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A dupla moral da FIFA diante da geopolítica mundial

A Copa do Mundo de 2026 começou cercada por uma contradição que ultrapassa as quatro linhas do campo. 

Enquanto a FIFA insiste em apresentar o futebol como território neutro, capaz de unir povos e nações acima das disputas políticas, o torneio organizado por Estados Unidos, Canadá e México revela a realidade de que a geopolítica continua decidindo quem pode circular, competir e ser representado no maior evento esportivo do planeta.

O presidente da FIFA, Gianni Infantino, em encontro com o presidente dos EUA, Donald Trump, na Casa Branca.
(Foto: Daniel Torok / White House)

Nas semanas iniciais da competição, árbitros foram impedidos de ingressar nos Estados Unidos, profissionais credenciados foram deportados, dirigentes enfrentaram obstáculos para obter vistos, delegações sofreram constrangimentos migratórios e torcedores tiveram viagens canceladas por decisões administrativas das autoridades norte-americanas.

O caso mais simbólico envolveu a seleção do Haiti, obrigada pela FIFA a retirar de seu uniforme referências à Batalha de Vertières, marco da revolução que derrotou o colonialismo francês e abriu caminho para a primeira república negra das Américas. 

A FIFA alegou a necessidade de evitar manifestações políticas. Mas desde quando a memória da luta contra a escravidão e o colonialismo constitui ameaça ao esporte?

Ao mesmo tempo em que censurava um símbolo anticolonial haitiano, a FIFA permaneceu praticamente silenciosa diante das restrições impostas pelo principal país-sede do torneio. 

O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, considerado um dos principais nomes da arbitragem africana, foi impedido de entrar nos Estados Unidos e deportado sem explicações públicas convincentes. O episódio tornou-se ainda mais grave porque a própria FIFA havia informado que as questões relacionadas ao visto estavam resolvidas.

Não foi um caso isolado. Delegações africanas relataram revistas excessivas, atrasos e tratamento discriminatório. O fotógrafo oficial da seleção do Iraque teve a entrada negada. Jogadores, torcedores e profissionais credenciados também enfrentaram obstáculos migratórios incompatíveis com o caráter universal que a Copa deveria representar.

O Irã talvez tenha sido uma das seleções mais atingidas. Quinze integrantes de sua delegação tiveram vistos recusados, obrigando a equipe a transferir sua preparação do Arizona para Tijuana, no México. A Federação Iraniana anunciou que apresentará queixa formal à FIFA, alegando que as restrições prejudicaram a preparação da equipe e violaram o princípio da igualdade entre as seleções participantes.

A Palestina também foi afetada. O presidente da Federação Palestina de Futebol, Jibril Rajoub, denunciou a demora na concessão de seu visto para participar de atividades oficiais da FIFA. Segundo ele, a medida desrespeita obrigações assumidas pelos países-sede e compromete o caráter universal do principal torneio do futebol mundial.

Diante desses episódios, a posição da FIFA tem sido previsível, ao alegar que questões migratórias pertencem às autoridades nacionais. A justificativa, porém, não convence. 

Quando considera conveniente, a entidade intervém, pune federações, censura manifestações, controla uniformes e impõe rígidos critérios de conduta. Quando as restrições partem de uma grande potência ocidental, a neutralidade institucional transforma-se em passividade.

A seletividade não é nova. Há anos organizações de direitos humanos denunciam a presença de clubes israelenses sediados em assentamentos construídos em territórios palestinos ocupados, considerados ilegais por resoluções das Nações Unidas. Ainda assim, esses clubes seguem vinculados à federação israelense, sem que a FIFA adote medidas efetivas.

O mesmo silêncio cerca outras situações coloniais. O Marrocos disputa normalmente a Copa enquanto mantém a ocupação de grande parte do Saara Ocidental desde 1975. O referendo de autodeterminação prometido pela ONU há mais de três décadas jamais foi realizado, e o povo saaraui segue privado de um direito reconhecido pelo próprio sistema internacional.

Esses casos demonstram que a chamada neutralidade esportiva frequentemente funciona como instrumento político. Ela é aplicada com rigor quando se trata de controlar símbolos, memórias e vozes dos povos periféricos, mas torna-se flexível quando entram em cena os interesses das grandes potências ou de seus aliados estratégicos.

O futebol nunca esteve separado da política. As Copas do Mundo sempre refletiram disputas de poder, identidades nacionais, conflitos internacionais e transformações históricas. O problema não está em reconhecer essa realidade, mas em usar o discurso da neutralidade para silenciar os povos que desafiam a ordem dominante, enquanto se protege quem viola direitos em nome da força.

Do Haiti ao Irã, da Palestina à Somália, do Iraque ao Saara Ocidental, a Copa de 2026 revela um padrão difícil de ignorar. Povos marcados pelo colonialismo, pela ocupação, pelas sanções e pela marginalização internacional enfrentam obstáculos que não atingem todos de forma igual.

Se pretende continuar afirmando que o futebol une o mundo, a FIFA precisará demonstrar que seus princípios valem para todos. 

Caso contrário, este Mundial será lembrado não apenas pelos gols e troféus, mas como a Copa em que a universalidade do esporte foi subordinada às fronteiras, aos vetos seletivos e à geopolítica das potências dominantes.

(*) Sayid Marcos Tenório é historiador, especialista em Geopolítica do Oriente Médio, fundador e vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal) e autor dos livros ‘Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência’ e ‘RASD 50 anos – A longa marcha pela independência da última colônia da África’.

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