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Funcionários e estudantes da USP em greve por melhores condições de estudo e trabalho

EM RISCO. Governador de SP quer privatizar a USP. Foto: Guilherme Farpa (JAV/SP)

Após a realização de cerca de 40 assembleias, estudantes e trabalhadores de mais de 100 cursos da Universidade de São Paulo (USP) entraram em greve no último dia 14 de abril.

Daniel Lustosa | DCE Livre da USP


EDUCAÇÃO – Após cerca de 40 assembleias, mais de 100 cursos da Universidade de São Paulo (USP) paralisaram suas atividades no dia 14 de abril, num intenso processo de mobilização de estudantes e trabalhadores. Os estudantes, cansados das humilhações que passam na universidade, lutam por melhores condições de alimentação, com a “desterceirização” dos Restaurantes Universitários, a ampliação de vagas e a melhoria da estrutura das moradias estudantis e a defesa de um orçamento público justo, que atenda às demandas reais da instituição.

Meses de mobilização

Essa greve não surgiu do nada. Desde fevereiro, a Associação de Moradores do Complexo de Residências da USP (Amorcrusp), o DCE Livre e diversos Centros Acadêmicos têm denunciado a verdadeira crise na política de permanência estudantil da universidade. Larvas nos bandejões, falta de comida e moradia, com calouros dormindo no chão, sem abertura das vagas em alojamentos provisórios. Como se não bastasse, no último mês, o campus USP Butantã (Cidade Universitária) ficou cinco dias sem água, e a USP Leste passou um dia sem luz.

Nesse cenário, houve diversas manifestações na Reitoria e Pró-reitorias, ocupação da sede do Serviço Social, paralisações, um “trancaço” na avenida em frente ao campus Butantã e catraca-livre em Restaurantes Universitários nos campi Leste e na Faculdade de Direito.

Perseguição da Reitoria

Entretanto, em vez de trabalhar para resolver tamanha precariedade, a Reitoria tomou a decisão de perseguir as entidades estudantis. Primeiro, abriu um Processo Administrativo pela expulsão de cinco diretores da Amorcrusp, em razão de protestos realizados pela entidade. Depois, aprovou uma minuta que exige das entidades estudantis o pagamento das contas de água e luz de suas sedes e proíbe os estabelecimentos comerciais que existem dentro das sedes das entidades estudantis.

Essa medida cerceia o direito de organização, pois é nessas sedes onde atividades políticas e culturais acontecem, não só dos Centros Acadêmicos, mas também de Atléticas e Baterias Universitárias. Além disso, o fechamento dos estabelecimentos comerciais busca cortar os recursos do movimento estudantil e acabar com sua independência financeira e política.

Universidade pública em perigo

No dia 31 de março, foi convocada uma sessão extraordinária do Conselho Universitário. O objetivo era aprovar uma bonificação aos professores, que custaria, ao todo, mais de R$ 238 milhões para o orçamento da universidade. Essa medida foi amplamente repudiada pela comunidade, por excluir os funcionários e pela condição de precariedade dos cursos e moradias sem investimentos. 

Sempre que o movimento estudantil propôs aumento no valor das bolsas, investimentos em moradia estudantil e na estrutura das salas de aula, o argumento da Reitoria era que isso ultrapassaria os chamados “parâmetros de sustentabilidade financeira”. Na prática, trata-se de um “teto de gastos” dentro da universidade pública.

Então, como foi possível aprovar uma medida com gastos tão exorbitantes? A Reitoria aprovou um mecanismo que unifica a verba pública (advinda do Governo do Estado de São Paulo) e a verba privada (que a USP tem em fundos de investimentos). Isso faz com que a somatória seja muito maior e possibilitaria esse gasto expressivo, mesmo com o tal “teto de gastos”.

Conclusão: a partir de agora, abre-se um precedente terrível para a ampliação da presença dos interesses do capital privado no orçamento da Universidade de São Paulo. Se faltar verba pública para a USP, a resposta do governador fascista Tarcísio de Freitas poderá ser a de ampliar ainda mais a entrada de “investimentos privado” na educação. Ou seja, uma privatização disfarçada da universidade pública.

Greve unificada

As recentes mobilizações revelam as contradições que, durante muito tempo, a universidade tentou jogar para debaixo do tapete. Os trabalhadores da USP que entraram em greve no dia 14, arrancaram o indicativo de gratuidade no transporte para todos os trabalhadores, incluindo os terceirizados, e uma bonificação proporcional a dos docentes – mas nada ainda é uma garantia, e a luta deve continuar.

Em assembleia geral dos estudantes organizada pelo DCE Livre da USP, a greve foi aprovada juntamente a um calendário de mobilizações. Uma nova greve da USP, com profunda unidade entre os estudantes, pode conquistar diversas vitórias e, principalmente, abrir caminho para um movimento mais amplo, que derrote o fascismo e as privatizações no Estado de São Paulo.

Matéria publicada na edição impressa nº332 do jornal A Verdade