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Lisboa nos caminhos da revolução que continuam a ser escritos

Lisboa não guarda a Revolução dos Cravos apenas na memória institucional ou nas datas comemorativas, ela a inscreve na sua própria geografia, nos edifícios que atravessam séculos, nas paredes que são constantemente reescritas e na forma como os corpos ocupam a cidade no presente, de modo que percorrer os caminhos da revolução deixa de ser um simples exercício de rememoração histórica para se tornar uma experiência concreta, quase física, de atravessamento de um território onde o passado não está encerrado, mas permanece ativo, latente e disponível a quem se dispõe a caminhar com atenção.

Esses caminhos não obedecem a uma linearidade evidente, distribuem-se pela cidade como uma rede que conecta estratégia militar, ação política, repressão, resistência e memória, exigindo do visitante disposição para o desvio, para a pausa e para o deslocamento, já que nem todos os pontos se encontram ao alcance de uma caminhada contínua, sendo necessário, em determinado momento, deixar o centro, tomar um ônibus e atravessar uma Lisboa menos evidente para compreender que a revolução também se desenhou fora do olhar imediato, num espaço onde tudo ainda era silêncio, cálculo e decisão.

O percurso pode começar na Avenida de Berna, diante do mural da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde a figura de Salgueiro Maia se impõe sobre o concreto urbano como uma presença que resiste ao tempo, e onde tive a oportunidade, ao longo de diferentes viagens, de acompanhar as sucessivas transformações do painel, percebendo que as cores mudavam, os traços se alteravam e os elementos ao redor eram constantemente substituídos, enquanto a figura central permanecia, criando um diálogo entre permanência e transformação que revela, de forma bastante clara, que a memória de Abril não se fixa, mas se reinterpreta continuamente.

Museu do Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas, Quartel da Pontinha
Mural da Universidade Nova de Lisboa, onde a figura de Salgueiro Maia, Avenida de Berna

Permanecer alguns minutos diante daquele mural permite compreender que ali não está apenas um ponto de partida geográfico, mas uma chave de leitura para todo o percurso, pois antes mesmo de alcançar os lugares onde a revolução se desenrolou, a cidade apresenta a forma como escolhe lembrá-la, deslocando o olhar do passado para o presente e mostrando que Lisboa não apenas guarda Abril, mas o reescreve de forma constante.

Para compreender o que efetivamente aconteceu, é preciso sair dali e aceitar o deslocamento até o Quartel da Pontinha, um movimento que exige tempo, pois não se trata de um lugar integrado ao circuito turístico habitual, e essa distância física ajuda a entender que a revolução, antes de se tornar visível, foi pensada em um espaço de contenção, onde, entre os dias 24 e 26 de abril de 1974, oficiais coordenavam as operações, recebiam informações e ajustavam estratégias com precisão absoluta, enquanto a cidade ainda permanecia alheia ao que estava prestes a acontecer.

Esse momento de elaboração silenciosa encontra na rádio o ponto de transição entre o plano e a ação, e é importante recordar que tudo começa com uma primeira senha, transmitida às 22 horas e 55 minutos do dia 24 de abril pelos Emissores Associados de Lisboa, com a canção “E Depois do Adeus”, interpretada por Paulo de Carvalho e composta por José Niza, vencedora do Festival da Canção no ano anterior, uma escolha aparentemente trivial, mas cuidadosamente pensada para não levantar suspeitas, sendo seguida já na madrugada, às 00 horas e 20 minutos do dia 25 de abril, pela transmissão de “Grândola, Vila Morena”, de José Afonso, a partir da Rádio Renascença, confirmando o início das operações e marcando o ponto de não retorno de todo o processo, sendo ainda mais significativo lembrar que José Afonso era um dos artistas mais associados à oposição ao regime e cuja obra sofria censura, o que transforma a escolha da canção não apenas num código operacional, mas num gesto político carregado de sentido.

Edifício da antiga sede da PIDE/DGS na Rua António Maria Cardoso, Chiado
Inscrição na calçada do antigo prédio da rádio Renascença, Chiado

A sede da Rádio Renascença não é apenas um detalhe nesse percurso, mas um dos lugares centrais da revolução, pois foi ali que o som se transformou em ação e que uma operação clandestina ganhou escala nacional, funcionando como elo entre unidades dispersas e permitindo uma coordenação simultânea que seria impossível por outros meios naquele contexto, razão pela qual foi rapidamente ocupada pelos militares revoltosos e integrada ao conjunto de pontos estratégicos controlados ao longo do dia, e que hoje, após a saída da emissora no início dos anos 2000, abriga um hotel de luxo, criando mais uma camada de contraste na cidade, onde o espaço que um dia colocou em movimento uma transformação histórica passa a integrar a lógica contemporânea de consumo, sem que, no entanto, seja possível apagar completamente o peso do que ali aconteceu.

À medida que o plano se materializa, o roteiro passa a desenhar-se no espaço urbano, conduzindo ao Chiado e à Rua António Maria Cardoso, onde o edifício da antiga sede da PIDE/DGS se impõe como um dos pontos mais densos de todo o percurso, não pela sua aparência atual, que pouco revela, mas pelo que ali se concentrou durante décadas, com práticas de vigilância, interrogatório e tortura que sustentaram o regime, e que, no dia 25 de abril, culminaram num dos episódios mais trágicos daquele dia, quando agentes dispararam sobre a multidão, provocando a morte de quatro pessoas e deixando dezenas de feridos, num momento que rompe com a imagem de uma revolução sem violência e expõe a resistência do poder em ceder.

O contraste entre passado e presente torna-se inevitável ao perceber que, naquele mesmo edifício, hoje funciona um espaço comercial sofisticado, uma loja de design de alto padrão, criando um apagamento silencioso que revela como, mesmo em um país que construiu uma memória forte sobre a revolução, algumas marcas da repressão tendem a diluir-se na lógica cotidiana da cidade.

Museu do Aljube Resistência e Liberdade, Alfama
Terreiro do Paço

O percurso segue então para o Terreiro do Paço, onde o espaço se abre de forma ampla diante do Tejo, criando uma sensação de respiro que contrasta com a densidade dos acontecimentos que ali se desenrolaram, uma vez que foi nesse ponto que as forças comandadas por Salgueiro Maia garantiram o controle dos ministérios e enfraqueceram de forma decisiva o regime, num contexto em que a tensão era real, incluindo o momento em que uma fragata da OTAN, posicionada no rio, chegou a apontar na direção das forças revolucionárias, criando a possibilidade concreta de um confronto armado que poderia ter alterado profundamente o desfecho da história.

Hoje, o que se vê é uma ocupação leve do espaço, com turistas caminhando sem pressa, casais se aproximando do rio e mães empurrando carrinhos de bebê com tranquilidade, compondo uma cena que evidencia como a cidade absorve e transforma os seus próprios marcos históricos, muitas vezes sem explicitar o que ali esteve em jogo.

Para compreender a profundidade desse processo, é necessário atravessar também o Museu do Aljube Resistência e Liberdade, um espaço que já havia visitado outras vezes, mas que desta vez se apresentou de forma mais intensa, talvez pela própria carga acumulada do percurso, com suas celas recriadas, registros sonoros, imagens e poesias espalhadas pelas paredes, criando uma experiência que não permite distanciamento e que evidencia que a revolução não começa em 1974, mas é resultado das guerras coloniais e de décadas de repressão e resistência.

É nesse contexto que gestos aparentemente simples ganham outra dimensão, como o de Celeste Caeiro, a florista que colocou um cravo no cano de uma espingarda, alterando radicalmente o significado daquele momento e transformando o vermelho, que poderia ser de sangue, em símbolo de liberdade, gesto que hoje é lembrado por um mural recente próximo ao miradouro de Santa Clara, reafirmando a força dessa imagem na memória da cidade.

Sede da Associação 25 de Abril
Placa em homenagem a Salgueiro Maia lembrando 25 de abril, Largo do Carmo

O percurso encontra o seu ponto de maior concentração simbólica no Largo do Carmo, onde Marcelo Caetano se refugiou e onde a revolução encontrou o seu desfecho político, num espaço relativamente contido, mas carregado de significado, onde uma placa no chão, naquele dia rodeada de cravos, marca o lugar em que a história se condensou, culminando na saída de Caetano numa chaimite, imagem que sintetiza o colapso do regime e que marca o início de um percurso que o levaria à Pontinha, depois à Madeira e, por fim, ao exílio no Brasil.

Esse momento carrega em si uma tensão que não desaparece, pois a história poderia ter seguido outro caminho, e é precisamente nessa possibilidade não concretizada que se revela a singularidade do processo e a dimensão da escolha que ali se consolidou.

Os caminhos da revolução, no entanto, não se encerram naquele ponto, prolongam-se na forma como essa memória continua a ser construída e disputada no presente, seja na Associação 25 de Abril, onde o passado é mantido vivo através da ação dos seus protagonistas, seja no painel coletivo de azulejos instalado no Rossio, promovido pelo Partido Comunista Português (PCP) no contexto das comemorações dos cinquenta anos da revolução, uma obra concebida como processo participativo e construída a partir da contribuição de centenas de pessoas que, ao longo de oficinas realizadas em diferentes espaços, foram convidadas a traduzir em azulejo as suas experiências, leituras e sentimentos sobre Abril, compondo um grande cravo visível à distância e, ao mesmo tempo, um mosaico de múltiplas narrativas quando observado de perto.

Trata-se de uma iniciativa assumidamente política, não apenas pela sua autoria, o PCP, mas pela forma como articula memória e ação ao afirmar que Abril vive em cada traço de cada azulejo e ao inscrever no próprio processo coletivo de criação a ideia de que a revolução não está concluída, mas permanece como tarefa, como projeto e como horizonte.

Inserido no coração da cidade e exposto ao fluxo cotidiano de quem passa, o painel transforma o espaço urbano num lugar de afirmação, onde a revolução deixa de ser apenas evocação histórica e se torna posicionamento, revelando que os caminhos de Abril não terminam nos lugares onde ele aconteceu, mas seguem sendo escritos na forma como cada geração decide compreendê-lo, reivindicá-lo e transformá-lo.

Percorrer Lisboa a partir desses lugares deixa de ser uma atividade turística e passa a ser uma experiência pedagógica, pois cada ponto revela uma etapa, cada espaço uma camada e cada gesto uma possibilidade de leitura, mostrando que a cidade não funciona apenas como cenário, mas como estrutura ativa de um processo histórico que continua a produzir significado e que permanece aberto àqueles que decidem atravessá-lo com atenção.

Abril continua.

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