
De 1970 a 1994, a história brasileira foi marcada por altos e baixos. Além dos 24 anos sem a conquista de uma Copa do Mundo, fora de campo o país passou pelos “Anos de Chumbo”, viveu a redemocratização e viu o impeachment de Fernando Collor. Para completar, a inflação herdada da ditadura ganhou contornos trágicos no final dos anos 80 e início dos 90.
A constante instabilidade político-econômica e os diversos planos monetários criaram um clima de desesperança que rapidamente diminuiu a empolgação com os novos ventos democráticos.
Se fora de campo a situação era ruim, dentro dele os resultados não vinham. Após os fracassos das seleções de 1982 e 1986, ambas comandadas pelo técnico Telê Santana, e a eliminação precoce para a Argentina em 1990 — com requintes de crueldade com a “água batizada” de Caniggia —, a campanha de 1994 não inspirava confiança.
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A seleção brasileira somente conseguiu a classificação nas eliminatórias sul-americanas no último jogo, em setembro de 1993. Em um último suspiro, a torcida brasileira lotou o Maracanã para ver o retorno de Romário, afastado da equipe desde o ano anterior por desentendimentos com o técnico Carlos Alberto Parreira e o coordenador Zagallo. O jogo foi 2 a 0 contra o Uruguai, com dois tentos do Baixinho.
Apesar da heroica classificação na “bacia das almas” para a Copa dos Estados Unidos, a enorme pressão pelo jejum de 24 anos não credenciava o escrete canarinho. O favoritismo estava com a então campeã Alemanha, a Itália e a Holanda.
Tristeza pré-Copa
Enquanto a seleção não encantava em campo nos últimos tempos, o brasileiro se acostumou a acordar cedo aos domingos para assistir as corridas da Fórmula 1 e acompanhar o ídolo nacional Ayrton Senna.
Depois do tricampeonato (1988, 1990 e 1991), Senna trocou a McLaren pela Williams em busca de retomar o caminho de títulos em 1994. Porém, no dia 1º de maio daquele ano, durante o Grande Prêmio de San Marino, em Ímola, na Itália, ocorreu o acidente fatal.
Uma falha mecânica fez o piloto brasileiro colidir contra uma barreira de concreto na curva Tamburello.
Cerca de 250 mil pessoas passaram pelo velório aberto na Assembleia Legislativa de São Paulo, que durou mais de 20 horas. Em 5 de maio, o cortejo fúnebre no carro de bombeiros foi em direção ao cemitério do Morumbi, na zona sul da capital paulista. Milhares de pessoas acompanharam o trajeto e milhões de brasileiros pararam para assistir as imagens do último adeus ao “Rei da Chuva”.
Apenas cinco dias depois dessa tristeza nacional, Parreira esteve incumbido de anunciar os convocados para a Copa do Mundo.
Esperança cautelosa
Em 10 de maio, Parreira divulgou a lista com os 22 jogadores. Os atletas se reuniram sob grande comoção com a morte do ídolo brasileiro.
Pouco tempo antes, em abril, Senna havia dado o pontapé inicial em um amistoso da seleção brasileira contra um combinado Paris Saint Germain/Bordeaux, em Paris. O encontro foi marcado pela motivação passada pelo piloto aos atletas em busca do tetra. A ocasião eternizou a célebre frase dita por Senna aos jogadores que disputariam o mundial meses depois: “Acelera daqui, que eu acelero de lá!”

Com esse clima de consternação e memórias a seleção se reuniu. Ao mesmo tempo que tudo isso ocorria, um novo plano era gestado desde 93 para colocar fim à instabilidade econômica do país: o Plano Real.
No dia 20 de junho de 1994, o Brasil estreou na Copa dos EUA contra a Rússia. Vitória por 2 a 0, gols de Romário e Raí. A primeira fase ainda contou com o 3 a 0 contra Camarões e o empate em 1 a 1 contra a Suécia. Os jogos aconteceram em meio ao calor extremo e trouxeram ajustes da comissão técnica que encontrou o time ideal sob a liderança do Baixinho, Bebeto, Taffarel e o capitão Dunga.
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Antes das oitavas de final, em território brasileiro, o presidente Itamar Franco lançava definitivamente o Plano Real, em 1º de julho. A nova moeda colocava fim ao ciclo que começou em março com as conversões pela Unidade Real de Valor (URV), que indexava o cruzeiro real (moeda à época) para acompanhar a inflação.
Nessa condição, a dupla expectativa se avolumou: o Brasil poderia finalmente controlar a inflação? A seleção poderia voltar a levantar a taça da Copa e, ao mesmo tempo, suavizar o luto brasileiro?
Pragmatismo
A falta de inspiração daquela seleção esteve na mira de jornalistas e da torcida ao longo de todo o período. Porém o apoio aumentava à medida que o time avançava de fase. Apesar de se diferenciar do jogo bonito dos selecionados de Copas anteriores, o time em campo refletia uma postura mais pragmática voltada a vencer a disputa e tirar o peso da fila.
Nas oitavas de final, o Brasil venceu os donos da casa por 1 a 0, em pleno feriado do Dia da Independência norte-americana, em 4 de julho.
Nas quartas de final, 3 a 2 em um jogaço contra uma das favoritas, a Holanda. Todos os gols foram feitos no 2º tempo, que está entre os melhores da história da competição.
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O primeiro gol, marcado por Romário, é uma obra-prima coletiva finalizada com oportunismo, em que o atleta se antecipou à marcação e concluiu com técnica, tirando do goleiro. Na sequência veio o gol de Bebeto, relembrado até hoje pela comemoração “embala neném”. Já o gol de falta, assinalado por Branco, trouxe a vitória, e é rememorado pela força da pancada, a curva da bola e o crucial movimento de Romário para deixá-la passar.
A semifinal contra a Suécia, adversária também da primeira fase, ficou em 1 a 0: gol do Baixinho de cabeça.
Por fim, em 17 de julho, a campanha teve seu ápice com a vitória brasileira sobre a Itália nas penalidades por 3 a 2, após 0 a 0 no tempo normal. Mais de 94 mil pessoas estavam no estádio Rose Bowl, em Pasadena.

Sob um calor de 38 graus, a partida teve início ao meio-dia e meia por conta da transmissão televisiva, que atendia ao público europeu. Uma das imagens mais marcantes até hoje é o pênalti desperdiçado pelo craque italiano Roberto Baggio que trouxe o tetra para o Brasil.
O título veio 16 dias depois da implantação do real, que veio a se consolidar como a moeda nacional e ficou com a fama de controlar a hiperinflação, ainda que sua administração tenha culminado em crises posteriores.
Assim, se no primeiro semestre de 1994 os brasileiros estavam vivendo sob tensão, a posterior conquista mundial e a estabilidade da nova moeda fizeram o país encontrar alguma paz ao priorizar uma paulatina organização esportiva e econômica.
Como não poderia deixar de ser, os jogadores brasileiros, ainda no centro do gramado do Rose Bowl, ao se tornarem tetracampeões mundiais, levantaram uma faixa escrita: “Senna…aceleramos juntos, o tetra é nosso.”
Em entrevista à Fifa, na ocasião dos 30 anos da conquista, Taffarel, Raí e Bebeto revelaram que os jogadores firmaram um pacto na ocasião da morte do piloto para também buscar o título em sua homenagem.

Legado da Copa
De maio a julho, o Brasil passou por uma gangorra emocional. O legado desses meses suscita debates até hoje. Ainda que os acontecimentos sejam distintos, a memória coletiva sobre superação se fundiu à cabeça dos brasileiros, alimentando a ideia de persistência já presente no cotidiano popular e que ganhou contornos, uma década depois, em campanhas com o slogan: “Eu sou brasileiro e não desisto nunca”.
O tetra mostrou que organização e disciplina poderiam trazer conquistas que o futebol arte já não conseguia mais — ainda que o time de 94 também contasse com craques. Simbolizou também a superação de figuras como Parreira e Dunga (bode expiatório do fracasso no Mundial-1990), além de marcar o triunfo de Romário depois de um período ausente da seleção.
No entanto, muitos consideram que a partir daí a seleção começou a ter um esvaziamento lento, mas constante, de suas características principais — alegria e inventividade. Em 1998 ainda chegou à final. Em 2002, ‘bateu’ pentacampeão.
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Mas desde então os fracassos foram sucessivos, houve distanciamento da torcida e o país deixou de produzir a mesma quantidade de craques como antigamente. Hoje, existem posições no campo em que o Brasil tem extrema carência de atletas. Para completar, grande parte dos jogadores brasileiros de destaque em equipes europeias são de posições defensivas — muito diferente de décadas passadas.
Agora, o jejum entre 2002 e 2026 se iguala aos 24 anos sem Copa vividos pelos jogadores em 94. A nova oportunidade, mais uma vez nos EUA (mas também no Canadá e México), pressiona uma seleção incerta com a responsabilidade de vencer para não ampliar o fardo histórico para os atletas da geração seguinte: 28 anos sem levantar a taça da Copa do Mundo.
Legado do real
A mesma desconfiança futebolística, aplacada com tetra, chegou ao real após 1999. Responsável pela estabilização econômica em 1994, o projeto garantiu o controle inflacionário, mas serviu também ao projeto da agenda neoliberal dos anos subsequentes.
O custo de sustentar uma política de âncora cambial que mantinha o real próximo ao dólar fragilizou ano a ano as contas brasileiras e contribuiu para a perda de competitividade industrial, levando a um processo de desindustrialização.
A medida beneficiava os mais ricos, que tinham poder de compra para consumir produtos importados e viajar para fora do país. Também gerou distorções internas, pois empresas estrangeiras que operavam no Brasil remetiam seus lucros às matrizes, enquanto o Banco Central sustentava artificialmente a valorização do real em relação ao dólar. A remessa de lucros elevava a demanda por dólares e aumentava a pressão sobre as reservas internacionais necessárias para sustentar a política cambial. Isso espremeu as reservas internacionais e ampliou a fragilidade das contas externas, o que ajudou a culminar, entre outros motivos, nas crises cambiais de 1999 e 2002.
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Outra herança maldita deixada pelo período são os juros altos — utilizados para conter a fuga de dólares durante a consolidação do Plano Real — que ainda hoje são um trauma para os investimentos e o crédito nacional.
A efetiva estabilização econômica veio somente anos depois, evidentemente com o projeto Real estabelecido, mas com um “colchão” de reservas internacionais construído sob os governos populares pós-2003 que garantiu ao Brasil uma nova condição no cenário internacional.
Nessa perspectiva, os ecos de 1994 ressoam até hoje. O ano que projetou o futebol e a economia brasileira para um novo momento, transformou em realidade os desejos da geração da “década perdida” (anos 80): conquista e maior estabilidade. Mas a pergunta que fica é: quais lições e qual legado as experiências daqueles meses deixaram para o futuro?
Clima de Copa
Para reviver o clima de Copa do Mundo, o Portal Vermelho indica o documentário Todos os Corações do Mundo, dirigido por Murilo Salles, que trata sobre o torneio de 1994. Mais do que registrar o campeonato, o filme traz uma inigualável sensação de congraçamento entre as nações ao mesmo tempo que não perde de vista a disputa e consegue trazer a primazia do futebol como reflexo de um mundo em transformação.
Outra dica, recém-saída do forno, é o documentário Tetra: Acreditar de Novo, lançado pela plataforma de streaming, Netflix.
Por fim, relembre os momentos finais da disputa de pênaltis da final, que entrou para o imaginário popular da cultura brasileira. A cena foi imortalizada pela célebre narração de Galvão Bueno ao lado de Pelé, aos pulos: “Acabou! Acabou! É tetra! É tetra!”
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