Notícias

28 de Junho: celebrar as conquistas, enfrentar a estagnação

O Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ nunca foi apenas uma data de celebração. É, acima de tudo, um dia de memória, resistência e compromisso político. Celebramos porque existimos, porque conquistamos direitos e porque transformamos a luta coletiva em políticas públicas. Mas também denunciamos, porque ainda vivemos em um país onde a violência, a discriminação e a exclusão continuam marcando a vida de milhões de pessoas.

Nos últimos anos, o Brasil voltou a caminhar. A reconstrução das políticas públicas para a população LGBTQIA+ no governo federal representa uma ruptura importante com o período de desmonte institucional vivido anteriormente.

A recriação da Secretaria Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, a instituição da Política Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, a retomada do diálogo permanente com os movimentos sociais, a reconstrução do Conselho Nacional, o fortalecimento da participação social e a articulação entre diferentes ministérios demonstram que a pauta voltou a ocupar espaço na agenda do Estado brasileiro. Mais recentemente, o lançamento da campanha nacional “O Brasil é de Todas as Cores: Para Todas as Pessoas” reafirma o compromisso do governo federal em ampliar a visibilidade e o acesso às políticas públicas.

Saiba mais: Parada LGBT+ convoca às urnas contra o avanço do conservadorismo

Esses avanços precisam ser reconhecidos. Não são favores. São resultado de décadas de organização do movimento LGBTQIA+, da pressão popular e da eleição de um projeto político comprometido com os direitos humanos. Nenhuma conquista nasce espontaneamente; todas são fruto da luta.

Ao mesmo tempo, celebrar não significa fechar os olhos para os desafios. O Brasil continua registrando altos índices de violência contra pessoas LGBTQIA+, especialmente travestis, mulheres trans e jovens negros periféricos. A cidadania plena ainda está distante da realidade de quem enfrenta diariamente a exclusão do mercado de trabalho, a evasão escolar, a violência familiar e a dificuldade de acesso à saúde e à assistência social.

É justamente nesse ponto que São Paulo exige uma reflexão crítica. O estado que historicamente foi referência nacional em políticas públicas para a diversidade hoje vive um processo de estagnação.
Embora mantenha legislações importantes de combate à discriminação, faltam novos programas estruturantes, ampliação dos serviços especializados, investimento contínuo e uma estratégia integrada capaz de responder aos desafios atuais. A existência de leis, por si só, não garante direitos quando falta prioridade política para sua implementação.

Enquanto o governo federal reorganiza sua capacidade de formular políticas nacionais, São Paulo parece administrar um patrimônio construído por décadas sem apresentar uma agenda inovadora à altura da dimensão econômica e política do estado. O resultado é uma política que sobrevive mais pela resistência dos servidores públicos, dos municípios e dos movimentos sociais do que por uma decisão estratégica do governo estadual.

Essa diferença entre os dois níveis de governo revela muito da conjuntura brasileira. De um lado, a União volta a assumir a responsabilidade de coordenar políticas nacionais e fortalecer a participação social. De outro, parte dos governos estaduais permanece presa a uma lógica de baixa prioridade para a agenda da diversidade, limitando-se à manutenção do que já existe.

O Orgulho de 2026 nos convoca justamente a compreender essa contradição. Celebramos a reconstrução institucional promovida pelo governo federal, mas denunciamos a lentidão de estados que poderiam liderar a inovação em políticas públicas e não o fazem. Celebramos porque há avanços concretos. Denunciamos porque esses avanços ainda não chegam com a mesma intensidade aos territórios, às periferias, às pequenas cidades e às pessoas que mais precisam do Estado.

Nossa luta nunca foi apenas por reconhecimento simbólico. Lutamos por orçamento, políticas públicas, emprego, educação, cultura, saúde, segurança e dignidade. O arco-íris precisa estar presente não apenas nas campanhas institucionais, mas também na elaboração dos planos de governo, na execução dos recursos públicos e na vida concreta da população.

Neste 28 de junho, reafirmamos que orgulho também é projeto político. É defender um Estado presente, democrático e comprometido com quem historicamente foi excluído. É reconhecer os avanços conquistados, sem abrir mão da crítica necessária. Porque celebrar sem denunciar é acomodação. E denunciar sem reconhecer as conquistas é ignorar a força da luta coletiva.

Mas a história nos ensina que nenhuma conquista se mantém sem organização política. Os direitos que hoje celebramos foram fruto da mobilização popular, da coragem dos movimentos sociais e da atuação de militantes que transformaram resistência em políticas públicas. Os desafios que ainda enfrentamos também exigem organização, consciência e ação coletiva.

Neste Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, convido todas as pessoas comprometidas com a democracia, a igualdade e a justiça social a fortalecerem essa luta. Precisamos de mais pessoas dispostas a transformar indignação em militância, esperança em organização e orgulho em luta.

Que o orgulho continue sendo nossa forma de existir. E que as políticas públicas continuem sendo nossa principal ferramenta de transformação social. Porque o futuro da população LGBTQIA+ será construído com participação popular, organização coletiva e compromisso político.

O post 28 de Junho: celebrar as conquistas, enfrentar a estagnação apareceu primeiro em Vermelho.