Heróis silenciosos x traidores fardados: como o Brasil segurou o golpe de 2022 – e por que isso importa agora
Fotos: Agência Rede PT Brasil IA
“O golpe não fracassou porque faltaram golpistas. Ele fracassou porque, em alguns pontos estratégicos do sistema, teve gente que disse ‘daqui não passa’. Se esses nós tivessem rompido, hoje talvez eu nem pudesse escrever este artigo.” — José Alfredo Carvalho
1. O julgamento que virou a chave: o “Núcleo 1” do golpe
Em setembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal concluiu o julgamento do chamado “Núcleo 1” da tentativa de golpe de Estado de 2022. Nessa primeira leva, foram condenados o ex-presidente Jair Bolsonaro e parte do seu núcleo duro político-militar por crimes contra o Estado Democrático de Direito, organização criminosa armada e destruição de patrimônio público.
Não se trata de uma decisão simbólica: é condenação com penas altas, com nome e sobrenome, e com início de cumprimento em regime fechado.
O STF enquadrou o grupo, principalmente, em dois tipos penais criados pela Lei 14.197/2021:
- Abolição violenta do Estado Democrático de Direito – quando se tenta, com violência ou grave ameaça, impedir ou restringir o funcionamento dos poderes constitucionais.
- Golpe de Estado – quando se tenta depor, também com violência ou grave ameaça, um governo legitimamente constituído.
Junto disso, apareceram ainda:
- Organização criminosa armada, pela estrutura montada para atacar as instituições.
- Dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado, pela destruição do patrimônio público no 8 de janeiro.
Na prática, o Supremo afirmou três coisas centrais:
- Houve um plano articulado, com divisão de tarefas, para impedir a posse de Lula e manter Bolsonaro no poder.
- Esse plano envolveu o uso de violência e grave ameaça contra o STF, o TSE, o Congresso e o próprio processo eleitoral.
- O 8 de janeiro não foi “protesto que saiu do controle”, mas parte de um roteiro de ataque à democracia.
O resultado concreto é que o chamado “Núcleo 1” do golpe – formado por Bolsonaro e alguns de seus generais e auxiliares mais próximos – entrou para a história como réu condenado por crimes de golpe de Estado.
“Do ponto de vista jurídico, não é disputa de narrativa: a própria letra da lei foi escrita pensando em gente que tenta fazer exatamente o que Bolsonaro tentou fazer. E foi aplicada no alvo certo.”
— José Alfredo Carvalho
2. Os heróis silenciosos que travaram a engrenagem
Enquanto o núcleo golpista é julgado e começa a cumprir pena, outra história vem à tona: a de quem recusou participar da ruptura. Uma história que quase não aparece nos holofotes, mas foi decisiva para o golpe fracassar.
Uma coluna recente resgatou esse grupo com o nome de “heróis silenciosos”: militares, policiais e um procurador que, em pontos estratégicos, puxaram o freio dentro do próprio aparato de Estado.
2.1. Freire Gomes: o “não” dito na cara do presidente
Na reunião de 7 de dezembro de 2022, no Palácio da Alvorada, Jair Bolsonaro levou à mesa a famosa minuta do golpe: um decreto para deslegitimar o resultado das urnas, atacar o STF e abrir caminho para medidas de exceção.
Na sala, estavam os comandantes das três Forças. Entre eles, o então comandante do Exército, general Marco Antônio Freire Gomes.
Os relatos que vieram à público apontam que Freire Gomes deixou claro que não colocaria o Exército a serviço de quartelada. E que insistir nessa direção poderia terminar na necessidade de reação institucional até contra o próprio presidente.
A partir daí, o general passou a ser alvo da máquina de ódio bolsonarista: ataques à honra, insinuações covardes, campanhas coordenadas nas redes. Ainda assim, o fato duro é um só: o Exército não se moveu na direção do golpe.
“Freire Gomes não é herói de esquerda, não é quadro democrático histórico. Mas, na hora H, escolheu não romper a ordem constitucional. A história vai registrar, goste a gente ou não.”
— JAC
2.2. Baptista Jr.: o brigadeiro que levantou da mesa
Na Aeronáutica, o gesto foi outro, mas igualmente simbólico. Em reunião convocada pelo então ministro da Defesa, quando o tema da minuta golpista volta à pauta, o tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior teria simplesmente se levantado e deixado a sala, sinalizando que a Força Aérea não embarcaria no plano.
O preço foi uma campanha diária de difamação: rótulos de “melancia”, “comunista” e “traidor” alimentados por políticos e militares ligados ao bolsonarismo.
Mas o recado era claro: sem Aeronáutica, sem golpe completo.
2.3. Os generais legalistas na mira da milícia digital
O mesmo texto aponta ainda outros generais que, por manterem posição institucional e rejeitarem a narrativa de fraude eleitoral, viraram alvo da rede de difamação bolsonarista:
- Tomás Miguel Ribeiro Paiva – então comandante militar do Sudeste.
- André Luis Novaes Miranda – comandante militar do Leste.
- Valério Stumpf – chefe do Estado-Maior do Exército.
- Richard Fernandez Nunes – comandante militar do Nordeste.
- Guido Amin Naves – chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército, responsável por relatório técnico enviado ao TSE confirmando a segurança das urnas eletrônicas.
Nenhum deles é conhecido da militância como referência democrática. Mas, ao segurar a linha institucional, ajudaram a desmontar a tese de fraude que servia de combustível para o golpe.
3. O procurador que “desarmou” o 7 de Setembro
Um ano antes da eleição, o risco já estava desenhado. Em 7 de setembro de 2021, com Bolsonaro insuflando policiais e flertando com ruptura, havia medo real de PMs armados sendo usados em ato político.
No Pará, o procurador da Justiça Militar Armando Brasil Teixeira fez o que se espera de um servidor público sério: exigiu planos claros das corregedorias da PM e dos bombeiros, cobrou regras e punições para coibir desvio disciplinar e articulou uma atuação preventiva coordenada com outros estados.
Resultado: aquele 7 de Setembro não virou confronto armado generalizado envolvendo agentes de Estado.
“Há um tipo de heroísmo republicano que não rende estátua. É o servidor que aperta um botão, manda um ofício, exige um plano e, com isso, impede o desastre. Sem espetáculo, sem live, sem super-herói.”
— JAC
4. Marco Teixeira e Marcela Pinno: a democracia na pele, no 8 de Janeiro
Em 8 de janeiro de 2023, a imagem que correu o mundo foi a da destruição: plenários depredados, vidraças estilhaçadas, obras de arte vandalizadas. No meio da barbárie, havia gente do lado certo, arriscando o corpo para conter a turba.
- O segundo-tenente Marco Teixeira, comandante do pelotão Patamo Alfa da PMDF, tentou segurar a avalanche de golpistas com pouco mais de vinte policiais, sem reforço compatível e sob risco real de linchamento.
- A cabo Marcela da Silva Morais Pinno foi arrastada, espancada e jogada da cúpula do Congresso, quase tendo sua arma tomada pelos invasores.
Marcela recebeu promoção por bravura. Mas nenhuma promoção repara o trauma físico e psicológico. São rostos concretos da pergunta mais simples de todas: de que lado você estava quando a democracia foi atacada?
5. O que a esquerda faz com isso?
A existência desses “heróis silenciosos” não apaga o problema central: as Forças Armadas brasileiras continuam marcadas por golpismo histórico, tutela sobre a política e resistência ao controle civil democrático.
Mas politicamente, a história é cheia de contradição:
- Houve um golpe em andamento, planejado e articulado, com uso de mentira, violência e chantagem institucional.
- Houve uma cúpula civil e militar traidora, hoje condenada, que decidiu atacar o Estado Democrático de Direito.
- Houve servidores – fardados e civis – que, sob pressão, resistiram dentro da máquina de Estado e impediram que o pior se consumasse.
A tarefa da esquerda não é transformar general em símbolo de heroísmo popular. É outra:
- Registrar esses nomes na memória democrática, para que a narrativa do golpe não seja contada só pelos seus defensores.
- Aproveitar as fissuras que apareceram para defender um programa de desmilitarização da política, fortalecimento do controle civil e reforma profunda das instituições.
“Se a gente fingir que todo mundo de farda é igual, entrega o debate nas mãos das viúvas da ditadura. Eu não quero Forças Armadas ‘de esquerda’; eu quero Forças Armadas submetidas à Constituição. E, nesse episódio, uma parte delas escolheu se submeter. A outra está descobrindo agora como é uma cela de verdade.”
— JAC
6. Mapa da cadeia: onde estão os traidores da pátria
Enquanto os heróis silenciosos seguem sem estátua, o núcleo duro do golpismo começa a se acostumar com um cenário novo: o da condenação e da prisão por crimes contra a democracia.
Num resumo simples, o quadro atual é este:
- Jair Messias Bolsonaro
- Ex-presidente da República.
- Condenado a 27 anos e 3 meses de prisão, em regime inicialmente fechado.
- Cumpre pena na Superintendência da Polícia Federal em Brasília.
- Walter Braga Netto
- General da reserva, ex-ministro da Defesa e ex-candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro.
- Condenado a 26 anos de prisão.
- Cumpre pena em unidade do Exército na Vila Militar, no Rio de Janeiro.
- Almir Garnier
- Almirante, ex-comandante da Marinha.
- Condenado a 24 anos de prisão.
- Preso em instalação da Marinha em Brasília.
- Augusto Heleno
- General da reserva, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional.
- Condenado a 21 anos de prisão.
- Recolhido em unidade militar no Comando Militar do Planalto, em Brasília.
- Paulo Sérgio Nogueira
- General da reserva, ex-ministro da Defesa.
- Condenado a 19 anos de prisão.
- Também cumpre pena sob custódia militar no Comando Militar do Planalto.
- Anderson Torres
- Ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança Pública do DF.
- Condenado a 24 anos de prisão.
- Cumpre pena sob custódia em unidade da Polícia Militar do Distrito Federal, vinculada ao complexo da Papuda.
- Alexandre Ramagem
- Delegado da Polícia Federal, ex-diretor da PF e ex-deputado federal.
- Condenado a 16 anos, 1 mês e 15 dias de prisão.
- Encontra-se foragido no exterior, com mandado de prisão expedido.
O núcleo político-militar que tentou sequestrar a democracia brasileira passa a conviver com a realidade que sempre achou que só valia para pobre e periférico: cadeia.
“Durante décadas, parte da elite repetiu que mexer com militar traz ‘instabilidade’. A ironia histórica é que, em 2025, quem responde por instabilidade institucional não é o movimento social, é general de quatro estrelas. E quem está atrás das grades por golpe de Estado não é militante de esquerda, é ex-presidente da República.”
— JAC
7. Heróis sem estátua, traidores com processo
Um autor falou dos “heróis invisíveis”: aqueles que evitam desastres que ninguém percebe que foram evitados. O Brasil tem hoje uma lista curta, mas decisiva, de nomes que cabem nessa definição.
São eles: Marco Antônio Freire Gomes, Carlos de Almeida Baptista Junior, Tomás Paiva, André Novaes, Valério Stumpf, Richard Nunes, Guido Amin, Armando Brasil Teixeira, Marco Teixeira, Marcela Pinno e tantos outros servidores anônimos que, em algum momento, simplesmente cumpriram a lei sob pressão.
Do outro lado, o maior traidor da pátria da nossa geração – Jair Messias Bolsonaro – começa a experimentar, dentro do sistema de Justiça que ele sempre tentou aparelhar, o que significa ser condenado por aquilo que fez.
“Nenhuma pena de prisão, por maior que seja, repara sozinho as mortes na pandemia, o ódio semeado e a violência política do bolsonarismo. Mas o Brasil está dizendo, em alto e bom som, que golpe de Estado não é mais ‘opinião política’, é crime – e dá cadeia.”
— JAC
A democracia brasileira ainda está longe de estar blindada. Mas, graças à luta aberta da classe trabalhadora, à resistência institucional e também a esses heróis silenciosos, ela segue de pé. E isso, num país com a nossa história, já é uma vitória gigante.
José Alfredo Carvalho é ex-vereador de 1993 a 2004, e, atual secretário de Finanças e Planejamento do PT de Ribeirão Preto-SP
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