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Taxa de sindicalização volta a crescer no Brasil após dez anos

Depois de uma década em queda, finalmente um respiro: pela primeira vez desde 2012, a taxa de sindicalização dos trabalhadores brasileiros apresenta alta. Os dados divulgados pelo IBGE nesta quarta-feira (19) revelam não só uma inflexão estatística, mas um sinal de vigor no coração do movimento sindical. São trajetórias de luta que compõem o avanço com 9,1 milhões de pessoas (8,9% dos ocupados) associadas a sindicatos, contra 8,3 milhões em 2023: um incremento de 812 mil novos filiados.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), o número foi impulsionado por setores historicamente mais organizados, como indústria, administração pública, educação, saúde e serviços sociais. A taxa de sindicalização na indústria subiu de 10,3% para 11,4%, enquanto o setor público chegou a 18,9%. No comércio, responsável por quase um quinto dos trabalhadores ocupados, houve pequeno avanço, de 5,1% para 5,6% — ainda abaixo da média nacional.

Retomada conjuntural ou tendência estrutural?

Para o analista sindical João Guilherme Vargas Netto, a reversão do cenário é antes de tudo um reconhecimento da persistência do movimento sindical brasileiro. “O dado positivo não é uma anomalia, mas fruto da resistência dos sindicatos à precarização e aos ataques sofridos desde as reformas trabalhistas. O sindicato resistiu, continuou presente e, mesmo enfraquecido, nunca abriu mão de representar os trabalhadores. Se tivesse desaparecido, ninguém buscaria sua proteção”, analisa Vargas Netto.

Ele destaca três fatores para explicar o aumento: “O sindicato manteve-se ativo e visível; houve recomposição de empregos formais, que são a base do sindicalismo; e, finalmente, o Estado voltou a contratar, repondo quadros no setor público, o que ajuda a elevar a taxa de sindicalização”. Vargas Netto alerta, no entanto, para o fato de que esse crescimento ainda é conjuntural. “O desafio é transformar essa retomada em fato estrutural. Para isso, será preciso fortalecer a capacidade do sindicato de mobilizar e ampliar sua atuação, especialmente junto aos trabalhadores mais vulneráveis.”

Comerciários enfrentam rotatividade, baixos salários e individualismo

No comércio, a taxa de sindicalização permanece baixa, mas cresceu levemente em 2024. O presidente da Fecomércio-RS, Guiomar Vidor, aponta múltiplos obstáculos à organização dos trabalhadores. “Temos aqui um dos maiores índices de rotatividade do país, em alguns setores superando 60% ao ano. Isso significa uma categoria em constante mudança e muitos jovens em seus primeiros empregos, com salários baixos que muitas vezes impossibilitam a contribuição sindical.” 

Vidor destaca outro fenômeno, o apelo crescente ao individualismo: “O ambiente competitivo, onde cada trabalhador precisa vender mais ou mostrar resultados melhores para garantir o próprio emprego, reforça a ideia de que os problemas devem ser resolvidos individualmente, não coletivamente.

Além disso, nas pequenas e microempresas, predomina uma relação direta e por vezes de pressão entre patrão e empregado, o que dificulta a organização coletiva e o vínculo sindical.”

Para superar esse quadro, Vidor afirma que a federação tem investido em campanhas unitárias, buscando massificar o valor do sindicato. “Precisamos fazer o sindicato estar presente no cotidiano da categoria, mostrando seu papel transformador, na luta por melhores salários, direitos e condições de trabalho. Nosso objetivo é reagrupar os trabalhadores e reconstruir essa identidade coletiva, fazendo do sindicato um verdadeiro instrumento de mobilização e conquistas”, afirma.

Trabalhadores da indústria apostam em reinvenção e mobilização ampliada

Na indústria, o crescimento da taxa de sindicalização reflete movimentos de reinvenção e novas estratégias de aproximação com a base. Para o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Betim, Alex Santos Custódio, o setor tem investido na oferta de serviços, lazer e cultura para associados, além da tradicional luta econômica. “O sindicato vem ampliando seu papel, oferecendo contrapartidas em esporte, cultura, assistência — isso ajuda o trabalhador a perceber o valor de estar associado, não apenas na defesa dos direitos, mas também em sua trajetória social”, destaca.

Custódio aponta ainda para o aumento da percepção coletiva dos trabalhadores diante dos riscos e ataques a direitos. “Hoje está claro que, sem unidade, a categoria segue sofrendo perdas. Esse movimento de retorno à sindicalização mostra que muitos trabalhadores entenderam: ou se unem com o sindicato, ou continuam a perder conquistas. Nosso desafio é ampliar essa consciência e lutar para alterar aspectos da legislação que prejudicam o trabalhador, como formas alternativas de contratação e vínculos via CNPJ, que já foram normalizadas mas precisam ser debatidas e, se possível, revertidas”, explica.

Sindicalização e desenvolvimento caminham juntos

Adilson Araújo, presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), interpreta o crescimento como resultado da recuperação dos investimentos públicos e de políticas de valorização do trabalho: “Sempre que há crescimento econômico, geração de emprego e renda, os trabalhadores tendem a se organizar mais. Esses números positivos traduzem um cenário de reconstrução, com a retomada de obras, a nova política industrial e a recuperação da massa salarial.”

Araújo lembra que, no auge do ciclo de desenvolvimento iniciado por Lula e Dilma, o Brasil chegou a ter quase 20% dos trabalhadores sindicalizados — hoje ainda muito abaixo desse patamar. “O desafio é enorme. Mais de 90% dos ocupados ganham até R$ 3.600 e enfrentam dificuldades para contribuir. Por isso, precisamos apostar em políticas que estimulem empregos de melhor qualidade, ampliação da contratação formal e protagonismo dos sindicatos no debate nacional”, afirma.

Para o presidente da CTB, somente com desenvolvimento, trabalho decente e organização sindical forte será possível construir um Brasil menos desigual e com maior incidência de direitos trabalhistas. “A sindicalização é parte essencial do projeto nacional e da reconstrução social. O balanço é positivo, mas os desafios são muitos para que o Brasil retome seu protagonismo e fortaleça o papel dos sindicatos.”

Formalização aumenta entre autônomos, mas informalidade persiste

Além dos dados sobre sindicalização, a PNAD Contínua mostra avanço na formalização: em 2024, cerca de um terço dos trabalhadores por conta própria e empregadores estavam cadastrados no CNPJ. Entre os freelancers, 25,7% têm empresa aberta — índice ainda baixo, sinalizando que a informalidade permanece como obstáculo à organização coletiva.

A pesquisa revela que os setores de comércio e serviços lideram em formalização via CNPJ, mas a agricultura e construção civil ainda apresentam taxas reduzidas. No recorte regional, Sul e Sudeste puxam o aumento da sindicalização e da formalização, enquanto Norte e Nordeste apresentam maiores índices de informalidade e menor vinculação sindical.

Desigualdade de gênero diminui, escolaridade aumenta entre sindicalizados

Outro dado relevante é a aproximação entre os índices de sindicalização masculina e feminina: pela primeira vez, a diferença caiu para 0,4 ponto percentual, chegando a 9,1% entre homens e 8,7% entre mulheres. No Nordeste, o percentual de mulheres sindicalizadas (10%) superou o dos homens (8,9%).  

Em relação ao nível de instrução, a escolaridade dos sindicalizados também aumentou. Dos 9,1 milhões, 37,5% têm ensino médio completo e 37,2% ensino superior. A maior taxa de sindicalização foi entre trabalhadores com nível superior (14,2%), embora esse grupo tenha acumulado a maior queda histórica desde 2012.

Histórico e perspectivas para o movimento sindical brasileiro

Apesar do avanço, a distância em relação ao início da série histórica ainda é grande: em 2012, a taxa de sindicalização era de 16,1%. Para especialistas, “o fim da queda tende a ser um ponto de inflexão relevante”, mas a recuperação só será consolidada se houver medidas para ampliar o diálogo, corrigir distorções e fortalecer a atuação dos sindicatos frente à precarização, ao trabalho informal e às novas formas de contratação.

Desde as reformas trabalhistas de 2017, os sindicatos têm feito campanhas unitárias e permanentes, luta pela redução da jornada de trabalho, aproximação entre dirigentes e trabalhadores, formação política fortalecida, uso de mídias digitais e abertura para jovens e mulheres para recuperar o terreno perdido. Tais ações ganharam força, e os dados de 2024 permitem inferir que essa agenda começa a dar resultados.

Guiomar Vidor resume o desafio: “Nosso maior objetivo é trazer os trabalhadores de volta para dentro do sindicato, reconstruir a identidade coletiva e ampliar as conquistas e o bem-estar social”. João Guilherme Vargas Netto complementa: “A luta agora é transformar o alívio conjuntural em virada estrutural, fazendo do sindicato instrumento fundamental para organizar e defender a classe trabalhadora”, conclui.

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