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Em Madrid, solidariedade a Cuba reafirma defesa da soberania da ilha

Bandeiras cubanas, faixas contra o bloqueio econômico, palavras de ordem internacionalistas e referências à resistência histórica da Revolução marcaram o ato de solidariedade realizado no domingo (17), em frente à Embaixada de Cuba, em Madrid. Convocada por organizações de solidariedade internacional, partidos comunistas e movimentos políticos de esquerda, a atividade reuniu militantes espanhóis e latino-americanos em defesa da soberania cubana.

Ao longo da manifestação, palavras de ordem como “Cuba sim, bloqueio não”, “Yanquis fora” e “Viva Cuba socialista” atravessavam a tarde madrilenha diante da embaixada. Em diferentes momentos, os manifestantes respondiam em coro às intervenções feitas ao megafone, enquanto alto-falantes instalados diante do prédio faziam ecoar músicas de Silvio Rodríguez, Pablo Milanés e canções históricas da Revolução Cubana. Entre bandeiras cubanas, palestinas e republicanas espanholas, o ambiente misturava resistência política, memória histórica e solidariedade internacionalista.

Realizar um ato de solidariedade a Cuba em pleno coração da antiga potência colonial espanhola carregava inevitavelmente uma dimensão histórica e simbólica profunda. A memória da independência da ilha aparecia constantemente associada à figura de José Martí, intelectual e revolucionário central na luta anticolonial cubana do século XIX. Martí defendia uma América Latina soberana diante das potências estrangeiras e formulou uma ideia frequentemente lembrada pelos participantes da atividade. “Pátria é humanidade”.

A própria existência de uma manifestação de solidariedade a Cuba em Madrid revelava uma contradição histórica poderosa. Mais de um século após a independência cubana da Espanha, militantes voltavam a se reunir diante da representação diplomática da ilha não para defender uma relação colonial, mas para denunciar o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos há 66 anos e reafirmar o direito de autodeterminação do povo cubano.

O ato ocorreu em um momento particularmente delicado para Cuba. A ilha enfrenta uma das mais graves crises econômicas das últimas décadas, marcada por apagões permanentes, dificuldades no abastecimento e desgaste da infraestrutura energética, fruto dos efeitos prolongados do bloqueio norte-americano e agravados pelas últimas medidas adotadas por Donald Trmp contra a ilha.

Ainda assim, a mobilização demonstrava que Cuba continua ocupando um espaço simbólico importante no imaginário político internacional. Militantes de diferentes gerações relacionavam a experiência cubana não apenas à política institucional, mas também à ideia de dignidade nacional, soberania e resistência popular.

A atividade aconteceu poucos meses antes do centenário de nascimento de Fidel Castro, que será celebrado em agosto deste ano. Entre os presentes, a lembrança da Revolução Cubana aparecia frequentemente associada à figura histórica de Fidel e o projeto político latino-americano construído sob forte pressão internacional desde 1959.

Representantes do Partido Comunista da Espanha (PCE) participaram da atividade e relacionaram a solidariedade com Cuba ao avanço internacional da extrema direita e às disputas geopolíticas contemporâneas. Miguel Montero, secretário-geral do PCE em Madrid, afirmou que “o crescimento da extrema direita anda de mãos dadas com discursos autoritários, dentro e fora das fronteiras”. Segundo ele, esses discursos aparecem também “nos discursos de ódio contra as pessoas migrantes”, escondendo formas de exploração social e aprofundando desigualdades.

O dirigente também denunciou os impactos humanitários do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos contra a ilha. Para Montero, “é essencial combater a naturalização do genocídio como forma de pressão constante sobre Cuba”, sobretudo diante da privação de bens essenciais como água e energia. O dirigente afirmou ainda que o objetivo das sanções é “dobrar a vontade soberana dos povos” e impedir experiências políticas contrárias aos interesses imperialistas.

Representantes do Partido Comunista da Colômbia (PCC) também participaram da atividade e relacionaram a solidariedade com Cuba ao atual cenário político latino-americano e às disputas eleitorais na região. Olgher Santodomingo Guarín, dirigente do PCC na Espanha, afirmou que o partido encara “com muito compromisso militante” a construção do Pacto Histórico colombiano e definiu a candidatura de Iván Cepeda e Aída Quilcué como “a única alternativa diante da ameaça da direita e da ultradireita”.

O dirigente também alertou para os riscos de interferência internacional no processo eleitoral colombiano e denunciou ameaças promovidas pela extrema direita internacional. Segundo ele, “qualquer coisa pode ser esperada desses inimigos da democracia e da paz mundial”, embora tenha ressaltado a confiança na capacidade de mobilização popular e na unidade das forças progressistas latino-americanas.

Ao abordar Cuba, o dirigente do PCC afirmou que “a solidariedade com Cuba é uma obrigação dos povos do mundo” e destacou que a ilha segue resistindo apesar de mais de seis décadas de bloqueio econômico rejeitado sucessivamente pela Assembleia Geral da ONU. Para ele, Cuba continua sendo referência de solidariedade internacional e defesa da dignidade dos povos.

Representantes do Partido Comunista do Uruguai (PCU) também defenderam a necessidade de fortalecer a unidade das forças populares latino-americanas diante do avanço da extrema direita e das disputas geopolíticas globais. Gustavo Álvarez, dirigente do PCU, afirmou que a esquerda latino-americana precisa “voltar melhor”, compreendendo que conquistar governos é importante, mas insuficiente sem avanço da organização popular e da consciência política.

Segundo Álvarez, “não há forma de defender a democracia se a democracia não se radicaliza”. Para o dirigente uruguaio, radicalizar a democracia significa ampliar a participação popular, discutir a distribuição da riqueza, fortalecer a cultura e defender a dignidade humana.

O dirigente do PCU também defendeu a construção de alternativas coletivas diante da crise contemporânea. “Os militantes de esquerda não podem ser apenas aqueles que descrevem a catástrofe. Precisamos encontrar rotas de saída”, afirmou. Álvarez ressaltou ainda que não existem soluções exclusivamente nacionais para os desafios latino-americanos e defendeu a integração regional e a unidade popular como caminhos estratégicos.

Ao abordar a situação cubana, Gustavo Álvarez definiu Cuba como “o farol que guiou a América Latina e revolucionários do mundo inteiro durante décadas”. O dirigente reafirmou a solidariedade irrestrita à ilha diante do bloqueio econômico norte-americano e declarou que apoiar Cuba continua sendo “um dever moral e revolucionário”.

Apesar das diferentes experiências nacionais presentes no ato, as intervenções convergiam para uma mesma percepção política. Diante do avanço da extrema direita, das guerras e das disputas geopolíticas globais, a solidariedade internacional e a unidade latino-americana continuam sendo vistas como caminhos fundamentais para a construção de alternativas populares.

Ao final da atividade, os manifestantes foram convidados a entrar na embaixada cubana para um momento de confraternização e troca de experiências com representantes diplomáticos da ilha. Entre conversas políticas, relatos sobre as diferentes realidades latino-americanas e demonstrações de solidariedade internacional, militantes de diversas organizações permaneceram reunidos enquanto músicas de Silvio Rodríguez continuavam ecoando pelos alto-falantes do prédio diplomático.

O encerramento do ato transformou a frente da embaixada em um espaço de convivência política e afetiva, marcado por abraços, cantos, palavras de ordem e debates sobre os desafios enfrentados pelos movimentos populares na América Latina. Mais do que uma atividade de apoio diplomático, a manifestação reafirmou que, décadas após a Revolução Cubana, a ilha continua despertando solidariedade muito além de suas fronteiras.

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Fotos: Tiago Alves

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