Se existe alguém capaz de ir ao cinema assistir Hamnet sem saber a sinopse do filme, talvez essa hipotética pessoa se surpreenda ao descobrir, lá pela metade do filme, que o personagem chamado apenas de Will na maioria das cenas se trata de William Shakespeare, considerado o maior dramaturgo em língua inglesa de todos os tempos, autor de algumas das obras mais importantes do teatro moderno.
O filme da cineasta chinesa Chloe Zhao começa contando a simples história de como nasce uma família do interior da Inglaterra, formada por um jovem professor de latim e uma mulher mais velha, ambos pertencentes a clãs que resistem, por razões distintas, em aprovar a união entre eles, mas que acabam cedendo em função da gravidez da moça.
A forma paciente e envolvente que o roteiro usa para relatar a construção daquele núcleo familiar a partir do nascimento de sua primeira filha é parte do segredo do filme.
São nessas cenas iniciais que o espectador tem a primeira impressão de que Jessie Buckley “rouba a cena” no papel de Agnes Hathaway, e a atriz irlandesa realmente entrega uma interpretação soberba. Impetuosa, doce e com nuances de misticismo, como as típicas protagonistas femininas shakespearianas, ela brilha tanto nas cenas mais emotivas como nas mais singelas, e em todas elas justifica seu status de favorita a qualquer prêmio de melhor interpretação nesta temporada de festivais cinematográficos.
Mas não se trata de um “roubo”. O filme escolhe usar a personagem como fio condutor da história, e escolhe tornar aquele professor com pretensões literárias quase como coadjuvante – por isso omite seu sobrenome durante quase todo o filme –, como um observador atento dos acontecimentos ao seu redor, para, em seguida, fazê-lo brilhar como o homem capaz de transformar sua fortuna e sua desgraça em arte.
Zhao acrescenta ingredientes sutis ao romance de Will e Agnes que podem ser encontrados em obras como A Megera Domada, Romeu e Julieta e Sonhos de uma Noite de Verão. Aquilo que a cultura pop atualmente chama de “easter eggs”, mas que são apenas as roteiristas – a diretora chinesa assina o roteiro junto com a escritora irlandesa Maggie O’Farrell, autora do livro homônimo – colocando em prática o velho axioma de que “a arte imita a vida”.
Também é brilhante a escolha de apresentar o personagem título apenas no segundo ato – aliás, ele está escondido alguns dos trailers e isso talvez não seja por acaso. Seu ingresso na trama é arrebatador e, este sim, rouba a cena.
A história de Hamnet é curta – para quem conhece a sinopse, esta informação não é um spoiler – mas marcante, graças a um roteiro que sabe carregar a emoção na medida certa, à direção sublime de Zhao e à interpretação impressionante do garoto Jacobi Jupe.
Ainda no segundo ato, o filme passar a contar um pouco da vida de Will em Londres, e a mostrar como a morte era uma presença constante na Inglaterra daquele então – um pouco menos nos pequenos vilarejos do interior, onde a família morava, mas mais evidente nas grandes cidades, que ainda viviam os resquícios da epidemia de peste bubônica.
Mesmo interpretando um Shakespeare coadjuvante, o também irlandês Paul Mescal entrega uma atuação estupenda durante toda a película, mas especialmente em suas cenas na capital inglesa, com destaque para uma das melhores interpretações do clássico “to be or not to be” já vistas no cinema – e em uma nova versão, não a partir das angústias do príncipe Hamlet, mas das que vive o próprio dramaturgo.
A sequência final do filme une as tragédias de Hamlet e Hamnet, em um desfecho poético, sobretudo nos gestos e semblantes, e no público se movendo junto com as cenas de uma das obras mais importantes da história do teatro.
No auge do terceiro ato, Buckley e Mescal protagonizam uma cena primorosa, na qual não dizem uma única palavra. Em uma simples troca de olhares, em pouco mais de quinze segundos, é possível ver a transformação que seus personagens vivem e as declarações de um para o outro a respeito de tudo o que viveram e sofreram juntos.

Universal Pictures / Divulgação
Hamnet não oferece uma releitura de Hamlet. A obra continua sendo a mesma, mas a história contada no filme traz uma nova camada sobre o autor, e vale a pena rever (ou reler) a peça agregando essa nova perspectiva.
Premiações
No Oscar, Hamnet concorre em oito categorias: Melhor Filme, Melhor Direção (Zhao), Melhor Roteiro Adaptado (Zhao e O’ Farrell), Melhor Atriz (Buckley), Melhor Elenco, Melhor Figurino, Melhor Trilha Sonora e Melhor Direção de Arte.
Em festivais já realizados, a obra conquistou prêmios no Critics Choice Awards (Melhor Atriz, para Jessie Buckley) e no Globo de Ouro (Melhor Filme de Drama e Melhor Atriz, novamente para Buckley).
O post ‘Hamnet’ relega Shakespeare a coadjuvante da própria história e engrandece sua obra apareceu primeiro em Opera Mundi.