
A Controladoria-Geral da União (CGU) abriu apuração para investigar a execução de uma emenda parlamentar no valor de R$ 4 milhões, destinada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Club de Regatas Vasco da Gama no ano de 2025. O levantamento preliminar revela que 93% de todo o valor efetivamente despendido até o momento foi direcionado a um único fornecedor pessoa física, identificado como Luiz Armando Marcondes de Oliveira.
As informações foram reveladas pelo colunista Juca Kfouri, em reportagem publicada no portal UOL Esporte nesta terça-feira (5).
A nova frente de apuração reacende o histórico de controvérsias que cercam o uso de recursos públicos e a atuação do senador. Flávio Bolsonaro, que teve a denúncia do emblemático caso das “rachadinhas” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) arquivada na Justiça após a anulação de provas por questões processuais, volta ao centro de suspeitas envolvendo o manuseio atípico de verbas parlamentares e triangulações financeiras.
No caso do Vasco, o fornecedor pessoa física foi cadastrado para entregar 31 categorias distintas de material esportivo manufaturado. A extrema concentração dos pagamentos em um único CPF gera forte questionamento técnico dos órgãos de fiscalização, uma vez que o fornecimento de artigos esportivos em escala é uma atividade tipicamente desenvolvida por empresas consolidadas do setor têxtil e comercial, e não por pessoas físicas emitindo notas fiscais avulsas.
A investigação da CGU ocorre em um contexto mais amplo de apurações sobre as emendas do parlamentar do PL. A Polícia Federal mantém aberta uma investigação para apurar outro repasse de Flávio Bolsonaro, no valor de R$ 199 mil, destinado em 2023 ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop). A entidade é suspeita de manter ligações com o esquema atribuído aos irmãos Brazão -o deputado federal Chiquinho Brazão e o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro Domingos Brazão -, que também já haviam contemplado a mesma ONG com repasses de verbas públicas. Os irmãos Brazão estão presos pela morte de Marielle Franco.
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Além do caso relativo ao projeto carioca e às conexões com os Brazão, o senador se encontra no radar das autoridades por outras movimentações financeiras controversas. As apurações recentes apontam a emissão de R$ 1,5 milhão em notas fiscais pelo escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro para empresas vinculadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, investigado no âmbito do escândalo do Banco Master, além de negociações para a captação de dezenas de milhões de reais com o empresário para o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia ficcional sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Emenda Vasco beneficiou uma única pessoa
A investigação conduzida pela CGU traz à tona ao menos seis pontos críticos na prestação de contas do projeto no clube carioca. O primeiro refere-se à própria concentração do recurso, visto que quase a totalidade dos valores pagos beneficiou um único indivíduo. Somado a isso, os auditores observaram uma velocidade atípica na liberação dos recursos: três notas fiscais apresentadas pelo fornecedor, totalizando R$ 684.750,10, foram emitidas e quitadas em um intervalo de menos de dois meses, entre os dias 20 de março e 11 de maio de 2026.
A operação consumiu de forma imediata o orçamento destinado a uniformes para toda a vigência do convênio, previsto para durar até maio de 2027.
Outra inconsistência identificada aponta falhas nas contratações do projeto, em que duas posições registradas sob a modalidade de contratação via CLT aparecem vinculadas à empresa Spiridon Promoções e Eventos Ltda., ao invés de uma pessoa física contratada diretamente. Também chamou a atenção a designação da empresa MR Eventos Treinamento e Agenciamento Empresarial Ltda. para exercer a função de gestão administrativa do projeto social esportivo, apesar de seu registro empresarial indicar atuação voltada ao agenciamento de eventos e de artistas.
A fiscalização enfrenta ainda obstáculos em relação aos prazos e à transparência. O encerramento para a prestação de contas final do convênio está fixado apenas para 25 de julho de 2027, data distante que limita a capacidade de acompanhamento social e de fiscalização em tempo real. Além disso, cerca de R$ 3,3 milhões – quantia equivalente a 85% do total da emenda – seguem depositados em conta bancária do projeto, mantendo aberta a margem para novas movimentações financeiras.
Nos bastidores do clube carioca, os relatos apresentados por Juca Kfouri indicam que a articulação técnica e política para a obtenção dos recursos foi conduzida pelo advogado Alan Belaciano, presidente da Assembleia Geral do Vasco. Belaciano é apontado como interlocutor próximo ao senador Flávio Bolsonaro e possui forte inserção na gestão encabeçada pelo presidente do clube, Pedro Paulo de Oliveira, o Pedrinho.
Atualmente, não há relatórios oficiais tornados públicos no Portal da Transparência nem nos sistemas governamentais de emendas que detalhem integralmente a execução dos R$ 4 milhões destinados ao Vasco. A apuração instaurada pela CGU reforça as exigências por transparência e rastreabilidade no emprego de verbas públicas, lançando nova luz sobre os métodos de distribuição de emendas parlamentares.
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