CAPAZ DE REDUZIR em até 90% a produtividade da soja e do milho, o “caruru gigante” acendeu um alerta no campo. A planta invasora tem variedades resistentes a agrotóxicos e, até então, estava restrita a Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Neste ano, porém, já foi encontrada nos estados de São Paulo e Santa Catarina.
O avanço tem levado produtores a intensificar o uso de agrotóxicos para proteger as lavouras, com aplicação de doses maiores e mistura de substâncias. Especialistas alertam, no entanto, que essas medidas são ineficazes — e ainda favorecem o surgimento de mais plantas resistentes. Além de encarecer a produção, o uso excessivo de químicos ignora outras formas de prevenção e amplia os riscos à saúde e ao meio ambiente.
“O controle químico deveria ser o último método [de defesa]”, afirma Leandro Tropaldi, professor do Departamento de Produção Vegetal da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e diretor da Sociedade Brasileira da Ciência para Plantas Daninhas (SBCPD).
As plantas invasoras resistentes, também chamadas de “ervas daninhas”, são consideradas ameaças às safras de commodities pois disputam água, luz e nutrientes com plantas de interesse econômico, como soja, milho e algodão.
A lista de plantas resistentes vem crescendo no Brasil. Nos últimos dez anos, o número de casos identificados saltou de 39 para 61, envolvendo 31 espécies diferentes — cada espécie pode ter um ou mais biótipos (variedades) resistentes. Os dados são do International Survey of Herbicide Resistant Weeds (Levantamento Internacional de Ervas Daninhas Resistentes a Herbicidas), vinculado ao HRAC (Comitê de Ação contra a Resistência a Herbicidas), órgão fundado pela indústria de agrotóxicos. Até o ano 2000, eram apenas oito biótipos identificados no país.
Uma das explicações para o aumento é o uso repetitivo de um mesmo tipo de agrotóxico sem combinar com outras medidas preventivas, como a rotação de culturas, a alternância de químicos, a cobertura do solo com palhada e a limpeza de máquinas agrícolas.
O caso do glifosato ajuda a entender essa dinâmica. Principal agrotóxico utilizado no Brasil, ele teve seu uso ampliado a partir dos anos 2000, com a adoção de sementes geneticamente modificadas resistentes ao produto. A estratégia reduziu custos e simplificou o manejo, mas o uso intensivo e repetitivo acabou selecionando plantas que já não respondem ao herbicida. Hoje, pelo menos 20 variedades de 12 espécies apresentam resistência ao glifosato no país, segundo o levantamento de ervas daninhas, entre elas a buva, o capim-amargoso e o caruru gigante.
A resistência do caruru gigante (Amaranthus palmeri, conhecido também como caruru-palmeri) se deve a alterações genéticas em alguns biótipos que anulam os efeitos do herbicida. A espécie se destaca também pela boa capacidade de adaptação, rápida disseminação e crescimento, resistência a diferentes agrotóxicos e elevada produção de sementes (centenas de milhares por uma única planta), fatores que dificultam o controle.
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Segundo o governo federal, o caruru gigante foi identificado pela primeira vez no Brasil em 2015, em lavouras de algodão no Mato Grosso. A suspeita é que a praga tenha entrado no país por meio de maquinário agrícola usado, importado da Argentina sem limpeza adequada. Depois foi encontrada no Mato Grosso do Sul em 2022.
Desde 2018, o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária) considera a espécie uma “praga quarentenária” — capaz de causar danos econômicos. Em 2024, o ministério publicou portaria com uma programa de combate ao caruru gigante, indicando as medidas a serem adotadas pelos produtores após a identificação da planta na propriedade.
Neste ano, a espécie foi encontrada pela primeira vez nos estados de São Paulo e Santa Catarina. “As ocorrências são consideradas pontuais e estão sob controle fitossanitário”, afirma a Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Sul, que monitora o avanço.
Para especialistas ouvidos pela Repórter Brasil, no entanto, o avanço do caruru gigante deveria servir de alerta para rever o modelo de produção das commodities agrícolas no país. “O caruru gigante é um sinal de alerta de que esse sistema de monocultura não é sadio”, avalia o biólogo Paulo Brack, professor do Departamento de Botânica da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).
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Como uma planta se torna resistente a agrotóxicos
O processo de resistência das plantas invasoras é um processo natural estimulado pelo uso contínuo e frequente de agrotóxicos, que selecionam as variedades resistentes, as quais passam a se reproduzir, explica o agrônomo Leonardo Melgarejo, pesquisador da Ufape (Universidade Federal do Agreste de Pernambuco) e ex-membro da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança).
“As plantas que não morrerem com o agrotóxico vão deixar sementes no chão. Essas sementes se desenvolvem mal na presença do veneno, mas depois vão ser resistentes e se desenvolvem como uma planta geneticamente modificada em laboratório para resistir ao veneno”, descreve. “Ela é uma planta naturalmente modificada e selecionada pelo uso do próprio veneno”, acrescenta.
Quando percebem a entrada de uma invasora, os produtores costumam aumentar a dosagem dos agrotóxicos a fim de eliminar as plantas, explica Melgarejo. O problema é que essa estratégia pode levar à aplicação de doses acima dos limites definidos na bula do agrotóxico, estabelecidos a partir dos testes apresentados para registro do produto.
O pesquisador Luiz Cláudio Meirelles, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), explica que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) determina o limite permitido de resíduos de agrotóxicos nos alimentos com base nos estudos apresentados pelas fabricantes. Quando a aplicação ultrapassa as doses previstas, muitas vezes a fiscalização não consegue identificar o problema.
“Quando vem a buva [outra planta invasora], o agricultor se desespera. Iria aplicar três doses [do herbicida], mas aplica dez. No teste de resíduo, que é feito com o produto na gôndola, ninguém vai perceber isso. Perceberia se o teste fosse feito em campo. Mas aí todo o trabalho de segurança toxicológica e de segurança alimentar acabou”, afirma Meirelles.
A resistência também pesa no bolso dos produtores. O custo por hectare de soja pode aumentar de 42% a 222% em casos de resistência ao glifosato, “em função dos gastos com herbicidas e também por causa da perda de produtividade da soja”, segundo a Embrapa.
O agrônomo Fernando Adegas, pesquisador da Embrapa Soja, em Londrina (PR), explica que os custos sobem porque o produtor passa a combinar alternativas no manejo químico. “Você precisa utilizar outros produtos, às vezes nem é numa quantidade normalmente maior, mas produtos diferentes que normalmente são mais caros”, detalha.
Os casos chamam atenção por se tratar de lavouras de grande interesse econômico. A soja é a principal lavoura do país em área cultivada, com 48 milhões de hectares plantados na safra de 2026, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), e faturamento bruto de R$ 332 bilhões nos últimos 12 meses.

O risco da mistura de agrotóxicos no tanque
Outra prática comum no combate às plantas invasoras é a mistura de agrotóxicos no tanque. Em vez de fazer várias aplicações, uma para cada produto, o agricultor prepara uma única calda, combinando diferentes substâncias. A prática reduz gastos com combustível e mão de obra, mas preocupa pesquisadores pelos efeitos ainda pouco estudados dessas combinações.
O uso de misturas em tanque é frequente no Brasil, segundo o estudo “Misturas de agrotóxicos em tanque nas propriedades agrícolas no Brasil”. O levantamento, realizado com 500 participantes de 17 estados — entre assistentes técnicos privados, servidores públicos, técnicos de cooperativas e produtores rurais — constatou que 97% usam mistura em tanque. Entre eles, 40% misturam três produtos, 26% usam quatro e 11% aplicam até cinco. Ao todo, 95% das misturas envolvem de dois a cinco produtos.
A mistura em tanque foi prevista pela Lei 14.785/2023 — que ficou conhecida como “PL do Veneno” durante a tramitação por afrouxar as regras de uso de agrotóxicos. O artigo 39 determina que “o profissional habilitado poderá recomendar mistura em tanque, quando necessário”.
Para Luiz Cláudio Meirelles (Fiocruz), porém, o texto não aborda questões sobre toxicologia, ou seja, os efeitos nocivos da combinação desses produtos. “Os testes de segurança dos agrotóxicos são realizados separadamente e não misturados. Se mistura dois produtos carcinogênicos, isso não vai ser potencializado no corpo? Eu não tenho resposta científica para isso, mas sei que o método é avaliar um a um e não a mistura”, explica.
Para Melgarejo, da Ufape, a lei transferiu a responsabilidade para o técnico que recomenda a mistura, embora esse profissional nem sempre tenha formação para avaliar riscos toxicológicos.
Tratar as ervas resistentes com uma solução simplificada não resolve o problema, acrescenta Leandro Tropaldi, da Sociedade Brasileira de Ciência das Plantas Daninhas.
Já Paulo Brack questiona o modelo produtivo “em larga escala e com uma única espécie”. O pesquisador da UFRGS defende que os sistemas de agricultura precisam recompor a sua estrutura de diversidade. “Uma planta se torna exótica invasora e se desenvolve dessa maneira porque ela não tem inimigos naturais e o sistema está empobrecido também. A monocultura tem esses efeitos colaterais que, às vezes, são tão grandes ou tão maiores do que os benefícios. É resultante dessa agricultura de exportação”, analisa.
O pesquisador da Embrapa, Fernando Adegas, alerta para a importância da prevenção e da proteção do solo. “A primeira coisa são os métodos preventivos. A pessoa que vai utilizar colheitadeira, deve evitar que traga semente de plantas resistentes para dentro da sua propriedade. O manejo não pode se basear só no manejo químico, que hoje é o principal. Tem outras alternativas, como a rotação de culturas”, observa.
Na rotação de cultura, o produtor ocupa o solo com outros cultivos, assim, aquela espécie que pressionou a seleção de plantas resistentes pelo uso de um tipo específico de agrotóxico só voltará a ser cultivada no mesmo local após um intervalo de dois ou mais anos. Essas medidas protegem a terra e driblam as ervas invasoras resistentes.

‘Nenhuma planta é daninha’, defende pesquisador
O caruru gigante é nativo de regiões áridas do sul dos Estados Unidos e norte do México. Ele serviu de alimento tradicional para indígenas navajos, pimas, yumas e mojaves, segundo o Departamento de Agricultura do Estado de Minnesota (EUA).
Toda planta possui uma função na natureza, afirma Brack. O gênero Amaranthus, por exemplo, com mais de 70 espécies, “têm uma série de propriedades nutritivas, a exemplo das vitaminas E, A e minerais como ferro e potássio”, detalha o professor da UFRGS, que critica o uso do termo “daninha”. “Essa terminologia é anticientífica, porque não avalia o potencial, o benefício das plantas ou a interdependência que o sistema tem em relação a elas”, defende.
“Nenhuma planta é daninha por si só”, acrescenta Tropaldi. “Ela é daninha em um momento e em um local específico”, continua. O que a torna indesejada é o contexto do monocultivo, no qual o interesse está concentrado apenas na cultura com valor econômico.
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