Palocci vê Lula preparado para um quarto governo e para a nova ordem mundial
Arte: Agência RedePT
Ex-ministro afirma que a divisão da direita favorece o presidente, demonstra confiança na responsabilidade fiscal de um eventual Lula 4 e destaca a capacidade brasileira de dialogar com Estados Unidos e China sem submissão
Antonio Palocci voltou ao centro do
debate político e econômico brasileiro. Não por iniciativa partidária nem como
parte de qualquer articulação oficial, mas como uma voz procurada por
economistas que atuam no mercado financeiro dos Estados Unidos para interpretar
a disputa presidencial brasileira e as perspectivas de um eventual quarto
governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo reportagem de O Globo,
os economistas pediram ao ex-ministro da Fazenda sua avaliação sobre a campanha
de Lula contra Flávio Bolsonaro.
O episódio é significativo. Depois de
anos afastado da atividade política e rompido com o Partido dos Trabalhadores,
Palocci continua sendo reconhecido por setores econômicos nacionais e
internacionais como alguém capaz de compreender simultaneamente o funcionamento
do Estado, o comportamento do mercado e os movimentos da política brasileira.
A divisão da direita abre caminho para Lula
A principal pergunta dirigida ao
ex-ministro foi direta: como a direita, considerada numericamente forte no
país, corre o risco de perder novamente a eleição?
Para Palocci, a resposta está na fragmentação do campo conservador. A direita estaria “totalmente dividida”, incapaz de construir uma candidatura que unifique seus diferentes grupos, interesses e lideranças.
Sobre a possibilidade de Lula vencer
ainda no primeiro turno, o ex-ministro adotou uma posição cautelosa. Considerou
a hipótese improvável e lembrou que esse é um antigo desejo do PT, mas que
permanece no terreno das aspirações.
A avaliação não diminui o favoritismo
do presidente. Ao contrário: demonstra que Palocci procura analisar o cenário
sem triunfalismo. Ele reconhece a força eleitoral de Lula, mas sabe que uma
disputa presidencial exige organização, alianças, programa e mobilização
popular até o último voto.
Confiança em um eventual Lula 4
Mesmo distante do PT e de Lula desde
os conflitos provocados pela Lava Jato, Palocci fez uma previsão otimista sobre
um possível quarto mandato do presidente.
O ex-ministro declarou não acreditar
que Lula conduziria um governo marcado pelo descontrole fiscal.
Essa avaliação possui peso especial
porque vem de quem comandou o Ministério da Fazenda no início do primeiro
governo Lula e participou da difícil transição de 2002, quando setores do
mercado procuravam alimentar dúvidas sobre a capacidade administrativa do novo
governo.
Palocci ajudou a formar a equipe
econômica que conduziu os primeiros anos da gestão petista. Mesmo veículos
críticos ao PT reconhecem que sua passagem pelo Ministério da Fazenda
contribuiu para estabilizar expectativas, organizar a política econômica e
criar as condições para a retomada do crescimento.
Reconhecer essa contribuição
histórica não significa apagar divergências posteriores, negar erros ou
reconstruir artificialmente relações políticas que foram rompidas. Significa
apenas tratar a história com honestidade. Palocci teve papel relevante na
construção do primeiro governo Lula e continua sendo um personagem importante
para compreender aquele período.
Lula diante da disputa entre Estados
Unidos e China
A parte mais estratégica da análise
de Palocci diz respeito à política internacional.
Para ele, um eventual quarto mandato
permitiria a Lula escrever o epílogo de sua trajetória política sem a pressão
de disputar uma nova reeleição. O presidente poderia concentrar-se na
consolidação de seu legado e na posição do Brasil diante de um mundo cada vez
mais marcado pela competição entre Estados Unidos e China.
Palocci observa que Lula transita com
desenvoltura entre os diferentes centros de poder e que o Brasil pode se
beneficiar dessa disputa. O país possui produção agrícola competitiva,
capacidade energética, recursos minerais estratégicos e potencial para
participar das transformações ligadas à inteligência artificial.
Ao ser perguntado de que lado Lula
ficaria em um confronto entre Donald Trump e Xi Jinping, respondeu:
“Aos dois e a nenhum dos dois.”
A frase resume uma concepção de política externa que historicamente orienta os governos Lula: dialogar com todos, subordinar-se a ninguém e defender os interesses nacionais.
Não se trata de neutralidade
indiferente nem de equilibrismo diplomático. Trata-se de soberania.
O Brasil precisa manter relações
econômicas e políticas com os Estados Unidos, aprofundar a cooperação com a
China e, ao mesmo tempo, preservar plena liberdade para decidir seus próprios
caminhos.
Agronegócio, energia, minerais e inteligência artificial
Palocci identificou quatro áreas nas
quais o Brasil poderá ampliar sua importância internacional: produção de
alimentos; transição energética; terras raras e minerais estratégicos;
inteligência artificial.
São setores decisivos para a economia
mundial das próximas décadas. Contudo, transformar potencial em desenvolvimento
exigirá mais do que exportar produtos primários.
O Brasil precisará agregar valor à
produção agrícola, industrializar seus recursos minerais, produzir tecnologia,
formar pesquisadores e garantir que a transição energética gere empregos e
desenvolvimento interno.
Não podemos trocar uma dependência
por outra. A soberania nacional exige relações internacionais diversificadas,
indústria forte, ciência, inovação e capacidade própria de decisão.
Palocci não precisa ser apagado da
história
A trajetória de Antonio Palocci é marcada por contribuições, conflitos, rupturas e profundas controvérsias. Isso não autoriza ninguém a reescrever sua história como se ele nunca tivesse desempenhado papel relevante na política brasileira.
Também seria incorreto apresentar sua
análise atual como um pedido de retorno ao PT, uma reconciliação com Lula ou
uma tentativa de recuperar antigos espaços. Não há elemento público que
sustente essas conclusões.
O fato objetivo é outro: economistas
do mercado financeiro norte-americano procuraram Palocci porque consideram
relevante ouvir sua interpretação sobre Lula, a eleição e a economia
brasileira.
Sua resposta não foi hostil ao
presidente. Ao contrário, reconheceu a força de Lula, demonstrou confiança na
responsabilidade de um futuro governo e apontou oportunidades históricas para o
Brasil no novo cenário mundial.
O reencontro deve ser com a verdade
histórica
A esquerda não precisa renunciar às
críticas nem esconder suas feridas. Mas também não deve entregar aos
adversários o direito exclusivo de definir quem foram os personagens de sua
própria história.
Antonio Palocci teve participação
decisiva na chegada do PT ao governo federal, na transição de 2002 e na
condução econômica dos primeiros anos do governo Lula. Posteriormente,
afastou-se do partido e protagonizou um dos rompimentos mais traumáticos
daquela geração política.
As duas coisas são verdadeiras
O reconhecimento de suas
contribuições não significa concordância com todas as suas escolhas. Significa
preservar a memória política com equilíbrio, maturidade e justiça.
A nova manifestação de Palocci revela
que, apesar de todas as rupturas, ele ainda identifica em Lula a liderança
brasileira mais preparada para enfrentar a divisão interna da direita e a
disputa internacional entre as grandes potências.
E talvez essa seja a informação mais importante da reportagem: até uma voz historicamente afastada do PT reconhece que Lula continua ocupando uma posição singular na política brasileira e mundial.
José Alfredo Carvalho foi vereador de Ribeirão Preto por três mandatos, entre 1993 e 2004, e atualmente é secretário de Finanças e Planejamento do PT de Ribeirão Preto.
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