{"id":99833,"date":"2026-08-12T16:04:40","date_gmt":"2026-08-12T19:04:40","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cronica-sobre-parecer-vivo-na-era-digital\/"},"modified":"2026-08-12T16:04:40","modified_gmt":"2026-08-12T19:04:40","slug":"cronica-sobre-parecer-vivo-na-era-digital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cronica-sobre-parecer-vivo-na-era-digital\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica sobre parecer vivo na era digital"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"720\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/photo_5181545582550519049_y.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/photo_5181545582550519049_y.jpg 1200w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/photo_5181545582550519049_y-300x180.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/photo_5181545582550519049_y-768x461.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\"><figcaption>Imagem: Emiliano Ponzi<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Voc\u00ea tamb\u00e9m j\u00e1 sentiu uma impot\u00eancia alarmante, sobretudo tratando-se de um ato t\u00e3o corriqueiro quanto pensar? N\u00e3o tenho mais tempo h\u00e1bil para me dedicar \u00e0 verdadeira reflex\u00e3o e compreens\u00e3o de mim mesma. No m\u00e1ximo: me abro superficialmente com minha psic\u00f3loga \u2014 algo que ocorre raramente; ou penso em algo gen\u00e9rico ouvindo uma m\u00fasica. A cada instante que me deparo com uma pausa entre afazeres, estou submersa no telefone. Em que ponto paramos de usar nossos telefones como v\u00e1lvula de escape e ficamos completamente submersos nesta segunda realidade, em que constru\u00edmos nosso mundo e nossa vida por completo?<\/p>\n<p>La\u00e7os s\u00e3o formados e vidas s\u00e3o quebradas, tudo isso por meio de uma tela. Alienamo-nos de tal forma que, mesmo indiretamente, a realidade tornou-se uma parte secund\u00e1ria de nossas vidas. N\u00e3o me recordo da \u00faltima vez que senti t\u00e9dio ou at\u00e9 mesmo da \u00faltima vez que sa\u00ed com meus amigos e fam\u00edlia sem tocar uma \u00fanica vez no telefone. Rela\u00e7\u00f5es interpessoais foram diretamente afetadas pela necessidade de aceita\u00e7\u00e3o e status, entravando a profundidade e intimidade. V\u00ednculos se tornam mais ef\u00eameros e a conex\u00e3o menos intensa, o verdadeiro abre margem para o superficial e a felicidade genu\u00edna \u00e9 trocada pela dor da apar\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 percept\u00edvel que vivemos o que internautas das redes sociais popularizaram como a \u201cera da putaria\u201d, em que o pr\u00f3ximo \u00e9 visto como objeto sexual, visando ao prazer moment\u00e2neo e desumanizando-o.<\/p>\n<p>A pornografia, por exemplo, evidencia de forma clara a mercantiliza\u00e7\u00e3o dos corpos, permitindo que usu\u00e1rios de diferentes faixas et\u00e1rias acessem conte\u00fados que podem contribuir para a objetifica\u00e7\u00e3o do outro e para expectativas irreais acerca da sexualidade, podendo contribuir para rela\u00e7\u00f5es rom\u00e2nticas destes que consomem cada vez mais f\u00fateis e menos \u00edntimas. Zygmunt Bauman, ao desenvolver o conceito de modernidade l\u00edquida e suas reflex\u00f5es acerca do amor l\u00edquido, salientou a fragilidade e a efemeridade que atravessam rela\u00e7\u00f5es humanas, em que abrimos m\u00e3o do s\u00f3lido por v\u00ednculos facilmente substitu\u00edveis. A intimidade n\u00e3o mais \u00e9 tratada como um ato de extrema profundidade, mas sim como satisfa\u00e7\u00e3o imediata que nos traz o vislumbre do preenchimento.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/14-1-8.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/14-1-8.png 680w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2025\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A mesma l\u00f3gica das rela\u00e7\u00f5es substitu\u00edveis implica no \u00e2mbito individual, transformando a utilidade do ser em um par\u00e2metro de valor.<\/p>\n<p>Byung-Chul Han, em sua obra A Sociedade do Cansa\u00e7o, ilustrou-nos com clareza o peso da nossa sociedade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 falta de t\u00e9dio, \u00e0 cobran\u00e7a excessiva e \u00e0 imbeciliza\u00e7\u00e3o do pensamento que vem ocorrendo de maneira alarmante. Neste livro, salienta-se a m\u00e1 vis\u00e3o que temos acerca do sentimento de tristeza e retrata-a como uma emo\u00e7\u00e3o que nos limita, entravando-nos a dar o m\u00e1ximo em prol do desempenho e da produ\u00e7\u00e3o. Por isso, reprimimos a emo\u00e7\u00e3o e, quando ela de fato bate \u00e0 porta, nos refugiamos em prazeres moment\u00e2neos ao inv\u00e9s de digerir esta dor. N\u00f3s n\u00e3o mais vivemos por n\u00f3s, mas sim em prol de uma tela, na realidade n\u00f3s sobrevivemos \u00e0 nossa dura exist\u00eancia com defeitos e dores que nos assustam.<\/p>\n<p>Na contemporaneidade e com o avan\u00e7o da tecnologia, formou-se uma imagem ilus\u00f3ria tanto em redes quanto no nosso pr\u00f3prio imagin\u00e1rio de vida perfeita, a qual tomou espa\u00e7o numa sociedade em que a necessidade enraizada de darmos o nosso m\u00e1ximo cresce.<\/p>\n<p>Voc\u00ea tamb\u00e9m j\u00e1 se sentiu preso, em algum momento de sua vida, dentro deste ciclo vicioso regido pela tentativa de um relacionamento, pela dificuldade em se apegar, pela frustra\u00e7\u00e3o e pelo esconderijo da solid\u00e3o no telefone. Procuramos ref\u00fagio em algo que nos fa\u00e7a escapar da realidade, e o que encontramos de forma mais democratizada e em larga escala s\u00e3o as redes sociais, que nos prendem como ratos em est\u00edmulos r\u00e1pidos que cada vez mais nos acostumam \u00e0 efemeridade. A performance no amor se intensifica uma vez que n\u00e3o podemos aparentar ser os \u00fanicos tristes, melanc\u00f3licos e solit\u00e1rios em uma contemporaneidade em eterno \u00eaxtase. O verdadeiro, o real, \u00e9 visto como mon\u00f3tono e se entregar por completo seria como demonstrar uma vulnerabilidade, trata-se de uma tristeza vista como uma fraqueza, como retratado na obra de Byung-Chul Han. O problema n\u00e3o reside apenas no instrumento, mas na transforma\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria exist\u00eancia em uma apresenta\u00e7\u00e3o cont\u00ednua.<\/p>\n<p>O telefone afetou diretamente a constru\u00e7\u00e3o do verdadeiro v\u00ednculo: em vez de nos abrirmos, fortalecermos nossos la\u00e7os e termos conversas profundas com pessoas que nos entendem e podem nos auxiliar, preferimos rolar infinitamente conte\u00fados que prendem nossa aten\u00e7\u00e3o, que liberam picos de dopamina por interm\u00e9dio de est\u00edmulos r\u00e1pidos, nos fazendo sentir momentaneamente felizes; ou pior, desabafamos e transferimos nossas ang\u00fastias para uma intelig\u00eancia artificial, substituindo o real acolhimento humano.<\/p>\n<p>Mesmo refletindo sobre isto, n\u00e3o vejo como resolver este problema, j\u00e1 que cada vez mais somos puxados por um \u00edm\u00e3 do capitalismo e da l\u00f3gica dos bens materiais. Tratar deste assunto t\u00e3o ami\u00fade na contemporaneidade em uma esfera individual faz-se ing\u00eanuo, at\u00e9 porque este v\u00edcio na dopamina barata beneficia um sistema deveras maior, que nos ocupa a mente e nos faz ser quem somos.<\/p>\n<p>Como representado em Clube da Luta, os bens materiais regem, mesmo que subjetivamente, quem somos, o quanto valemos socialmente, nossa identidade e com quem devemos nos relacionar.<\/p>\n<p>O status de determinado indiv\u00edduo passa a ser associado como corol\u00e1rio ao lugar onde mora, seu telefone, como se veste, e \u00e0 apar\u00eancia que carrega, n\u00e3o de acordo com o seu car\u00e1ter e princ\u00edpios. A personalidade foi deixada em segundo plano; o que de fato consideramos importante \u00e9 o valor atribu\u00eddo aos bens que possui, sua capacidade de compra e seu ac\u00famulo de capital.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/curso-rosa-luxemburgo-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/curso-rosa-luxemburgo-1.png 728w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2024\/04\/curso-rosa-luxemburgo-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Mais do que um problema restrito aos celulares, o que vivenciamos \u00e9 uma fome crescente por aceita\u00e7\u00e3o e consumo \u2014 o foco n\u00e3o \u00e9 mais viver, mas parecer vivo para o pr\u00f3ximo. Nutrimos uma sede insaci\u00e1vel por mais, sempre \u00e0 espera da pr\u00f3xima notifica\u00e7\u00e3o ou do pr\u00f3ximo v\u00eddeo fugaz no feed.<\/p>\n<p>Em simbiose com nossa rela\u00e7\u00e3o aos dispositivos digitais e \u00e0s necessidades humanas como alimenta\u00e7\u00e3o e hidrata\u00e7\u00e3o, os bens materiais tamb\u00e9m alimentam essa compuls\u00e3o: precisamos consumir cada vez mais para pertencer, invertendo a l\u00f3gica da nossa pr\u00f3pria biologia e deixando de lado as necessidades b\u00e1sicas que de fato nos mant\u00eam vivos.<\/p>\n<p>Mas ent\u00e3o o que dever\u00edamos fazer, abdicar completamente dos prazeres da internet e viver tal qual Di\u00f3genes? Isso n\u00e3o \u00e9 uma resposta f\u00e1cil e imediata. No mundo das ideias de Plat\u00e3o, ter\u00edamos autocontrole sobre as m\u00eddias, saber\u00edamos o que e quando consumir determinado conte\u00fado, mas infelizmente, neste quesito, nos encontramos no mundo sens\u00edvel. A solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o se restringe ao abandono total dos eletr\u00f4nicos, mas atenuar a intensidade de seu uso. Enquanto n\u00e3o curarmos feridas profundas e encararmos a realidade, continuaremos sempre neste cen\u00e1rio melanc\u00f3lico marcada por prazeres imediatos e ilus\u00f3rios, nos afogando justamente naquilo que vai nos destruir. \u00c9 necess\u00e1rio pensar, refletir, e n\u00e3o buscar respostas simples e r\u00e1pidas a tudo que ocorre em nossas vidas; existem coisas de fato complexas e que intelig\u00eancias artificiais n\u00e3o podem curar.<\/p>\n<p>O tempo de tela deixou de representar apenas um per\u00edodo perdido diante das telas, tornou-se tamb\u00e9m um espa\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria apar\u00eancia, em que buscamos fazer com que os outros almejem uma vida que, por vezes, j\u00e1 n\u00e3o conseguimos experimentar por n\u00f3s mesmos. Por isso, devemos procurar, cada vez mais, sair deste limbo da modernidade l\u00edquida e da falta de reflex\u00e3o, abdicando do uso constante de celulares que, infalivelmente, estariam em nossas m\u00e3os a qualquer momento de relaxamento, evocando o qu\u00e3o necess\u00e1rio \u00e9 vivenciar o mundo real. Antigamente us\u00e1vamos o telefone para nos refugiar da realidade, hoje nos refugiamos do telefone na realidade.<\/p>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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A vida reduzida a apar\u00eancia: o que Bauman e Byung-Chul Han me ensinaram sobre ela <\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/cronica-sobre-parecer-vivo-na-era-digital\/\">Cr\u00f4nica sobre parecer vivo na era digital<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":99834,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[6803,8993,2007,79683,2687,79684,79685,1228,79686,26679,11,35,40542,79687,79688],"tags":[],"class_list":["post-99833","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alienacao","category-byung-chul-han","category-celulares","category-construcao-de-vinculo","category-crise-civilizatoria","category-dispositivos-digitais","category-impotencia","category-inteligencia-artificial","category-mercantilizacao-dos-corpos","category-modernidade-liquida","category-redes-sociais","category-tecnologia","category-tempo-de-tela","category-tristeza","category-valvula-de-escape"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99833","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=99833"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99833\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/99834"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=99833"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=99833"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=99833"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}