{"id":99487,"date":"2026-08-10T18:21:16","date_gmt":"2026-08-10T21:21:16","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-politica-sem-culpa-da-direita\/"},"modified":"2026-08-10T18:21:16","modified_gmt":"2026-08-10T21:21:16","slug":"a-politica-sem-culpa-da-direita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-politica-sem-culpa-da-direita\/","title":{"rendered":"A pol\u00edtica sem culpa da direita"},"content":{"rendered":"<figure><figcaption>Foto: EFE\/Andr\u00e9 Borges<\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>O esc\u00e2ndalo mudou de fun\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>As grandes transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas raramente anunciam a pr\u00f3pria chegada. Elas preservam as institui\u00e7\u00f5es, mant\u00eam o vocabul\u00e1rio da democracia e reproduzem a apar\u00eancia da normalidade. O que muda \u00e9 mais dif\u00edcil de perceber. Mudam as rela\u00e7\u00f5es invis\u00edveis que organizam o comportamento coletivo.<\/p>\n<p>Foi isso que aconteceu com o esc\u00e2ndalo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Durante muito tempo, a den\u00fancia p\u00fablica de um ato de corrup\u00e7\u00e3o, de um abuso de poder ou de uma grave transgress\u00e3o \u00e9tica acionava um mecanismo relativamente previs\u00edvel de responsabiliza\u00e7\u00e3o. O esc\u00e2ndalo produzia desgaste, o desgaste comprometia a confian\u00e7a e a perda da confian\u00e7a limitava a capacidade de um l\u00edder preservar sua legitimidade. Essa rela\u00e7\u00e3o jamais foi autom\u00e1tica. A hist\u00f3ria sempre conheceu governantes capazes de sobreviver a crises profundas. O que existia era outra coisa: um horizonte compartilhado segundo o qual a acumula\u00e7\u00e3o de esc\u00e2ndalos elevava progressivamente o custo pol\u00edtico de permanecer ao lado do acusado.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Prancheta-4-6.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Prancheta-4-6.png 680w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2022\/12\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Esse horizonte come\u00e7ou a desaparecer. N\u00e3o porque a corrup\u00e7\u00e3o tenha deixado de existir, nem porque as den\u00fancias tenham perdido visibilidade. O que se alterou foi a maneira como elas passaram a ser incorporadas ao comportamento pol\u00edtico. Em vez de produzir afastamento, passaram frequentemente a fortalecer v\u00ednculos. Em vez de corroer lideran\u00e7as, consolidaram identidades. Em vez de ampliar o isolamento dos acusados, refor\u00e7aram comunidades inteiras organizadas em torno deles. O esc\u00e2ndalo permaneceu o mesmo. Mudaram as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que determinam seus efeitos.<\/p>\n<p>As interpreta\u00e7\u00f5es mais correntes continuam procurando respostas onde o problema j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1. Ora atribuem essa transforma\u00e7\u00e3o \u00e0 ignor\u00e2ncia do eleitor, ora ao poder das plataformas digitais, ora \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o da desinforma\u00e7\u00e3o. Nenhuma dessas explica\u00e7\u00f5es \u00e9 suficiente. Todas descrevem dimens\u00f5es importantes da realidade, mas permanecem prisioneiras da mesma premissa: a de que o esc\u00e2ndalo continua desempenhando a fun\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que desempenhava antes e que apenas alguns fatores externos passaram a impedir seu funcionamento. Talvez a hip\u00f3tese correta seja exatamente a inversa. Talvez n\u00e3o estejamos diante de um mecanismo interrompido, mas de um mecanismo transformado.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a desloca completamente a investiga\u00e7\u00e3o. O problema j\u00e1 n\u00e3o consiste em compreender por que determinados l\u00edderes sobrevivem aos esc\u00e2ndalos, mas por que o pr\u00f3prio esc\u00e2ndalo deixou de exercer a fun\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que desempenhou durante boa parte da experi\u00eancia democr\u00e1tica moderna. \u00c9 essa a hip\u00f3tese que organiza este ensaio. O esc\u00e2ndalo n\u00e3o perdeu import\u00e2ncia. Mudou de fun\u00e7\u00e3o. E, quando muda a fun\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do esc\u00e2ndalo, muda tamb\u00e9m a forma como a democracia produz responsabiliza\u00e7\u00e3o, pertencimento e poder.<\/p>\n<h3><strong>A reorganiza\u00e7\u00e3o da subjetividade pol\u00edtica<\/strong><\/h3>\n<p>Se o esc\u00e2ndalo mudou de fun\u00e7\u00e3o, a transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser explicada apenas pela pol\u00edtica institucional. Nenhuma sociedade altera t\u00e3o profundamente seus mecanismos de responsabiliza\u00e7\u00e3o porque determinados l\u00edderes aprenderam a comunicar melhor ou porque novas tecnologias passaram a circular informa\u00e7\u00f5es com maior velocidade. Mudan\u00e7as dessa natureza atingem um plano muito mais profundo. Elas reorganizam a maneira como indiv\u00edduos constroem v\u00ednculos, atribuem confian\u00e7a, reconhecem autoridades e produzem sentido para a experi\u00eancia coletiva. Antes de modificar elei\u00e7\u00f5es, modificam subjetividades.<\/p>\n<p>Esse deslocamento rompe uma das ilus\u00f5es mais persistentes da pol\u00edtica moderna. Costumamos imaginar que primeiro acreditamos e s\u00f3 depois agimos. A experi\u00eancia hist\u00f3rica sugere o inverso. Comportamentos n\u00e3o permanecem porque parecem verdadeiros. Permanecem porque ambientes inteiros aprendem a recompens\u00e1-los. \u00c9 nesse terreno que a pol\u00edtica deixa de ser apenas uma disputa entre ideias e passa a ser uma disputa pelas condi\u00e7\u00f5es que tornam determinados comportamentos mais prov\u00e1veis do que outros.<\/p>\n<p>Essa percep\u00e7\u00e3o aproxima a psicologia do problema cl\u00e1ssico da hegemonia. Nenhuma ordem social permanece porque convence continuamente todos os indiv\u00edduos. Ela se estabiliza quando determinados modos de perceber, interpretar e agir deixam de ser experimentados como escolhas e passam a parecer naturais. A hegemonia n\u00e3o habita apenas os discursos. Habita h\u00e1bitos, expectativas, rotinas, afetos e formas de reconhecimento que, repetidas diariamente, transformam rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas em evid\u00eancias aparentemente espont\u00e2neas. \u00c9 justamente nesse ponto que comportamento e hegemonia deixam de ser temas distintos. Ambos tratam da produ\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica daquilo que uma sociedade aprende a considerar normal.<\/p>\n<p>A identidade \u00e9 o ponto em que essa transforma\u00e7\u00e3o se torna politicamente decisiva. Nenhum indiv\u00edduo julga um esc\u00e2ndalo a partir de um vazio psicol\u00f3gico. Julga a partir dos v\u00ednculos que o reconhecem, das comunidades \u00e0s quais pertence e da posi\u00e7\u00e3o que ocupa dentro delas. Quando a identidade passa a organizar a experi\u00eancia pol\u00edtica, a den\u00fancia deixa de atingir apenas um l\u00edder. Atinge tamb\u00e9m aqueles que aprenderam a reconhecer parte de si mesmos nesse v\u00ednculo. \u00c9 nesse momento que defender um projeto pol\u00edtico pode ser vivido, antes de tudo, como uma forma de defender a pr\u00f3pria identidade.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/banner-outras-palavras-8m.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/banner-outras-palavras-8m.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2024\/03\/banner-outras-palavras-8m-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>\u00c9 por isso que den\u00fancias frequentemente deixam de produzir os efeitos esperados. N\u00e3o porque as pessoas ignorem os fatos, mas porque esses fatos chegam a indiv\u00edduos cuja experi\u00eancia pol\u00edtica j\u00e1 est\u00e1 organizada por v\u00ednculos afetivos, identidades coletivas e mecanismos permanentes de reconhecimento. A racionaliza\u00e7\u00e3o, descrita por Leon Festinger, e o desengajamento moral, desenvolvido por Albert Bandura, deixam de ser anomalias psicol\u00f3gicas para se tornarem respostas previs\u00edveis em ambientes que recompensam a fidelidade mais do que a revis\u00e3o cr\u00edtica das pr\u00f3prias posi\u00e7\u00f5es. O comportamento protege a identidade porque a identidade passou a organizar o comportamento.<\/p>\n<p>Seria um equ\u00edvoco, contudo, compreender esse processo como um fen\u00f4meno exclusivamente individual. A subjetividade n\u00e3o nasce encerrada na consci\u00eancia. Ela \u00e9 produzida nas rela\u00e7\u00f5es sociais, na linguagem, no trabalho, na cultura e nas formas concretas de participa\u00e7\u00e3o na vida coletiva. \u00c9 nesse terreno que a psicologia social cr\u00edtica de S\u00edlvia Lane e Mart\u00edn-Bar\u00f3 amplia decisivamente o problema. O sujeito n\u00e3o \u00e9 apenas algu\u00e9m que reage ao mundo. \u00c9 algu\u00e9m continuamente produzido por rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas de poder. Quando essas rela\u00e7\u00f5es se transformam, transformam-se tamb\u00e9m as formas pelas quais medo, confian\u00e7a, pertencimento e lealdade passam a organizar o comportamento pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Talvez essa seja a mudan\u00e7a menos vis\u00edvel da democracia contempor\u00e2nea. A disputa deixou de concentrar-se apenas na conquista da opini\u00e3o p\u00fablica. Ela passou a incidir sobre os pr\u00f3prios processos de forma\u00e7\u00e3o da subjetividade. Antes de convencer, tornou-se necess\u00e1rio organizar os ambientes nos quais as pessoas aprendem quem merece confian\u00e7a, quais v\u00ednculos devem ser preservados e que tipo de comportamento ser\u00e1 reconhecido como leg\u00edtimo. O centro de gravidade da pol\u00edtica deslocou-se silenciosamente da persuas\u00e3o para a produ\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es sociais que tornam a persuas\u00e3o quase desnecess\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que emerge a quest\u00e3o decisiva deste ensaio. Se a subjetividade passou a ser organizada por novas formas de refor\u00e7o, reconhecimento e pertencimento, quem reorganizou esse ambiente? \u00c9 essa pergunta que nos conduz ao verdadeiro centro da transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica contempor\u00e2nea.<\/p>\n<h3><strong>A arquitetura invis\u00edvel do comportamento<\/strong><\/h3>\n<p>Nenhuma transforma\u00e7\u00e3o descrita at\u00e9 aqui ocorreu espontaneamente. Se a subjetividade pol\u00edtica passou a organizar-se de outra maneira, \u00e9 porque tamb\u00e9m se transformaram os ambientes respons\u00e1veis por selecionar comportamentos, distribuir reconhecimento e produzir confian\u00e7a. Toda ordem social depende de uma arquitetura que orienta, de forma mais ou menos invis\u00edvel, aquilo que seus membros percebem como normal, desej\u00e1vel ou leg\u00edtimo. A novidade do capitalismo informacional n\u00e3o est\u00e1 apenas na capacidade de produzir informa\u00e7\u00e3o em escala in\u00e9dita. Est\u00e1 na capacidade de organizar, em tempo real, os ambientes onde essa informa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 interpretada.<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o decisiva n\u00e3o ocorreu na circula\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es, mas na reorganiza\u00e7\u00e3o dos ambientes onde elas passam a adquirir significado. \u00c9 esse deslocamento que denomino metaintermedia\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica. As plataformas deixaram de intermediar apenas conte\u00fados. Passaram a intermediar as pr\u00f3prias media\u00e7\u00f5es, selecionando antecipadamente os circuitos de confian\u00e7a, os enquadramentos da realidade e as comunidades de pertencimento. A consequ\u00eancia mais profunda dessa reorganiza\u00e7\u00e3o \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o cont\u00ednua da fric\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria ao pensamento cr\u00edtico. Quanto menor o intervalo entre est\u00edmulo e resposta, menor o espa\u00e7o para compara\u00e7\u00e3o, hesita\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o. A fric\u00e7\u00e3o zero deixa, assim, de ser apenas uma caracter\u00edstica t\u00e9cnica das plataformas. Torna-se a forma dominante de organiza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que emerge a ideologia da fric\u00e7\u00e3o zero. Toda experi\u00eancia cr\u00edtica depende de algum grau de atrito. A d\u00favida, a compara\u00e7\u00e3o, a demora e a hesita\u00e7\u00e3o n\u00e3o representam obst\u00e1culos ao pensamento democr\u00e1tico. Constituem sua condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia. A fric\u00e7\u00e3o obriga o sujeito a confrontar diferen\u00e7as, revisar certezas e sustentar a complexidade do real. A l\u00f3gica dominante das plataformas segue o caminho inverso. Seu objetivo permanente consiste em reduzir o intervalo entre est\u00edmulo e resposta, tornando a intera\u00e7\u00e3o cada vez mais fluida, previs\u00edvel e cont\u00ednua. O resultado n\u00e3o \u00e9 apenas uma acelera\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma transforma\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria ecologia cognitiva onde decis\u00f5es pol\u00edticas passam a ser produzidas.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a altera profundamente o funcionamento do esc\u00e2ndalo. A den\u00fancia j\u00e1 n\u00e3o chega a um espa\u00e7o aberto de delibera\u00e7\u00e3o. Ela desembarca em ambientes previamente organizados por v\u00ednculos afetivos, comunidades de confian\u00e7a e sistemas permanentes de refor\u00e7o. O fato continua importante, mas deixa de ocupar sozinho o centro da interpreta\u00e7\u00e3o. Antes que qualquer reflex\u00e3o se desenvolva, a arquitetura do ambiente j\u00e1 oferece enquadramentos, distribui recompensas simb\u00f3licas e orienta respostas emocionalmente est\u00e1veis. A disputa desloca-se do conte\u00fado da informa\u00e7\u00e3o para as condi\u00e7\u00f5es que determinam sua recep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Talvez seja esse o aspecto mais invis\u00edvel da pol\u00edtica contempor\u00e2nea. O poder j\u00e1 n\u00e3o depende apenas da capacidade de convencer. Depende, sobretudo, da capacidade de organizar os ambientes onde o convencimento se torna desnecess\u00e1rio. Quando pertencimento, reconhecimento e identidade passam a ser continuamente refor\u00e7ados por arquiteturas capazes de antecipar expectativas e reduzir a fric\u00e7\u00e3o cognitiva, o comportamento pol\u00edtico adquire uma estabilidade in\u00e9dita. A lealdade deixa de depender da for\u00e7a dos argumentos. Passa a depender da qualidade do ambiente que a sustenta.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente por isso que o esc\u00e2ndalo mudou de fun\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o encontrou apenas novos eleitores. Encontrou uma nova arquitetura do comportamento. E toda arquitetura produz, inevitavelmente, uma nova forma de poder.<\/p>\n<h3><strong>A pol\u00edtica sem culpa<\/strong><\/h3>\n<p>Toda ordem pol\u00edtica produz uma determinada economia moral. N\u00e3o porque elimine os conflitos ou uniformize consci\u00eancias, mas porque estabelece quais comportamentos ser\u00e3o reconhecidos, quais desvios ser\u00e3o tolerados e quais limites n\u00e3o poder\u00e3o ser ultrapassados sem consequ\u00eancias. Durante grande parte da experi\u00eancia democr\u00e1tica moderna, o esc\u00e2ndalo ocupou um lugar central nessa economia. Funcionava como um mecanismo de responsabiliza\u00e7\u00e3o p\u00fablica. N\u00e3o impedia a corrup\u00e7\u00e3o, nem garantia a integridade das institui\u00e7\u00f5es. Ainda assim, preservava a expectativa de que determinadas transgress\u00f5es produziriam custos pol\u00edticos capazes de limitar o exerc\u00edcio do poder.<\/p>\n<p>Essa expectativa deixou de organizar a democracia contempor\u00e2nea da mesma maneira.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a n\u00e3o reside na perda dos valores morais nem na incapacidade dos cidad\u00e3os de distinguir o certo do errado. Tampouco resulta exclusivamente da ascens\u00e3o das plataformas digitais ou da circula\u00e7\u00e3o de desinforma\u00e7\u00e3o. O que se transformou foi a arquitetura hist\u00f3rica que conecta julgamento moral, identidade, pertencimento e comportamento pol\u00edtico. A culpa continua existindo. A responsabiliza\u00e7\u00e3o continua sendo um ideal democr\u00e1tico. O que deixou de existir, em muitos contextos, foi a rela\u00e7\u00e3o relativamente direta entre uma den\u00fancia p\u00fablica e a reorganiza\u00e7\u00e3o do comportamento eleitoral.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente nesse deslocamento que o esc\u00e2ndalo muda de fun\u00e7\u00e3o. Quando comunidades pol\u00edticas passam a organizar-se em torno de identidades continuamente refor\u00e7adas por ambientes de reconhecimento permanente, a den\u00fancia deixa de representar apenas um fato que exige avalia\u00e7\u00e3o. Ela passa a disputar espa\u00e7o com v\u00ednculos afetivos, lealdades acumuladas e formas de pertencimento cuidadosamente produzidas ao longo do tempo. O comportamento deixa de responder prioritariamente \u00e0 gravidade da acusa\u00e7\u00e3o e passa a responder \u00e0s consequ\u00eancias sociais de aceit\u00e1-la ou rejeit\u00e1-la. A pol\u00edtica deixa de ser organizada principalmente pela culpa. Passa a ser organizada pela administra\u00e7\u00e3o do pertencimento.<\/p>\n<p>Talvez essa seja a transforma\u00e7\u00e3o mais profunda da democracia no s\u00e9culo XXI. O centro da disputa pol\u00edtica deslocou-se silenciosamente das institui\u00e7\u00f5es para a subjetividade. J\u00e1 n\u00e3o basta conquistar governos, maiorias parlamentares ou espa\u00e7os de comunica\u00e7\u00e3o. Torna-se decisivo organizar os ambientes onde identidades s\u00e3o produzidas, afetos s\u00e3o distribu\u00eddos e comportamentos s\u00e3o continuamente selecionados. \u00c9 nesse terreno que a extrema direita demonstrou uma capacidade estrat\u00e9gica superior \u00e0 de seus advers\u00e1rios. Sua principal vit\u00f3ria n\u00e3o consistiu em convencer milh\u00f5es de pessoas de que seus l\u00edderes s\u00e3o inocentes. Consistiu em construir ecossistemas sociais nos quais a lealdade produz mais reconhecimento do que a responsabiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa constata\u00e7\u00e3o possui consequ\u00eancias que ultrapassam em muito o destino eleitoral de qualquer lideran\u00e7a. Se o esc\u00e2ndalo deixou de cumprir a fun\u00e7\u00e3o disciplinadora que durante d\u00e9cadas estruturou parte da imagina\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, talvez n\u00e3o seja apenas a pol\u00edtica que esteja mudando. Talvez tenham mudado tamb\u00e9m as premissas sobre as quais continuam operando o jornalismo, o sistema de justi\u00e7a, os partidos e grande parte das institui\u00e7\u00f5es que ainda apostam na simples exposi\u00e7\u00e3o dos fatos como mecanismo suficiente de transforma\u00e7\u00e3o da realidade. A informa\u00e7\u00e3o permanece indispens\u00e1vel. Mas j\u00e1 n\u00e3o basta. Nenhuma democracia consegue sustentar-se apenas produzindo evid\u00eancias quando outras for\u00e7as passaram a organizar, antecipadamente, as condi\u00e7\u00f5es sob as quais essas evid\u00eancias ser\u00e3o percebidas.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que compreender o presente exige deslocar o olhar. O problema j\u00e1 n\u00e3o consiste apenas em denunciar mentiras, revelar esc\u00e2ndalos ou desmontar campanhas de desinforma\u00e7\u00e3o. Tudo isso continua indispens\u00e1vel. Mas a disputa decisiva deslocou-se para outro lugar: as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que organizam confian\u00e7a, pertencimento e lealdade. Enquanto continuarmos combatendo apenas as mensagens, permanecer\u00e1 intacta a arquitetura que produz seus efeitos.<\/p>\n<p>O esc\u00e2ndalo continua existindo. A corrup\u00e7\u00e3o continua existindo. A mentira continua existindo. O que deixou de existir foi a expectativa de que sua simples revela\u00e7\u00e3o bastasse para reorganizar o comportamento pol\u00edtico. Talvez essa seja a transforma\u00e7\u00e3o mais profunda da democracia contempor\u00e2nea. A maior vit\u00f3ria da extrema direita n\u00e3o foi convencer milh\u00f5es de pessoas de que seus l\u00edderes eram inocentes. Foi alterar as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas sob as quais a democracia produz lealdade.<\/p>\n<p><em>Ensaio publicado originalmente em<strong> <\/strong><\/em><em><u><strong>&lt;c\u00f3digo aberto&gt;<\/strong><\/u><\/em><\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. Fa\u00e7a parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post A pol\u00edtica sem culpa da direita appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/when-does-a-police-officer-become-a-killer-in-brazil\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">When does a police officer become a killer in Braz...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/saiba-o-que-muda-com-a-nova-politica-de-ensino-a-distancia-do-brasil\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Saiba o que muda com a nova pol\u00edtica de ensino a d...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/manifestantes-protestam-em-diversas-cidades-dos-eua-contra-assassinato-de-mulher-por-agente-de-imigracao\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Manifestantes protestam em diversas cidades dos EU...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/em-culto-no-pentagono-hegseth-cita-trecho-biblico-distorcido-no-filme-pulp-fiction\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Em culto no Pent\u00e1gono, Hegseth cita trecho b\u00edblico...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Houve um tempo em que grandes esc\u00e2ndalos destru\u00edam carreiras pol\u00edticas&#8230; Hoje, a den\u00fancia p\u00fablica n\u00e3o produz vergonha \u2013 mas valida\u00e7\u00e3o, pertencimento e v\u00ednculos mais fortes. Como as mil\u00edcias digitais movem rela\u00e7\u00f5es de medo, confian\u00e7a e lealdade<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/a-politica-sem-culpa-da-direita\/\">A pol\u00edtica sem culpa da direita<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":99488,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[2431,4047,114,2207,7052,696,17272,39864,356,2427,358,11,7173],"tags":[],"class_list":["post-99487","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-abuso-de-poder","category-algoritmo","category-bolsonarismo","category-corrupcao","category-direita-assanhada","category-eleicoes","category-escandalo-de-corrupcao","category-escandalo-politico","category-fake-news","category-flavio-bolsonaro","category-milicias-digitais","category-redes-sociais","category-ultradireita"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99487","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=99487"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99487\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/99488"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=99487"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=99487"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=99487"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}