
As palavras duras do secretário-geral da ONU, António Guterres, voltaram a ecoar nesta semana em Nova York, durante um encontro preparatório para a COP30, que será realizada em Belém, em 2025. “A humanidade está abrindo as portas do inferno”, disse o chefe das Nações Unidas, ao comentar os mais recentes relatórios climáticos que indicam recordes sucessivos de temperatura e aceleração no degelo do Ártico e da Antártida.
De acordo com a ONU, 2023 foi o ano mais quente já registrado, e 2024 e 2025 tendem a superar essa marca, com médias globais 1,5°C acima do período pré-industrial — o limite crítico definido pelo Acordo de Paris. A imagem que acompanha o relatório mostra o planeta sob estresse: ondas de calor mais longas e intensas, aumento da frequência de furacões, secas severas e inundações catastróficas em diversos continentes.
Um planeta no limite: a ciência confirma o alerta
Os dados apresentados pela ONU reforçam que o aquecimento global já tem efeitos concretos e mensuráveis. Entre as principais consequências:
- Derretimento acelerado das calotas polares e aumento do nível do mar, ameaçando cidades costeiras.
- Secas prolongadas que comprometem a produção de alimentos e o abastecimento de água.
- Incêndios florestais mais frequentes e intensos na América do Sul, na Europa e na Austrália.
- Eventos climáticos extremos, como enchentes e ciclones, cada vez mais destrutivos e imprevisíveis.
- Guterres destacou que “a ciência é inequívoca: as emissões continuam crescendo quando deveriam estar diminuindo rapidamente”. Ele apontou que os compromissos climáticos atuais dos países são “insuficientes e incompatíveis com a sobrevivência das próximas gerações”.
Os culpados e os omissos: política global travada
O secretário-geral criticou o fracasso das grandes potências em reduzir o uso de combustíveis fósseis e acusou governos e empresas de “negligência deliberada” diante da emergência climática. Segundo ele, a dependência do petróleo, carvão e gás natural continua sendo a principal barreira para o cumprimento das metas do Acordo de Paris.
“Enquanto alguns países multiplicam seus lucros com combustíveis fósseis, outros enfrentam a devastação e a fome causadas por desastres climáticos”, afirmou. Guterres pediu a criação de fundos climáticos mais robustos e mecanismos de compensação para países pobres, os mais afetados por fenômenos como desertificação, falta d’água e migração forçada.
Brasil e COP30: esperança e desafio
O discurso de Guterres também citou o papel estratégico do Brasil, anfitrião da COP30. A escolha de Belém, no coração da Amazônia, é simbólica: a floresta representa tanto o potencial de absorção de carbono quanto o risco de colapso ambiental se o desmatamento continuar.
Especialistas ouvidos pela ONU alertam que a Amazônia pode atingir o “ponto de não retorno” ainda nesta década, caso a devastação ultrapasse 25% da área original. Nesse cenário, o bioma deixaria de absorver CO₂ e passaria a emitir mais gases de efeito estufa — agravando o aquecimento global.
A última década para agir
Guterres foi categórico: “Ainda é possível limitar o aumento da temperatura a 1,5°C, mas o tempo está se esgotando.” O secretário-geral pediu uma transformação global “sem precedentes” na forma de produzir energia, cultivar alimentos e organizar a economia.
“Não se trata apenas de salvar o planeta — é de salvar a nós mesmos”, concluiu.
O post ONU: Meta climática de 1,5°C não será alcançada para frear o aquecimento global apareceu primeiro em Vermelho.