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‘Bugonia’: mito grego a uma guerra de narrativas sem vencedores

Bugonia”, em seu sentido literal, é o “nascimento do boi”. A expressão vem de um mito grego antigo, onde se acreditava que abelhas podiam nascer da carcaça de um boi sacrificado. Ou seja, a ideia de que algo novo pode surgir a partir da destruição. E é justamente esse conceito que o filme do diretor grego Yorgos Lanthimos carrega durante todo o enredo.

O longa conta a história de dois primos, Teddy (Jesse Plemons) e Donny (Aidan Delbis), que vivem isolados em uma propriedade rural. De forma independente, ambos estudam ciência pela internet e criam teorias da conspiração, até que se convencem de que Michelle Fuller (Emma Stone), uma poderosa CEO de uma indústria farmacêutica, é, na realidade, uma alienígena disfarçada que pretende destruir o planeta. É partir dessa tese que os dois decidem sequestrá-la para obrigá-la a confessar sua essência sobrenatural.

A maior parte da trama se passa dentro do cativeiro onde Fuller tenta, sob constante pressão, provar sua humanidade, enquanto os primos a contrapõem com supostas evidências encontradas na internet. O filme se enquadra na categoria de ficção científica, com pitadas de humor e suspense. Porém, constrói, gradativamente (e absurdamente), um alerta à contemporaneidade: a realidade importa para aqueles que são convencidos por qualquer informação que confirme suas crenças?

É perceptível como a casa dos sequestradores – isolada, suja e bagunçada – contrasta com a mansão de Michelle – limpa, organizada e moderna. É uma crítica à desigualdade social, que é também retratada com a intercalação das cenas de abelhas que recorrentemente aparecem no enredo. Elas representam a organização social e os papéis desempenhados pelos diferentes tipos da espécie, incluindo os operários de uma sociedade e a rainha.

Lembrar que o longa é iniciado com imagens de abelhas e uma narração sobre a importância da polinização para o equilíbrio do planeta. Essa introdução cria uma expectativa de que a história terá uma mensagem ecológica, mas, no decorrer da trama, o tema vai se diluindo e servindo mais como justificativa para os sequestradores legitimarem os seus objetivos do que como uma preocupação ambiental, de fato. 

Atriz Emma Stone assume papel de Michelle Fuller no filme ‘Bugonia’
Divulgação/Universal Pictures

O espectador não se simpatiza por ninguém. Afinal, não existe certo nem errado, mas tudo se trata de uma sobreposição de argumentos e pontos de vista que dependem de cada personagem com suas respectivas realidades sociais. Enquanto Teddy e Donny são retratados de forma quase caricata, como pessoas ignorantes e iludidas, Fuller expressa poder e arrogância, uma voz prepotente de quem teve maior acesso a informações oficiais.

Especificamente a atuação de Jesse Plemons como Teddy ajuda a imergir na história do personagem, mostrando que, por trás de toda a paranoia misturada de revolta existe algo ali, e ele provém do lado mais humano: o abandono e a frustração em uma sociedade desigual.

Por exemplo, há cenas em que Teddy visita a sua mãe no hospital, em estado de coma após um teste de medicamento experimental feito pela própria empresa de Fuller. Em um dos flashbacks, uma enfermeira oferece um acordo financeiro em troca de silêncio. Trata-se de uma denúncia à precariedade dos valores do sistema de saúde dos Estados Unidos, potência mundial. Parte da revolta do personagem nasce da ausência de soluções concretas e de um sistema capitalista que trata vidas apenas como estatísticas.

Muito diferente de filmes tradicionais em que há um vencedor e um derrotado, a proposta de Bugonia é empurrar o espectador a uma confusão e a se atentar nas contradições não muito escancaradas do dia a dia. Ou seja, assim como o mito grego que dá nome ao filme, a história parece mostrar que, em meio a toda confusão e caos, pode surgir uma reflexão. “Será que estamos todos ficando loucos?” é a sensação que fica e, talvez, seja a partir dela que algo novo se construa.

No Oscar 2026, Bugonia concorre em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Atriz (Emma Stone), Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora. A cerimônia acontece neste domingo (15/03).

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