Ao lançar no Brasil o livro Além do Vale do Silício – Inteligência Artificial com Características Chinesas, o tecnólogo chinês Jeff Xiong defendeu neste sábado (16/05), um modelo socialista de utilização da inteligência artificial (IA) pelo Sul Global, em oposição frontal à abordagem capitalista adotada pelos países do Ocidente, sob liderança e influência dos Estados Unidos.
Na obra, Xiong critica a IA ocidental por ser focada na obtenção de lucro e não em necessidades humanas que deveriam ser partilhadas pelos povos ao redor do planeta.
“As pessoas não querem ter emprego, não querem trabalhar. Elas querem viver. Querem comer, ter casa, ter cuidados de saúde, ter educação. As pessoas não querem ser empregadas, elas precisam ser empregadas para ter comida”, afirmou em debate no Armazém do Campo, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), onde fica a livraria da editora que organizou o lançamento no Brasil, a Expressão Popular.
Xiong defende uma compreensão contrária à ideia corrente de que a IA veio para eliminar empregos humanos. O modelo chinês, afirma, almeja a democratização do uso da ferramenta. O objetivo dessa vertente socialista da IA, segundo seu livro, almeja “liberar trabalhadores do trabalho perigoso, extenuante e repetitivo – o tipo de trabalho que, simplesmente, os seres humanos não deveriam ter que fazer”.
Além do Vale do Silício estabelece a distinção fundamental entre modelos ocidentais como Chat GPT e Gemini e aquele desenvolvido na China, centrado na ferramenta DeepSeek.
Diz o texto: “a abordagem estadunidense confia na concorrência de mercado entre gigantes privados para impulsionar a inovação; a abordagem chinesa considera que a concentração sem controle é uma ameaça que requer intervenção ativa. Nenhuma das duas é neutra; ambas refletem decisões políticas sobre quem deve ser empoderado pela tecnologia”.
Na avaliação de Xiong, o modelo ocidental inaugura um novo tipo de colonialismo praticado contra os países menos desenvolvidos, particularmente os do chamado Sul Global. Seria um “colonialismo de dados”, que pratica o extrativismo de dados, informação e conhecimentos produzidos pelo “Sul” e sua exportação para o “Norte”, que os utiliza em proveito próprio, sem repassar o cabedal reunido para os lugares de origem.
“Duzentos milhões de robôs industriais trabalham nas fábricas chinesas, mais do que em qualquer outra nação”, narra o livro, descrevendo as especificidades do modelo chinês.
Democratização
Em outro trecho, o autor observa que “os benefícios não recaem sobre algumas poucas empresas de plataforma, mas sobre os fabricantes, agricultores e prestadores de serviços que adotam a tecnologia. Isso representa uma resposta fundamentalmente diferente à questão de para quem serve a IA. No modelo estadunidense, a IA empodera principalmente as empresas de tecnologia e seus acionistas; os usuários são clientes e, muitas vezes, produtos. No modelo chinês ‘IA+’, a IA empodera a economia em geral; as empresas de tecnologia são facilitadoras, em vez de extratoras. Trata-se da democratização da aplicação: a IA a serviço de toda a sociedade, não apenas daqueles que constroem essa tecnologia”.
O livro de Xiong procura demonstrar que no modelo chinês o desenvolvimento da IA coloca as potencialidades humanas em primeiro plano, sem menosprezar o papel dos trabalhadores no processo.
“Muitos foram requalificados como operadores de robôs ou técnicos de manutenção – empregos mais seguros, com melhores perspectivas e maiores exigências de qualificação. Essa história levanta uma questão fundamental, frequentemente ignorada no debate ocidental sobre ‘a IA roubando empregos’: que tipos de trabalho deveriam ser substituídos por máquinas? Estamos fazendo a pergunta certa quando nos preocupamos com o ‘deslocamento de empregos’ ou deveríamos perguntar quais empregos valem a pena preservar em primeiro lugar?”, questiona.
Linguagem para assustar o ‘usuário’
Durante sua exposição em São Paulo, Xiong provocou a plateia desafiando o senso comum de que o domínio da linguagem tecnológica é privilégio de poucos, e não um direito amplo da população.
“Você compra seu software de uma empresa ou, se trabalha numa universidade, paga uma empresa para fazer um sistema de software para você. Pode ser de código aberto, pode usar Linux, mas de qualquer modo você pede para alguém fazer para você”, exemplificou.
Ele acrescenta que “o setor de tecnologia de informação passou muitos anos construindo essa ideia de que a maior parte da humanidade não é capacitada para desenvolver software. Essa é a grande conspiração desse setor. Tanto que inventaram a palavra usuário. Você é usuário, e a palavra usuário indica que você só está qualificado para consumir software, e não para fazer software que você mesmo vai usar.”
Os termos usados na linguagem da indústria de TI, disse ele, são produzidos sob medida para afastar o cidadão comum do processo tecnológico. “As pessoas ficam assustadas, com medo. Meus colegas e ex-colegas do setor de TI continuam criando jargões para assustar vocês”.
Ele descreveu sua visão sobre a transformação profunda prenunciada pela entrada da IA em cena: “como comunistas, como cientistas sociais, agora somos capazes de gerar questões a partir de todos os dados disponíveis, não apenas de dados selecionados. Você pode analisar qualquer problema de qualquer perspectiva potencial. Você pode tirar proveito de todas as disciplinas, de todos os domínios profissionais que existem no mundo”.

Pedro Alexandre Sanches / Opera Mundi
Projeto Cecilia
Para exemplificar o que está em jogo no momento histórico atual, Xiong citou um episódio protagonizado nos anos 1960 pelos Panteras Negras estadunidenses, que ocuparam um hospital e o transformam numa clínica para tratamento de pessoas dependentes de drogas.
À época, para curar seus pacientes, os ativistas negros dos Estados Unidos adotaram técnicas da medicina tradicional chinesa, como a acupuntura: “a palavra de ordem era que cada um ensina um paciente a usar a mesma técnica para curar mais pessoas. Esse paciente curado vai ensinar mais pessoas, difundido aquela habilidade”.
Para o tecnólogo, a questão para os países do Sul Global não é optar pelo sistema estadunidense ou pelo chinês, mas sim desenvolver suas próprias tecnologias de IA, de acordo com suas próprias necessidades. O livro cita o Projeto Cecilia, desenvolvido por Cuba sob inspiração do espanhol Salamandra, um modelo de código aberto de Barcelona, adaptado “por meio de um pré-treinamento contínuo para captar as nuances linguísticas e culturais cubanas”.
Treinado especificamente com textos cubanos, o Projeto Cecilia pretende servir à comunidade cubana, em vez de importar soluções projetadas em e para outros países. “Trata-se da democratização da IA na prática: recursos limitados que produzem uma capacidade genuína por meio de uma adaptação inteligente, em vez de uma ampliação por força bruta”, escreve Xiong.
IARAA
Em São Paulo, o autor citou também o caso da IARAA, a Inteligência Artificial da Reforma Agrária e Agroecologia, recém-lançada no Brasil pelo MST e pela Marcha Mundial das Mulheres (MMM) – não por acaso, com transferência de tecnologia chinesa. O modelo está ancorado no endereço digital no endereço acessível neste link.
A base de conhecimento selecionada pela IARAA é a produzida pelos próprios movimentos populares comprometidos com a agricultura familiar e com a agroecologia – e não com o apetite do agronegócio industrial pelos agrotóxicos, por exemplo.
É mais um caso do que o livro de Jeff Xiong descreve como “tratar os dados como um recurso soberano que requer proteção”, e não um instrumento para exploração de outros povos.
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