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Os bancos e corretoras amanheceram em festa neste mês de outubro de 2026. Bastou a vitória surpreendente de Flávio Bolsonaro no primeiro turno para que telas de computadores em escritórios da Faria Lima à Barra da Tijuca, onde o sapatênis Yuool é quase um uniforme, pipocassem com setinhas verdes: a bolsa de valores subiu, o dólar recuou e as taxas de juros de longo prazo despencaram. Para o comentarista econômico médio e para o perito de corretora, isso seria devido a um suposto “choque de credibilidade”, ou “voto de confiança” à agenda econômica prometida pelo candidato da extrema-direita.
“Os preços refletem expectativas sobre crescimento, inflação, juros e, no Brasil, sobretudo a trajetória fiscal. A eleição deixa essas variáveis em aberto, e cada pesquisa ou declaração muda as probabilidades de cada cenário”, disse o chefe de investimentos de uma grande gestora de ativos.
No entanto, por trás dos jargões e discursos vazios, é possível enxergar uma motivação menos nobre, embora perfeitamente racional, para a animação da classe rentista. A verdade é que se o mercado financeiro gosta de um projeto, o povo tem motivos para fugir. E a razão para isso é menos ideológica do que o discurso conservador e individualista do rentista médio, fortemente alinhado à direita e extrema-direita política, pode fazer parecer. O motivo é, principalmente, pragmaticamente aritmético.

O mercado financeiro — desde o oligopólio de tesourarias bancárias, aos emissores de moedas não estatais, aos fundos de cobertura, aos negociadores de contratos e apostadores em cenários futuros — não gera riqueza real (comida, moradias, vestimentas, veículos, remédios…). O que se faz no mercado financeiro é criar e direcionar compromissos financeiros, cujos fluxos não criam, mas em economias monetárias infelizmente são capazes de mobilizar e desmobilizar capacidades produtivas, e redistribuir seus resultados materiais.
A Fazenda e o Cassino
Imagine o leitor que uma fazenda é responsável pela produção de todos os alimentos consumidos por uma dada comunidade isolada. Se a fazenda fosse controlada comunitariamente, gerida por planejadores sinceramente motivados pela necessidade de aproveitar ao máximo a mão de obra e as terras produtivas para alimentar a si, suas famílias, e ao restante da população, é difícil imaginar que a produção de alimentos por algum motivo ficasse abaixo dos próprios limites da sua própria capacidade produtiva real.
Agora imagine que a comunidade esteja inserida numa economia monetária (condicionada por uma moeda cartal/contratual criada por um emissor soberano e/ou emissores privados autorizados e apoiados pelo soberano) e que a fazenda seja propriedade de um único dono, cujo objetivo último não é satisfazer as necessidades da comunidade, mas acumular riqueza nominal (ou seja, acumular dinheiro e/ou ativos conversíveis em dinheiro mais rapidamente do que acumula compromissos de devolver dinheiro). Enquanto houver demanda suficiente (pessoas oferecendo dinheiro em troca de mercadorias) pelo produto da fazenda, o resultado eficiente em que a capacidade produtiva da fazenda é plenamente aproveitada pode ser mantido.
Na verdade, caso o incentivo a superar limites materiais para a produção de alimentos seja maior sob a lógica da acumulação nominal buscada pelo fazendeiro do que sob a lógica do planejamento coletivisticamente motivado (como defendem os entusiastas do poder incentivador do lucro ao empenho e à criatividade), é possível até imaginar que a produção eficiente da fazenda capitalista seja maior que a produção eficiente da fazenda planejada.
Mas para que o resultado eficiente seja atingido, o dono da fazenda precisa utilizar a receita gerada pelas vendas de alimentos para pagar salários suficientemente generosos aos seus trabalhadores, além de comprar o suficiente de fornecedores e outros empreendedores da comunidade (inclusive e especialmente adquirindo ativos reais produtos com a mão de obra de outros trabalhadores), até que injete renda o suficiente para que a comunidade consiga pagar o suficiente pelos alimentos produzidos pela fazenda, mantendo o fazendeiro satisfeito com as vendas.
E bastaria que o fazendeiro recebesse excessivamente muito pelos alimentos e pagasse excessivamente pouco ao resto da comunidade durante alguns períodos para que o resultado eficiente se tornasse ameaçado. Afinal, as vendas de alimentos por um preço suficientemente lucrativo dependem da existência de compradores não apenas necessitados e desejosos, mas monetariamente capazes de adquiri-los. Na ausência de compradores externos à comunidade ou de um governo fiscalmente deficitário, é fácil perceber como o acúmulo de riqueza exageradamente agressivo pelo fazendeiro acabaria sendo autossabotador até mesmo para a sua própria saúde econômica.
Quanto menos o fazendeiro pagasse aos seus trabalhadores e quanto menos comprasse de outros empresários da comunidade, menos ele acabaria vendendo por hipossuficiência econômica do restante da sua comunidade, sendo eventualmente forçado a reduzir a produção da fazenda abaixo do produto eficiente, e prejudicando ainda mais as suas vendas em períodos subsequentes, e mais, e mais, até que todos na comunidade sucumbissem à escassez material, mesmo que a fazenda permanecesse tão potencialmente produtiva quanto sempre.
Ou seja, embora exista um claro conflito de interesses entre o fazendeiro e o resto da comunidade (na verdade, entre quaisquer duas pessoas), em que a redistribuição de um dado produto total sempre representará um processo de soma zero, existe também uma convergência dinâmica de seus interesses em nome do aumento e manutenção do produto real, até que tão elevado quanto possível. Um governo (or setor externo) que complemente a injeção de dinheiro na economia de modo a permitir que o fazendeiro acumule bastante riqueza nominal sem que a renda e, portanto, demanda por alimentos do restante da comunidade precise ficar deprimida a ponto de se tornar insuficiente para que a produção de alimentos da fazenda seja vendida poderia neutralizar facilmente o conflito de interesses estáticos entre patrões e trabalhadores em nome da convergência dinâmica de interesses.
O fazendeiro satisfaria seu objetivo de acumular riqueza nominal, enquanto os trabalhadores seguiriam tendo acesso suficiente à produção material da comunidade. Ou seja, ao invés de “drenar” riqueza da comunidade, e ao invés de prejudicar os empresários, um governo que injete mais dinheiro (gaste) mais do que retire (arrecade impostos) ajuda a economia a se manter saudavelmente ativa, mesmo que o fazendeiro acumule mais. É o exato contrário do que costumam defender os economistas porta-vozes do rentismo!
O Mecanismo Parasitário do Cassino
Agora, imagine que um cassino seja aberto na cidade. O dono do cassino, percebendo o potencial produtivo da comunidade, especialmente devido à produção abundante de alimentos pela fazenda, atrai o fazendeiro para as mesas de jogo oferecendo-lhe linhas de crédito facilitadas — ou seja, ele permite que o fazendeiro jogue “fiado”, adiando o pagamento em dinheiro pelas fichas utilizadas nos jogos. Inicialmente, uma noite de jogatina bem-sucedida poderá até encher os bolsos e cofres do fazendeiro, liberando mais recursos nominais para investir na fazenda, contratando temporariamente mais funcionários ou comprando mais insumos e ferramentas. Da mesma forma, o sucesso de um ou outro trabalhador afortunado poderá alimentar sua demanda por alimentos e outros produtos da comunidade, estimulando e multiplicando o incentivo à atividade produtiva.
Com o tempo e o crescimento do cassino, as fichas do cassino passam a ser usadas na comunidade como substitutas da própria moeda cartal, permitindo ao cassino financiar projetos da comunidade com fichas que ele mesmo cria do nada. Em tempos de prosperidade, a criação de fichas pelo cassino poderia até mesmo alimentar a expansão de capacidades produtivas, desde que o cassino enxergasse no empréstimo de fichas a oportunidade de expandir seu patrimônio nominal — isto é, capturar e receber de volta mais moeda cartal do Estado do que a emissão líquida (a diferença entre a emissão e os recebimentos nulificadores) de suas próprias fichas.
Mas as regras do jogo são matematicamente desenhadas para que o cassino sempre ganhe no longo prazo. À medida que as dívidas junto ao cassino vão se acumulando e vencendo, os fluxos nominais passam a ser direcionados com cada vez mais força para os cofres do jogo. Mesmo que o cassino não consuma muito da produção material da comunidade, cada quilo de comida adquirido pelos operadores do cassino terá sido recebido sem que o cassino contribuísse com nada além da oportunidade de participar de jogos redistribuidores de riquezas nominais à comunidade.
Mas o pior de tudo não é isso. Ao contrário do fazendeiro, cujo sucesso econômico ainda depende do crescimento saudável da economia como um todo — de modo que o conflito distributivo com os seus trabalhadores acaba, ao menos possivelmente, amenizado quando há enriquecimento nominal para o fazendeiro e expansão real da produção ao mesmo tempo —, no caso do cassino essa convergência simplesmente não é possível.
A atividade parasita do cassino depende que a saúde econômica da comunidade esteja permanentemente sabotada. Como um bom parasita biológico, a sabotagem não pode ser tão extrema a ponto de levar à morte do hospedeiro (um colapso econômico completo), mas precisa ser suficiente para que o hospedeiro não tenha forças para combater o parasitismo. Sem que a jogatina seja suficientemente atraente quando comparada à atividade produtiva sufocada, dificilmente o fazendeiro sucumbirá ao jogo. Sem que os trabalhadores sintam a necessidade desesperada de complementar suas rendas a ponto de solicitar fichas emprestadas, dificilmente sucumbirão ao parasitismo. Sem que riquezas nominais troquem de mãos no cassino com uma frequência desestabilizadora e prejudicial ao planejamento de empreendimentos produtivos de longo prazo, o cassino sequer terá o que oferecer aos seus hospedeiros.
Cabe reconhecer que o parasitismo financeiro não depende necessariamente da estagnação econômica. Quando os ganhos associados à expansão saudável da produção superam aqueles obtidos pela extração de rendas financeiras, até mesmo os agentes rentistas podem ter interesse na prosperidade coletiva. Da mesma forma, quando a ameaça de colapso se torna grande demais, como ocorreu durante a pandemia, até beneficiários do rentismo podem passar a defender a preservação da capacidade produtiva do hospedeiro — como quando porta-vozes do mercado abandonaram temporariamente a defesa da austeridade fiscal em favor de intervenções públicas deficitárias monumentais para o combate da crise pandêmica. O problema surge quando a concentração de poder financeiro, a fragilidade regulatória e a capacidade de impor e transferir custos aos demais setores tornam mais lucrativo apropriar-se de uma parcela crescente de uma economia debilitada do que participar de uma parcela menor de uma economia em expansão. Nessas condições, a preservação da dependência financeira e de oportunidades de ganhos com a instabilidade torna-se economicamente vantajosa para seus beneficiários, mesmo quando compromete a produção material e o bem-estar da comunidade.
Mas no Brasil de outubro de 2026, o mercado financeiro é um cassino parasita. E a euforia dos bancos com as pesquisas eleitorais e os resultados do primeiro turno não é um sinal de que a nossa fazenda vai prosperar. É exatamente o oposto: os donos do cassino financeiro estão celebrando porque antecipam que o avanço de Flávio Bolsonaro lhes entregará o gerente perfeito para acelerar a entrega do controle da nossa produção material para quem controla a criação de meras fichas de plástico.
O “Concurso de Beleza” e a Captura do Cardume
A economia convencional gasta rios de tinta tentando nos convencer de que as ossilações diárias das taxas e ações refletem diagnósticos técnicos e científicos sobre o futuro do país. Até mesmo analistas progressistas às vezes se perdem tentando aplicar as teses tradicionais de Incerteza Fundamental de John Maynard Keynes para provar que o futuro é estritamente imprevisível. Ambos estão olhando para o desafio errado. Os grandes “tubarões” da Faria Lima não gastam energia tentando prever a física complexa da produção material ou as oscilações nas preferências dos consumidores que afetarão as suas compras; eles precisam apenas antecipar — e moldar — o comportamento das pessoas na mesa de jogo.
E coordenar o comportamento humano é um desafio infinitamente mais fácil quando se movem volumes mastodônticos de liquidez capazes de alterar preços na marra e quando se controlam os megafones de difusão de narrativas na grande mídia. O “choque de credibilidade” é, na verdade, uma operação de engenharia comportamental coordenada, nos moldes do célebre Concurso de Beleza imaginado por Keynes, onde o prêmio iria para o jogador que antecipasse o que a opinião média esperaria que fosse a opinião média sobre o ranking de beleza das fotos publicadas em um jornal. Ao controlar o megafone e os manuais que ditam o padrão estético do jogo, a Faria Lima influencia o comportamento dos jogadores na direção desejada por indução mimética. E ao fazê-lo cria a “realidade” econômica que de fato importa para quem faz dinheiro com jogos financeiros: a realidade dos comportamentos de curto prazo de preços financeiros.
Quando as tesourarias dos bancos e seus porta-vozes reclamam da suposta irresponsabilidade fiscal de um governo Lula mais provável depois da divulgação de uma última pesquisa de opinião favorável ao governo, na verdade estão sinalizando que a hora é de vender títulos públicos pré-fixados para comprar títulos pós-fixados e/ou aplicações em moeda estrangeira. E quanto mais esse entendimento é efetivamente disseminado entre os participantes do mercado financeiro influenciando seus comportamentos, mais convenientes são as flutuações nos preços (aumento nos juros de longo prazo e desvalorização cambial) para os seus deflagradores.
Quando acusam um eventual governo Lula de sabotagem aos lucros de empresas mistas como Petrobras e Banco do Brasil, preparam o terreno para que as ações dessas empresas subam e caiam de acordo com as chances eleitorais de cada candidato. E quando celebram a suposta “responsabilidade fiscal” do projeto bolsonarista e o seu compromisso com geração e distribuição generosas de dividendos por empresas públicas, estão deflagrando movimentos na direção contrária. Isso tudo independe do que efetivamente ocorrerá no futuro com os juros, com o câmbio e com os lucros das empresas mistas.
Nem Tudo é Mentira, mas Quase Tudo é Desonestidade
Mas o otimismo do mercado financeiro também revela algo sobre a realidade. Porém, nesse caso, a realidade que motiva o otimismo para o rentismo deveria causar desespero em todos que não vivem de rendas ociosas. Quando o “mercado” “escolhe” o candidato que mais fanaticamente promete tratar o orçamento público como o de uma dona de casa (como alguém que promete um “tesouraço” a la Milei), ele está escolhendo um governo que acabará mais submisso ao terrorismo fiscal que condiciona a queda nos juros básicos ao saneamento fiscal, com base na mentira de que governos soberanos podem “quebrar” e precisam convencer credores privados a lhes emprestar dinheiro.
Se o governo consegue entregar o “saneamento” fiscal violento, ele entrega ao mercado o enfraquecimento econômico que aumenta as oportunidades de parasitismo financeiro do setor produtivo via endividamento privado, e a instabilidade de preços relativos, sempre favorável aos grandes arbitradores. Se não consegue, segue remunerando o dinheiro ocioso a juros desnecessariamente elevados.
Além disso, um governo fanaticamente desesperado (ou desonestamente incentivado) para sanear suas contas oferecerá suas riquezas a preços extremamente subfaturados para a festa dos privatizadores. Finalmente, um governo fanaticamente ultraliberal (novamente a la Milei) beneficiará o rentismo e mesmo o capital produtivo em mercados muito concentrados através da desregulação. A alta das ações corporativas (subida da bolsa) reflete a expectativa de desregulamentação total, como o enfraquecimento do Código de Defesa do Consumidor e manutenção de spreads abusivos de 24% no consignado que expropriam o rendimento do trabalhador e do aposentado para inflar o lucro nominal da banca.
A insatisfação legítima da maioria dos excluídos com as amarras fiscais e a submissão voluntária ao rentismo por parte do governo atual — que tantas vezes paralisou a própria capacidade de investimento real com medo de desagradar ao mercado — é o combustível dessa crise. No entanto, reagir a essa frustração abraçando o bolsonarismo é o equivalente a votar pelo incêndio da própria fazenda só porque o gerente atual entregou resultados frustrantes. O incêndio não purifica a estrutura; ele apenas acelera a transferência do controle da nossa fazenda (e do nosso suor!) para quem controla as fichas do cassino financeiro. Se a Faria Lima está rindo a poucos dias do segundo turno, o Brasil real precisa urgentemente decifrar a aritmética por trás dos sorrisos dos especuladores, pois quanto mais largos forem esses sorrisos mais lágrimas tenderão a produzir ao povo trabalhador.
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