Haddad mobiliza Ribeirão e coloca o interior no centro da disputa por São Paulo
Fotos: Diogo Zacarias
Em intensa agenda na sexta-feira (14), candidato ao Governo de São Paulo enfrentou sabatinas, dialogou com diferentes setores da sociedade, visitou trabalhadores da Nova Smar, em Sertãozinho, e encerrou o dia em ato político no Cine Clube Cauim. Ao longo da atividade, aproximadamente 500 pessoas passaram pelo local, segundo a organização
Fernando Haddad colocou Ribeirão Preto no centro da disputa pelo Governo de São Paulo na sexta-feira, 14 de agosto.
Em uma agenda intensa, que atravessou o dia, o candidato conversou com
jornalistas, trabalhadores, representantes de setores econômicos e lideranças políticas
e sociais. Falou de educação, segurança pública, desenvolvimento, agronegócio,
indústria e infraestrutura e encerrou a noite cercado pela militância no
histórico Cine Clube Cauim.
Não foi uma visita protocolar.
A passagem por Ribeirão e Sertãozinho materializou uma escolha política
da candidatura: São Paulo não será disputado apenas na capital. O interior
também está no centro da batalha pelo futuro do Estado.
A estratégia tem razão de ser. Em 2022, Haddad venceu Tarcísio de
Freitas na capital paulista, mas a vantagem obtida pelo atual governador fora
da Região Metropolitana foi determinante para o resultado estadual. Em 2026, a
candidatura petista decidiu ampliar sua presença justamente no interior.
Ribeirão Preto, uma das principais cidades paulistas e referência nacional do
agronegócio, ocupa posição estratégica nesse movimento.
Cara a cara com a
imprensa
Haddad começou a sexta-feira falando diretamente à população através dos
principais veículos de comunicação da cidade.
Na CBN Ribeirão Preto, abriu a série de sabatinas da emissora com
os candidatos ao Governo do Estado. Educação, segurança pública, universidades
estaduais, finanças e combate ao crime organizado estiveram entre os principais
assuntos abordados.
A educação ganhou destaque.
Haddad criticou a política educacional do governo Tarcísio e apontou o
excesso de plataformas, burocracia e conteúdos padronizados no cotidiano das
escolas estaduais.
No TH+ Cidade, foi direto:
“O projeto político-pedagógico do Tarcísio está errado, com muita plataforma, muita burocracia, muito slide e pouco livro, pouca interação com o professor, pouca valorização das professoras do Estado.”
Em contraposição, defendeu escola em tempo integral, fortalecimento da
educação profissional e valorização dos professores.
“Fator humano é o que resolve a educação”, resumiu.
Mais do que uma crítica administrativa, Haddad apresentou uma diferença
de concepção.
De um lado, uma política que progressivamente submete a escola a
plataformas e processos burocráticos. De outro, a defesa de que professor,
estudante e comunidade escolar voltem a ocupar o centro da educação pública
paulista.
Um plano completo
para o interior
Na entrevista ao Grupo Thathi, Haddad entrou também em um terreno que
setores conservadores costumam tentar apresentar como sua propriedade política:
o agronegócio.
Falou de pesquisa, estradas vicinais, pedágios, seguro rural, mudanças
climáticas, segurança hídrica e fortalecimento da Defesa Civil.
E apresentou a síntese de sua proposta:
“Nós temos um plano completo para o interior, que passa por reindustrialização, pela reforma tributária e apoio ao agro.”
Para Ribeirão Preto e região, essa discussão é especialmente importante.
Poucos lugares no Brasil expressam de maneira tão evidente a
possibilidade de integração entre agricultura de alta produtividade, indústria,
ciência, tecnologia, universidades e pesquisa.
O desafio é transformar essa enorme capacidade econômica também em desenvolvimento
social, empregos qualificados, melhores salários e oportunidades para quem vive
no interior.
O campo não precisa ser adversário da indústria. Ao contrário.
Máquinas, equipamentos, automação, biotecnologia, energia renovável e
pesquisa demonstram que uma agricultura forte pode caminhar ao lado de uma
política de reindustrialização.
E foi justamente em Sertãozinho que essa ideia ganhou uma expressão
concreta.
Do discurso ao chão
da fábrica
Na Nova Smar, Haddad entrou na fábrica, conheceu setores da produção e
conversou diretamente com os trabalhadores.
Ali encontrou muito mais do que uma empresa de automação industrial.
Encontrou uma experiência singular de recuperação empresarial,
preservação de tecnologia nacional e participação de trabalhadores credores na
propriedade da companhia.
E transformou a visita em dois compromissos: trabalhar pela
construção de uma legislação nacional inspirada na experiência da Nova Smar e
buscar uma agenda com o BNDES para discutir as condições de expansão da empresa.
A história completa está no box especial desta reportagem.
NOVA SMAR
Foto: Alysson Siffert
Haddad quer
transformar experiência de Sertãozinho em lei nacional
Candidato propõe construir modelo jurídico com
Jorge Roque e trabalhadores e assume compromisso de buscar o BNDES para apoiar
expansão da empresa
A passagem de Fernando Haddad pela Nova Smar revelou uma história que
ultrapassou os limites de uma agenda política.
Diante dos trabalhadores, Haddad assumiu o compromisso de trabalhar para
transformar a experiência construída em Sertãozinho em referência para uma
legislação nacional que permita a trabalhadores credores participar da
recuperação e do controle de empresas economicamente viáveis submetidas a
processos de falência ou recuperação judicial.
A proposta nasce de uma experiência concreta.
Fundada em 1974, a antiga Smar tornou-se referência brasileira em
automação industrial. Uma grave crise financeira levou à decretação de sua
falência em outubro de 2017, mas a continuidade da operação foi preservada e
abriu caminho para a criação da Nova Smar, com participação de trabalhadores e
ex-trabalhadores credores.
Em março deste ano, 765 credores da antiga empresa receberam R$ 28
milhões em ações da Nova Smar como pagamento parcial de créditos
trabalhistas.
A companhia chega a 2026 com aproximadamente 356 trabalhadores,
faturamento anual próximo de R$ 110 milhões e exportações para cerca de 70
países.
“Achamos o Jorge”
Durante a conversa com os trabalhadores, Haddad revelou que a
experiência da Smar já havia despertado sua atenção quando ocupava o Ministério
da Fazenda.
Segundo relatou, chegou a pedir a advogados da União que estudassem uma
alternativa legislativa que possibilitasse utilizar créditos de trabalhadores e
do poder público para preservar empresas economicamente viáveis, em vez de
simplesmente liquidar seu patrimônio. A iniciativa, naquele momento, não
avançou.
A história ganhou um componente especial na passagem pela região.
Na véspera da visita à fábrica, Haddad encontrou Jorge Augusto Roque
Souza, advogado ligado ao Sindicato dos Metalúrgicos de Sertãozinho e um
dos protagonistas da batalha jurídica envolvendo os trabalhadores da Smar.
Quando descobriu que estava diante de um dos responsáveis pela
construção daquela experiência, reagiu:
“E era o Jorge. Cadê o Jorge? Era o Jorge. Achamos o Jorge.”
Jorge teve atuação destacada na construção da solução jurídica e também
no processo posterior que ajudou a preservar o modelo quando a Nova Smar voltou
a correr risco de ser vendida.
“Nós vamos fazer junto essa lei”
Foi então que Haddad transformou o reconhecimento daquela experiência em
compromisso.
Convidou Jorge, os trabalhadores e os responsáveis pela arquitetura
jurídica da Nova Smar a participar da formulação de uma proposta que possa
servir a outras empresas brasileiras.
Para Haddad, o que ocorreu em Sertãozinho representa uma forma de “democratização
da propriedade” e pode oferecer uma alternativa a trabalhadores envolvidos
em processos de recuperação ou falência empresarial.
O raciocínio é poderoso pela simplicidade.
Uma fábrica desmontada vale muito menos que uma fábrica funcionando.
Quando máquinas e equipamentos são vendidos separadamente, perdem-se
elementos que não aparecem facilmente numa planilha: a marca, a carteira de
clientes, a tecnologia desenvolvida e, principalmente, o conhecimento acumulado
durante anos pelos trabalhadores.
Por isso, Haddad foi enfático:
“A experiência da Smar é uma experiência que não pode ser desperdiçada. Ela não pode ser um caso único.”
Crescer sem deixar
de ser brasileira
Os trabalhadores colocaram ainda outro desafio diante do candidato.
Depois de superar a disputa judicial e recuperar mercado, a Nova Smar
precisa de capital para ampliar sua capacidade produtiva e enfrentar grandes
multinacionais do setor de automação.
A preocupação é permitir o crescimento da companhia preservando uma
empresa brasileira, com tecnologia desenvolvida no país, sem que a necessidade
de capital termine por empurrá-la para a venda a um concorrente estrangeiro.
Haddad assumiu então seu segundo compromisso concreto: articular uma
agenda com o BNDES para que o banco conheça a experiência e avalie as
possibilidades de parceria com a empresa.
E fez questão de dar ao compromisso uma dimensão que ultrapassa a
disputa eleitoral:
“Não tem nada a ver com a eleição. Tem a ver com a consciência de que isso aqui não pode ser um caso único.”
Ao final, Haddad definiu o tamanho da ambição:
A Nova Smar pode se transformar em “um paradigma jurídico”.
Um modelo capaz de preservar empresas, empregos, conhecimento e tecnologia
e, ao mesmo tempo, permitir que trabalhadores credores tenham instrumentos para
participar da solução e da propriedade daquilo que ajudaram a construir.
A antiga Smar faliu.
A fábrica sobreviveu.
A tecnologia permaneceu brasileira.
Os trabalhadores tornaram-se acionistas.
Agora, o compromisso assumido por Fernando Haddad é trabalhar para que o
caminho aberto em Sertãozinho deixe de ser uma exceção e possa servir a
trabalhadores e empresas de todo o Brasil.
O Cauim virou
encontro da Frente Ampla
À noite, a agenda ganhou outra dimensão.

O histórico Cine Clube Cauim recebeu a plenária regional que reuniu a Federação Brasil da Esperança, partidos da Frente Ampla, movimentos sociais, dirigentes e militantes de Ribeirão Preto e de cidades de toda a região. O encontro estava previsto na agenda pública da passagem de Haddad pelo município.
Ao longo do ato, aproximadamente 500 pessoas passaram pelo local,
segundo a organização do evento.

É uma informação importante: trata-se do fluxo de participantes durante
toda a atividade, e não de uma estimativa de pessoas presentes simultaneamente
no auditório.
Mas números contam apenas uma parte da história.
O Cauim reuniu diferentes gerações da militância, sindicalistas, representantes
de movimentos sociais, lideranças partidárias, parlamentares e cidadãos
interessados em ouvir as propostas para São Paulo.

As imagens registram um ambiente vibrante: auditório ocupado, celulares
erguidos, manifestações da plateia e Haddad falando próximo das pessoas.
Um palco que
expressou a amplitude da construção
A composição do palco deu dimensão política ao encontro.

Ao lado de Fernando Haddad, candidato ao Governo de São Paulo, e Márcio França, candidato a vice-governador, participaram Sônia Guajajara e José Luiz Datena, candidatos à Câmara dos Deputados; Newton Lima, Duda Hidalgo e Perla Müller, candidatos à Assembleia Legislativa de São Paulo. As candidaturas estão registradas para a eleição de 2026.

Também estiveram no palco o ex-deputado federal Vicente Cândido; a vereadora Judeti Zilli; Gilson Pelizário, vereador e coordenador da Macro-Ribeirão; Edson Fedelino, presidente do PT de Ribeirão Preto; Fabinho Marques, secretário da Macro-Ribeirão; Luiz Turco, dirigente estadual do PT; e José Alfredo Carvalho, ex-vereador de Ribeirão Preto.
O ato foi apresentado por Márcio Coelho e Ana Favaretto.
E na recepção de quem chegava ao histórico espaço cultural estavam Fernando
Kaxassa e Odônio, do Cauim.
O registro desses nomes importa.
Uma campanha política não é construída apenas pelas figuras que ocupam o
centro do palco. Ela depende também de quem organiza, mobiliza, recebe,
apresenta, conversa, articula e transforma um encontro em movimento político.
Diversidade no centro do palco

A presença de Sônia Guajajara, deputada federal e candidata à
reeleição por São Paulo, acrescentou uma dimensão especialmente simbólica à
noite.
De cocar, microfone em mãos e diante de um público atento, Sônia
protagonizou algumas das imagens mais fortes do encontro.
A representação dos povos indígenas estava ali não como adereço ou
figuração, mas como parte de uma construção política que reivindica
diversidade, democracia, desenvolvimento sustentável e direitos.
Ao lado dela, Haddad acompanhava a intervenção.
Era uma fotografia da amplitude que aquela frente pretende representar.
O interior não tem
dono

Talvez esse tenha sido o principal recado político deixado pela
sexta-feira.
Durante anos, setores conservadores passaram a tratar o interior
paulista como se fosse território eleitoral reservado à direita.
Não é.
O interior paulista não tem dono.
O trabalhador de Ribeirão Preto quer emprego, salário e segurança.
O produtor rural precisa de pesquisa, estradas, crédito, seguro e água.
A família quer escola pública de qualidade e serviços que funcionem.
O empresário necessita de infraestrutura, crédito, inovação e mercado.
O jovem quer formação profissional, universidade e perspectiva de
futuro.
É nessa realidade concreta que uma candidatura progressista precisa disputar
corações e votos.
A passagem de Haddad por Ribeirão mostrou que essa disputa começou.
Uma cidade, vários
diálogos
Há ainda um aspecto que diferenciou a agenda.
Haddad não passou o dia falando apenas para quem já concorda com ele.
Sentou diante de jornalistas e respondeu perguntas. Falou sobre
agronegócio. Entrou numa indústria. Ouviu trabalhadores. Debateu
desenvolvimento. Encontrou dirigentes e movimentos sociais. E terminou a noite
diante da militância.
A CBN destacou educação, segurança, universidades e finanças. O Grupo
Thathi levou o debate para educação, agro e desenvolvimento do interior. E a
mobilização no Cauim mostrou o outro lado da passagem: a capacidade de
organização política em torno da candidatura.
É essa combinação — proposta, diálogo e mobilização — que transforma uma visita em fato político.
Lula lá. Haddad cá.
A disputa paulista está diretamente ligada ao projeto nacional.
São Paulo é o maior colégio eleitoral do Brasil. Construir uma
candidatura competitiva ao Governo do Estado significa apresentar aos paulistas
uma alternativa ao governo Tarcísio e, ao mesmo tempo, fortalecer o campo
político que sustenta a reeleição do presidente Lula.
Haddad e Márcio França representam essa construção na disputa estadual.
De um lado está a continuidade de um modelo que aposta fortemente nas
privatizações e na redução do papel estratégico do Estado.
Do outro, a proposta de recuperar a capacidade paulista de planejar,
investir e integrar agricultura, indústria, ciência, tecnologia, educação e
desenvolvimento social.
É uma disputa sobre que São Paulo queremos.
E ela não será decidida somente na capital.
Ribeirão entrou na
disputa
A sexta-feira começou diante dos microfones das emissoras.
Passou pelo debate sobre educação, agro e desenvolvimento.
Entrou no chão de uma fábrica em Sertãozinho e encontrou uma experiência
que Haddad quer transformar em referência nacional.
E terminou no Cine Clube Cauim, entre militância, lideranças e centenas
de pessoas que passaram pelo ato político ao longo da noite.
Quando Haddad deixou Ribeirão Preto, havia algo a mais do que quando
chegou.
Havia organização.
Havia mobilização.
E havia a demonstração de que o campo democrático e progressista está
disposto a disputar o interior paulista voto a voto, cidade por cidade.
Fernando Haddad veio a Ribeirão apresentar suas
propostas.
Ribeirão respondeu mostrando que está pronta para
entrar na disputa.
O interior paulista está em jogo.
E a batalha por São Paulo começou também por aqui.
José Alfredo Carvalho foi vereador de Ribeirão Preto por três mandatos, entre 1993 e 2004, e atualmente é secretário de Finanças e Planejamento do PT de Ribeirão Preto.
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