DEVEMOS NOS CONCENTRAR NAS REDES SOCIAIS, OU VAMOS PERDER A ELEIÇÃO

/ Editor: José Alfredo | Agência Rede PT Ribeirão
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Foto: Rede PT/JAC-IA

DEVEMOS NOS CONCENTRAR NAS REDES SOCIAIS, OU VAMOS PERDER A ELEIÇÃO

A disputa política mudou de território: sem presença permanente, linguagem própria e organização nas redes, a esquerda corre o risco de perder a batalha da comunicação antes mesmo da abertura das urnas

Há momentos em uma campanha eleitoral em que é preciso parar de repetir aquilo que sempre fizemos e encarar a realidade como ela é.

Estamos vivendo um desses momentos.

Digo isso com a experiência de quem atravessou diferentes épocas da política brasileira, quando a comunicação era feita no mimeógrafo, no panfleto, no jornal partidário, no carro de som, nos comícios, no rádio e, depois, na televisão.

Cada geração teve o seu grande campo de batalha da comunicação.

E quem demorou para perceber onde estava esse campo de batalha pagou eleitoralmente por isso.

Hoje ele está, em grande medida, dentro de uma tela de celular.

Pode parecer uma afirmação exagerada. Não é.

No Brasil, havia cerca de 185 milhões de pessoas utilizando a internet no final de 2025. As estimativas apontavam aproximadamente 150 milhões de identidades ativas nas redes sociais. Entre os brasileiros adultos, a presença nas plataformas sociais alcançava proporções gigantescas.

Mais importante ainda: o Reuters Institute mostrou em 2026 que, no Brasil, as redes sociais já superavam a televisão em nove pontos percentuais como fonte semanal de notícias. E nada menos que 33% dos brasileiros pesquisados declaravam receber notícias de criadores de conteúdo ou influenciadores voltados principalmente para informação.

Portanto, não estamos falando de uma tendência futura.

Estamos falando do presente.

A POLÍTICA SEMPRE FOI TAMBÉM UMA DISPUTA PELA COMUNICAÇÃO

Getúlio Vargas compreendeu a força política do rádio.

Décadas depois, a televisão mudou profundamente a maneira de fazer campanhas eleitorais. No Brasil pós-ditadura, especialmente a partir da eleição presidencial de 1989, ninguém que pretendesse disputar seriamente o poder poderia ignorar a televisão.

Os programas eleitorais passaram a consumir enormes recursos humanos, políticos e financeiros. Montavam-se verdadeiras emissoras dentro das campanhas.

Estúdios, roteiristas, jornalistas, câmeras, diretores, pesquisas qualitativas, edição, produção.

Por quê?

Porque ali estava uma parte decisiva da audiência.

Era pela televisão que milhões de brasileiros conheciam os candidatos, ouviam suas propostas, formavam impressões e assistiam aos grandes confrontos políticos.

Mas o mundo mudou.

E talvez ainda não tenhamos compreendido inteiramente o tamanho dessa mudança.

Hoje, cada cidadão carrega no bolso sua própria televisão, seu próprio jornal, sua própria rádio e sua própria rede de contatos.

E, diferentemente da velha comunicação de massa, ele não apenas recebe informação.

Ele comenta. Compartilha. Contesta. Edita. Grava. Produz. Replica.

Transforma-se também em emissor.

Essa mudança não é tecnológica apenas.

Ela é política.

2018 DEVERIA TER NOS ENSINADO

Se existe uma eleição que deveria permanecer gravada na memória de qualquer dirigente político brasileiro, é a eleição presidencial de 2018.

Jair Bolsonaro possuía apenas alguns segundos de propaganda eleitoral diária na televisão no primeiro turno. Mesmo assim, construiu uma poderosa estrutura de comunicação digital.

O Reuters Institute registrou posteriormente o papel crucial desempenhado pelas redes sociais e pelos aplicativos de mensagens naquela campanha. Pesquisas acadêmicas também demonstraram a forte atuação das redes bolsonaristas, principalmente no WhatsApp, articuladas a conteúdos vindos do YouTube, Facebook e outras plataformas.

Podemos — e devemos — discutir os métodos utilizados.

Podemos denunciar a mentira, a manipulação, a indústria da desinformação e os ataques à democracia.

Mas existe uma conclusão estratégica que não podemos ignorar: Eles entenderam antes de nós que o centro da comunicação política estava mudando.

Esse erro não pode ser repetido.

Muito menos em 2026.

NÃO BASTA TER RAZÃO

Esse talvez seja um dos problemas históricos da esquerda.

Muitas vezes acreditamos que a força dos fatos, das realizações de governo, dos números econômicos ou da justeza de nossas propostas será suficiente para produzir consciência política.

Não será.

Uma política pública que ninguém conhece politicamente quase não existe no imaginário popular.

Uma obra que não é contada será apropriada por outro.

Um resultado econômico que não é explicado pode ser derrotado por uma mentira de quinze segundos.

Uma conquista social que não produz narrativa pode desaparecer dentro do turbilhão informacional.

Na política contemporânea, fazer e comunicar são dimensões inseparáveis da mesma disputa.

Não basta realizar.

É preciso disputar o significado daquilo que foi realizado.

Não basta apresentar números.

É preciso explicar o que eles representam na vida de quem trabalha, paga aluguel, compra comida, pega ônibus, cria filhos e sonha com um futuro melhor.

E isso precisa acontecer todos os dias.

Não apenas durante o horário eleitoral.

A REDE NÃO É UM MURAL ELETRÔNICO

Também precisamos abandonar uma visão antiga sobre redes sociais.

Rede social não é lugar para simplesmente pendurar card.

Não é mural eletrônico de partido.

Não é depósito de santinhos digitais.

Não adianta produzir uma arte, publicá-la em dez perfis institucionais e imaginar que fizemos comunicação política.

As redes possuem linguagem própria.

Vídeo curto. Entrevista. Corte. Humor. Explicação. Bastidor. Resposta rápida. Transmissão ao vivo. Depoimento. Imagem forte. História humana.

Conteúdo que provoca conversa.

E, sobretudo, pessoas falando com pessoas.

A comunicação vertical — direção fala, militância escuta — perdeu enorme parte de sua capacidade.

A rede é horizontal, caótica, veloz e permanentemente disputada.

Quem não ocupar esse espaço deixará que outros expliquem quem somos.

E, na política, permitir que o adversário defina você é uma das maneiras mais rápidas de começar a perder uma eleição.

NÃO ESTOU PROPONDO ABANDONAR AS RUAS

Seria outro erro monumental.

Política sem povo vira publicidade.

Continuamos precisando de reuniões, plenárias, sindicatos, movimentos sociais, universidades, associações, igrejas, bairros, portas de fábrica, feiras, caminhadas, bandeiraços, comícios e conversa olho no olho.

A rua continua sendo insubstituível.

Mas hoje existe uma diferença fundamental: a rua precisa chegar à rede.

Uma boa atividade com cem pessoas pode alcançar dez mil.

Uma fala feita numa praça pode alcançar centenas de milhares.

Uma conversa com uma trabalhadora pode explicar uma política pública melhor do que uma peça publicitária milionária.

Uma caminhada pode produzir dezenas de conteúdos diferentes.

A militância física e a militância digital não são concorrentes.

São complementares.

A rua produz verdade, calor humano, pertencimento e mobilização.

A rede multiplica.

A fórmula é simples: Rede sem rua pode virar artificialidade.

Rua sem rede vira invisibilidade.

Precisamos das duas.

CADA MILITANTE PODE SER UM COMUNICADOR

Existe ainda uma vantagem extraordinária que o campo popular possui e que talvez não utilize plenamente: sua militância.

Nenhuma agência de publicidade é capaz de reproduzir a capilaridade de milhares de militantes espalhados pelos municípios brasileiros.

São professores, trabalhadores, estudantes, aposentados, sindicalistas, artistas, lideranças comunitárias, mulheres, jovens, dirigentes partidários, parlamentares.

Cada pessoa com um celular pode ajudar a construir uma gigantesca rede democrática de comunicação.

Não para reproduzir mecanicamente uma mensagem pronta.

Mas para traduzir uma mensagem política para seu bairro, sua profissão, sua comunidade e sua realidade.

É preciso formar essa militância. Orientar. Oferecer conteúdo. Disponibilizar informação confiável. Criar canais rápidos. Estimular criatividade.

Responder às mentiras antes que elas se consolidem.

Transformar apoiadores em produtores e distribuidores conscientes de informação.

Essa pode ser uma das maiores forças políticas de uma campanha popular.

A EXTREMA DIREITA NÃO VAI NOS ESPERAR

Enquanto discutimos se devemos ou não priorizar as redes, nossos adversários já estão nelas.

Todos os dias. Produzindo vídeos. Criando narrativas. Explorando medos. Construindo inimigos. Manipulando acontecimentos. Testando linguagens. Ocupando comentários. Criando comunidades.

A disputa política digital não acontece apenas quando publicamos.

Ela continua acontecendo quando estamos ausentes.

O vazio também comunica.

E quase sempre ele será ocupado pelo adversário.

Além disso, a eleição de 2026 acontece num ambiente ainda mais complexo, com inteligência artificial, conteúdos sintéticos e novas formas de manipulação audiovisual. Não por acaso, o Tribunal Superior Eleitoral atualizou suas normas para disciplinar o uso de IA, exigir identificação de determinados conteúdos manipulados e combater desinformação eleitoral.

Isso exige profissionalismo, rapidez e responsabilidade.

Não podemos combater mentira com mentira.

Nossa vantagem precisa ser justamente outra: Credibilidade, verdade, presença e capacidade de comunicação.

O TEMPO DA CAMPANHA COMEÇAR DEPOIS ACABOU

Há outra ideia que precisa morrer.

A ideia de que comunicação eleitoral começa quando começa oficialmente a campanha.

A disputa pela consciência política acontece durante todo o tempo.

As pessoas constroem suas percepções muito antes de entrarem na cabine de votação.

Quando a campanha formal chega, muitos sentimentos, rejeições, simpatias e narrativas já estão consolidados.

Quem aparece apenas na eleição sempre estará tentando recuperar terreno.

Comunicação política moderna exige presença permanente.

É preciso construir audiência antes de precisar dela.

Construir confiança antes de pedir voto.

Construir comunidade antes de pedir mobilização.

É UMA DECISÃO POLÍTICA, NÃO TECNOLÓGICA

Por isso, colocar as redes sociais no centro da estratégia não significa contratar meia dúzia de jovens para cuidar do Instagram.

Significa uma decisão da direção política. Significa orçamento. Equipe. Coordenação. Produção. Monitoramento. Formação. Agilidade.

Integração entre campanha, militância e comunicação.

Significa compreender que comunicação não é aquilo que acontece depois que a política decide.

Comunicação é parte da própria política.

Precisamos saber diariamente o que está acontecendo nas redes, quais temas mobilizam a sociedade, quais mentiras começam a circular, quais conteúdos estão crescendo e onde nossa mensagem não está chegando.

Não para sermos governados por algoritmos.

Mas para não sermos politicamente cegos diante deles.

A HISTÓRIA NÃO PERDOA QUEM CHEGA ATRASADO

Em todas as grandes mudanças tecnológicas da comunicação houve aqueles que perceberam cedo e aqueles que chegaram depois.

A história política está cheia de organizações que continuaram aperfeiçoando a ferramenta de ontem enquanto o adversário já dominava a ferramenta de amanhã.

Temos história. Temos militância. Temos realizações. Temos propostas. Temos lideranças. Temos capacidade de mobilização.

Mas nada disso elimina uma verdade incômoda:

se não conseguirmos conversar diariamente com milhões de brasileiros no ambiente em que eles passam parte importante de suas vidas, estaremos entregando ao adversário uma vantagem que talvez não consigamos recuperar nas últimas semanas da campanha.

Não proponho substituir a política pela internet.

Proponho colocar a internet a serviço da política.

Não proponho abandonar as ruas.

Proponho fazer cada rua chegar a milhões de telas.

Não proponho substituir militantes por influenciadores.

Proponho transformar nossa própria militância numa imensa rede de comunicação democrática.

A eleição de 2026 também será decidida nas urnas.

Mas a decisão que cada cidadão levará para a urna estará sendo construída muito antes — nas conversas de família, no trabalho, no bairro e, cada vez mais, naquilo que aparece todos os dias na palma de sua mão.

Precisamos compreender isso agora.

Porque depois poderá ser tarde.

Ou disputamos as redes sociais com inteligência, organização, criatividade e intensidade, ou correremos o risco de assistir novamente aos nossos adversários vencerem a batalha da comunicação antes mesmo de terminar a batalha eleitoral.

É hora de ocupar as ruas.

É hora de organizar o povo.

E é hora de disputar, com a mesma determinação, cada tela, cada rede e cada espaço onde o Brasil conversa consigo mesmo.

Se não fizermos isso, podemos perder a eleição.

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José Alfredo Carvalho foi vereador de Ribeirão Preto por três mandatos, entre 1993 e 2004, e atualmente é secretário de Finanças e Planejamento do PT de Ribeirão Preto. Seja Companheiro, faça sua doação ao PT de Ribeirão Preto

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