Tarifaço, tornozeleira e fuga para a embaixada: o plano que deu errado para Bolsonaro e Trump
Arte: Agência RedePT / IA
Enquanto o New York Times vê o Brasil como exemplo de democracia ao condenar um ex-presidente golpista, Trump e aliados atacam Alexandre de Moraes e tentam transformar um criminoso em mártir político
Na noite de 21 de novembro, um jornalista brasileiro pergunta a Donald Trump sobre o Brasil.
O presidente dos EUA sorri, fala em “grande notícia amanhã”, promete afagar tarifas, cita o Brasil como parceiro importante. No dia seguinte, de madrugada, a tornozeleira de Jair Bolsonaro dispara alerta, é danificada, a PF entra em cena, Alexandre de Moraes converte a prisão domiciliar em preventiva e o ex-presidente vai parar numa cela na Superintendência da PF.
Horas depois, Trump aparece na porta da Casa Branca, diz que “falou
ontem à noite com o cavalheiro a que vocês se referem”, promete encontrá-lo
“em breve” e, ao saber da prisão, reage com um “que pena” cheio de
teatral surpresa.
Na mesma sequência, a Embaixada dos EUA no Brasil solta uma nota agressiva contra o ministro Alexandre de Moraes, chamando a decisão de “provocativa e desnecessária” e resgatando as sanções impostas pela Lei Magnitsky.
Coincidência? Só jogo de cena?
Ou parte de uma engrenagem maior, em que Trump e a extrema direita
internacional tentam tutelar o destino da democracia brasileira?
O jornalista Leonardo Attuch, no Brasil 247, foi direto:
“Basta juntar os pontos para concluir que Bolsonaro fugiria para a embaixada dos Estados Unidos”.
Vamos juntar esses pontos.
1. O telefonema, a
“grande notícia” e o tarifaço de 50%
Antes da tornozeleira derretida, tem um pano de fundo: guerra
comercial e pressão política.
Trump vinha impondo um tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros,
usando a economia como porrete para “defender” Bolsonaro e atacar o STF.
Reportagens mostram que:
- As tarifas foram apresentadas explicitamente como resposta à
“perseguição” de Alexandre de Moraes a Bolsonaro.
- Mensagens apreendidas no celular de Bolsonaro revelam que ele e
Eduardo pressionaram o governo Trump a sancionar ministros do STF e
impor as tarifas de 50% contra o próprio Brasil, como forma de retaliação
política.
Num artigo de agosto, Attuch escreveu que o tarifaço “marca mais do
que uma crise comercial: escancara o fim da hegemonia dos EUA e acelera o mundo
multipolar”, e que Trump tenta usar sanções e tarifas para enquadrar países
do Sul Global que ousam ter projeto próprio.
É esse Trump — o mesmo que já sancionou Moraes e sua família usando a
Lei Magnitsky — que passa a dar
recados sobre o Brasil, falar em “grande notícia”, flexibilizar tarifas e, no
dia seguinte, dizer que conversou com Bolsonaro poucas horas antes da
violação da tornozeleira.
Não é teoria da conspiração. É contexto.
2. Madrugada em
Brasília: a noite da tornozeleira
Do lado de cá, o roteiro é duro, concreto e documentado:
- Bolsonaro já estava condenado pelo STF a 27 anos e 3 meses
por tentativa de golpe, liderança de organização criminosa e outros crimes
relacionados ao 8 de janeiro e à trama para matar adversários.
- Em julho, Moraes determinou prisão domiciliar, uso de
tornozeleira, recolhimento noturno e proibição de contato com cúmplices,
justamente para reduzir risco de fuga.
- Na semana da prisão, a PF e a imprensa já apontavam indícios de
plano de fuga, com aliados saindo do país e intensa mobilização da
base bolsonarista.
Na madrugada de 22 de novembro, o sistema registra:
- Alerta às 0h07/0h08 de violação
da tornozeleira.
- Perícia visual encontra marcas de calor em toda a circunferência do
equipamento, compatíveis com o uso de ferro de solda ou ferramenta
semelhante.
Bolsonaro, como sempre, tenta se colocar como vítima e afirma que “apenas
quis ver se tinha microfone”; em versão ainda mais bizarra, fala em “efeito
de remédios” e “surto”.
Moraes não comprou a história. A decisão menciona:
- Tentativa deliberada de burlar o monitoramento,
- Risco concreto de fuga,
- A convocação, por Flávio Bolsonaro, de uma vigília em frente à
casa do pai, lida como possível cortina de fumaça para uma saída
estratégica.
Resultado: prisão preventiva decretada. Na prática, regime
fechado na PF, dentro da lei e com aval posterior da 1ª Turma do STF por
unanimidade.
É aqui que a leitura do Attuch entra como lente política.
3. Attuch junta os
pontos: o caminho até a Embaixada
No texto “Basta juntar os pontos para concluir que Bolsonaro fugiria
para a embaixada dos Estados Unidos”, Leonardo Attuch organiza a cronologia
de forma cirúrgica:
a).
Sexta à noite: Trump afirma que falou
com Bolsonaro e que os dois vão se encontrar “no futuro próximo”.
b).
Pouco depois: Bolsonaro queima
a tornozeleira, justamente a condição que o impede de cruzar o portão de
casa sem ser detectado.
c).
Madrugada: sistema registra
violação; PF se mobiliza.
d).
Manhã de sábado: prisão preventiva
é cumprida antes que ele consiga pôr um pé fora do circuito, enquanto
ainda havia base mobilizada na porta.
e).
Em seguida: a Embaixada dos
EUA divulga nota em defesa de Bolsonaro e contra Moraes, em tom incomum
para relações entre Estados soberanos.
Attuch lembra um detalhe que a grande imprensa “neutra” finge não ver: a casa de Bolsonaro fica a cerca de 13 km da Embaixada dos EUA em Brasília,
distância que se percorre em 15, 20 minutos de carro.
Na leitura dele — e de qualquer pessoa com duas neurônios funcionando —,
o plano era simples:
- romper a tornozeleira,
- criar confusão com vigília religiosa e militância na porta,
- correr para a Embaixada dos EUA em
busca de proteção política, tentando transformar uma condenação por golpe
numa crise diplomática contra o STF.
Se a PF tivesse demorado algumas horas a mais, a manchete poderia ser
outra:
“Ex-presidente condenado por tentativa de golpe pede asilo na embaixada do país cujo presidente o defende e sanciona juízes do seu Supremo.”
Não é roteiro de série. É a lógica do bolsonarismo.
4. A Embaixada
entra na briga: nota contra Moraes
A reação oficial dos EUA não é um detalhe: é peça central.
Logo após a prisão, a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília
divulgou nota em que:
- Ataca Alexandre de Moraes,
- Chama a prisão de Bolsonaro de “provocativa e desnecessária”,
- Afirma que a decisão “ameaça a estabilidade democrática”,
- E lembra que o ministro já foi sancionado sob a Lei Magnitsky,
como se o Brasil devesse satisfações à tesoura de Washington.
O Brasil 247 resumiu o absurdo com precisão: a representação diplomática dos EUA saiu em defesa de um “delinquente que tentou destruir a própria tornozeleira eletrônica”.
Ao fazer isso, a Embaixada:
- Ignora que Bolsonaro foi condenado por tentar derrubar a própria
democracia e matar adversários políticos;
- Ignora que a prisão preventiva é consequência de violação
deliberada de medida cautelar, algo que qualquer país sério aplica a
criminosos perigosos;
- E se coloca, na prática, como advogada informal de um líder
extremista estrangeiro, contra a Suprema Corte de um país soberano.
Não é só “opinião”. É pressão política.
5. Lei Magnitsky,
sanções e o projeto de tutela
Essa nota não cai do céu. Ela se encaixa num processo em curso desde a
condenação de Bolsonaro.
- Em setembro, os EUA já haviam sancionado Alexandre de Moraes
e, depois, estendido as sanções à própria esposa dele, usando a Global
Magnitsky Act, mecanismo que costuma ser usado para punir violadores
de direitos humanos e corruptos ao redor do mundo.
- O secretário de Estado Marco Rubio e o próprio Trump classificaram
a condenação de Bolsonaro como “witch hunt” (caça às bruxas) e
prometeram “responder” ao Brasil.
Em paralelo, como revelou outra reportagem do 247, mensagens no
celular de Bolsonaro mostram que ele e Eduardo atuaram para que Trump
aplicasse sanções e tarifas de 50% contra o Brasil e contra ministros do STF,
numa espécie de “contra-ataque” externo para intimidar a Justiça brasileira.
Ou seja:
- Trump não está “apenas comentando” o Brasil.
- Ele está usando instrumentos de poder do Estado norte-americano
— sanções, tarifas, pressão diplomática — em sintonia com a estratégia de
um condenado por golpe de Estado.
Quando Bolsonaro queima a tornozeleira e acena, na prática, para uma
fuga à Embaixada dos EUA, ele está operando dentro desse mesmo guarda-chuva
de tutela estrangeira.
6. Como o mundo lê
o caso Bolsonaro (e o que o NYT disse)
Enquanto Trump chora “witch hunt” e a Embaixada tenta desqualificar
Moraes, uma parte importante da opinião pública internacional olha para o
Brasil e enxerga outra coisa.
- Um artigo do New York Times, repercutido pela Agência Brasil
e por veículos especializados, afirma que o Brasil está dando ao mundo
um exemplo de democracia, ao condenar um ex-presidente por tentativa
de golpe, enquanto os EUA não conseguiram responsabilizar Trump pela
invasão do Capitólio.
- Pesquisadores e analistas apontam que “ao condenar Bolsonaro, o
Brasil fez o que os EUA não fizeram com Trump”, e que isso fortalece o
Estado de Direito.
Em outras palavras:
- Para boa parte da imprensa internacional séria, o caso Bolsonaro é
um marco de responsabilização democrática.
- Quem está isolado nessa história são justamente Trump, Rubio, a
embaixada trumpista e a extrema direita que ainda sonha com salvo-conduto
para golpistas.
É esse contraste que você, como militante, dirigente e comunicador,
precisa evidenciar: não é o Brasil que está fora da curva; é a ultradireita
global que não tolera perder e ser julgada.
7. Não é
coincidência inocente. É projeto de poder.
O que temos, juntando as pontas?
a).
Um presidente dos EUA que:
o impôs tarifas
de 50% ao Brasil dizendo defender Bolsonaro;
o sancionou
um ministro do STF pela Lei Magnitsky;
o falou com
Bolsonaro na véspera da violação da tornozeleira e prometeu encontrá-lo
em breve;
o e depois
faz cara de espanto e diz “que pena” pela prisão.
b).
Um ex-presidente brasileiro que:
o foi condenado
por tentativa de golpe, liderança de quadrilha e tentativa de homicídio
político;
o já
articulou, com o filho, sanções e tarifas contra o próprio país e contra o
STF;
o violou
deliberadamente a tornozeleira, na calada da noite, a poucos quilômetros da
Embaixada de seu padrinho internacional.
c).
Uma embaixada que:
o reage à
prisão preventiva de um condenado por golpe como se fosse abuso contra um
dissidente democrático;
o e tenta
desmoralizar a Suprema Corte de um país soberano.
Dá pra chamar isso de muita coisa. De coincidência inocente, não.
8. Para onde essa
matéria aponta
Política não é novela de mistério. A pergunta certa não é “quem mandou
queimar a tornozeleira?”, mas:
- Quem ganha com a imagem de um Bolsonaro mártir,
perseguido por um STF “excessivo”, enquanto Trump posa de protetor e
“negociador duro”?
- Quem lucra com tarifas, sanções, pressões diplomáticas e
notas de embaixada que tratam o Brasil como protetorado?
- Quem tem interesse em
transformar uma condenação por golpe num conflito “Brasil x EUA / Moraes x
Trump”?
O fio que liga tudo isso se chama projeto de poder:
- de um lado, uma rede global de extrema direita, que não aceita
perder eleição e nem responder por crime;
- do outro, um país que, com todos os limites e contradições, ousou
condenar um ex-presidente golpista e dizer ao mundo: aqui não.
O papel da nossa imprensa progressista — Rede PT Brasil, 247, ICL, Fórum, Blog O Calçadão e tantos outros — é justamente esse: contar a história inteira, sem medo,
sem bajular hegemonia estrangeira e sem cair na paranoia conspiratória da
direita.
Trump não é vidente. Ele é só um presidente em guerra contra qualquer país que ouse dar um passo fora da sua coleira.
Bolsonaro não é perseguido. É um condenado por golpe, que tentou usar tornozeleira, tarifaço e embaixada
como rota de fuga.
O resto, como sempre, é cortina de fumaça.
A nossa tarefa é ligar o exaustor, abrir as janelas e mostrar quem está
queimando fio por fio da democracia — aqui e lá fora. Bolsonarismo nunca mais!
José Alfredo Carvalho é ex-vereador de 1993 a 2004 e atual secretário de Finanças e Planejamento do PT de Ribeirão Preto-SP
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