{"id":99881,"date":"2026-08-13T04:00:00","date_gmt":"2026-08-13T07:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/fazer-falar-os-ossos-a-rotina-de-quem-procura-os-desaparecidos-da-ditadura\/"},"modified":"2026-08-13T04:00:00","modified_gmt":"2026-08-13T07:00:00","slug":"fazer-falar-os-ossos-a-rotina-de-quem-procura-os-desaparecidos-da-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/fazer-falar-os-ossos-a-rotina-de-quem-procura-os-desaparecidos-da-ditadura\/","title":{"rendered":"Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura"},"content":{"rendered":"<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<p>Sobre uma toalha azul, os ossos ficam dispostos em fileiras, alguns identificados por tiras de fita adesiva branca. S\u00e3o f\u00eamures alinhados por tamanho, v\u00e9rtebras em sequ\u00eancia, alguns cr\u00e2nios. Ao fundo, a parede exibe retratos de pessoas em preto e branco e traz a pergunta: \u201cOnde est\u00e3o os nossos desaparecidos?\u201d.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio faz parte do dia a dia do laborat\u00f3rio do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo que, desde 2022, tem filmado essa rotina dos peritos de luva que medem, giram e descrevem em voz alta fragmentos exumados de valas comuns. Agora, o material ser\u00e1 parte de uma exposi\u00e7\u00e3o in\u00e9dita: \u201cFazer falar os ossos: engajamentos presentes com o passado\u201d, que abre as portas em 14 de agosto no Centro MariAnt\u00f4nia, da USP, e fica em cartaz at\u00e9 27 de setembro em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a7d6b76b3c36\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a7d6b76b3c36\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" data-wp-bind--aria-label=\"state.thisImage.triggerButtonAriaLabel\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.thisImage.buttonRight\" data-wp-style--top=\"state.thisImage.buttonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Laborat\u00f3rio do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo<\/figcaption><\/figure>\n<p>A curadoria \u00e9 das linguistas Lorenza Mondada, de Basileia, e Fernanda Cruz, e do fil\u00f3sofo Edson Teles, da Unifesp. O que eles prop\u00f5em ao visitante n\u00e3o \u00e9 olhar para os mortos, mas sim para o trabalho de quem os procura.<\/p>\n<p>\u201cOs ossos nunca s\u00e3o apresentados de forma sensacionalista\u201d, diz Lorenza Mondada \u00e0 <strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong>. \u201cEles s\u00f3 s\u00e3o vis\u00edveis indiretamente, por meio de v\u00eddeos que mostram esse trabalho.\u201d A viol\u00eancia, argumenta a curadora, est\u00e1 no contexto: \u201ca ditadura brasileira que torturou, matou e desapareceu pessoas\u201d. O manuseio dos ossos pelos peritos \u00e9 \u201cum trabalho cotidiano, t\u00e9cnico e cient\u00edfico que se conecta com a hist\u00f3ria de um fragmento de osso, com a busca dos familiares e com o modo de funcionamento da repress\u00e3o, da produ\u00e7\u00e3o de falsos laudos, do sil\u00eancio do Estado\u201d, explica. <\/p>\n<p>A mostra nasceu do projeto hom\u00f4nimo, o Making Bones Talk, conduzido pela Unifesp e pela Universidade de Basileia, na Su\u00ed\u00e7a, com financiamento da Fapesp e da Swiss National Science Foundation.\u00a0<\/p>\n<h2><strong>Fazer falar os ossos<\/strong><\/h2>\n<p>O m\u00e9todo por tr\u00e1s das filmagens tem tradi\u00e7\u00e3o acad\u00eamica: etnometodologia e an\u00e1lise da conversa, campos que estudam como as pessoas produzem sentido nas intera\u00e7\u00f5es cotidianas. Aplicada a um laborat\u00f3rio forense, a situa\u00e7\u00e3o desloca a aten\u00e7\u00e3o do resultado (o laudo, a identifica\u00e7\u00e3o etc.) para o processo. As imagens s\u00e3o transcritas em detalhes, como, por exemplo, o modo como duas pessoas seguram o mesmo osso. \u00c9 da\u00ed que sai a est\u00e9tica da exposi\u00e7\u00e3o, avalia Mondada: \u201cna possibilidade de olhar o gesto repetido das m\u00e3os; no azul contrastante da toalha anat\u00f4mica que tamb\u00e9m deixa ver detalhes nos ossos; na leitura em voz alta sobre o desaparecimento sem pistas de um militante em um documento de arquivo\u201d.<\/p>\n<p>A pergunta do cartaz, \u201cFazer falar os ossos\u201d, organiza a mostra: \u201c\u00c9 uma pergunta dos familiares, mas n\u00e3o s\u00f3. Ela passa tamb\u00e9m a ser uma pergunta nossa, enquanto sociedade que se quer democr\u00e1tica e mais justa\u201d, argumenta Mondada.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a7d6b76b42c4\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a7d6b76b42c4\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" data-wp-bind--aria-label=\"state.thisImage.triggerButtonAriaLabel\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.thisImage.buttonRight\" data-wp-style--top=\"state.thisImage.buttonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Banner de divulga\u00e7\u00e3o da mostra \u201cFazer falar os ossos\u201d, do centro MariAntonia (USP)<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong><em>Servi\u00e7o<\/em><\/strong>: Centro MariAntonia (USP), rua Maria Ant\u00f4nia, 258, S\u00e3o Paulo. Abertura em 14 de agosto, \u00e0s 18h; visita\u00e7\u00e3o at\u00e9 27 de setembro, de ter\u00e7a a domingo, das 10h \u00e0s 18h. <strong>Entrada gratuita<\/strong>. <\/p>\n<h2><strong>A d\u00edvida impag\u00e1vel<\/strong><\/h2>\n<p>Edson Teles conhece a pergunta por dentro. Filho de militantes presos e torturados, foi levado, ainda crian\u00e7a, ao DOI-Codi de S\u00e3o Paulo com a irm\u00e3. Hoje coordena o CAAF, o centro que examina os ossos. Para ele, o que emerge das valas, 40 anos depois, diz mais sobre o presente do que sobre a morte. \u201cQuando uma sociedade n\u00e3o pode se despedir de seus mortos, os corpos ganham uma multiplicidade de sentidos\u201d, afirma \u00e0 <strong>P\u00fablica<\/strong>. Os restos que reaparecem agora \u201cdizem muito sobre o quanto o pa\u00eds tem uma d\u00edvida hist\u00f3rica com as v\u00edtimas da viol\u00eancia de Estado e sobre como esta d\u00edvida, praticamente impag\u00e1vel, exp\u00f5e a baixa qualidade de nossa democracia\u201d.<\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o com os vizinhos da Am\u00e9rica do Sul mede o tamanho do buraco. Argentina e Chile julgaram agentes de Estado, criaram programas permanentes de busca e abriram arquivos militares. No Brasil, nenhum agente da ditadura foi condenado, n\u00e3o h\u00e1 programa institucional de busca, os arquivos das For\u00e7as Armadas seguem fechados e o estatuto das institui\u00e7\u00f5es militares nunca foi revisto. Dos mais de 200 desaparecidos pol\u00edticos reconhecidos oficialmente, os identificados cabem em uma curta lista.<\/p>\n<p>Foi na aus\u00eancia do Estado que as fam\u00edlias constru\u00edram os primeiros acervos de prova, explica Teles: \u201cApesar de todos os bloqueios, conseguiram reunir uma extensa documenta\u00e7\u00e3o sobre as v\u00edtimas, ainda sem a participa\u00e7\u00e3o dos profissionais das ci\u00eancias forenses\u201d. Dessa mobiliza\u00e7\u00e3o nasceu o CAAF, instalado numa universidade p\u00fablica, com estrutura permanente, que investiga e forma pesquisadores ao mesmo tempo \u2014 um arranjo que Teles descreve como \u00fanico na Am\u00e9rica Latina e que manteve o trabalho de identifica\u00e7\u00e3o de p\u00e9, pela autonomia universit\u00e1ria, mesmo durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, defensor do per\u00edodo de exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a7d6b76b4836\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a7d6b76b4836\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" data-wp-bind--aria-label=\"state.thisImage.triggerButtonAriaLabel\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.thisImage.buttonRight\" data-wp-style--top=\"state.thisImage.buttonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Ditadura deixou d\u00edvida hist\u00f3rica impag\u00e1vel: Brasil ainda n\u00e3o puniu agentes nem identificou todos os desaparecidos<\/figcaption><\/figure>\n<h2><strong>Do laborat\u00f3rio \u00e0s empresas c\u00famplices da ditadura <\/strong><\/h2>\n<p>O mesmo CAAF produziu outra frente de prova. Com 55 pesquisadores e em parceria com o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF), o centro investigou a responsabilidade de empresas por viola\u00e7\u00f5es de direitos durante o regime. Os resultados foram antecipados pela <strong>P\u00fablica<\/strong> no especial \u201cEmpresas C\u00famplices da Ditadura\u201d, que mostrou a sala de interrogat\u00f3rio da Fiat em Betim, o monitoramento de funcion\u00e1rios pela Petrobras e as listas sujas da Mannesmann. Em maio deste ano, as controladoras da Mannesmann e da Belgo-Mineira passaram a negociar um termo de ajustamento de conduta com o MPF e o MPT. O levantamento traz outras empresas, como a Fiat, Companhia Docas de Santos, Itaipu, Josapar, Paranapanema, Cobrasma, Companhia Sider\u00fargica Nacional (CSN), Aracruz e Folha de S. Paulo.<\/p>\n<p>A antropologia forense, observa Teles, n\u00e3o serve s\u00f3 ao tribunal: alimenta \u201cdiferentes n\u00edveis do debate social e pol\u00edtico\u201d, do luto das fam\u00edlias ao dever de mem\u00f3ria e ajuda a mostrar o m\u00e9todo, n\u00e3o s\u00f3 o desfecho. Durante o per\u00edodo de exposi\u00e7\u00e3o haver\u00e1 exibi\u00e7\u00e3o de filmes, debates sobre a chamada virada forense, um curso aberto e uma mesa-redonda com familiares de desaparecidos. As mesmas pessoas que, h\u00e1 meio s\u00e9culo, come\u00e7aram a juntar as provas.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/tereza-cristina-ex-ministra-de-jair-bolsonaro-recusa-convite-de-flavio-para-vice-da-chapa\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Tereza Cristina, ex-ministra de Jair Bolsonaro, re...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/prova-nacional-docente-conheca-as-17-areas-de-conhecimento\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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