 lan\u00e7ando o yuan digital e recorrendo \u00e0 equival\u00eancia em ouro. Mas considero que essa \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o oriunda de Bretton Woods, em 1944. Acredito que isso n\u00e3o voltar\u00e1 a ocorrer. As moedas v\u00e3o se sustentar como n\u00fameros em um sistema de computa\u00e7\u00e3o. Sonhar com lastro em ouro \u00e9 coisa do passado.<\/p>\n<p><strong>Qual foi o real papel da China no Ir\u00e3? O senhor corrobora a tese de que ela \u00e9 a grande arquiteta por tr\u00e1s daquele pa\u00eds, fornecendo o suporte para que o Estado resistisse \u00e0 guerra contra os Estados Unidos, ou considera isso uma fal\u00e1cia?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tenho d\u00favida, corroboro 100%. A vit\u00f3ria do Ir\u00e3 tem o dedo direto da China. O Ir\u00e3 est\u00e1 localizado no centro das Rotas da Seda. O Ir\u00e3 e o Paquist\u00e3o s\u00e3o dois pa\u00edses que n\u00e3o podem cair na geopol\u00edtica chinesa. Em 2021, a China firmou um acordo de investimento de 25 anos com o Ir\u00e3, totalizando meio trilh\u00e3o de d\u00f3lares, ou seja, 500 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Se n\u00e3o temos no\u00e7\u00e3o do que significa o volume de um bilh\u00e3o, imagine o de 500 bilh\u00f5es investidos no Ir\u00e3. A China est\u00e1 por tr\u00e1s de tudo isso.<\/p>\n<p>A China foi a grande vencedora da guerra, que durou intensamente apenas 36 dias, embora tenha se estendido por mais de cem dias porque eles mantiveram o conflito at\u00e9 a assinatura do memorando. E, mesmo assim, a assinatura do memorando \u00e9 apenas um roteiro, n\u00e3o o acordo final. Algumas medidas j\u00e1 est\u00e3o vigendo, enquanto outras ainda est\u00e3o por vir.<\/p>\n<p>A China \u00e9 a grande vitoriosa porque mantinha neg\u00f3cios vantajosos: comprava o barril de petr\u00f3leo iraniano a 55 d\u00f3lares quando o pre\u00e7o de mercado era 70, valendo-se do des\u00e1gio. Agora, ela est\u00e1 pagando o valor de mercado, de 55 a 70 d\u00f3lares.<\/p>\n<p>A China possui um gargalo energ\u00e9tico severo. O pa\u00eds consome 14 milh\u00f5es de barris di\u00e1rios e produz apenas quatro. Naquele vasto territ\u00f3rio, ainda n\u00e3o descobriram reservas suficientes de petr\u00f3leo. Est\u00e3o desenvolvendo uma s\u00e9rie de alternativas energ\u00e9ticas, como a e\u00f3lica e a solar, mas nada substituir\u00e1 o petr\u00f3leo nos pr\u00f3ximos cinquenta anos. Os ecologistas podem fazer o que quiserem, mas \u00e9 o petr\u00f3leo que roda 90% do transporte mundial. Infelizmente, a China importa todos os dias cinco superpetroleiros de dois milh\u00f5es de barris, venha de onde vier. Se o Ir\u00e3 n\u00e3o vende, ela compra da Ar\u00e1bia Saudita, que j\u00e1 est\u00e1 aceitando pagamentos em yuan \u2014 uma grande novidade que impulsiona a desdolariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A China \u00e9 a grande vitoriosa desse processo, pois protegeu o Ir\u00e3. Ela n\u00e3o entra em guerra militarmente, mas forneceu sistemas log\u00edsticos e o sistema BeiDou, o GPS chin\u00eas. Com isso, ajudou a intelig\u00eancia iraniana a vencer o conflito.<\/p>\n<p>A R\u00fassia ajudou muito com conselheiros militares e armamentos. O Ir\u00e3, contudo, n\u00e3o precisou de muitos equipamentos externos, pois \u00e9 autossuficiente em m\u00edsseis. Os analistas apontam que eles est\u00e3o mais fortes agora do que no in\u00edcio do conflito. Eles possu\u00edam um parque de m\u00edsseis estimado por mim em cinco mil unidades, embora analistas falem em at\u00e9 50 mil. Durante a guerra de 36 dias, eles usaram m\u00edsseis com tecnologia mais antiga para atacar as seis bases americanas permanentes e as seis provis\u00f3rias nos pa\u00edses do Golfo, al\u00e9m de alvos em Israel. Os m\u00edsseis mais modernos n\u00e3o foram gastos. Portanto, sob a \u00f3tica de um analista militar, o Ir\u00e3 est\u00e1 mais forte, pois seu sistema atual de m\u00edsseis intactos \u00e9 extremamente avan\u00e7ado. O Fattah-2, por exemplo, desvia das defesas antia\u00e9reas e, ao se aproximar do alvo, a ogiva se abre e libera dez fragmentos em um sistema de bomba cluster. Dessa forma, o Ir\u00e3 est\u00e1 muito fortalecido.<\/p>\n<p>Consequentemente, a China se fortalece quando o seu aliado se fortalece e, assim, preservou seu investimento de meio trilh\u00e3o de d\u00f3lares. Veja que, no in\u00edcio, os Estados Unidos entraram nessa guerra sem um objetivo claro at\u00e9 assumirem que queriam uma mudan\u00e7a de regime. Perderam a guerra porque n\u00e3o conseguiram mudar o regime; pelo contr\u00e1rio, uniram ainda mais o povo e o governo iraniano. Eu estive l\u00e1 e presenciei essa unidade pol\u00edtica inquebrant\u00e1vel. O funeral de Ali Khamenei, que deve estar come\u00e7ando, mobilizar\u00e1 20 milh\u00f5es de pessoas em uma popula\u00e7\u00e3o de 80 milh\u00f5es, ou seja, um quarto dos iranianos. Seria como se o Brasil colocasse 50 milh\u00f5es de pessoas nas ruas, algo que nunca vivemos, j\u00e1 que na \u00e9poca das Diretas mobilizamos no m\u00e1ximo tr\u00eas milh\u00f5es. \u00c9 impressionante a capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o daquele povo. Testemunhei um grau de politiza\u00e7\u00e3o not\u00e1vel conversando diretamente com as pessoas nas ruas. Em suma, o Ir\u00e3, a China e a R\u00fassia saem mais fortes desse processo.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a sua an\u00e1lise sobre a resist\u00eancia da R\u00fassia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Ucr\u00e2nia?<\/strong><\/p>\n<p>O patrocinador do conflito ucraniano, no primeiro momento, foram os Estados Unidos, especificamente o governo Biden. Donald Trump se elegeu afirmando que pararia aquela guerra no primeiro dia de mandato. Tomou posse e n\u00e3o a parou. Pediu 10 dias e n\u00e3o parou; pediu 100 dias e n\u00e3o a encerrou, at\u00e9 desistir, pois sabe que aquela guerra n\u00e3o \u00e9 simples de ser interrompida. H\u00e1 interesses muito maiores em jogo, como o complexo militar-industrial norte-americano e o desejo da Europa de manter o conflito para desgastar a R\u00fassia. Eles planejam uma grande guerra, que pode ser a Terceira Guerra Mundial, at\u00e9 2030, contra a Federa\u00e7\u00e3o Russa.<\/p>\n<p>A Ucr\u00e2nia, liderada por um presidente subserviente, era um pa\u00eds desenvolvido que abrigava a f\u00e1brica do maior avi\u00e3o do mundo, o Antonov, e possu\u00eda os maiores campos de produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os. Tinha 20 milh\u00f5es de habitantes; hoje, possui 10 milh\u00f5es de refugiados espalhados pelo mundo e perdeu cerca de 1,5 milh\u00e3o de soldados no conflito. \u00c9 um Estado an\u00f4malo e totalmente disfuncional que depende de bilh\u00f5es de euros anuais da Uni\u00e3o Europeia para custear o m\u00ednimo, desde a compra de clipes at\u00e9 papel e l\u00e1pis. Para sustentar a guerra, v\u00eddeos mostram cidad\u00e3os sendo pegos \u00e0 for\u00e7a nas ruas, bares e boates para serem enviados \u00e0 linha de frente.<\/p>\n<p>O mandato de Volodymyr Zelensky venceu em 10 de maio de 2023. Ele est\u00e1 com o mandato expirado h\u00e1 mais de tr\u00eas anos e governando como um testa de ferro. Recentemente, no G7, sentou-se \u00e0 mesa com as grandes pot\u00eancias; \u00e9 o queridinho da m\u00eddia e chamado de presidente, mas n\u00e3o tem nenhuma legitimidade legal. Disp\u00f4s-se a destruir o seu pr\u00f3prio pa\u00eds, a perder metade de sua popula\u00e7\u00e3o \u2014 que vive hoje de forma n\u00f4made pela Europa \u2014 e a sacrificar seu ex\u00e9rcito, que j\u00e1 foi reconstitu\u00eddo tr\u00eas vezes.<\/p>\n<p>Com tudo isso, por que a R\u00fassia ainda n\u00e3o liquidou a fatura? Porque ela n\u00e3o quer destruir a Ucr\u00e2nia e sequer precisa usar armas nucleares para isso. A R\u00fassia possui o Oreshnik, a bomba n\u00e3o nuclear mais poderosa que existe, e a usou apenas uma vez para demonstrar sua capacidade. Ningu\u00e9m mais a tem: nem os Estados Unidos, nem a China. Ela atinge dez vezes a velocidade do som, assim como o m\u00edssil iraniano. Os russos nunca quiseram aniquilar o pa\u00eds vizinho porque s\u00e3o da mesma etnia, s\u00e3o primos, s\u00e3o eslavos. A R\u00fassia surgiu na Ucr\u00e2nia; o sistema dos czares, que completou 300 anos, originou-se l\u00e1. Em 1670, surgiu a Rus de Kiev; a R\u00fassia nasceu l\u00e1. Portanto, eles n\u00e3o querem acabar com a Ucr\u00e2nia, que, em sua concep\u00e7\u00e3o moderna, \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o de L\u00eanin validada ap\u00f3s Stalin. Toda aquela regi\u00e3o era a R\u00fassia. A Crimeia segue a mesma l\u00f3gica. Destruir a Ucr\u00e2nia nunca foi o objetivo.<\/p>\n<p>Observe as \u00faltimas a\u00e7\u00f5es militares da Ucr\u00e2nia. Como o pa\u00eds sabe que n\u00e3o consegue vencer na linha de frente por atrito, est\u00e1 jogando enxames de drones com alcance de 25 a 200 quil\u00f4metros sobre as trincheiras. Esses ataques atingem a R\u00fassia profunda, bombardeando refinarias, postos de gasolina e escolas. Est\u00e3o matando civis russos que n\u00e3o t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com o combate na linha de frente. As conven\u00e7\u00f5es internacionais possuem normas para a guerra, e atacar uma escola com drones \u00e9 uma viola\u00e7\u00e3o clara. Como n\u00e3o consegue avan\u00e7ar, a Ucr\u00e2nia perdeu todos os territ\u00f3rios na regi\u00e3o chamada Novorossiya.<\/p>\n<p>Novorossiya \u00e9 uma \u00e1rea em formato de meia-lua cujo nome j\u00e1 indica: ali moram russos, embora esteja na Ucr\u00e2nia. \u00c9 a regi\u00e3o do Donbass, que abrange quatro prov\u00edncias. Lugansk e Donetsk j\u00e1 est\u00e3o 100% controladas pela R\u00fassia, enquanto Kherson e Zapor\u00edjia ainda n\u00e3o est\u00e3o totalmente dominadas.<\/p>\n<p>Por que a R\u00fassia n\u00e3o quer o cessar-fogo? Justamente porque ainda n\u00e3o det\u00e9m 100% de Zapor\u00edjia e Kherson. Parar a guerra agora seria desvantajoso. A R\u00fassia j\u00e1 anexou os quatro territ\u00f3rios e alterou o seu mapa oficial, mas ainda h\u00e1 soldados ucranianos em partes de Kherson e Zapor\u00edjia por onde o rolo compressor russo n\u00e3o passou. Por isso, Moscou exige um acordo geral, sintetizado em dez pontos. O ponto n\u00famero um \u00e9 o reconhecimento da soberania russa sobre as quatro prov\u00edncias. Se a Ucr\u00e2nia concordasse, a guerra pararia na hora. Bastaria retirar as tropas desses \u00faltimos munic\u00edpios e entreg\u00e1-los \u00e0 soberania russa, sem a necessidade de batalhas militares. Mas a Ucr\u00e2nia se recusa a fazer isso.<\/p>\n<p>Para finalizar: por que a guerra n\u00e3o para? Porque a Uni\u00e3o Europeia n\u00e3o quer. Trump lavou as m\u00e3os e n\u00e3o interrompeu o envio de armas, pois n\u00e3o controla o complexo industrial-militar. E n\u00e3o pense que os Estados Unidos enviam armamento de gra\u00e7a; a Uni\u00e3o Europeia paga a conta indiretamente. Assim, mesmo sendo a Ucr\u00e2nia um Estado disfuncional e sem recursos, a Uni\u00e3o Europeia banca a guerra e o governo de Zelensky.<\/p>\n<p><strong>Muitas pessoas dizem, e eu gostaria que o senhor desconstru\u00edsse essa fala em termos racionais, dada a sua forma\u00e7\u00e3o como cientista pol\u00edtico e soci\u00f3logo: afirma-se que Trump est\u00e1 com s\u00e9rios problemas de ordem cognitiva e cercou-se de uma gangue. Isso \u00e9 um lugar-comum na imprensa brasileira. Outros apontam que ele aplica a \u201cteoria do louco\u201d de Nixon, arriscando ao m\u00e1ximo para for\u00e7ar o recuo dos advers\u00e1rios e obter vantagens. At\u00e9 que ponto as atitudes desse chefe de um Estado poderoso fazem sentido pol\u00edtico? Ou \u00e9 indiferente se ele age de forma irracional ou se est\u00e1 cercado por uma equipe inst\u00e1vel e sem conhecimento do mundo?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s usamos o termo \u201clouco\u201d, mas \u00e9 for\u00e7a de express\u00e3o. Ele n\u00e3o tem nada de louco. Ganhou dois bilh\u00f5es de d\u00f3lares com bitcoins que ele mesmo criou. N\u00e3o \u00e9 louco nem maluco.<\/p>\n<p>Quero destacar que ele montou uma equipe ministerial composta por JD Vance, o vice-presidente; Pete Hegseth, nomeado Secret\u00e1rio de Defesa; e Marco Rubio, o Secret\u00e1rio de Estado. Marco Rubio \u00e9 o mais ferrenho de todos os anticomunistas que servem na Casa Branca. N\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico membro ali que n\u00e3o seja anticomunista, mas h\u00e1 grada\u00e7\u00f5es entre eles.<\/p>\n<p>O JD Vance, por ser candidato natural \u00e0 presid\u00eancia em 2028 e o aparente ungido por Trump (que n\u00e3o poder\u00e1 se reeleger), tenta demonstrar certa modera\u00e7\u00e3o. No entanto, Rubio tamb\u00e9m sonha com a presid\u00eancia, e eles disputam espa\u00e7o internamente.<\/p>\n<p>Todos eles s\u00e3o sionistas. Preciso ressaltar que os Estados Unidos s\u00e3o o pa\u00eds mais sionista do mundo hoje, posto que j\u00e1 pertenceram \u00e0 Inglaterra. O movimento evang\u00e9lico neopentecostal americano \u00e9 profundamente sionista. Trata-se de um cristianismo sionista fort\u00edssimo. Trump \u00e9 um sionista crist\u00e3o, assim como todos os que o cercam, incluindo Vance, Rubio e Hegseth.<\/p>\n<p>Ali eles disputam influ\u00eancia. \u00c9 nesse cen\u00e1rio que entra o papel de Israel. Na pol\u00edtica do \u201cAmerica Great Again\u201d, os Estados Unidos n\u00e3o s\u00e3o a prioridade absoluta; Israel tamb\u00e9m o \u00e9. Rubio talvez seja ainda mais pr\u00f3-Israel do que Vance, que tenta adotar uma postura um pouco mais moderada. \u00c0s vezes, quando vemos uma briga pol\u00edtica, torcemos por um dos lados, mas, nesse caso, n\u00e3o h\u00e1 como torcer por nenhum. N\u00e3o tor\u00e7o por Vance, embora sua hist\u00f3ria de vida seja complexa: sua m\u00e3e era dependente qu\u00edmica, e ele vem do Cintur\u00e3o da Ferrugem, uma regi\u00e3o marcada pelo desemprego ap\u00f3s a fuga das ind\u00fastrias. N\u00e3o sou psic\u00f3logo, mas analiso essas inconst\u00e2ncias e trajet\u00f3rias que explicam as diferen\u00e7as de postura no governo.<\/p>\n<p>O Marco Rubio tem outra trajet\u00f3ria. Seus pais sa\u00edram de Cuba antes da revolu\u00e7\u00e3o, tendo diverg\u00eancias com a ditadura de Fulgencio Batista. Ainda assim, ele \u00e9 profundamente anticastrista e anticomunista, articulando-se com a comunidade de refugiados cubanos em Miami. Essa \u00e9 a disputa que ocorre no entorno de Trump e, por isso, n\u00e3o devemos torcer por essa briga.<\/p>\n<p>Quando foi lan\u00e7ada, em dezembro de 2025, a nova pol\u00edtica de seguran\u00e7a dos Estados Unidos, eles chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que n\u00e3o conseguem mais ser a pot\u00eancia hegem\u00f4nica mundial. N\u00e3o d\u00e3o conta de controlar o mundo, mesmo possuindo 836 bases militares em 109 pa\u00edses \u2014 um n\u00famero que nunca \u00e9 exato.<\/p>\n<p>Diante dessa nova doutrina de seguran\u00e7a da era Trump, que substituiu a do governo Biden, estabeleceu-se o retorno ao foco hemisf\u00e9rico. Trata-se da reedi\u00e7\u00e3o da Doutrina Monroe. Embora alguns autores apontem muitas diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 doutrina original, n\u00e3o teremos tempo de detalh\u00e1-las. Na pr\u00e1tica, a mensagem \u00e9: somos os donos do hemisf\u00e9rio ocidental, abrangendo Canad\u00e1, Estados Unidos, M\u00e9xico e toda a Am\u00e9rica do Sul e Central.<\/p>\n<p>Nesse contexto, eles passam a ter rivais, e o maior deles \u00e9 a China. Dos 34 pa\u00edses latino-americanos, a China j\u00e1 firmou acordos de coopera\u00e7\u00e3o das Rotas da Seda em 22 deles. O Brasil n\u00e3o assinou formalmente as Rotas da Seda, mas atua como se tivesse, dado o volume de projetos chineses no pa\u00eds. A nova ponte na Bahia, ligando Salvador a Itaparica, ser\u00e1 a maior ponte sobre o mar: a ponte Rio-Niter\u00f3i talvez seja mais extensa, mas possui um longo trecho sobre terra. A obra ser\u00e1 conduzida pela China. Muitos criticam a presen\u00e7a chinesa, mas os empregados e os engenheiros s\u00e3o brasileiros. \u00c9 uma empresa chinesa contratando m\u00e3o de obra nacional e transferindo tecnologia; n\u00e3o vejo problema nisso.<\/p>\n<p>A grande inimiga dos Estados Unidos na regi\u00e3o passou a ser a China. A R\u00fassia, por sua vez, mantinha a Venezuela como sua principal base de apoio. Diferentemente de Pequim, que possui a Iniciativa Cintur\u00e3o e Rota, a R\u00fassia concentrou seus efetivos na Venezuela e sofreu um rev\u00e9s com o sequestro de Nicol\u00e1s Maduro. Embora a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o tenha retrocedido e Delcy Rodr\u00edguez permane\u00e7a no poder mantendo o apoio pol\u00edtico interno, quem controla hoje a Venezuela, sejamos francos, s\u00e3o os Estados Unidos, que inclusive est\u00e3o vendendo o petr\u00f3leo venezuelano. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar que a Venezuela seja hoje um pa\u00eds plenamente soberano, apesar de o governo bolivariano n\u00e3o ter sido destitu\u00eddo. Mar\u00eda Corina Machado tenta ganhar protagonismo, mas Trump n\u00e3o apostou nela, preferindo lidar com Delcy Rodr\u00edguez. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o muito complexa que exigiria uma longa an\u00e1lise, mas, no fim das contas, a R\u00fassia saiu enfraquecida por apostar todas as fichas no governo de Maduro, que acabou sob tutela do imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>A grande quest\u00e3o hoje para os americanos \u00e9 atacar a China onde for poss\u00edvel, mas isso n\u00e3o surtir\u00e1 efeito. Como combater a presen\u00e7a chinesa sem usar meios militares, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel expulsar a China \u00e0 bala dos pa\u00edses da regi\u00e3o? Os Estados Unidos precisam competir comercialmente, o m\u00e9todo mais antigo da humanidade. Nesse campo, n\u00e3o h\u00e1 como vencer a China, dada a qualidade de seus produtos, seus pre\u00e7os competitivos e as condi\u00e7\u00f5es de financiamento com juros baix\u00edssimos atrelados \u00e0s obras que o pa\u00eds oferece.<\/p>\n<p>Que fique bem entendido: as obras das Rotas da Seda s\u00e3o projetos de infraestrutura vi\u00e1ria desenhados para que os produtos chineses cheguem rapidamente e em boas condi\u00e7\u00f5es a todos os lugares, j\u00e1 que a China \u00e9 a maior exportadora global. O megaporto constru\u00eddo no Peru com investimento chin\u00eas \u00e9 o maior do mundo. Eles gastam dinheiro, mas n\u00e3o a fundo perdido: constroem infraestrutura para exportar da China para o Peru e do Peru para a China, fazendo do pa\u00eds andino uma porta de entrada para toda a Am\u00e9rica Latina. Eles constroem aeroportos e ferrovias de grande velocidade, atingindo entre 150 e 200 km\/h.<\/p>\n<p>Eu gostaria muito que a China fizesse grandes obras no Brasil. Eles est\u00e3o executando a ferrovia transoce\u00e2nica, que sair\u00e1 do porto de Santos at\u00e9 a costa do Peru, facilitando nossas exporta\u00e7\u00f5es para o Oceano Pac\u00edfico. Quero que a China construa o primeiro trem-bala brasileiro. Moro em Campinas desde 1968; fala-se nesse projeto desde ent\u00e3o, mas nunca saiu do papel. Acredito que agora sair\u00e1. Fiz um programa no meu canal sobre os trens-bala na China, que j\u00e1 possuem 50 mil quil\u00f4metros de malha. N\u00f3s temos zero. Nos Estados Unidos, a Amtrak atinge no m\u00e1ximo 180 km\/h, o que nem \u00e9 considerado trem-bala. Para n\u00f3s, seria fant\u00e1stico ter trens de passageiros circulando a essa velocidade. Fotografei os trens na China atingindo 350 km\/h; o painel do vag\u00e3o anunciava a velocidade. Eles j\u00e1 fazem testes com trens que alcan\u00e7am mil quil\u00f4metros por hora. Como competir com isso?<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a capacidade da China. Os Estados Unidos n\u00e3o conseguir\u00e3o expuls\u00e1-la das Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p><strong>Qu\u00e3o longe estamos de uma Terceira Guerra Mundial? E qual seria o estopim que poderia incendiar essa situa\u00e7\u00e3o de vez?<\/strong><\/p>\n<p>Dei aula durante 25 anos na universidade e estou aposentado h\u00e1 dez. Os alunos sempre me faziam essa pergunta em momentos de tens\u00e3o internacional. Eu respondia categoricamente que n\u00e3o haveria uma Terceira Guerra Mundial. Hoje, eu j\u00e1 n\u00e3o daria essa mesma resposta. Contudo, tamb\u00e9m n\u00e3o diria que ela \u00e9 iminente.<\/p>\n<p>H\u00e1 um projeto claro da Uni\u00e3o Europeia de prepara\u00e7\u00e3o para uma terceira guerra, com data marcada para 2030. Eles querem enfrentar e, se poss\u00edvel, destruir a R\u00fassia. N\u00e3o teremos tempo de explicar as ra\u00edzes hist\u00f3ricas desse \u00f3dio \u00e0 R\u00fassia, pois perder\u00edamos o foco da entrevista. Mas a Uni\u00e3o Europeia planeja uma grande guerra, e o conflito na Ucr\u00e2nia \u00e9 o ensaio geral.<\/p>\n<p>Portanto, existe, sim, a possibilidade de uma grande guerra. As duas primeiras guerras mundiais ocorreram prioritariamente em territ\u00f3rio europeu. Livros de hist\u00f3ria chineses referem-se \u00e0 Primeira Guerra Mundial como uma guerra civil europeia, na qual os Estados Unidos, sob o governo de [Woodrow] Wilson, entraram muito tardiamente. A Segunda Guerra, sim, foi propriamente mundial, englobando o teatro de opera\u00e7\u00f5es no Pac\u00edfico com o Jap\u00e3o, a entrada da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, entre outros atores.<\/p>\n<p>Respondendo de forma objetiva sobre uma terceira guerra: quando a bomba at\u00f4mica foi criada, os f\u00edsicos da Universidade de Chicago idealizaram o Rel\u00f3gio do Ju\u00edzo Final, que hoje \u00e9 p\u00fablico e marca qu\u00e3o pr\u00f3ximos estamos da destrui\u00e7\u00e3o total do planeta. Atualmente, o rel\u00f3gio est\u00e1 a poucos segundos da meia-noite.<\/p>\n<p>Eu at\u00e9 suportaria uma guerra mundial convencional, mas ela jamais poderia ser nuclear. Gosto muito de ci\u00eancia de modo geral; sou astr\u00f4nomo amador. Embora seja da \u00e1rea de humanas, sempre questionei na universidade a divis\u00e3o rigorosa entre ci\u00eancias exatas e humanas. Considero-me um cientista, ponto. Questionavam o fato de eu ter cursado ci\u00eancias sociais, mas isso n\u00e3o me impede de gostar de f\u00edsica, qu\u00edmica e biologia. E eu gosto.<\/p>\n<p>Estamos vivendo essa situa\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica complexa, e uma guerra est\u00e1 em franca prepara\u00e7\u00e3o. O fundamental \u00e9 que ela n\u00e3o assuma car\u00e1ter nuclear. Cito a astronomia e a f\u00edsica para lembrar o Paradoxo de Fermi. [Enrico] Fermi foi um grande cientista que participou do Projeto Manhattan, respons\u00e1vel por criar a bomba at\u00f4mica. Cerca de cinco anos depois, no refeit\u00f3rio de Los Alamos, ele refletiu sobre os trilh\u00f5es de estrelas e planetas no universo e perguntou: \u201cOnde est\u00e1 todo mundo?\u201d. Esse questionamento entrou para a hist\u00f3ria como o Paradoxo de Fermi.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas hip\u00f3teses para explicar isso, e abordarei apenas uma: a teoria do Grande Filtro. Segundo ela, as civiliza\u00e7\u00f5es se desenvolvem at\u00e9 certo ponto e entram em um \u201cfunil\u201d tecnol\u00f3gico, acabando por se autodestruir. Sendo assim, o universo pode ser um grande cemit\u00e9rio de civiliza\u00e7\u00f5es que prosperaram at\u00e9 encontrarem esse filtro destrutivo.<\/p>\n<p>Estou intelectualmente preparado para uma terceira guerra, que pode vir a acontecer, e a Europa est\u00e1 se preparando para ela. Mas rogo para que n\u00e3o seja nuclear. Se for, entraremos nesse funil e a humanidade acabar\u00e1. Eu n\u00e3o quero que a humanidade acabe. Questiono-me se h\u00e1 alguma civiliza\u00e7\u00e3o no universo que tenha conseguido superar o Grande Filtro, ou seja, que tenha se desenvolvido sem se autodestruir; civiliza\u00e7\u00f5es que at\u00e9 fa\u00e7am guerra, mas sem recorrer a armas nucleares.<\/p>\n<p>Em resumo, h\u00e1 um preparo claro para a terceira guerra, cujo estopim pode ser o menor incidente poss\u00edvel. Na Europa, seria um ataque direto da OTAN \u00e0 R\u00fassia, algo que ainda n\u00e3o ocorreu. A Ucr\u00e2nia ataca o territ\u00f3rio russo utilizando m\u00edsseis e drones fabricados pela Uni\u00e3o Europeia, mas a R\u00fassia tem sido tolerante. Moscou sabe que os artefatos s\u00e3o europeus, mas restringe sua retalia\u00e7\u00e3o ao territ\u00f3rio ucraniano, pois entende que um ataque direto a Londres ou a Paris daria in\u00edcio \u00e0 terceira guerra mundial. Sem d\u00favida, o planejamento europeu visa a esse conflito direto para 2030.<\/p>\n<p>A n\u00e3o ser \u2014 e eu espero por isso \u2014 que os eleitores europeus recuperem a lucidez e removam do poder essa atual lideran\u00e7a. Setores do feminismo costumam vibrar com a elei\u00e7\u00e3o de qualquer mulher independentemente de sua ideologia, algo que n\u00e3o compreendo bem. Refiro-me n\u00e3o s\u00f3 a Kaja Kallas, mas tamb\u00e9m a Ursula von der Leyen, frequentemente rotulada de centro, mas que, na realidade, possui inclina\u00e7\u00f5es de extrema direita. Se essas lideran\u00e7as forem substitu\u00eddas por perfis mais arejados e progressistas, o cen\u00e1rio pode mudar. \u00c9 preciso suspender as san\u00e7\u00f5es contra a R\u00fassia, reintegrar o pa\u00eds ao conv\u00edvio da Uni\u00e3o Europeia e apostar no di\u00e1logo.<\/p>\n<p>A R\u00fassia \u00e9 um pa\u00eds maravilhoso e riqu\u00edssimo culturalmente. N\u00e3o \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o milenar, tem cerca de 700 anos, mas a sua hist\u00f3ria \u00e9 fascinante. A monarquia russa sempre disputou ostenta\u00e7\u00e3o, nobreza e eleg\u00e2ncia com as monarquias dos Habsburgo e da Inglaterra. Visitei os pal\u00e1cios russos; a imperatriz Catarina possu\u00eda pal\u00e1cios imensos, e um de seus favoritos contava com 50 quartos. As estruturas est\u00e3o perfeitamente preservadas. Para demonstrar riqueza e sofistica\u00e7\u00e3o, os russos contratavam pintores europeus famosos. Em vez de trazer quadros do Louvre, mandavam pintar afrescos diretamente nas paredes dos pal\u00e1cios. \u00c9 deslumbrante.<\/p>\n<p>Uma renova\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nos quadros da Uni\u00e3o Europeia seria a \u00fanica sa\u00edda diplom\u00e1tica. Contudo, as lideran\u00e7as atuais preferem fustigar a R\u00fassia, impondo-lhe 19 rodadas de san\u00e7\u00f5es sob a justificativa de que Moscou atacou a Ucr\u00e2nia. A R\u00fassia n\u00e3o atacou a Ucr\u00e2nia de forma gratuita; ela reagiu ao que o governo ucraniano fez durante oito anos no Donbass. Vladimir Putin, inclusive, foi duramente criticado internamente por ter esperado tanto tempo. Entre 10 e 20 mil russ\u00f3fonos foram mortos pelo governo ucraniano, cidad\u00e3os que, mesmo nascidos na Ucr\u00e2nia, eram filhos de russos e falavam apenas a l\u00edngua russa. O governo de Zelensky e seus antecessores bombardearam sistematicamente a regi\u00e3o do Donbass, resultando nesse massacre.<\/p>\n<p>O artigo 50 da Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas prev\u00ea que povos e pa\u00edses ter\u00e3o o direito de defender os seus nacionais, inclusive pelas armas. Quando a R\u00fassia invoca o artigo 50 do direito internacional, ela n\u00e3o invade a Ucr\u00e2nia: ela sai em defesa dos seus nacionais que moram no pa\u00eds vizinho. Isto n\u00e3o \u00e9 caracterizado pelo direito internacional como invas\u00e3o. A m\u00eddia e os seus analistas de plant\u00e3o caracterizaram o ato como invas\u00e3o, mas ele tem amparo no direito internacional: se voc\u00ea mata os meus nacionais, eu cruzo a fronteira para defend\u00ea-los. Isso est\u00e1 na Carta da ONU.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 incr\u00edvel como as ag\u00eancias internacionais criam essas narrativas e colocam a R\u00fassia como a grande inimiga da humanidade.<\/strong><\/p>\n<p>O mais impressionante \u00e9 que essa narrativa convence at\u00e9 mesmo uma parte dos nossos. Parcelas da esquerda atacaram a R\u00fassia quando ela defendeu o seu povo. Fiquei impressionado e acabei perdendo amizades de 50 anos porque essas pessoas passaram a atacar a R\u00fassia, chamando-a de imperialista. Cheguei a perguntar: qual manual voc\u00eas leram que caracteriza a R\u00fassia como imperialista por sair em defesa dos seus nacionais? Imperialismo \u00e9 a pr\u00e1tica dos Estados Unidos. A R\u00fassia est\u00e1 travando uma guerra contra a OTAN. Aquela \u00e9 uma guerra da OTAN contra a Federa\u00e7\u00e3o Russa; a Ucr\u00e2nia \u00e9 apenas um mero pretexto, uma procura\u00e7\u00e3o, uma guerra por <em>proxy<\/em>.<\/p>\n<hr>\n<p>Nota: <em>o artigo da Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas que trata da leg\u00edtima defesa \u00e9 o 51, aplic\u00e1vel no caso de ocorrer ataque armado contra um Estado membro. O artigo 50 versa sobre mat\u00e9ria diversa: o direito de um Estado terceiro, afetado economicamente por medidas coercitivas decididas pelo Conselho de Seguran\u00e7a, consultar o Conselho a respeito.<\/em><\/p>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Um m\u00eas antes de sua morte, nesta sexta (6\/8), analisou as principais tens\u00f5es geopol\u00edticas em entrevista in\u00e9dita ao <i>Outras Palavras<\/i><\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/historia-e-memoria\/um-adeus-a-lejeune-mirhan\/\">Um adeus a Lejeune Mirhan<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":99481,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[1140,79464,290,292,1102,1284,394,2977,1312,5488,1115,41,79310,73432,54,692,72136,5471,43,79465,79466,48336,372],"tags":[],"class_list":["post-99480","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brics","category-caminho-socialista","category-causa-palestina","category-china","category-desdolarizacao","category-ditadura","category-estados-unidos","category-estudantes","category-geopolitica","category-historia-e-memoria","category-imperialismo","category-ira","category-lejeune-mirhan","category-missoes-humanitarias","category-palestina","category-pcdob","category-petroleo-iraniano","category-politica-nacional","category-russia","category-sociologo-brasileiro","category-superpetroleiros","category-terceira-guerra-mundial","category-ucrania"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99480","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=99480"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99480\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/99481"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=99480"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=99480"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=99480"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}