
O artigo publicado nesta segunda-feira (14) pelo procurador-geral da República, Jorge Messias, no The New York Times, representa uma rara e firme manifestação institucional do Estado brasileiro em plena arena da opinião pública internacional. Em meio à crescente tensão entre o Brasil e os Estados Unidos, provocada pela imposição unilateral de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros pelo presidente norte-americano Donald Trump, Messias lançou um apelo ao diálogo, ao respeito mútuo e à legalidade internacional — sem, no entanto, abrir mão de defender com veemência a soberania brasileira e o funcionamento independente do seu sistema judicial.
A estratégia brasileira
O movimento de Messias insere-se em uma estratégia mais ampla do governo Lula de internacionalizar a disputa comercial com os Estados Unidos, transferindo parte da pressão para o campo da política externa e da opinião pública global. Ao vocalizar a posição brasileira em inglês, no principal jornal da elite política e empresarial dos EUA, o governo brasileiro mostra que não aceitará o papel de réu passivo e que tem condições técnicas e políticas de disputar o discurso com legitimidade.
Mais do que rebater Trump, o artigo busca consolidar a imagem de um Brasil democrático, soberano e comprometido com o direito internacional — um contraponto direto ao unilateralismo que volta a ganhar força nos EUA com o retorno de Trump ao poder.
Uma resposta com o peso do Estado
Intitulado “Brasil e Estados Unidos podem fazer melhor”, o artigo assinado por Messias é, antes de tudo, um posicionamento político e jurídico de alta voltagem institucional. Como Procurador-Geral da República, Messias não fala apenas como jurista, mas como representante de um dos pilares do Estado Democrático de Direito. Ao levar essa posição para as páginas de um dos jornais mais influentes do mundo, o Brasil sinaliza claramente que está disposto a travar a disputa com os EUA também no campo da narrativa e da opinião pública internacional.
De forma sóbria, mas categórica, Messias denuncia a medida tarifária anunciada por Trump como “sem precedentes” e contrária ao espírito de cooperação histórica entre os dois países. Ele desmonta com dados oficiais a tese de que o Brasil praticaria “comércio desleal”, apontando que, em 2024, os EUA tiveram superávit de US$ 28,6 bilhões na balança comercial bilateral — o terceiro maior no mundo, quando incluídos bens e serviços.
Defesa do Judiciário e da democracia
Um dos trechos mais incisivos do texto é aquele em que o Procurador-Geral rejeita a tentativa de Trump de vincular as tarifas ao andamento de processos judiciais no Brasil contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, acusado de envolvimento na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. Ao chamar o caso de “caça às bruxas”, Trump — segundo Messias — ultrapassa os limites aceitáveis da diplomacia e tenta intervir em assuntos internos do Judiciário brasileiro.
“Nenhum governo estrangeiro tem o direito de ditar ou questionar a administração da justiça em nosso país”, afirma o procurador. “A defesa da legalidade e da autonomia de nossas instituições são pilares inegociáveis da nossa democracia.”
A declaração carrega um duplo recado: interno, para reafirmar a legitimidade da responsabilização dos atos golpistas, e externo, para deixar claro que o Brasil não aceitará tutelas geopolíticas sobre seu sistema de Justiça — especialmente vindas de um país cuja imagem democrática tem sido corroída por sua própria instabilidade institucional recente.
Liberdade de expressão com responsabilidade
Outro ponto abordado no artigo é a acusação de que o Brasil estaria perseguindo empresas norte-americanas de tecnologia e cerceando a liberdade de expressão. Messias refuta essa tese ao explicar que o país diferencia liberdade de expressão de práticas criminosas, como incitação ao ódio ou disseminação de desinformação antidemocrática. Ele cita a decisão recente do Supremo Tribunal Federal que admite a responsabilização de plataformas digitais em certos contextos legais, como acontece em democracias maduras.
A mensagem é clara: todas as empresas — estrangeiras ou nacionais — devem respeitar as leis locais. A reciprocidade é o princípio orientador.
Cooperação sim, submissão não
Jorge Messias não fecha portas ao diálogo — ao contrário, conclui seu artigo com um chamado ao entendimento e à responsabilidade mútua entre as duas maiores democracias do hemisfério ocidental. Mas a tônica geral do texto é de resistência serena à imposição de medidas arbitrárias e unilaterais por parte dos Estados Unidos.
Ele recorda os 200 anos de relações diplomáticas entre os dois países, destaca os valores compartilhados de democracia e Estado de Direito, mas sublinha que esses princípios precisam ser praticados e respeitados — especialmente em tempos de desacordo.
Ao combinar firmeza jurídica, serenidade institucional e diplomacia pública, Jorge Messias oferece uma resposta que não é apenas defensiva: ela propõe uma outra forma de se fazer política internacional em tempos de populismo e protecionismo crescente.
O post AGU afirma ao NYT que nenhum país pode ditar rumos da justiça brasileira apareceu primeiro em Vermelho.