{"id":99651,"date":"2026-08-11T15:25:12","date_gmt":"2026-08-11T18:25:12","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/quando-o-trabalho-nao-sustenta-a-vida\/"},"modified":"2026-08-11T15:25:12","modified_gmt":"2026-08-11T18:25:12","slug":"quando-o-trabalho-nao-sustenta-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/quando-o-trabalho-nao-sustenta-a-vida\/","title":{"rendered":"Quando o trabalho n\u00e3o sustenta a vida"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/photo_5177286353677388994_w-2048x1366.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/photo_5177286353677388994_w-1500x1000.jpg 1500w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/photo_5177286353677388994_w-300x200.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/photo_5177286353677388994_w-768x512.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/photo_5177286353677388994_w-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/photo_5177286353677388994_w-2048x1366.jpg 2048w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/photo_5177286353677388994_w-272x182.jpg 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><figcaption>Foto: Tonya Sarno Jordan<\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>O emprego como promessa de cidadania<\/strong><\/h3>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Existe uma rotina que se repete em milh\u00f5es de domic\u00edlios brasileiros e que raramente aparece nos indicadores com a nitidez que teria numa conversa de cozinha. A pessoa trabalha o m\u00eas inteiro. Paga condu\u00e7\u00e3o, g\u00e1s, aluguel, luz, comida que encarece antes de qualquer reajuste. No fim do ciclo, o que resta n\u00e3o forma reserva, n\u00e3o se converte em contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria regular, n\u00e3o autoriza interromper a atividade quando o corpo adoece. Quem vive assim est\u00e1 dentro do mercado de trabalho, e n\u00e3o fora dele, e ainda assim precisa administrar a doen\u00e7a como quem administra um atraso de conta, adiando o exame, tomando o rem\u00e9dio pela metade, voltando \u00e0 jornada antes da hora. A cena n\u00e3o \u00e9 excepcional. Ela descreve a forma corrente pela qual uma parte consider\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o brasileira transforma esfor\u00e7o em sobreviv\u00eancia sem conseguir transform\u00e1-lo em seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>O que essa rotina exp\u00f5e \u00e9 uma dissocia\u00e7\u00e3o que a linguagem p\u00fablica insiste em ignorar. Ter ocupa\u00e7\u00e3o, receber renda, possuir direitos, estar protegido diante dos riscos e dispor de tempo para cuidar e ser cuidado s\u00e3o coisas distintas, e no Brasil contempor\u00e2neo elas deixaram de caminhar juntas. Milh\u00f5es de pessoas cumprem a primeira condi\u00e7\u00e3o sem alcan\u00e7ar as demais. O trabalho n\u00e3o desapareceu nem perdeu centralidade. Permanece a fonte principal de renda da maioria e o eixo em torno do qual as fam\u00edlias organizam o dia, a semana e o pr\u00f3prio horizonte de futuro. O que se enfraqueceu foi o conjunto de mecanismos que fazia da atividade econ\u00f4mica uma porta de entrada para a prote\u00e7\u00e3o. O trabalho segue indispens\u00e1vel e cada vez menos suficiente, e essa dist\u00e2ncia entre o que ele exige e o que ele devolve \u00e9 o problema que organiza este texto.<\/p>\n<p>Vale lembrar como esses mecanismos se formaram. A prote\u00e7\u00e3o social moderna n\u00e3o nasceu de uma dedu\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria sobre justi\u00e7a. Nasceu do choque entre a industrializa\u00e7\u00e3o, que arrancou popula\u00e7\u00f5es inteiras da terra e as concentrou em cidades, e a descoberta pr\u00e1tica de que a doen\u00e7a, o acidente, o desemprego e a velhice n\u00e3o eram acidentes individuais, e sim eventos regulares de uma economia que precisava de trabalhadores vivos. Onde os trabalhadores se organizaram, empresas e Estado foram obrigados a assumir parte dos custos de reprodu\u00e7\u00e3o dessa for\u00e7a de trabalho. Onde n\u00e3o se organizaram, o custo permaneceu inteiro nas casas. Nada disso foi concedido. Foi arrancado em greves, em conflitos judiciais, em disputas parlamentares que duraram d\u00e9cadas, e por isso os direitos sociais t\u00eam a consist\u00eancia inst\u00e1vel de tudo aquilo que resulta de correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e pode ser revisto quando a correla\u00e7\u00e3o muda. A pesquisa comparada de Celia Kerstenetzky ajuda a desfazer um mal-entendido persistente sobre esse processo. Os pa\u00edses pioneiros do bem-estar social n\u00e3o eram pa\u00edses ricos quando come\u00e7aram, e v\u00e1rios deles usaram pol\u00edticas e institui\u00e7\u00f5es sociais como instrumento de desenvolvimento econ\u00f4mico, e n\u00e3o como recompensa por ele.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Prancheta-4-7.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Prancheta-4-7.png 680w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2022\/12\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A trajet\u00f3ria latino-americana seguiu outro desenho. No Brasil, a prote\u00e7\u00e3o foi constru\u00edda a partir do v\u00ednculo formal de emprego, o que significa que ela nasceu delimitada por uma fronteira. Marta Arretche descreve com precis\u00e3o o resultado. At\u00e9 1988, sa\u00fade e aposentadoria dependiam da inser\u00e7\u00e3o no mercado formal, e nos anos 1980 os trabalhadores com carteira representavam cerca de 40% da popula\u00e7\u00e3o ocupada.<sup>1<\/sup> Em 1981, mais da metade da for\u00e7a de trabalho n\u00e3o tinha emprego formal e, pelas regras ent\u00e3o vigentes, tampouco tinha direito \u00e0 assist\u00eancia m\u00e9dica e \u00e0 previd\u00eancia. Trabalhadores rurais, dom\u00e9sticos, aut\u00f4nomos prec\u00e1rios e a maior parte das mulheres ficaram do lado de fora. O universalismo prometido dependia de uma expans\u00e3o do assalariamento formal que nunca chegou a alcan\u00e7ar a sociedade inteira. Alexandre de Freitas Barbosa e Ricardo Amorim observam que o pa\u00eds operava um sistema de amparo de car\u00e1ter n\u00e3o compensat\u00f3rio, financiado por quem tinha trabalho assalariado e destinado apenas a quem tinha trabalho assalariado.<\/p>\n<p>O arranjo produziu direitos e hierarquias ao mesmo tempo. A carteira assinada foi conquista real, e conviveu com a produ\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de categorias inferiores de trabalhador. Protegidos e desprotegidos, formais e informais, trabalho reconhecido e trabalho invis\u00edvel. A divis\u00e3o sexual dessa arquitetura \u00e9 a menos discutida e talvez a mais duradoura. Luana Pinheiro e Carolina Tokarski recordam que os sistemas modernos de bem-estar se assentaram sobre o que a literatura chama de familismo, a suposi\u00e7\u00e3o de que as fam\u00edlias se organizavam em torno de homens provedores e mulheres cuidadoras, e que o trabalho gratuito das mulheres estaria sempre dispon\u00edvel para cobrir aquilo que o Estado n\u00e3o cobrisse. A cidadania social brasileira nasceu, assim, atada a uma forma de emprego que jamais se universalizou e apoiada num trabalho dom\u00e9stico que jamais foi contabilizado.<\/p>\n<h3><strong>Trabalhar j\u00e1 n\u00e3o basta<\/strong><\/h3>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 tentou romper essa depend\u00eancia. Ao instituir a seguridade social, ampliou a prote\u00e7\u00e3o para al\u00e9m da contribui\u00e7\u00e3o anterior e reconheceu direitos fundamentados tamb\u00e9m na cidadania e na necessidade social. Eduardo Fagnani e Fl\u00e1vio Tonelli Vaz sintetizam a mudan\u00e7a em tr\u00eas oposi\u00e7\u00f5es que estruturam o texto constitucional, a universalidade contra a focaliza\u00e7\u00e3o exclusiva, a seguridade social contra o seguro social e a quest\u00e3o social como direito de cidadania contra o assistencialismo. Na sa\u00fade, um sistema p\u00fablico, universal e gratuito substituiu um modelo de seguro que s\u00f3 atendia quem contribu\u00eda. Na previd\u00eancia, os trabalhadores rurais foram incorporados a benef\u00edcios desvinculados de uma trajet\u00f3ria individual e regular de contribui\u00e7\u00f5es, num pacto que reconheceu explicitamente que d\u00e9cadas de trabalho sem direitos n\u00e3o podiam ser tratadas como aus\u00eancia de trabalho. A opera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica era clara. Desatar a prote\u00e7\u00e3o do contrato de emprego, porque o contrato de emprego nunca havia chegado a todos.<\/p>\n<p>A promessa foi implementada pela metade. Jorge Abrah\u00e3o de Castro, examinando a evolu\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida entre 1990 e 2002,<sup>2<\/sup> encontra um per\u00edodo de poucas altera\u00e7\u00f5es no baixo bem-estar social da maioria da popula\u00e7\u00e3o, com informalidade em torno de 60% dos ocupados em meados da d\u00e9cada e cobertura previdenci\u00e1ria dos ativos em queda. A descentraliza\u00e7\u00e3o transferiu responsabilidades para munic\u00edpios de capacidade desigual. A filantropia permaneceu suprindo o que o poder p\u00fablico n\u00e3o organizava. O financiamento constitucionalmente vinculado passou a ser capturado por outras finalidades, movimento que a Desvincula\u00e7\u00e3o das Receitas da Uni\u00e3o institucionalizou a partir de 1994. Enquanto isso, os planos privados de sa\u00fade se expandiam sobre o sistema p\u00fablico, criando o que Arretche chama de dupla entrada, um mecanismo que favorece os estratos de renda mais alta sem que eles deixem de acessar o sistema universal. A universalidade jur\u00eddica conviveu com servi\u00e7os profundamente segmentados. Onde o munic\u00edpio tinha arrecada\u00e7\u00e3o, havia posto de sa\u00fade e creche. Onde n\u00e3o tinha, a mesma norma constitucional produzia fila, aus\u00eancia e improviso. Ter direito e conseguir exerc\u00ea-lo passaram a ser experi\u00eancias separadas por centenas de quil\u00f4metros.<\/p>\n<p>O ciclo dos anos 2000 foi o momento em que essas pe\u00e7as funcionaram de forma mais articulada. Castro registra, entre 2002 e 2014, crescimento real de 39% no rendimento m\u00e9dio do trabalho, cria\u00e7\u00e3o de mais de vinte milh\u00f5es de empregos formais, queda da informalidade de 58,3% para 46,4% dos ocupados e amplia\u00e7\u00e3o da cobertura previdenci\u00e1ria da popula\u00e7\u00e3o ativa de 61,7% para 72,5%. Fagnani e Vaz mostram que, no mesmo intervalo, o total de benef\u00edcios da seguridade que substituem renda passou de 24 para 37 milh\u00f5es, com crescimento em todos os segmentos, do urbano ao rural, da assist\u00eancia ao seguro-desemprego. O sal\u00e1rio m\u00ednimo funcionou como o fio que costurou o mercado de trabalho \u00e0 prote\u00e7\u00e3o social, j\u00e1 que dois ter\u00e7os dos benef\u00edcios substitutivos correspondiam ao piso. Arretche registra a estimativa, produzida por Brito, Foguel e Kerstenetzky, de que 64,3% da redu\u00e7\u00e3o da desigualdade de renda entre domic\u00edlios obtida de 1995 a 2014 se deveu \u00e0 pol\u00edtica de valoriza\u00e7\u00e3o do m\u00ednimo. Nenhum programa isolado explica o per\u00edodo. A renda do trabalho foi o elemento central, e as transfer\u00eancias n\u00e3o foram acess\u00f3rio.<\/p>\n<p>A partir de meados da d\u00e9cada de 2010, o arranjo se desfez com rapidez. Os dados reunidos por Castro descrevem a revers\u00e3o. A taxa m\u00e9dia anual de desocupa\u00e7\u00e3o atingiu 12% em 2018, correspondendo a 12,6 milh\u00f5es de pessoas, e o emprego com carteira foi o mais penalizado, perdendo dois milh\u00f5es de postos. O contingente de desalentados saltou de 1,5 para 4,2 milh\u00f5es. A subutiliza\u00e7\u00e3o por insufici\u00eancia de horas subiu de 4,9% para 6,6% da popula\u00e7\u00e3o ocupada. O n\u00famero de contribuintes da previd\u00eancia caiu de 59,5 milh\u00f5es em 2014 para 58,1 milh\u00f5es em 2017, o que significa que a desprote\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria voltou a crescer junto com a informalidade. A distribui\u00e7\u00e3o das perdas n\u00e3o foi proporcional. Em 2016, o 1% de maiores rendimentos ficou com 12% do total, praticamente o mesmo que os 40% de menores rendimentos, cuja participa\u00e7\u00e3o havia se reduzido.<\/p>\n<p>A pandemia acrescentou uma experi\u00eancia que ainda n\u00e3o foi digerida pelo debate p\u00fablico. Em 2020, uma transfer\u00eancia monet\u00e1ria de escala in\u00e9dita foi criada em meio \u00e0 maior contra\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea do trabalho remunerado da hist\u00f3ria recente, e a combina\u00e7\u00e3o produziu um resultado que desconcertou o senso comum econ\u00f4mico, com indicadores de pobreza e desigualdade recuando exatamente no ano em que o mercado de trabalho encolheu.<sup>3<\/sup> A leitura correta desse epis\u00f3dio \u00e9 dupla. Os dados tornam dif\u00edcil negar a capacidade distributiva imediata de uma pol\u00edtica de renda dessa escala. E a pol\u00edtica de renda n\u00e3o constr\u00f3i escola, n\u00e3o forma m\u00e9dico, n\u00e3o cria vaga de creche, n\u00e3o gera aposentadoria futura e n\u00e3o substitui a estrutura permanente de trabalho, servi\u00e7os e prote\u00e7\u00e3o que a sustenta. Opor emprego e benef\u00edcio \u00e9 um falso problema que atrapalha as duas discuss\u00f5es.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/15-8.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/15-8.png 680w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2025\/12\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Da\u00ed decorre a contradi\u00e7\u00e3o que atravessa o pa\u00eds h\u00e1 uma d\u00e9cada. Quanto menos o trabalho garante renda e seguran\u00e7a, mais as transfer\u00eancias passam a sustentar a vida cotidiana das fam\u00edlias mais pobres. E quanto mais as transfer\u00eancias sustentam a vida, mais essa depend\u00eancia \u00e9 convertida em acusa\u00e7\u00e3o moral contra quem depende delas. Fagnani e Vaz documentam que a campanha contra a seguridade social \u00e9 anterior \u00e0 sua implementa\u00e7\u00e3o e come\u00e7ou dentro da pr\u00f3pria Assembleia Constituinte, com a advert\u00eancia presidencial de que o pa\u00eds se tornaria ingovern\u00e1vel.<sup>4<\/sup> A opera\u00e7\u00e3o ret\u00f3rica \u00e9 eficiente porque desloca o foco. Discute-se o comportamento do benefici\u00e1rio e n\u00e3o a deteriora\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo de emprego que o produziu. O gr\u00e1fico abaixo mostra o que est\u00e1 sendo discutido quando se fala em pobres que vivem do Estado.<\/p>\n<h3><strong>Quando o trabalho encolhe na renda dos mais pobres<\/strong><\/h3>\n<p><em>Participa\u00e7\u00e3o do trabalho e dos programas sociais na renda dos domic\u00edlios com rendimento per capita de at\u00e9 um quarto do sal\u00e1rio m\u00ednimo<\/em><\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"862\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/imageeeee1-2048x1177.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/imageeeee1-1500x862.png 1500w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/imageeeee1-300x172.png 300w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/imageeeee1-768x442.png 768w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/imageeeee1-1536x883.png 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/imageeeee1-2048x1177.png 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><\/figure>\n<p>Nota: os percentuais n\u00e3o somam cem. As parcelas restantes correspondem a outras fontes de renda n\u00e3o representadas no gr\u00e1fico.<\/p>\n<p>Fonte: elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria com base em Leone (2025, p. 32), a partir dos dados da PNAD Cont\u00ednua.<\/p>\n<h3><strong>A economia oculta do cuidado<\/strong><\/h3>\n<p>O gr\u00e1fico responde a uma pergunta e abre outra. Entre 2012 e 2022, a renda do trabalho encolheu de 62,2% para 45,6% da renda dos domic\u00edlios mais pobres, enquanto os programas sociais subiram de 24,3% para 44,3%. A pergunta que se abre \u00e9 o que acontece dentro de uma casa quando o trabalho remunerado deixa de sustent\u00e1-la. A transfer\u00eancia cobre parte da diferen\u00e7a. O restante \u00e9 coberto pela redu\u00e7\u00e3o do consumo, pelo adiamento de despesas de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, pela mobiliza\u00e7\u00e3o de parentes e vizinhos e pela intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico n\u00e3o remunerado, que absorve tudo aquilo que deixou de ser comprado no mercado ou obtido no servi\u00e7o p\u00fablico. Cozinhar mais, deslocar-se mais, esperar mais em fila, cuidar de mais gente com menos recursos. Essas solu\u00e7\u00f5es n\u00e3o devem ser romantizadas. Elas funcionam porque algu\u00e9m trabalha mais, dorme menos e adia a pr\u00f3pria vida, e funcionam mal, porque cobram um pre\u00e7o que reaparece anos depois em sa\u00fade deteriorada e escolaridade interrompida. Essa absor\u00e7\u00e3o tem custo, tem rosto e tem sexo, e n\u00e3o aparece em nenhuma conta nacional.<\/p>\n<p>O trabalho de cuidado \u00e9 a infraestrutura invis\u00edvel sobre a qual a economia brasileira funciona. Cuidar de crian\u00e7as pequenas, de pessoas idosas, de doentes e de pessoas com defici\u00eancia \u00e9 o que permite que outros membros do domic\u00edlio saiam de casa e vendam sua for\u00e7a de trabalho. Quem prepara a comida, acompanha a consulta, administra o rem\u00e9dio e organiza a rotina escolar est\u00e1 produzindo a condi\u00e7\u00e3o de possibilidade do emprego alheio. Pinheiro e Tokarski chamam aten\u00e7\u00e3o para a consequ\u00eancia l\u00f3gica desse arranjo, que \u00e9 a possibilidade de o Estado se desresponsabilizar do campo da reprodu\u00e7\u00e3o social justamente porque conta com a disponibilidade gratuita das mulheres. O fato de esse trabalho n\u00e3o ser remunerado nunca significou que ele n\u00e3o tivesse custo. Significa apenas que o custo foi transferido para dentro das casas e para dentro de um \u00fanico g\u00eanero.<\/p>\n<p>A distribui\u00e7\u00e3o desse trabalho \u00e9 t\u00e3o desigual quanto a distribui\u00e7\u00e3o de renda, e obedece aos mesmos eixos. Segundo dados do IBGE para 2018, reunidos por Pinheiro e Tokarski, as mulheres brasileiras informavam dedicar cerca de 21 horas semanais aos afazeres dom\u00e9sticos e ao cuidado de pessoas, contra 11 horas dos homens. A diferen\u00e7a n\u00e3o se distribui por igual entre as mulheres. Aquelas com renda mais alta podem comprar no mercado parte do trabalho de reprodu\u00e7\u00e3o social, e quem vende esse trabalho s\u00e3o, majoritariamente, mulheres pobres e negras, que ao cuidarem das fam\u00edlias alheias precisam encontrar quem cuide das suas. Pinheiro e Tokarski descrevem esse circuito como uma oposi\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a e classe entre as pr\u00f3prias mulheres. Domic\u00edlios chefiados por mulheres com crian\u00e7as pequenas concentram a vers\u00e3o mais aguda do problema, porque neles a mesma pessoa \u00e9 respons\u00e1vel pela renda e pelo cuidado, o que empurra a inser\u00e7\u00e3o ocupacional para as jornadas parciais, para a informalidade e para a intermit\u00eancia.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de servi\u00e7os p\u00fablicos de cuidado atua diretamente sobre a possibilidade de trabalhar. Uma creche em hor\u00e1rio compat\u00edvel com a jornada, uma escola que funcione o dia inteiro, uma unidade de sa\u00fade que atenda sem exigir tr\u00eas dias de espera, uma aten\u00e7\u00e3o domiciliar para o idoso acamado, um transporte que n\u00e3o consuma quatro horas do dia. Cada um desses servi\u00e7os \u00e9, do ponto de vista de quem cuida, uma decis\u00e3o sobre permanecer ou n\u00e3o no mercado de trabalho. Pinheiro e Tokarski formulam a alternativa nos termos mais diretos.<\/p>\n<p>Na aus\u00eancia do Estado, ser\u00e3o as mulheres as que, nas fam\u00edlias, ser\u00e3o responsabilizadas por suprir a car\u00eancia, em especial, de pol\u00edticas de cuidados, como as relacionadas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o infantil, ao cuidado da popula\u00e7\u00e3o idosa ou de outros grupos socialmente vulner\u00e1veis. (PINHEIRO; TOKARSKI, 2020, p. 564)<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o que se imp\u00f5e \u00e9 que a separa\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica econ\u00f4mica e pol\u00edtica social \u00e9 uma conven\u00e7\u00e3o administrativa sem correspond\u00eancia na experi\u00eancia de quem trabalha. Sal\u00e1rio, jornada, previd\u00eancia, assist\u00eancia, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e cuidado determinam conjuntamente quem pode aceitar um emprego, quem pode recus\u00e1-lo, quem pode estudar \u00e0 noite, quem pode adoecer sem se arruinar e quem pode envelhecer sem depender de um filho. O mercado de trabalho utiliza todos os dias uma estrutura de reprodu\u00e7\u00e3o social que ele n\u00e3o financia e cujo custo n\u00e3o registra em nenhum balan\u00e7o. Quando essa estrutura \u00e9 reduzida, o custo n\u00e3o desaparece. Ele pode reaparecer como rotatividade, adoecimento, interrup\u00e7\u00e3o escolar e afastamento de mulheres do mercado de trabalho, e continua sendo pago por algu\u00e9m.<\/p>\n<h3><strong>Socializar os riscos, desmercantilizar a vida<\/strong><\/h3>\n<p>\u00c9 por isso que a austeridade precisa ser compreendida como algo mais do que corte de despesa. Ela \u00e9 um mecanismo de transfer\u00eancia de riscos. Quando servi\u00e7os, benef\u00edcios e capacidade estatal s\u00e3o reduzidos, o risco de adoecer, de envelhecer e de perder o emprego n\u00e3o diminui em nada. Ele apenas muda de endere\u00e7o. Passa para as fam\u00edlias, que absorvem o que o Estado deixou de fazer. Passa para as mulheres, que absorvem o que as fam\u00edlias precisam fazer. Passa para os trabalhadores informais, que n\u00e3o t\u00eam a quem recorrer quando param. Passa para os munic\u00edpios, que recebem a demanda sem receber o financiamento. Passa para as organiza\u00e7\u00f5es assistenciais, que voltam a ocupar o lugar da pol\u00edtica p\u00fablica. A Emenda Constitucional 95, aprovada em 2016, havia projetado essa transfer\u00eancia de riscos para um regime fiscal de vinte exerc\u00edcios. Embora substitu\u00edda em 2023, seus efeitos acumulados sobre as capacidades p\u00fablicas integram a trajet\u00f3ria examinada aqui, e Castro chama aten\u00e7\u00e3o para o que o congelamento significou em sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, \u00e1reas em que qualquer avan\u00e7o passava a depender da compress\u00e3o de outra \u00e1rea.<\/p>\n<p>A esse movimento soma-se a segmenta\u00e7\u00e3o mercantil da prote\u00e7\u00e3o. A sa\u00fade \u00e9 o caso mais leg\u00edvel. Mais de tr\u00eas quartos da popula\u00e7\u00e3o brasileira dependem exclusivamente do sistema p\u00fablico, e a ades\u00e3o a planos privados acompanha de perto a renda domiciliar. Arretche mostra que, em 2013, apenas 7% dos chefes de domic\u00edlio do quintil mais pobre declaravam contar com seguro privado, enquanto entre os 20% mais ricos as taxas superavam sistematicamente 60% dos domic\u00edlios. O que se produz a\u00ed ultrapassa a desigualdade de acesso e chega \u00e0 convers\u00e3o progressiva de bens que a Constitui\u00e7\u00e3o definiu como direitos em servi\u00e7os que se compram, comercializados por operadoras que extraem renda de uma necessidade que ningu\u00e9m pode adiar indefinidamente. O mesmo desenho se reproduz na previd\u00eancia complementar, no ensino privado e no cr\u00e9dito consignado que antecipa benef\u00edcio futuro para cobrir despesa presente.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia pol\u00edtica dessa segmenta\u00e7\u00e3o \u00e9 mais grave do que a econ\u00f4mica. Quando setores m\u00e9dios compram no mercado a prote\u00e7\u00e3o que o Estado n\u00e3o entrega, eles deixam de compartilhar a experi\u00eancia cotidiana dos servi\u00e7os p\u00fablicos. Culpar quem procura alternativa privada diante de um servi\u00e7o insuficiente seria in\u00fatil, j\u00e1 que qualquer fam\u00edlia faria o mesmo. O que interessa \u00e9 o efeito agregado dessas decis\u00f5es individuais. Quem n\u00e3o usa a fila do posto de sa\u00fade n\u00e3o sabe quanto tempo ela leva, e quem n\u00e3o sabe quanto tempo ela leva dificilmente vai defender o or\u00e7amento que a encurtaria. Formam-se dentro do mesmo pa\u00eds comunidades de destino diferentes, que enfrentam os mesmos riscos por caminhos que nunca se cruzam. Kerstenetzky mostra que o consenso pol\u00edtico em torno de uma tributa\u00e7\u00e3o elevada, nos pa\u00edses que o constru\u00edram, se enraizou precisamente no consumo conjunto de bens p\u00fablicos de qualidade.<\/p>\n<p>Reconstruir a prote\u00e7\u00e3o social \u00e9, por isso, um problema de correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as antes de ser um problema de desenho institucional. A hist\u00f3ria brasileira recente comprova a assimetria. Arretche demonstra que a inclus\u00e3o dos outsiders em 1988 foi obra de uma minoria progressista que soube usar as regras de delibera\u00e7\u00e3o da Constituinte, e Fagnani e Vaz documentam que as elites econ\u00f4micas jamais aceitaram aquele resultado e trabalham desde ent\u00e3o para desfaz\u00ea-lo. Nenhum arranjo institucional se sustenta sem uma coaliz\u00e3o capaz de defend\u00ea-lo, financi\u00e1-lo e control\u00e1-lo. Essa coaliz\u00e3o precisa reunir trabalhadores formais e informais, que hoje s\u00e3o apresentados como interesses opostos, as mulheres que sustentam a economia do cuidado, os usu\u00e1rios dos servi\u00e7os p\u00fablicos e os setores m\u00e9dios que ainda n\u00e3o perceberam que sua prote\u00e7\u00e3o privada \u00e9 mais fr\u00e1gil do que parece.<\/p>\n<p>As dire\u00e7\u00f5es poss\u00edveis formam uma \u00fanica arquitetura, e perdem sentido quando tratadas separadamente. Trabalho com remunera\u00e7\u00e3o e direitos, porque sem piso salarial e sem v\u00ednculo reconhecido nenhuma contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria se sustenta e nenhuma pol\u00edtica de renda deixa de ser remendo. Servi\u00e7os p\u00fablicos universais, porque sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o s\u00e3o as formas mais eficientes de renda indireta e as \u00fanicas capazes de manter setores sociais distintos dentro da mesma comunidade pol\u00edtica. Pol\u00edtica p\u00fablica de cuidado, porque creche, escola integral e aten\u00e7\u00e3o domiciliar s\u00e3o pol\u00edtica econ\u00f4mica no sentido mais estrito, j\u00e1 que determinam quantas pessoas podem trabalhar e em que condi\u00e7\u00f5es. Financiamento solid\u00e1rio, porque um sistema que cobra proporcionalmente mais de quem ganha menos financia a desigualdade que diz combater. A prote\u00e7\u00e3o social n\u00e3o \u00e9 o rem\u00e9dio aplicado depois que o mercado produz o dano. \u00c9 a condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via que define que tipo de economia se torna poss\u00edvel organizar.<\/p>\n<p>A cena do come\u00e7o permanece. A pessoa que trabalha o m\u00eas inteiro e n\u00e3o consegue parar quando adoece n\u00e3o est\u00e1 diante de um problema de disciplina financeira nem de escassez de vagas. Ela est\u00e1 pagando, sozinha e em sil\u00eancio, uma conta que deveria ser dividida. Paga com o exame adiado, com a aposentadoria que n\u00e3o vai existir, com as horas que sobram depois da jornada e que s\u00e3o consumidas cuidando de outra pessoa. Paga tamb\u00e9m com a certeza, aprendida cedo, de que pedir ajuda \u00e9 perder tempo. Uma sociedade pode funcionar assim por muito tempo, e o Brasil tem funcionado, sustentada por uma quantidade de esfor\u00e7o privado que nenhuma estat\u00edstica consegue medir. O que ela n\u00e3o pode \u00e9 chamar isso de normalidade e depois se espantar com o resultado. Quando trabalhar j\u00e1 n\u00e3o basta para sustentar a vida, a \u00fanica pergunta que importa \u00e9 se os riscos v\u00e3o continuar abandonados dentro de cada casa ou se voltar\u00e3o a ser tratados como responsabilidade de todos.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Fontes consultadas<\/strong><\/p>\n<p>ARRETCHE, Marta. Trinta anos da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988: raz\u00f5es para comemorar? Novos Estudos CEBRAP, S\u00e3o Paulo, v. 37, n. 3, p. 395-414, set.\/dez. 2018.<\/p>\n<p>BARBOSA, Alexandre de Freitas; AMORIM, Ricardo L. C. Desafios para o enfrentamento da desigualdade no Brasil. In: FONSECA, Ana Maria Medeiros da; FAGNANI, Eduardo (org.). Pol\u00edticas sociais, desenvolvimento e cidadania. S\u00e3o Paulo: Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, 2013. v. 1, p. 29-50.<\/p>\n<p>CASTRO, Jorge Abrah\u00e3o de. Evolu\u00e7\u00e3o do bem-estar social dos brasileiros: da expectativa cidad\u00e3 ao pren\u00fancio da barb\u00e1rie social. In: CASTRO, Jorge Abrah\u00e3o de; POCHMANN, Marcio (org.). Brasil: Estado social contra a barb\u00e1rie. S\u00e3o Paulo: Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, 2020. p. 207-230.<\/p>\n<p>FAGNANI, Eduardo; VAZ, Fl\u00e1vio Tonelli. Seguridade social, direitos constitucionais e desenvolvimento. In: FONSECA, Ana Maria Medeiros da; FAGNANI, Eduardo (org.). Pol\u00edticas sociais, desenvolvimento e cidadania. S\u00e3o Paulo: Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, 2013. v. 2, p. 93-115.<\/p>\n<p>KERSTENETZKY, Celia Lessa. O Estado do bem-estar social na idade da raz\u00e3o: a reinven\u00e7\u00e3o do Estado social no mundo contempor\u00e2neo. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.<\/p>\n<p>LEONE, Eugenia. Contexto 2010-2022: economia e mercado de trabalho: renda domiciliar e condi\u00e7\u00e3o de atividade de homens e mulheres. In: MONTALI, Lilia; TELLES, Stella; LEONE, Eugenia (org.). Ruptura, retrocesso e desigualdade: como entender o per\u00edodo intercensos 2010-2022? Campinas: NEPP\/Unicamp, 2025. p. 26-45.<\/p>\n<p>PINHEIRO, Luana; TOKARSKI, Carolina Pereira. Entre a crise do Estado de bem-estar social e a crise dos cuidados: onde est\u00e3o as mulheres nas reflex\u00f5es sobre a provis\u00e3o do bem-estar social? In: CASTRO, Jorge Abrah\u00e3o de; POCHMANN, Marcio (org.). Brasil: Estado social contra a barb\u00e1rie. S\u00e3o Paulo: Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, 2020. p. 563-590.<\/p>\n<p>1 O percentual relativo aos anos 1980 aparece em Arretche (2018, p. 399), que o extrai de Curi e Menezes Filho (2006). Esse \u00faltimo trabalho n\u00e3o foi consultado diretamente e a cita\u00e7\u00e3o \u00e9 indireta.<\/p>\n<p>2 A periodiza\u00e7\u00e3o dos ciclos de exclus\u00e3o e inclus\u00e3o social adotada neste artigo segue Castro (2020, p. 210-222).<\/p>\n<p>3 A an\u00e1lise dos efeitos distributivos de 2020 apoia-se na trajet\u00f3ria identificada pelos estudos consultados e deve ser lida como interpreta\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter excepcional da transfer\u00eancia emergencial. Para uma demonstra\u00e7\u00e3o quantitativa espec\u00edfica da evolu\u00e7\u00e3o da pobreza e da desigualdade entre 2012 e 2022, seria necess\u00e1rio incorporar diretamente estudo dedicado a essa s\u00e9rie.<\/p>\n<p>4 A tese do d\u00e9ficit previdenci\u00e1rio \u00e9 objeto de controv\u00e9rsia metodol\u00f3gica. Fagnani e Vaz (2013, p. 95-99) sustentam que o or\u00e7amento da seguridade social se manteve superavit\u00e1rio e que a forma de contabiliza\u00e7\u00e3o adotada pelos \u00f3rg\u00e3os de governo desde 1989 n\u00e3o observa o que determina a Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Quando o trabalho n\u00e3o sustenta a vida appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/apos-conversa-com-zelensky-trump-acena-para-trilateral-ao-lado-de-putin\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/gyp2ru8xaaafh7p-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Ap\u00f3s conversa com Zelensky, Trump acena para trila...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/no-brasil-a-direita-civilizada-ja-nasceu-morta\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">No Brasil, a direita civilizada j\u00e1 nasceu morta<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-lixo-do-pastor\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">O lixo do pastor<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/nenhum-presidente-tem-o-direito-impor-regras-a-outros-paises-diz-lula\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/lula-sanchez_Foto-Ricardo-Stuckert-_-PR1-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Nenhum presidente tem o direito impor regras a out...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por que o emprego deixou de garantir a seguran\u00e7a e cidadania \u00e0s fam\u00edlias. Como a mercantiliza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos agrava o problema, ao abocanhar uma fatia expressiva dos sal\u00e1rios. Os caminhos para o Estado ir al\u00e9m das pol\u00edticas de transfer\u00eancia de renda<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/trabalhoeprecariado\/quando-o-trabalho-nao-sustenta-a-vida\/\">Quando o trabalho n\u00e3o sustenta a vida<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":99652,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[264,1014,79531,4417,79532,1030,79533,1630,79534,1031,1569,4992,24725,9960,42972,79535,377,36323,5834],"tags":[],"class_list":["post-99651","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cidadania","category-classe-trabalhadora","category-desmercantilizacao-da-vida","category-distribuicao-de-renda","category-domicilios-brasileiros","category-emprego","category-garantia-de-renda","category-industrializacao","category-instituicoes-sociais","category-mercado-de-trabalho","category-pandemia","category-politica-economica","category-politica-social","category-seguridade-social","category-sobrevivencia","category-sustentar-a-vida","category-trabalho","category-trabalho-assalariado","category-trabalho-e-precariado"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99651","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=99651"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99651\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/99652"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=99651"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=99651"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=99651"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}