
Uma pausa para reminiscências. Nasci em setembro de 1968, justamente quando o Brasil mergulhava no período mais sombrio da ditadura militar. Vieram o AI-5, as prisões, a tortura, os exílios, a clandestinidade e a luta armada mais radicalizada contra a ditadura.
Mas as crianças não entendem a História pelos livros. Entendem pelos quintais, pelas conversas atravessadas dos adultos e pelos domingos aparentemente comuns.
Foi assim que conheci, sem saber exatamente quem era, um dos personagens mais marcantes da minha infância: Oscar Caiado.
Oscar aparecia com frequência em nossa casa acompanhado da mulher, Maninha. Era amigo do meu pai, Joaquim Jodele. Ambos compartilhavam militância, riscos e compromissos políticos daqueles tempos difíceis. Mas, para mim e para os meus irmãos — Vladimir e Carlos Ernesto (Keco) —, Oscar era outra coisa: era diversão.
Meu pai às vezes reclamava, meio sério, meio rindo, que Oscar passava mais tempo brincando conosco do que discutindo os assuntos que o haviam levado até ali. E talvez fosse verdade. Oscar tinha um jeito raro de conversar com crianças sem parecer um adulto tentando conversar com crianças. Ele era professor.
Fachada para a clandestinidade
Num daqueles encontros, Oscar chegou trazendo novidades.
Havia alugado um “aparelho”, como eram chamadas as casas utilizadas pela militância clandestina. Era uma residência discreta na QE 19 do Guará 2, em Brasília. Precisava, porém, dar ao lugar aparência de normalidade.
Então surgiu a solução mais simples do mundo.
— Leva os meninos para lá almoçar — sugeriu meu pai. E assim fomos. Éramos três crianças negras, com um casal de galegos. Nada mais estranho para a época.
Hoje penso na cena e percebo a quantidade de riscos que cercavam aquela decisão. Na época, porém, nada disso existia para nós. Era apenas um passeio.
A batalha da mangueira
Lembro-me pouco da casa e quase nada da conversa dos adultos. O que ficou guardado foi o quintal. Passei o dia inteiro com uma mangueira na mão. Tudo que se movia era alvo. Planta, parede, chão, bicho, gente. Se passasse perto, tomava banho. Se corresse, tomava mais ainda.
Aquela mangueira transformou o quintal num parque de diversões improvisado. E eu, provavelmente, numa espécie de bombeiro descontrolado.
Enquanto os adultos transitavam entre preocupações que eu sequer podia imaginar, meu universo se resumia à água, ao sol e à liberdade de uma tarde sem obrigações.
A especialidade do guerrilheiro
Em determinado momento, Oscar resolveu anunciar o almoço. Faria sua especialidade. Nada de receitas sofisticadas, nada de banquetes revolucionários.
Macarrão ao alho e óleo.
Talvez porque fosse simples. Talvez porque fosse barato. Talvez porque fosse o que havia. Mas, para nós, ganhou a solenidade de um grande acontecimento.
Lembro-me da expectativa, do cheiro tomando conta da casa e da alegria com que ele preparava o prato. Havia algo de generoso naquele gesto. Como se, por algumas horas, o peso da clandestinidade pudesse ser substituído por uma panela de macarrão e por crianças correndo pelo quintal.
A memória, às vezes, tem dessas coisas. Não guarda discursos. Guarda aromas.
O que permanece
Décadas depois, percebo a singularidade daquela cena. Era um domingo dos anos 1970. Estávamos dentro de um aparelho da ALN (Ação Libertadora Nacional). Ali circulavam pessoas perseguidas pela ditadura. Havia riscos reais. Havia uma guerra política acontecendo nos subterrâneos do País.
Mas a lembrança que ficou não é a do perigo. É a de Oscar Caiado sorrindo. É a da mangueira espalhando água pelo quintal.
É a do macarrão ao alho e óleo servido como quem oferece um banquete. É a de meu pai, sem cerimônia, entregando os filhos àquele amigo porque confiava nele.
Poderia ter sido uma tragédia. Não foi. Foi apenas um domingo.
E talvez seja justamente isso que torna a lembrança tão bonita. Em meio aos anos mais duros da história brasileira, houve espaço para a amizade, para as brincadeiras de criança e para uma macarronada improvisada.
Às vezes, a História passa pelas grandes decisões, pelos embates e pelos acontecimentos que entram nos livros.
Outras vezes, passa silenciosamente por um quintal do Guará 2, acompanhada pelo cheiro de alho dourando no óleo e pelas gargalhadas de três meninos que não faziam a menor ideia de que estavam brincando dentro dela.
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