
Por Douglas Fortes e Tais Carollo
Da Página do MST
A realização da 1ª Escola Nacional da Juventude Sem Terra aconteceu entre 13 e 25 de julho, reunindo 70 jovens de diferentes estados do país na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), em Guararema (SP). Ao longo de toda a sua trajetória, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra elaborou diversos processos nacionais de formação da juventude e, nesse ano desenvolveu pela primeira vez uma Escola Nacional com a identidade da juventude. Foi um intenso processo de formação política, troca de experiências e construção coletiva. Mais do que um espaço de estudos, a escola representa um marco na trajetória do Coletivo Nacional da Juventude do MST e reafirma a aposta do Movimento na formação de uma nova geração de militantes capaz de enfrentar os desafios impostos pelo capitalismo, pelo agronegócio e pelo imperialismo.
O MST vem desenvolvendo várias estratégias de formação de gerações de jovens, atento às transformações políticas, suas necessidades e aspirações no decorrer da sua história. Entendendo que a juventude está em disputa permanente, e que o exemplo das revoluções sempre prescindiram da sua capacidade de se pôr em movimento. Este momento histórico não é diferente, sobretudo com a ascensão da extrema direita que tem sido capaz de mobilizar significativamente esses sujeitos e em um cenário em que a luta anti-imperialista é o centro da luta de classes.
Para a professora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), Roberta Traspadini, a iniciativa possui um significado estratégico para o futuro da organização. “A juventude é o termômetro da luta social”, afirma. Segundo ela, reunir jovens em um dos principais espaços de formação política da América Latina significa fortalecer a compreensão da realidade para transformá-la.
“A formação tem como objetivo abrir horizontes de sentido. Compreender a realidade, na sua complexidade, para transformá-la e construir uma sociedade livre, igualitária e democrática”, destaca Traspadini. Para a professora, esse processo fortalece tanto a juventude do campo quanto a da cidade, ao aprofundar a compreensão sobre “por que lutamos, contra quem lutamos e o que queremos quando lutamos”.
Juventude como protagonista da Reforma Agrária Popular

A formação de jovens militantes está diretamente ligada ao desafio de consolidar o projeto de Reforma Agrária Popular nos territórios. Para Fernanda Farias, da Coordenação Nacional do Coletivo Nacional da Juventude Sem Terra, a juventude do MST é protagonista desse processo.
“Nós entendemos que a juventude que vive nos territórios da Reforma Agrária Popular tem a tarefa de materializar o nosso programa. E uma das principais formas de fazer isso é através da agroecologia, como um projeto antagônico ao agronegócio.”
Além da produção agroecológica, Fernanda ressalta que cabe à juventude fortalecer os processos de denúncia, comunicação, organização e disputa ideológica, ampliando a capacidade do Movimento de dialogar com a sociedade e construir novas formas de luta.
Nesse sentido, a Escola Nacional surge como resposta à necessidade de formar jovens militantes e dirigentes preparados para enfrentar a batalha das ideias. Segundo ela, a combinação entre teoria, comunicação, agitação e propaganda amplia a capacidade da juventude de interpretar a realidade e intervir sobre ela.
Para João Gabriel, educando da Escola Nacional que mora no assentamento São Bento, em Mirante do Paranapanema (SP), a formação oferece instrumentos concretos para fortalecer a atuação da militância nos territórios. “A escola trabalhou fundamentos que contribuem para a compreensão dos elementos que compõem a realidade na sua dimensão de totalidade, tendo como centralidade a contradição na relação entre trabalho, capital e natureza. Nesse sentido, se apropriar desses elementos é fundamental para a organização da base e para o direcionamento da linha política que dará o enfrentamento dos desafios colocados para o território neste período histórico.”
Formação política diante da crise do capitalismo

Em meio ao avanço da crise do capitalismo, a juventude enfrenta condições cada vez mais precárias de trabalho, estudo e permanência no campo. Nesse cenário, a formação política aparece como um instrumento essencial para ampliar a compreensão do mundo, fortalecer a organização coletiva e construir alternativas de transformação da sociedade.
Fernanda Farias avalia que a formação é essencial para que os jovens compreendam como o imperialismo atua sobre os povos e consigam interpretar criticamente a realidade. “Estamos entendendo que a formação da consciência é fundamental para que possamos fazer uma boa leitura desse processo e construir uma nova sociedade.”
João Gabriel também destaca que, diante da conjuntura atual, a formação política ocupa um lugar estratégico para a juventude Sem Terra. “A formação possui um papel de centralidade para a juventude compreender os desafios envolvendo a conjuntura política e também para dar projeção às formas de enfrentá-los.”
Para Roberta Traspadini, a juventude ocupa um lugar vital no MST de transformação justamente por sua capacidade de questionar o presente.
“A juventude tem a função de gerar incômodos geracionais. Ela oxigena as relações sociais e nos ajuda a compreender os conflitos como parte da formação histórica.”
Segundo a pesquisadora, compreender que muitos sofrimentos vividos pela juventude têm origem nas contradições estruturais do capitalismo é um passo imprescindível para construir horizontes revolucionários.
Organizar a rebeldia para transformar a sociedade

Ao refletir sobre o papel da juventude na luta de classes, Renata Menezes, da Direção Nacional do MST, defende que a nova geração mantenha viva a capacidade de se indignar diante das injustiças e transforme essa disposição em organização e luta.
“Nós vivemos um contexto de guerra, de genocídio, de avanço da extrema direita na América Latina. O papel da juventude é se indignar diante dessas injustiças e não naturalizar essa violência.”
Para ela, a indignação precisa ser organizada politicamente.
“É preciso organizar essa rebeldia com uma ação política capaz de enfrentar o imperialismo, enfrentar o capitalismo e construir outro tipo de sociedade.”
Renata também ressalta que a permanência da juventude no campo depende da construção de condições concretas de vida nos assentamentos e acampamentos. Isso envolve ampliar o acesso a direitos, fortalecer o trabalho cooperado, expandir a agroecologia e criar espaços para educação, cultura, lazer e para cuidado coletivo.
“Queremos construir desde agora aquilo que defendemos para uma sociedade socialista: trabalho coletivo, cuidado com as pessoas, produção agroecológica, cultura, educação e uma vida digna no campo.”
Uma nova geração de militantes para os desafios do presente

A criação da 1ª Escola Nacional da Juventude Sem Terra inaugurou uma nova etapa no processo de formação da juventude do MST. Em um tempo marcado pela intensificação das disputas em torno do campo, da produção de alimentos, da comunicação e dos rumos da sociedade, investir na formação de jovens militantes significa fortalecer a capacidade de organização da classe trabalhadora para os desafios do presente e do futuro.
Ao avaliar os dias de formação, João Gabriel resume um dos principais aprendizados construídos coletivamente durante a Escola Nacional. “A leitura crítica da realidade só tem validade para a luta política se houver nela o direcionamento para a superação das contradições”.
Mais do que preparar dirigentes, a escola consolida um espaço de construção coletiva, onde diferentes experiências dos territórios se encontram para fortalecer a ação política, renovar a militância e reafirmar a Reforma Agrária Popular como parte de um projeto de transformação social construído desde a base.
*Editado por Fernanda Alcântara
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