O VOTO TARDIO PODE SER DECISIVO PARA LULA
Foto: Arquivo Rede PT/IA
Na reta final da eleição, o peso da incumbência, a concentração da disputa e a decisão tardia de milhões de eleitores podem ajudar a candidatura governista a ampliar seu espaço no primeiro turno
Há uma eleição acontecendo diante dos nossos olhos. E há outra que talvez só comece verdadeiramente nos últimos dias antes de 4 de outubro.
É sobre essa segunda eleição que precisamos falar.
Marcos Coimbra, sociólogo, cientista político e presidente do Instituto Vox Populi, chama atenção para um fenômeno conhecido por quem acompanha eleições brasileiras há décadas: milhões de brasileiros não vivem a política com a intensidade daqueles que acompanham diariamente pesquisas, debates, redes sociais e noticiários.
Uma parcela do eleitorado chega tarde à eleição.
E é justamente esse eleitor que poderá ter peso decisivo no resultado de
4 de outubro.
Coimbra sustenta que transformações importantes na preferência eleitoral
podem se consolidar apenas três ou quatro dias antes da votação. Para ele, a
divisão fundamental nesta reta final não estaria simplesmente entre esquerda e
direita, mas também entre o cidadão politizado, que há meses tem seu voto
definido, e aquele que começa somente agora a prestar atenção na disputa.
É nesse ponto que sua análise merece atenção especial.
Porque o eleitor tardio não necessariamente decide utilizando a mesma
lógica do eleitor militante.
Ele tende a olhar para sua vida.
Para o emprego.
Para o salário.
Para os preços.
Para os benefícios sociais.
Para as obras que chegaram à sua cidade.
Para as oportunidades oferecidas aos filhos.
Para aquilo que melhorou — ou não melhorou — durante os últimos anos.
E então compara.
QUEM GOVERNA TEM
ALGO QUE O ADVERSÁRIO NÃO TEM
Marcos Coimbra chama esse fenômeno de peso da incumbência.
Quem está no governo não apresenta apenas promessas.
Apresenta também um mandato.
Isso não garante voto nem assegura reeleição. Mas modifica a natureza da
escolha.
Segundo Coimbra, diante de um eleitor menos envolvido nas disputas
ideológicas e mais orientado pelas questões práticas do cotidiano, a
possibilidade de comparar realizações concretas com propostas futuras pode
adquirir grande importância na reta final.
Essa talvez seja uma das variáveis menos consideradas nas análises
eleitorais atuais.
Durante meses, nós que acompanhamos política discutimos pesquisas,
crises institucionais, declarações, redes sociais, estratégias eleitorais e
movimentos partidários.
Mas uma parte enorme da população está vivendo outra coisa.
Está trabalhando.
Pegando ônibus.
Pagando contas.
Comprando comida.
Levando os filhos à escola.
Procurando emprego.
Cuidando da família.
Para essa pessoa, a eleição muitas vezes começa quando faltam poucos
dias.
E quando finalmente começa, sua pergunta pode ser bastante simples:
Como estava minha vida e como ela está hoje?
APROVAÇÃO DE
GOVERNO NÃO É VOTO
Aqui está outro ponto importante levantado por Marcos Coimbra.
Durante toda campanha presidencial aparece uma tentativa de transformar
índices de aprovação do governo em uma espécie de teto eleitoral para o
presidente candidato à reeleição.
Mas são perguntas diferentes.
Quando uma pessoa avalia um governo, ela compara o desempenho daquele
governo com suas próprias expectativas.
Quando essa mesma pessoa entra na cabine de votação, a comparação muda.
Agora ela precisa escolher entre alternativas concretas.
Coimbra resume essa diferença de maneira bastante clara: avaliação é
essencialmente uma comparação entre aquilo que o eleitor esperava de Lula e
aquilo que recebeu; voto é uma comparação entre Lula e os adversários
disponíveis na urna.
Parece uma diferença pequena.
Não é.
Politicamente, é enorme.
Os números recentes mostram justamente que avaliação de governo e
intenção de voto não caminham mecanicamente juntas.
Na pesquisa Datafolha divulgada em 17 de setembro, Lula registrou 39%
das intenções de voto no primeiro turno e Flávio Bolsonaro, 36%. Outros
institutos encontraram percentuais diferentes: Quaest registrou 36% a 31%,
enquanto BTG/Nexus apontou 42% a 37%. As diferenças estão relacionadas também
às metodologias utilizadas, e os levantamentos recentes descrevem uma disputa
competitiva entre os dois primeiros colocados.
Portanto, a eleição permanece em movimento.
A DISPUTA ESTÁ SE
CONCENTRANDO
Há ainda outro componente importante na análise de Coimbra.
As candidaturas colocadas fora dos dois principais polos registram
percentuais significativamente menores.
Na Quaest divulgada em 14 de setembro, Lula aparecia com 36%, Flávio
Bolsonaro com 31% e Augusto Cury com 7%. Os demais nomes estavam abaixo disso.
Coimbra interpreta esse quadro como um enfraquecimento progressivo das
candidaturas intermediárias.
É exatamente aí que o comportamento do eleitor tardio se torna tão
importante.
À medida que chega a hora da decisão, parte dos eleitores passa a
perceber a eleição não como uma escolha entre muitos candidatos, mas como uma
decisão entre aqueles que efetivamente concentram a disputa.
É o momento em que pode aparecer o chamado voto útil.
E as próprias campanhas demonstram perceber essa possibilidade. Nesta
reta final, Lula e Flávio Bolsonaro estão concentrando suas agendas
principalmente no Nordeste e no Sudeste, enquanto buscam ampliar o voto útil
antes do primeiro turno.
A ELEIÇÃO DOS
ÚLTIMOS DIAS
Existe, portanto, uma pergunta muito mais interessante do que
simplesmente saber se determinada pesquisa oscilou um ou dois pontos nesta
semana.
Quem conquistará o eleitor que ainda não chegou completamente à eleição?
É aí que a análise de Marcos Coimbra ganha força.
Sua tese é que o eleitor menos politizado e mais pragmático pode
atribuir peso especial à segurança representada pelo que já conhece e às
políticas públicas que consegue identificar concretamente em sua própria vida.
Aplicada à eleição atual, essa hipótese coloca Lula diante de uma
oportunidade relevante na reta final.
Não porque exista uma transferência automática desses votos.
Não existe.
Mas porque Lula disputa a Presidência na condição de presidente em
exercício, enquanto milhões de pessoas começam justamente agora a fazer a
comparação concreta entre continuidade e mudança.
Essa decisão pode não aparecer integralmente nas pesquisas feitas duas
semanas antes da eleição.
Pode aparecer nos últimos dias.
Pode aparecer na véspera.
E pode aparecer somente diante da urna.
E O PRIMEIRO TURNO?
É aí que surge a questão inevitável.
Seria possível uma definição já em 4 de outubro?
Hoje, as pesquisas não registram Lula acima dos 50% dos votos válidos
necessários para encerrar a eleição no primeiro turno. Os levantamentos mais
recentes mostram diferentes percentuais, mas todos ainda abaixo dessa marca.
Entretanto, a análise de Coimbra coloca uma variável adicional nessa
equação: pesquisas realizadas agora não conseguem medir antecipadamente uma
escolha que determinado eleitor ainda não realizou.
E faltam justamente os dias em que essa escolha poderá ser feita.
Para que o cenário se altere substancialmente, seria necessário um
movimento expressivo de eleitores — incluindo indecisos, pessoas que admitem
mudar o voto e eleitores atualmente distribuídos entre candidaturas menores.
Não sabemos ainda se esse movimento acontecerá nem qual será sua
dimensão.
Mas sabemos onde estará uma das disputas centrais desta reta final.
Ela estará justamente entre aqueles brasileiros que passaram boa parte
da campanha distantes da eleição e que agora começam a olhar para a urna.
A ÚLTIMA CURVA
Talvez tenhamos chegado à última curva desta campanha.
Daqui até 4 de outubro, milhões de brasileiros conversarão sobre eleição
mais do que conversaram durante todo o restante do ano.
Vão prestar atenção aos programas eleitorais.
Vão conversar no trabalho.
Vão perguntar aos filhos.
Vão discutir nas famílias.
Vão observar os candidatos.
E, sobretudo, vão olhar para suas próprias vidas.
É nesse momento que a tese de Marcos Coimbra será colocada à prova.
O eleitor tardio existe.
O peso da incumbência existe como fenômeno eleitoral.
A diferença entre avaliar um governo e escolher entre candidatos também
existe.
E a disputa está cada vez mais concentrada.
A questão que determinará o tamanho desse movimento é para onde esses
eleitores caminharão quando finalmente fizerem sua escolha.
Para Lula, é nesse universo que existe espaço para crescimento na reta
final.
E será justamente o comportamento desse eleitor — silencioso durante meses e decisivo quando a urna se aproxima — que ajudará a escrever o capítulo final do primeiro turno de 2026.
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José Alfredo Carvalho foi vereador de Ribeirão Preto por três mandatos, entre 1993 e 2004, e atualmente é secretário de Finanças e Planejamento do PT de Ribeirão Preto, e Coordenador da Rede PT Brasil.
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