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Violência contra mulheres resiste à queda dos homicídios no país

O Brasil chegou a 2024 com a menor taxa de homicídios dos últimos 11 anos, mas um dos retratos mais persistentes da violência contra as mulheres permaneceu praticamente inalterado. Dados do Atlas da Violência 2026 mostram que, enquanto os assassinatos femininos ocorridos fora das residências diminuíram ao longo da última década, as mortes registradas dentro de casa permaneceram estáveis, indicando que a violência de gênero continua apresentando dinâmicas próprias mesmo em um cenário de redução da violência letal no país.

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Em 2024, 3.642 mulheres foram assassinadas no Brasil, uma queda de 6,7% em relação ao ano anterior. No entanto, ao analisar o local das ocorrências, os pesquisadores identificaram uma diferença importante entre a trajetória dos homicídios femininos em espaços públicos e aqueles registrados no ambiente doméstico.

A violência diminui nas ruas, mas não dentro de casa

Entre 2014 e 2024, a taxa de homicídios de mulheres ocorridos fora das residências caiu de 3,5 para 2,2 mortes por 100 mil mulheres. Já os homicídios registrados dentro de casa permaneceram praticamente inalterados ao longo de toda a série histórica, variando entre 1,2 e 1,3 por 100 mil mulheres.

Segundo os autores do estudo, essa diferença sugere que a violência letal em espaços públicos respondeu de forma mais sensível às mudanças observadas no período, enquanto a violência associada ao ambiente doméstico manteve um comportamento mais estável.

Em 2024, mais de um terço das mulheres assassinadas no país morreu dentro da própria residência. O percentual, de 35,2%, permaneceu praticamente inalterado em relação ao ano anterior.

Embora os sistemas de saúde não permitam identificar diretamente os feminicídios, os pesquisadores apontam que o local da ocorrência funciona como um importante indicador para compreender a violência baseada em gênero. Nesse contexto, os homicídios registrados dentro da residência podem refletir, em grande medida, situações associadas à violência contra mulheres.

A casa continua sendo o principal lugar de risco

A persistência das mortes dentro da residência encontra paralelo nos registros de violência não letal.

Em 2024, 150.211 notificações de violência doméstica contra mulheres registradas pelos serviços de saúde ocorreram dentro de casa, o equivalente a 79,9% dos casos. Em vias públicas, o percentual foi de apenas 6,1%.

Os números mostram que, mesmo diante da ampliação do debate público sobre violência de gênero e das políticas de proteção às mulheres, a residência continua sendo o principal cenário das agressões.

A violência se repete

A concentração da violência no ambiente doméstico é apenas uma das características apontadas pelo Atlas. Outro aspecto que chama atenção é a reincidência das agressões.

Entre os casos registrados em 2024 com informação disponível, 66,2% das mulheres atendidas pelos serviços de saúde já haviam sofrido violência anteriormente.

Em outras palavras, para a maioria das vítimas, a agressão registrada não foi a primeira. O resultado evidencia que a violência doméstica continua atingindo repetidamente as mesmas mulheres e reforça uma das características mais persistentes da violência de gênero: a dificuldade de interromper ciclos de agressão que se prolongam ao longo do tempo.

Atlas relaciona misoginia e persistência da violência de gênero

Para os autores do Atlas, a estabilidade dos homicídios femininos dentro das residências, a concentração das agressões no ambiente doméstico e a elevada reincidência dos casos não podem ser analisadas apenas sob a ótica da segurança pública.

Na análise de conjuntura desta edição, os pesquisadores defendem que a persistência dos feminicídios, o crescimento da violência sexual e o fortalecimento de discursos misóginos fazem parte de um mesmo fenômeno social.

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O relatório destaca o avanço da chamada cultura “red pill” e de conteúdos disseminados pela machosfera digital, que promovem a inferiorização das mulheres e reforçam comportamentos de hostilidade, assédio e desvalorização feminina, especialmente entre adolescentes e jovens.

Para os autores, compreender a violência contra as mulheres exige olhar não apenas para os crimes já consumados, mas também para os fatores culturais e sociais que contribuem para sua reprodução.

Mulheres negras seguem mais expostas à violência

As desigualdades raciais também aparecem de forma consistente nos indicadores analisados pelo Atlas.

Das 3.642 mulheres assassinadas em 2024, 2.457 eram negras, o equivalente a 67,5% do total. A taxa de homicídios entre mulheres negras foi de quatro mortes por 100 mil mulheres, 66,7% superior à observada entre mulheres não negras.

Nos registros de violência doméstica e intrafamiliar, as mulheres negras representaram 58,6% das vítimas notificadas. A taxa de vitimização foi de 175,4 casos para cada 100 mil mulheres negras, contra 156,8 entre mulheres não negras.

Os dados reunidos pelo Atlas da Violência indicam que a violência contra as mulheres continua marcada pela sobreposição entre desigualdades de gênero e raça. Concentradas dentro de casa, frequentemente repetidas contra as mesmas vítimas e associadas a padrões persistentes de discriminação, as agressões revelam que a violência de gênero permanece como um dos desafios mais resistentes à redução observada em outros indicadores de segurança pública.

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