por Fernanda Otero, enviada especial ao G7
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrou sua participação no G7 com uma coletiva de imprensa na embaixada brasileira em Genebra, na Suíça, onde fez uma avaliação sobre a participação do Brasil nos três dias do evento.
Segundo Lula, a principal contribuição do Brasil foi mostrar que muitos dos problemas discutidos pelas maiores economias do mundo são analisados sob uma ótica diferente quando observados a partir da América Latina, da África e de outras regiões do Sul Global.
Ele deixou Evian após uma reunião bilateral com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, na qual se comprometeu a ligar novamente aos líderes dos países com poder de voto na ONU para tentar destravar o processo de paz.
“Cada reunião do G7 é uma oportunidade de discutir com os países desenvolvidos os equilíbrios e desequilíbrios da ordem política, econômica e social”, afirmou.
Ainda em Genebra, ele se reuniu com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Augusto Passos Rodrigues, e o secretário-geral da Interpol, delegado da Polícia Federal Valdecy Urquiza.
Brasil não endossou todos os documentos
Um dos pontos destacados pelo presidente foi que o Brasil não concordou com todos os documentos produzidos pela cúpula“porque o Brasil tem uma visão diferenciada”.
Lula observou que os textos normalmente são negociados previamente pelos países membros do G7 e apresentados aos convidados praticamente prontos, restando pouco espaço para mudanças substanciais.
A observação reforça uma posição que o governo brasileiro vem defendendo em diversos fóruns multilaterais: a necessidade de ampliar a participação dos países emergentes nos processos de tomada de decisão global.
Nem com Washington, nem com Pequim
O presidente também dedicou parte significativa de sua avaliação à crescente rivalidade entre Estados Unidos e a China. Para Lula, o mundo não pode repetir a lógica da Guerra Fria.
“Não queremos uma Guerra Fria entre os Estados Unidos e a China.”
Segundo ele, o Brasil não pretende escolher lados. “Nós defendemos que os Estados Unidos sejam os Estados Unidos, que a China seja a China e que nós sejamos nós.”
A posição brasileira baseia-se em interesses concretos. Lula lembrou que a China se tornou o principal parceiro comercial do Brasil, com fluxo comercial de cerca de US$ 165 bilhões e superávit favorável ao Brasil.
Ao mesmo tempo, o presidente criticou as reclamações de países desenvolvidos sobre a presença chinesa na África e na América Latina. Segundo ele, a expansão da China ocorreu porque os Estados Unidos e a Europa deixaram espaços vazios por décadas.
“A China ocupou um espaço que estava vazio pela ausência dos europeus e pela ausência dos americanos.”
O exemplo da BYD e os investimentos no Brasil
Para ilustrar sua argumentação, Lula citou a chegada da montadora chinesa BYD ao Brasil. Segundo ele, após anos sem investimentos significativos da indústria automobilística tradicional, a entrada da empresa chinesa provocou uma reação imediata das concorrentes.
“Quando a China vem com a BYD fazer investimento na Bahia, imediatamente as indústrias anunciaram para mim investimentos de R$ 190 bilhões até 2030.”
Na avaliação do presidente, a concorrência gerada pela presença chinesa ajudou a dinamizar o setor e estimular novos investimentos.
Minerais críticos e industrialização
Outro tema levado pelo Brasil ao G7 foi a exploração dos chamados minerais críticos, fundamentais para a transição energética e para a indústria tecnológica.
Lula defendeu que os países produtores não sejam apenas exportadores de matérias-primas.
“Não queremos repetir o ciclo do ouro.” O presidente argumentou que os países detentores desses recursos precisam participar também das etapas de industrialização e agregação de valor.
A posição está alinhada à estratégia defendida pelo governo brasileiro para minerais estratégicos como lítio, níquel, grafite e terras raras.
Os países ricos precisam criar novos consumidores
Um dos trechos mais marcantes da fala de Lula foi a crítica ao modelo atual de crescimento econômico global.
Segundo ele, os países desenvolvidos precisam compreender que o crescimento futuro da economia mundial depende da inclusão de bilhões de pessoas que ainda estão fora do mercado consumidor.
“Eles precisam criar novos consumidores.”
O presidente citou o potencial representado pela Índia, pela África e pela América Latina.
Para isso, argumentou, é necessário ampliar investimentos em infraestrutura, energia, transporte, educação e qualificação profissional.
“Para ser consumidor, tem que ter investimento, tem que ter emprego e tem que ter salário.”
Lula afirmou que essa lógica é mais eficiente para estimular a economia mundial do que o atual cenário de disputas comerciais e rivalidades geopolíticas.
Crítica aos gastos militares
O presidente também criticou o aumento dos gastos militares em um momento de múltiplas crises sociais. Segundo ele, o mundo investiu cerca de US$ 3 trilhões em armamentos no último ano.
Ao mesmo tempo, observou, apenas uma pequena fração desse valor foi destinada ao combate à fome, ao analfabetismo e à promoção do desenvolvimento.
“O mundo investiu 3 trilhões de dólares em guerra e nem 10% disso para acabar com a fome.” Lula mencionou o aumento dos gastos militares na Europa e argumentou que parte desses recursos poderia estar sendo direcionada para investimentos produtivos na América Latina e na África.
Inteligência artificial: quem vai cuidar dos desempregados?
Durante o almoço de trabalho dedicado à inteligência artificial, Lula afirmou ter feito uma série de questionamentos diretamente aos executivos das maiores empresas de tecnologia do mundo.
Entre os participantes estavam representantes da OpenAI, Google, Meta, Anthropic, Salesforce e outras empresas líderes do setor.
O presidente relatou preocupação com os impactos sociais da nova tecnologia. “Quem vai gerar empregos para o mercado dos inúteis que pode surgir com a inteligência artificial?”
Segundo Lula, embora a IA possa trazer ganhos extraordinários para áreas como saúde, educação e produtividade, ela também poderá eliminar milhões de postos de trabalho.
Na sua avaliação, os governos precisam começar a discutir desde já como lidar com essa transformação.
“A inteligência artificial vai deixar milhões de pessoas desempregadas.”
Ele também questionou quem controlará os grandes bancos de dados do futuro, especialmente nos países mais pobres, que muitas vezes sequer possuem infraestrutura energética suficiente para abrigar grandes centros de processamento.
Regulação digital e proteção da juventude
O presidente lembrou de duas iniciativas brasileiras que considera referências internacionais. A primeira é a restrição ao uso de celulares nas escolas.
A segunda é o chamado Estatuto Digital da Criança e do Adolescente. Segundo o presidente, trata-se de uma das experiências mais avançadas de proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.
Ele também levantou uma questão que considera central para o futuro da democracia: “Uma agressão na vida real dá cadeia. Uma mentira no mundo digital vai dar cadeia?”
Para Lula, a resposta não depende das empresas nem do mercado financeiro, mas dos governos e das instituições políticas.
A guerra na Ucrânia e a busca pela paz
Ao comentar sua conversa com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, Lula afirmou ter percebido, pela primeira vez, uma disposição concreta para buscar uma solução negociada para o conflito.
O presidente defendeu um cessar-fogo imediato como ponto de partida para negociações de paz.
Segundo ele, a responsabilidade principal recai sobre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU: Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido.
“Eles são os responsáveis por garantir a paz ou a guerra.”
Lula informou que pretende retomar contatos com os líderes dessas potências para estimular uma saída diplomática para o conflito.
A mensagem do Brasil
Ao final de sua avaliação, Lula afirmou ter deixado claro aos líderes do G7 que os desafios do século XXI exigem mais desenvolvimento, mais cooperação internacional e menos confrontação.
Sua mensagem central foi a de que o crescimento econômico global depende da inclusão dos países do Sul Global e da criação de oportunidades para bilhões de pessoas que ainda estão fora do mercado de consumo.
“Sem diminuir o padrão de vida dos países ricos, é preciso fazer crescer outros países para que eles também possam produzir, consumir e se desenvolver.”
Essa foi, segundo o presidente, a principal contribuição brasileira para os debates da cúpula.