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Oswaldo Cruz: o médico que revolucionou a saúde pública no Brasil

Há 154 anos, em 5 de agosto de 1872, nascia o médico e sanitarista Oswaldo Cruz. Ele foi pioneiro nos estudos sobre microbiologia e doenças tropicais no Brasil e teve papel central na criação dos primeiros serviços sanitários.

Como diretor do Instituto Soroterápico (atual Fiocruz) e Diretor-Geral de Saúde Pública, Oswaldo Cruz instituiu a obrigatoriedade da vacinação e liderou as campanhas que erradicaram as epidemias de febre amarela, peste bubônica e varíola no início do século 20.

O sanitarista também coordenou as expedições científicas de combate à malária no interior do Brasil e foi responsável pela reforma do Código Sanitário. Sob seu comando, a Fiocruz se consolidaria como um centro científico de referência e um dos sustentáculos do sistema público de saúde.

Juventude e formação

Oswaldo Gonçalves Cruz nasceu em São Luiz do Paraitinga, uma cidade no Vale do Paraíba, interior de São Paulo. Ele era o primogênito dos seis filhos de Amália Taborda Bulhões e do médico Bento Gonçalves Cruz. Após passar seus primeiros anos na Chácara do Dizimeiro, Oswaldo se mudou com a família para o Rio de Janeiro, estabelecendo-se no bairro da Gávea.

Alfabetizado pela mãe, Oswaldo cursou o ensino básico nos colégios Laure e São Pedro de Alcântara e fez os estudos preparatórios para o ensino superior no Externato Pedro II. Em 1887, com apenas 15 anos, ele ingressou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, a mesma instituição onde seu pai se formara.

Durante a graduação, Oswaldo acompanhou com entusiasmo os avanços da chamada Revolução Bacteriológica, iniciada por pesquisadores como Louis Pasteur e Robert Koch. Publicou artigos científicos na revista “Brasil Médico”, versando sobre doença de Basedow-Graves e sobre os riscos de contaminação no sistema de abastecimento de água da antiga capital.

Esse tema foi igualmente abordado na tese de doutoramento de Oswaldo Cruz, intitulada “A veiculação microbiana pelas águas do Rio de Janeiro”. Graduou-se como médico em 8 de novembro de 1892, mesma data em que seu pai faleceu. Oswaldo assumiu a gestão do consultório do pai e também trabalhou em um laboratório vinculado à Policlínica Geral do Rio de Janeiro.

Em 1893, o médico se casou com Emília da Fonseca, filha de um abastado comerciante português e sua namorada desde a adolescência. Seu sogro o presenteou com um laboratório de análises clínicas, instalado no porão de sua residência no Jardim Botânico. Oswaldo e Emília tiveram seis filhos: Elisa, Bento, Hercília, Oswaldo Filho, Zahra e Walter. Os três homens também seguiriam a carreira médica.

Em 1897, Oswaldo Cruz viajou para Paris, a fim de se especializar no Instituto Pasteur, onde foi aluno de Émile Roux. Permaneceu na capital francesa por dois anos, estudando bacteriologia, soroterapia e imunologia. Atuou ainda como estagiário no Laboratório de Toxicologia da cidade. A experiência expôs o brasileiro aos métodos laboratoriais mais avançados da época e às técnicas modernas de produção de soros e vacinas.

O combate às epidemias e o Instituto Soroterápico

Logo após seu retorno ao Brasil em 1899, Oswaldo Cruz testemunhou o início de uma epidemia de peste bubônica no Porto de Santos. A doença se espalhou rapidamente pela Região Sudeste, despertando preocupação entre as autoridades brasileiras.

Chamado para investigar os casos suspeitos, o médico confirmou a presença do bacilo da peste em humanos e animais. Em 1900, Oswaldo identificou que a doença já havia atingido o Rio de Janeiro. Para combater a epidemia, o país dependia da importação de soros antipestosos produzidos na Europa, mas os laboratórios do continente estavam destinando toda a produção para atender a demanda local.

Diante da dificuldade de importar soro, as autoridades brasileiras resolveram criar seus próprios laboratórios. Em São Paulo, o governo estadual criou o Instituto Butantan. No Rio de Janeiro, o prefeito Cesário Alvim fundou o Instituto Soroterápico, instalado na antiga Fazenda de Manguinhos e inaugurado em 25 de maio de 1900. Em 1901, a instituição foi encampada pelo governo federal.

Oswaldo Cruz assumiu a coordenação técnica do Instituto Soroterápico e foi efetivado como seu diretor-geral em 1902. Sob seu comando, o instituto se converteu em um importante centro de pesquisa médica e formação de quadros, reunindo alguns dos mais renomados cientistas do país.

Em março de 1903, o presidente Rodrigues Alves nomeou Oswaldo Cruz como Diretor-Geral de Saúde Pública, cargo equivalente ao de Ministro da Saúde. O médico recebeu como missão primordial o combate às epidemias que assolavam a capital.

O desafio era enorme. Além da peste bubônica, o Rio de Janeiro sofria com epidemias de varíola e febre amarela, que já haviam ceifado milhares de vidas. As péssimas condições urbanas, com cortiços superlotados e completa ausência de saneamento básico, facilitavam a proliferação de vetores.

Enquanto a prefeitura promovia reformas urbanas no centro do Rio de Janeiro, Oswaldo conduzia uma abrangente campanha sanitária. Para controlar a epidemia de febre amarela, o sanitarista comandou as brigadas de “mata-mosquitos”, percorrendo bairros inteiros para inspecionar as casas, eliminar criadouros e vedar caixas-d’água. Também determinou a notificação compulsória de casos da doença e impôs quarentena e isolamento dos infectados.

Outra importante frente de atuação foi a campanha contra a peste bubônica. Ciente de que a enfermidade era transmitida por pulgas que parasitavam ratos infectados, Oswaldo ampliou a fiscalização e criou ações de controle da população de roedores. O governo chegou a pagar recompensas aos populares pela captura dos animais. A medida teve de ser suspensa, pois algumas pessoas passaram a criar ratos para trocá-los pelo dinheiro.

Oswaldo Cruz
via Wikimedia Commons

A Revolta da Vacina

A campanha de combate à varíola foi a que mais trouxe dores de cabeça para Oswaldo Cruz. A vacinação contra a varíola já era utilizada há décadas em vários países e sua eficácia estava bem estabelecida. No Brasil, entretanto, a cobertura vacinal permanecia extremamente baixa, resultando na ocorrência de sucessivos surtos da doença.

Com o objetivo de ampliar rapidamente a imunização da população, o governo federal seguiu a recomendação de Oswaldo Cruz e aprovou uma lei tornando a vacinação obrigatória. A medida, no entanto, gerou muita desconfiança e descontentamento entre os moradores do Rio de Janeiro.

A população já estava cansada das reformas urbanas conduzidas pelo prefeito Pereira Passos. A demolição sistemática dos cortiços havia desalojado milhares de famílias pobres, forçadas a ocupar as áreas periféricas e os morros da cidade. Além disso, a atuação dos fiscais frequentemente descambava para a truculência, gerando múltiplas denúncias de abusos.

Quando a imprensa divulgou que o governo pretendia multar e restringir os direitos das pessoas que recusassem a vacinação, o povo se revoltou. Para agravar o quadro, opositores políticos ajudaram a difundir boatos dizendo que a inoculação demandava o desnudamento de mulheres e meninas.

Em 10 de novembro de 1904, teve início a Revolta da Vacina. Por cerca de uma semana, milhares de pessoas tomaram as ruas, ergueram barricadas e depredaram postos de vacinação e prédios do governo. Populares incendiaram bondes, arrancaram trilhos e partiram para o enfrentamento contra a polícia. Houve até mesmo uma tentativa de golpe de Estado perpetrada por amotinados da Escola Militar da Praia Vermelha.

A repressão foi severa. O governo de Rodrigues Alves decretou estado de sítio e enviou tropas para ocupar a capital. Cerca de mil pessoas foram presas, centenas foram deportadas para o território do Acre e ao menos 30 morreram nos confrontos. A obrigatoriedade da vacinação teve de ser suspensa temporariamente.

Apesar da resistência e da repressão governamental, as campanhas de Oswaldo Cruz foram bem-sucedidas. Em 1907, a peste bubônica e a varíola estavam sob controle e a febre amarela já havia sido erradicada. Em reconhecimento a esses feitos, Oswaldo foi laureado com a medalha de ouro durante o 14º Congresso Internacional de Higiene e Demografia, sediado em Berlim.

Em seu retorno ao Brasil, o médico foi recebido como herói. Ele foi homenageado emprestando seu nome ao Instituto Soroterápico de Manguinhos, rebatizado como Instituto Oswaldo Cruz. Em 1972, o órgão se tornou a atual Fiocruz.

Expedições científicas e contribuições posteriores

Além das campanhas no Rio de Janeiro, Oswaldo coordenou uma série de expedições científicas pelo país. Entre 1905 e 1906, ele realizou dezenas de viagens de inspeção aos portos marítimos brasileiros, reunindo dados para um plano de modernização sanitária e coletando material científico.

Oswaldo Cruz também foi responsável pela reforma do Código Sanitário e pela reestruturação dos órgãos de higiene e saúde do país. Ele incumbiu o Instituto Oswaldo Cruz de dar apoio às expedições científicas e ações de profilaxia conduzidas pelo interior do Brasil, em missões que visavam controlar a malária e outras doenças.

Entre as expedições realizadas no período destacam-se a campanha de Carlos Chagas contra o surto de malária em Itatinga, a missão de Chagas e Belisário Penna no norte de Minas Gerais, que levaria à descoberta da doença de Chagas, e a ação de Oswaldo e Penna na região da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (a “Ferrovia do Diabo”), onde a malária estava dizimando milhares de trabalhadores.

Entre 1911 e 1913, os pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz mapearam as condições epidemiológicas, sociais e ambientais nos rincões do país, produzindo relatórios, fotografias e inventários que escancaravam a miséria e o abandono sanitário impostos a grandes parcelas da população brasileira. Essas missões não apenas auxiliaram no combate às moléstias, como ajudaram a consolidar diversas ações sanitárias pioneiras no Brasil.

Os últimos anos

Em 1909, Oswaldo deixou a Diretoria-Geral de Saúde Pública para dedicar-se integralmente ao Instituto de Manguinhos. A instituição logo se tornaria uma referência internacional em medicina tropical, desenvolvendo estudos pioneiros sobre doenças negligenciadas e exercendo papel central na reorganização dos serviços sanitários.

Em 1912, o sanitarista foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras. A escolha foi polêmica, com alguns literatos questionando a concessão da honraria a um “homem dos laboratórios”. Tomou posse no ano seguinte, com um discurso que enfatizava a importância de valorizar os cientistas. Oswaldo Cruz também foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Diagnosticado com nefrite em 1907, Oswaldo Cruz sofreu uma piora significativa de seu quadro a partir de 1915, sendo forçado a reduzir suas atividades e pesquisas. Em 1916, ele se mudou para Petrópolis, acreditando que o clima ameno da cidade ajudaria a atenuar os sintomas.

Oswaldo Cruz foi nomeado prefeito de Petrópolis pelo governador Nilo Peçanha e chegou a elaborar um plano de urbanização e saneamento para a cidade, mas a progressão da doença o obrigou a renunciar ao cargo. O sanitarista faleceu em sua casa pouco tempo depois, em 11 de fevereiro de 1917, aos 44 anos.

O médico foi postumamente homenageado dando seu nome a logradouros, bairros, estações, escolas e outros equipamentos públicos. A Fiocruz, herdeira direta de sua obra, segue até hoje como um dos mais destacados centros de pesquisa da América Latina e responde pela fabricação de boa parte dos soros e vacinas utilizados pelo SUS.

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