Notícias

Cai outra peça do Império Vorcaro e prejuízo do FGC vai a R$ 49 bilhões

O esquema financeiro arquitetado por Daniel Vorcaro, que por anos desafiou a lógica do mercado com crescimentos exponenciais, enfrenta agora seu capítulo final. Nesta quarta-feira (21), o Banco Central do Brasil decretou a liquidação extrajudicial da Will Financeira S.A. (Will Bank). A medida já era esperada por observadores do setor desde que o Banco Master, matriz do grupo, sofreu intervenção semelhante em 18 de novembro de 2025. Com a insolvência declarada e o bloqueio de transações pela bandeira Mastercard, cerca de 9 milhões de clientes, em sua maioria das classes C e D do Nordeste, relatam dificuldades para acessar os recursos. O Will Bank já operava sob regime de fiscalização intensificada pelo Banco Central desde agosto de 2024. A quebra da financeira deve alavancar o desembolso do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) ao conglomerado Master para a cifra recorde de R$ 49 bilhões.

Investigações e crimes financeiros

A liquidação da financeira é mais um elemento que surge das investigações feitas pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero. Relatórios enviados ao ministro Dias Toffoli, relator no STF, descrevem Vorcaro como o líder de uma organização criminosa que utilizava o Sistema Financeiro Nacional para captação ilícita e lavagem de dinheiro. A PF aponta “indícios veementes” que Vorcaro gerenciava um ecossistema de fraude que incluía a emissão de R$ 17 bilhões em títulos falsos e o uso de laranjas para inflar ativos. Entre os achados mais graves estão provas de que o banqueiro financiou, com contratos de R$ 2 milhões e cláusulas de sigilo, campanhas de difamação conduzidas por influenciadores para atacar o Banco Central, numa tentativa de reverter a liquidação do Master através da pressão digital coordenada.

Uma das frentes mais alarmantes da investigação foca na suspeita de fraudes massivas em empréstimos consignados. A Polícia Federal apura a criação de carteiras de crédito fictícias, onde CPFs de beneficiários do INSS e servidores públicos eram utilizados sem autorização para simular uma solidez operacional que o banco não possuía. Esses ativos podres eram empacotados e vendidos a outras instituições, como o Banco de Brasília (BRB), gerando um fluxo de caixa artificial que retroalimentava o esquema e mascarava a insolvência do grupo.

A complexidade do esquema estende-se ao chamado “capitalismo verde”. As investigações revelaram que Henrique Moura Vorcaro e Natália Bueno Vorcaro Zettel, pai e irmã de Daniel, controlavam projetos bilionários de créditos de carbono estruturados irregularmente sobre terras públicas da União na Amazônia. Estimativas infladas de uma fazenda em Apuí (AM), que alcançavam o valor de R$ 45,5 bilhões, serviam como lastro fictício para turbinar fundos administrados pela Reag DTVM. Esse “carbono de papel”, sem certificação real, permitiu a sustentação de balanços que ocultavam rombos bilionários, enquanto parte dos recursos era desviada para o patrimônio pessoal da família Vorcaro.

O empresário João Carlos Mansur, ex-dono da Reag Investimentos, tornou-se alvo central da segunda fase da Compliance Zero, com o bloqueio de R$ 5,7 bilhões em bens. A PF investiga o papel de Mansur na engrenagem que permitia ao Master simular solidez financeira através de fundos sob gestão dele.

Conexões políticas e desdobramentos

Outro investigado é o investidor Nelson Tanure. O STF recebeu informações que apontam Tanure como suspeito de ser sócio oculto de Vorcaro, utilizando sua vasta rede de influência para facilitar as operações do grupo. A investigação aponta indícios de que Tanure teria articulado movimentos para esconder o rastro das fraudes e proteger o núcleo duro da organização. A relação entre ambos é peça-chave para entender como o Master conseguiu penetrar em instituições públicas, como o Banco de Brasília (BRB), para quem tentou vender R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito fictícias.

No Congresso Nacional é cada vez mais iminente a instalação de uma CPMI para investigar a maior fraude bancária da história. O foco recai sobre Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro e pastor, que além de figurar na estrutura financeira, é um notório financiador político, tendo doado R$ 5 milhões nas eleições de 2022 para as campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. Por outro lado, há uma intensa movimentação de bastidores por parte de parlamentares ligados ao centrão para esvaziar a investigação ou reverter as medidas do Banco Central.

Enquanto o Judiciário se prepara para ouvir ex-diretores e executivos nos dias 26 e 27 de janeiro, o caso Banco Master revela extensas vulnerabilidades do sistema financeiro brasileiro e a sofisticação de uma elite do mercado de capitais que desenvolveu uma arquitetura para fraudar balanços contábeis e lavar dinheiro de origem incerta. A PF já identificou que fundos ligados ao crime organizado, inclusive com conexões investigadas junto ao PCC, integraram o esquema para inflar ativos via preços artificiais e laranjas.

O outro lado

Em nota à imprensa, a defesa de Vorcaro informou que a financeira Will Bank tinha gestão própria e que até 17 de novembro, “a instituição operava regularmente sob o controle do conglomerado Master, e que, a partir de 18 de novembro, com a decretação da liquidação extrajudicial, a gestão do conglomerado passou a ser exercida em RAET [Regime Especial de Administração Temporária] pelo Banco Central.”

“Vorcaro segue colaborando plenamente com as autoridades competentes, permanecendo à disposição para esclarecimentos.”, completa.

O post Cai outra peça do Império Vorcaro e prejuízo do FGC vai a R$ 49 bilhões apareceu primeiro em Vermelho.