
A 23ª Jornada de Agroecologia terminou neste domingo (21), no campus Centro Politécnico da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba, com a tradicional partilha de sementes e mudas, e também um ato em solidariedade à Cuba, Palestina e Venezuela. A ação destacou a internacionalização das lutas populares e a defesa da soberania dos povos contra as intervenções de caráter imperialista, em especial praticadas pelos Estados Unidos.
Durante o ato, o presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL), Ualid Rabah, relacionou a situação da Palestina à luta pela terra e à soberania nacional. Em sua fala, denunciou a destruição da agricultura palestina e afirmou que o ataque aos sistemas de produção de alimentos integra uma estratégia de extermínio da população.
“Destruir a agricultura, destruir a pecuária, destruir todos os instrumentos de alimentação de um povo é o objetivo estratégico do imperialismo em Gaza”, declarou. Rabah também associou a defesa da Reforma Agrária no Brasil à resistência contra processos de dominação externa, argumentando que a presença de milhões de famílias camponesas no campo fortalece a soberania nacional e a capacidade de defesa dos territórios.

A dimensão internacionalista também foi destacada por Júlia Araújo, da direção nacional do MST no Maranhão. Segundo ela, a solidariedade é um princípio cultivado pela organização e se expressa em ações concretas realizadas em diversos países. “Uma das grandes qualidades que a gente procura cultivar em cada militante é a solidariedade”, afirmou.
Araújo explicou que o Movimento organiza brigadas internacionais voltadas à alfabetização, à produção de alimentos e à reconstrução de comunidades, além de promover denúncias públicas contra violações de direitos. Sobre a Palestina, ressaltou a importância de manter a mobilização permanente. “O que a gente tem orientado é não fazer silêncio. Nem um minuto de silêncio. O tempo inteiro a gente conseguir denunciar, usar as redes sociais e ir para as ruas”, disse.




Júlia Araújo também destacou que o internacionalismo defendido pelo MST vai além das manifestações de apoio e faz parte da formação política cotidiana dos militantes. Segundo ela, a defesa da soberania dos povos envolve o reconhecimento do direito à autodeterminação política, econômica e cultural das nações que enfrentam bloqueios, intervenções e outras formas de pressão externa.
Ao comentar a situação de Cuba, Venezuela e Palestina, a dirigente afirmou que a solidariedade construída pelo movimento busca transformar indignação em ação concreta, seja por meio de brigadas internacionais, campanhas de denúncia ou processos de formação popular. “A gente entende que é imprescindível lutar pela soberania dos povos, lutar pelo direito de existir, lutar pelo direito de auto-organização”, afirmou, ressaltando que a solidariedade internacional constitui um dos pilares da atuação do movimento em seus territórios.


A partilha de sementes e mudas selou a mística de envio das centenas de pessoas que vieram de outros lugares dos estados e do país para participar da 23ª Jornada. No centro de uma grande roda formada no gramado do campus Politécnico, a diversidade de cores e formas de mudas e sementes simbolizou a diversidade da agroecologia, preservada pelos povos originários e tradicionais, junto à agricultura familiar e à Reforma Agrária. A partilha foi organizada por diversos coletivos e movimentos, em especial a Rede de Sementes da Agroecologia, a ReSA, e garantiu que cada participante pudesse replicar esta edição da Jornada em seus territórios.



Fotos: Altivista
O coordenador da Terra de Direitos, Darci Frigo, destacou a importância da luta jurídica e política contra as grandes corporações do agronegócio. Ao recordar o assassinato de Valmir Mota de Oliveira, o Keno, durante uma ação realizada em 2007 contra a estação experimental da Syngenta, em Santa Tereza do Oeste, Frigo celebrou uma importante vitória judicial.
“A gente teve uma vitória contra a Syngenta. No ano passado, depois de quase 20 anos, nós conseguimos que o Judiciário brasileiro condenasse a Syngenta a indenizar a família do Keno”, afirmou. Segundo ele, a decisão também garantiu indenização à militante Isabel, sobrevivente de uma tentativa de assassinato durante o mesmo episódio. Para Frigo, Keno permanece como “um mártir da luta pela agroecologia” e da construção de um projeto popular e soberano para a agricultura.
Em sua fala, o defensor de direitos humanos também alertou para o poder das empresas transnacionais sobre o sistema alimentar. “As empresas de transgênicos continuam dominando as sementes, dominando os agrotóxicos, dominando os agricultores”, disse. Frigo defendeu que a agroecologia não se constrói apenas pela substituição de tecnologias, mas também pelo enfrentamento político a esse modelo e pela ampliação das políticas públicas.

“A construção da agroecologia se faz também nesse processo de enfrentamento das transnacionais e de construção de propostas para o poder público”, afirmou, defendendo mais financiamento para a transição agroecológica. Encerrando sua participação em tom otimista, destacou que a trajetória da Jornada demonstra que “é possível vencer esses titãs do agronegócio” e avançar na construção de um projeto agrícola baseado na agroecologia, na soberania alimentar e em territórios livres de transgênicos e agrotóxicos.
Na carta final da Jornada, as organizações participantes defenderam a agroecologia como resposta à crise climática e ao avanço do agronegócio, reafirmando a necessidade de fortalecer políticas públicas voltadas à agricultura familiar, à soberania alimentar e à Reforma Agrária popular. O documento também destacou a importância da participação popular em um ano eleitoral e alertou para os impactos da desinformação sobre a democracia. “A desinformação e a disseminação de notícias falsas têm sido utilizadas para manipular a opinião pública, atacar direitos conquistados e enfraquecer a organização popular”, registra a carta.
Ao encerrar a 23ª edição, a Jornada reafirmou que “a luta dos povos é internacional e a solidariedade também deve ser”, conectando as pautas locais de produção de alimentos e defesa dos territórios aos desafios globais enfrentados pelos povos em resistência.
A 23ª Jornada de Agroecologia é realizada pela Associação de Cooperação Agrícola e Reforma Agrária (ACAP), com o apoio coletivo de muitas instituições, coletivos, movimentos, com destaque para a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e o Ministério da Saúde.
Essa edição é patrocinada pelo Sebrae, Itaipu Binacional, Fundação Banco do Brasil e o Governo Federal. Tem patrocínio da Fundação Banco do Brasil e do Governo do Brasil.
*Editado por Fernanda Alcântara
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