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“Golaço de sabor e praticidade com a linha exclusiva do Neymar Jr.”
Slogan da campanha publicitária da Canção Alimentos, patrocinadora do Santos Futebol Clube
“Fazer apostas na Copa do Mundo é simples. Em poucos passos você efetiva sua aposta e adiciona uma camada de entretenimento para acompanhar esse torneio que mexe com o coração de todo torcedor.”
Chamado no site da Lance!, tradicional mídia esportiva
“Mais jogos significam maior público; maior público gera mais dados; e mais dados criam novas oportunidades de negócios. A Copa do Mundo não é mais apenas um torneio de futebol. Ela está se tornando, cada vez mais, um enorme ativo financeiro global.”
Trecho de matéria do Funds Society, plataforma de gestão de ativos e patrimônio
Coca-Cola ginga em cima da ética, passa para a General Mills; General Mills arranca no meio-campo, dribla as instâncias regulatórias e lança para InBev; InBev dá um chapéu na governança e mete um chutão, a bola faz uma curva malandra e… é mais um goooooooool das Big Foods!!! Os acionistas vão ao delírio e os índices de doenças crônicas não transmissíveis vão às alturas. Agora é comemorar a vitória acachapante com uma overdose de petiscos ultraprocessados e cerveja de milho transgênico para a geral — e lagosta e uísque de primeira para a meia dúzia da ala VIP Premium Plus Exclusive.
Como é impossível não perceber, estamos em época de Copa do Mundo do Futebol Masculino da FIFA. E também de festas juninas e de campanha pré-eleitoral. São acontecimentos que mexem com o cotidiano de quem habita essa nossa terra, batizada como Brasil devido à árvore (ou pau) que era assim chamada porque sua madeira tem cor de brasa. A resina dela tingiu de vermelho os mantos e tapetes que cobriam ombros e solos estrangeiros e deixou nossos povos nativos com a pele ainda mais rubra, devido ao sangue derramado pelo processo de colonização. E, curiosamente, não tingiu a bandeira de seu próprio país de origem. Ficamos nós, com as cores verde, amarelo e azul oscilando ao vento nos mastros erguidos após a dita independência.
O amarelo da camisa mais conhecida da seleção vem do amarelo da bandeira — que, por sua vez, representaria a abundância de ouro no território do país. O ouro arrancado do ventre de nossa terra. O ouro há séculos cobiçado, que sempre valeu muito mais pelo significado socioeconômico de sua posse do que pelo seu uso como matéria-prima. Mas que a atual sociedade high tech agora utiliza para produzir suas engenhocas, manter seus sistemas virtuais funcionando e garantir que um punhado de magnatas exerça um poder descomunal sobre o mundo.
É essa a cor que iremos irradiar aos quatro ventos nesse campeonato? Será que ela poderia representar outros elementos, como as polpas dos nossos frutos nativos — ananás, uvaias, jerivás, bacuparis, camapus, buritis, cabius, araçás —, valorizando a biodiversidade comestível presente (ainda) no território? São frutos que hoje pouca gente conhece e menos gente ainda ingere de maneira constante. Que, infelizmente, têm pouca probabilidade de fazer parte das bebidas e dos petiscos consumidos pelos/as brasileiros/as durante o acompanhamento dos jogos, como veremos mais para a frente. Por enquanto, vai aqui uma amostra do tipo de prática abusiva que rola nesse meio-campo: o IDEC denunciou a Coca-Cola e a Panini por fazerem venda casada, ao obrigarem as pessoas a comprarem refrigerantes, caso queiram encontrar determinadas figurinhas do álbum da Copa.
Não tenho a intenção de demonizar nenhum jogador mega famoso. Sei que os limites entre eles serem as vítimas ou os responsáveis pelo que acabaram se convertendo aos olhos do público são movediços. Infância em condições precárias, sucesso repentino fulminante, salários nas alturas, idolatria de fãs… são transformações brutais em suas vidas, que passam a ser exibidas exaustivamente mundo afora. E acumular dinheiro e status começa a ser mais importante do que fazer gols em copas do mundo.
Para isso, o que não se hesita em fazer é publicidade, seja lá do que for. Contratos milionários de jogadores e outras celebridades midiáticas com empresas envolvidas em questões indigestas não faltam. Atletas e artistas viraram marcas e (se) vendem em todos os veículos de comunicação. O que anunciam entra no imaginário popular e impulsiona as pessoas ao seu consumo, mesmo que elas precisem fazer sacrifícios ou mesmo praticar crimes.
Coma, beba, jogue… sem moderação
Uma cena inesquecível dos anos do governo miliciano é a que o próprio Bolsonaro come macarrão instantâneo no Japão. Não apreciando as iguarias servidas a ele em um banquete, o gastrófilo preparou a própria refeição no quarto e exibiu os dotes culinários nas redes sociais, mostrando inclusive a marca do produto. Curiosamente, ele foi fabricado pela Nissin-Ajinomoto Alimentos Ltda, corporação transnacional de origem japonesa. A empresa profanou o tradicional lámen do país, ao criar uma versão ultraprocessada dele, sempre acompanhada de um tempero artificial que imita sabores de alimentos típicos dos países onde a comercializa.
Fica até difícil definir em que ponto há mais desrespeito às culturas alimentares dos diferentes povos nessa estória infeliz. O fato de o presidente do Brasil se colocar no papel de garoto-propaganda de uma das Big Foods mais problemáticas (para dizer o mínimo) em relação à saúde da população é um sinal inequívoco de que a palavra ética não faz parte do dicionário dessa gente. E, se ele pode, por que outros/as não poderiam? Porteira aberta aos jogadores de futebol para uma atividade que nada combina com o esporte: vender comidas e bebidas que fazem mal.
Que tal um futburger? Parece piada, mas é o nome de uma das apostas da Canção Alimentos (um dos braços do Grupo GTF) para faturar nesse campeonato. Ela fez uma parceria com Neymar e lançou uma linha exclusiva de produtos para degustar nesses dias de sofá em que os olhos estão voltados para a bola quicando na tela. Comer hambúrguer ainda é muito trabalhoso nesse momento de torcida? Então vá de futchicken, os nuggets crocantes que o craque petisca na propaganda. Tudo muito inocente. Só que não.
O Grupo GTF é uma gigante brasileira da indústria alimentícia. O site da empresa traz um setor especial sobre seu desempenho, em formato de ranking. Nele, ela se orgulha de ocupar o 65º lugar entre as 100 maiores empresas do Agro. Espírito competitivo realmente não falta! Somente uma de suas dezenas de unidades industriais produz 500 toneladas de ração feita com milho e soja transgênicos por ano. E dá-lhe entupir frango com essa produção toda, para crescerem rápido e sejam logo triturados nas máquinas que fazem aquela massaroca que é a base dos seus futchickens.
A coleção de marcas de produtos alimentícios ultraprocessados (os tais UPPs) anunciados por Neymar, ao longo de sua carreira, inclui McDonald’s, PepsiCo, Seara, Guaraná Antarctica e Red Bull. No cardápio: hambúrguer, salgadinho, salsicha, refrigerante e energético enlatado. Pois é, sabemos muito bem o tamanho da encrenca gerada quando um ídolo da garotada estimula o consumo de comes e bebes que viciam e adoecem. A epidemia de doenças crônicas não transmissíveis começa já na infância, com diabetes, hipertensão e obesidade atrapalhando a brincadeira.
E ela se intensifica na vida adulta, quando a tendência é ter uma rotina mais sedentária. É aí que perguntamos: o nome apropriado do produto exclusivo anunciado pelo jogador seria Fut, Fat ou Fuckchicken? É uma pergunta que talvez os jogadores pudessem fazer antes de assinar contratos com Big Foods. Mas Neymar é só um exemplo. É comum ver jogadores em anúncios publicitários do setor, incentivando o consumo de UPPs.
E por que não estariam, se chegamos ao ponto de ter um dos mais importantes estádios brasileiros, sede do São Paulo Futebol Clube, chamado de MorumBIS, a marca de waffle da Lacta? Se a própria FIFA tem, há décadas, o hábito de fechar patrocínios com empresas como a Coca-Cola, uma de suas parceiras globais, com direito de aparecer em todas as transmissões do torneio?
O ataque da zaga
Para tentar botar limites nesse cenário, os movimentos sociais saem da defesa e partem para o ataque. Está no ar a campanha internacional Tirem o refrigerante do campo, afirmando que “A indústria de refrigerantes investe bilhões em patrocínios esportivos, fazendo com que as bebidas adoçadas pareçam parte integrante do jogo. Mas por trás dos anúncios e banners nos estádios, está a realidade: elas prejudicam nossa saúde e nosso planeta”.
Recentemente, a Colansa (Comunidade de Prática América Latina e Caribe Nutrição e Saúde) promoveu o webinário “Quem ganha com o Mundial? Patrocínios, saúde e reputação corporativa”, em que debateu o conceito de Sportwashing, a lavagem de imagem através do esporte, feita pelas Big Foods. Os efeitos dessa ação marqueteira são avassaladores. Com as atividades virtuais tomando o espaço das que ocorrem presencialmente, Big Techs vêm contribuindo para que anúncios publicitários, muitas vezes camuflados, atinjam um volume inédito de pessoas, inclusive a garotada, que vai na onda das redes.
Nem para comprar um lanche na padoca da esquina a turma se anima — e pedir delivery virou rotina. Ainda mais quando é possível acessar brindes relacionados à Copa, como os canarinhos de pelúcia do iFood, “inspirados no mascote oficial da Seleção Brasileira”. Tem a versão que vem segurando um pedaço de pizza, a que ele segura um hambúrguer, a que ele vem com a mochila da marca e por aí vai. Para colecionar, é preciso comprar petiscos e bebidas pela plataforma (e não levantar a bunda do sofá para ir até um mercado ou lanchonete), juntar selos e ainda pagar 49 reais até receber o mimo em casa. Gol do sedentarismo e da falta de interação humana.
Mais olho na tela e menos pé na bola já seriam problemáticos. Falta de coordenação motora e de sociabilidade já são sentidas nas escolas. Porém, o que faz a captura do esporte ser tão nefasta para a sociedade é o impacto direto no organismo das pessoas. Entre a Copa de 2022 e a atual, em torno de 3 milhões de novos casos de doenças crônicas não transmissíveis (incluindo diabetes e doenças cardiovasculares), atribuídos à superdosagem de bebidas adoçadas, surgiram só na América Latina e Caribe. Neste cenário, a situação do México, uma das sedes do torneio, é particularmente crítica.
A batalha pela taxação dos refrigerantes nos sistemas tributários dos países latino-americanos vem de longe. Se Donald Trump simplesmente cospe novas tarifas sobre outros países quando acha que convém a ele, fazer essas corporações de bebidas pagarem o básico em nosso território é tarefa que exige fôlego. Precisa ter preparo para jogar os 90 minutos, a prorrogação e ainda segurar a onda na disputa por pênaltis. Organizações como o IDEC e a ACT Promoção da Saúde toparam capitanear essa empreitada, mediante ações como a petição Doce Veneno.
Estima-se que, de acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a Copa injetará mais de 4 bilhões de reais no varejo nacional. Alimentos e bebidas ficam com a esmagadora maioria desse valor e hipermercados e supermercados vão abocanhar 70% dele. O campeão de vendas deverá ser o setor de bebidas adoçadas (68% na pesquisa de intenção de compra) acompanhado dos petiscos industrializados (62%). Como estamos em época de festas juninas e, infelizmente, elas já foram invadidas pelos UPPs (e seus deliciosos quitutes caseiros tradicionais estão cada vez mais raros), as vendas ainda ganham um impulso extra ao que já vem dos anúncios do campeonato esportivo mundial.
Além dos refrigerantes, outros patrocinadores desta edição são Frito-Lay, que produz snacks; Unilever, produtora de sorvete, maionese e catchup; e o mau e velho McDonald’s, que lançou o combo “6 por 26”, referência ao hexacampeonato e um hiperestímulo para que se compre seis de seus produtos de uma vez. Também criou copos colecionáveis, promovidos por Ronaldinho Gaúcho nos comerciais. E ainda distribui cupons em certos lances dos jogos, como no caso de frango do goleiro (o que já foi feito pelo KFC), de vitória do Brasil ou de derrota da Argentina, dando corda para a tradicional rivalidade com o país vizinho.
Entre um passe e um chute ao gol, essas marcas povoam nosso campo visual e nos induzem a consumir seus produtos. Se, após se empanturrar desses quitutes e beberagens que estragam o organismo, você não puder mais jogar o seu futebolzinho com a turma, não tem problema. A jogatina virtual está na área para garantir a diversão e o gostinho de competir.
O ganha-ganha em que o povo perde
Sim, a FIFA está lucrando e muito nesta edição do campeonato, chegando a uma receita recorde que deverá beirar os 9 bilhões de dólares, incluindo patrocínios, direitos de transmissão e a parte vinda da venda dos ingressos, que agora contam com um sistema de precificação dinâmica e estão até 20 vezes mais caros do que na edição passada! Mas desta vez, ela vai dar uma força para estufar os bolsos de outro setor, que cresceu horrores nos últimos anos a partir de outro tipo de jogatina: as BETs.
A expectativa é que, somente com o torneio, elas irão movimentar recursos quase sete vezes maiores que a “dona” da bola. Sim, estamos falando de 60 bilhões de dólares ou mais de 300 bilhões de reais, dinheiro suado, perdido por quem se aventura no universo das apostas online relacionadas às partidas esportivas. Se olharmos especificamente para o mercado brasileiro, o valor previsto é de 25 bilhões de reais. Dá para imaginar o que isso significa em termos de dinheiro fora do bolso da nossa população, já que a porcentagem de ganhadores/as é muito menor do que a de perdedores/as.
Esta é a primeira Copa em que essas plataformas já podem ser consideradas pilares financeiros do futebol jogado ao redor do planeta. Elas entraram no universo dos patrocínios como se não houvesse amanhã e estão 24 horas em pleno funcionamento. O apelo é para você “aperfeiçoar seus conhecimentos sobre futebol e ampliar seu potencial de ganhos”, algo inflado quando temos a maior edição da história das copas, com 48 seleções, 104 partidas e um período de tempo de 34 dias. Pegando carona nessa onda, surgem sites e guias que prometem mostrar o caminho das pedras das apostas.
Veículos de mídia esportiva, que atingem milhões de pessoas, como o “ecossistema” Lance! (5 bilhões de views em 2025!), têm setores específicos para as apostas, em que apresentam, por exemplo, os “Melhores cassinos online do Brasil em 2026: Ranking completo” e as “Top 15 bets pagando mais em 2026”. Como criticar essa postura se a própria FIFA fechou contrato com a Betano, gigante do setor que já havia entrado nas transmissões de campeonatos nacionais e sul-americanos feitas por veículos como a Globo e a ESPN?
Nesta copa, o acordo permite que a plataforma tenha direito a “usar todos os ativos que a competição oferece” e “oferecer experiências” a todo mundo que está de olho na bola durante o torneio. Não custa lembrar que ela também é patrocinadora master do Flamengo. Sendo assim, se a FIFA e os times podem fechar esse tipo de acordo, os jogadores (lembrando que são referência para crianças, jovens e adultos do país todo) também estão liberados, não é? Que o diga Neymar. Assim que foi anunciada sua presença na seleção, o moço foi às redes sociais para convidar o povo a participar da “diversão”, através de um código promocional e links que já conduziam a rodadas de apostas. Aliás, seu time, o Santos, é patrocinado pela Novibet.
Nessa lambança dos cassinos esportivos online, ganham as BETs, os veículos de mídia, os times de futebol, os jogadores e a própria FIFA. Perde a população, que vê a grana, que muitas vezes seria usada para alimentar as famílias, escorrendo entre uma rodada de “entretenimento” e outra. O desvio desses recursos básicos à sobrevivência para tentar a sorte é um empurrão a mais para o povo cair nas garras de agiotas e, também, da indústria alimentícia, que empurra sua comida de mentira (cada vez mais barata em relação ao que nutre de verdade) goela abaixo.
Vício chama vício
Desestruturadas pelas dívidas devido às BETs, as pessoas sofrem mais de transtornos mentais, como depressão e ansiedade. O último Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD), feito pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), revelou que 7,3% da nossa população já apresenta comportamento de risco, com consequente descontrole financeiro. Em torno de 1,4 milhão de pessoas podem ser consideradas vítimas do que é chamado de transtorno de jogo — índice acima da média no mundo. Esses desequilíbrios podem jogá-las diretamente no caminho do bar da esquina, onde as bebidas alcoólicas cumprem com eficiência o papel de entorpecer a mente.
O álcool é uma droga legalizada que gera lucros estratosféricos para a indústria da bebida e destrói duramente famílias inteiras. No artigo Comer e viver bem: O necessário “imposto AAAs”, já tracei um panorama da situação enfrentada aqui no país e as relações problemáticas do setor com a mídia e o ambiente. Enquanto espalha monoculturas e suga água, o mercado de cerveja mobiliza polpudas verbas publicitárias, anunciando ininterruptamente seus produtos. Contratos com as pessoas famosas do momento são fechados o tempo todo, garantindo repercussão robusta na cabeça das pessoas, inclusive de menores de idade. Quase 60% das pessoas entrevistadas no levantamento de intenção de compra já mencionado neste texto devem comprar a bebida neste torneio. Vamos entender alguns dos motivos.
Se, como vimos, anúncios de comida ultraprocessada e de BETs saltam das telas futebolísticas, a marquetagem do setor de bebidas alcoólicas não deixa por menos. Mais uma vez, a FIFA faz questão de dar o exemplo e traz a Anheuser-Busch InBev (Budweiser) como uma das principais patrocinadoras. Aliás, a Federação deixa explícito em contrato que a permissão da publicidade e das vendas cervejeiras nos estádios dos países-sede do campeonato é obrigatória. Uma exceção foi na Copa passada, no Catar, em que o país impôs a condição de somente permitir a versão sem álcool da bebida (o que não é lá uma maravilha, já que a marca segue em evidência). Nesta edição, a previsão é de crescimento na venda de bebidas alcoólicas, com 1 bilhão a mais de pints de cerveja sendo consumidos no mundo. Os torneios são considerados catalisadores do consumo e, apesar do aumento da procura pelos drinks prontos, o relatório “Luxo, Copa e Carnaval: O que move as marcas de bebidas em 2026” mostra que a bebida segue a campeã.
E, assim, voltamos à velha ladainha: se o próprio evento é patrocinado pelo setor, o que impediria um jogador de ser seu porta-voz? Exemplos dessa parceria no jogo midiático não faltam. O craque em peças publicitárias Neymar já estrelou, há nove anos, a campanha Cerveja n°10, da Proibida (marca adquirida pela GLOBAL BEBIDAS S/A, em 2022), mostrando que até semanticamente essas empresas podem nos dar um drible. Mas, neste ano, a Brahma fez até uma promessa para se destacar. Com Ronaldo Fenômeno como garoto propaganda, a marca diz que garante cerveja de graça, se o Brasil for campeão. Porém, prometer algo a partir do improvável é moleza; queremos outros tipos de promessas, relativas a questões éticas.
No final de maio, foi realizado o webinar “Patrocínio de Álcool no Esporte: Implicações para a Saúde Pública nas Américas“. Vale a pena trazer aqui um trecho do release divulgado na ocasião: “O patrocínio de bebidas alcoólicas em eventos esportivos representa uma das formas de marketing mais relevantes e abrangentes. Evidências indicam que esse tipo de exposição é particularmente influente, pois associa álcool a valores positivos como sucesso, celebração, desempenho e pertencimento, sendo apresentado como uma parte natural do ambiente, dificultando reconhecê-lo como uma estratégia publicitária”.
Sabemos que evidências desse poder de persuasão, sobretudo em relação ao comportamento da juventude, não faltam. Entretanto, frente à monumental quantidade de grana envolvida e ao lobby massivo, a necessária regulação por parte do Estado acaba não vindo.
Rasgar o roteiro
Uma sequência alucinante de malabarismos futebolísticos — generosamente turbinados com IA — que perpassa vários cenários de um estúdio de gravação publicitário, envolvendo jogadores de diversos países e outras celebridades mundiais: este é o resumo do vídeo lançado pela Nike, alguns dias antes do início da Copa. Com o slogan “Rasgue o roteiro”, a ideia seria estimular que, neste torneio, a forma de jogar fosse inusitada, criativa, impulsiva e, especialmente, insubmissa a estruturas hierárquicas e planos pré-definidos.
De fato, sentimos falta de um futebol mais libertário, em que o aspecto financeiro e as relações de poder não oprimam a ginga. Mas será que isso é possível em um cenário em que jogadores são transformados não apenas em garotos-propaganda de corporações, mas em produtos de si mesmos? Em que o mercado de BETs está impregnado na dinâmica dos esportes profissionais e faz de cada expulsão de campo um objeto de aposta? E a espontaneidade da própria torcida, atormentada por expectativas financeiras e conduzida por algoritmos de um lado para o outro, como fica?
Jogadores de grandes clubes não são vistos apenas como esportistas talentosos ou mesmo ídolos, eles são marcas fazedoras de dinheiro e audiência. Seus perfis os vendem como exemplos de sucesso individual na sociedade fraturada em que se vive. E seguem assim, mesmo se não estiverem em condições físicas de correr os 90 minutos, como mostra a visibilidade que continua sendo dada a Neymar, convocado apesar de contundido.
O salário mínimo no Brasil é de R$ 1.621, quando deveria ser, segundo cálculos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), de R$ 7.106,83. A maior parte da população, principalmente a juventude, enfrenta a precarização no trabalho, a perda de perspectiva de ter uma carreira e até a ameaça de ser substituída pelas IAs em tarefas para as quais se preparou (ou está se preparando) para dar conta. A ostentação de jogadores famosos e outras personalidades do mundo midiático nas redes sociais é o oposto do que o povão encara no dia a dia fora da tela.
No vídeo publicitário da Nike, em que os jogadores são, em uma primeira leitura, vistos como super-heróis donos de seus narizes, cada cena seguiu um roteiro pré-definido pela equipe criadora da peça. A invasão de espaços cenográficos pelos jogadores foi programada milimetricamente. Os cenários são clichês hollywoodianos, não têm nenhuma relação com os ambientes em que nossos jogadores foram criados, em que realmente o improviso, a transgressão e a surpresa ainda têm espaço.
Não, o roteiro do comercial jamais seria rasgado. Será que, fora do estúdio, no calor dos jogos do torneio, a espontaneidade e a criatividade vão dar as caras? É hora de olhar para o futebol feminino.
De adversários a inimigos
A Copa do Mundo masculina é um evento esportivo que mobiliza o planeta como nenhum outro. A quantidade de pessoas acompanhando os jogos está na casa dos bilhões. A proposta seria ter um momento de confraternização entre os povos, em que conflitos pudessem ser deixados de lado e a emoção que o futebol consegue proporcionar nos fizesse compartilhar algo muito especial, que nos irmana a todos/as como seres humanos. Mas esta edição parece contradizer propositadamente tudo isso, começando pela escolha da sede.
Os anfitriões de 2026, Estados Unidos, México e Canadá, foram sequestrados pela presença intratável (e intragável) de Donald Trump. Em guerra oficialmente contra o Irã e extraoficialmente com qualquer ser que ouse discordar de seus caprichos, o presidente estadunidense está usando o evento como palco para demonstrar poder. Ele conseguiu transformar a recepção de equipes e torcedores/as em um pesadelo para quem não vem de um país aliado ou eurocêntrico. De entrada negada a situações indignas no âmbito do controle da segurança, o mundo assistiu a um show de arbitrariedades.
Uma seleção de criações de 11 cartunistas de diversos países, feita pelo informativo O Sol, registra o tom predominante. Trump e cambada fascistoide não sabem ter adversários. Quem não está com eles, torna-se imediatamente inimigo. E, aos inimigos, a violência e o desrespeito são as regras invioláveis. Sem organizações internacionais estruturadas para apontar faltas e distribuir cartões vermelhos, o ataque trumpista já eliminou muita gente nesta Copa, bem como alguns dos princípios éticos que ainda existiam nos torneios. Seria uma surpresa para o restante do mundo?
Considerando que os EUA são o ninho das Big Techs, das Big Foods e das Big Money, tendo parido corporações como a Coca-Cola, o McDonald’s e a Meta (dona do Facebook, do WhatsApp e do Instagram), que sufocam países ao redor do planeta, não dá para dizer que há incoerência no comportamento do principal anfitrião. Quem sempre distribuiu carrinhos e meteu a mão na bola impunemente em campo não merece o benefício da dúvida. O próprio fato de termos permitido que um país governado por um líder que, somente este ano, já sequestrou o presidente da Venezuela e atacou, junto com o governo de Israel, o Irã, com o qual segue em guerra, já revela o tamanho da subserviência internacional.
Algo que também transborda nestes tempos de tecnofascismo é o estímulo ao ódio às mulheres. Trump, um inquestionável misógino, é o modelo de comportamento para uma machosfera ressentida com as (ainda insuficientes) conquistas feitas pela população feminina. Os setores corporativos ligados ao futebol, como o de bebidas, costumam sexualizar a mulher em suas propagandas. Quem tem alguns anos de estrada se lembra do Bar da Boa, em que a palavra se referia tanto à cerveja servida como à proprietária do estabelecimento, ninguém menos do que a musa do momento Juliana Paes.
A arena futebolística nunca foi receptiva com as mulheres. Mas, apesar da discriminação e do preconceito, elas abriram caminho. Lembro-me de como era raro, na minha época de estudante, encontrar outras garotas que, como eu, treinavam futebol na escola. Comentaristas esportivas tiveram que amargar muitas agressões gratuitas para garantir presença em programas na mídia do setor. Nada disso conseguiu parar a mobilização da mulherada para entrar em campo. Hoje, se existe jogo no qual o ultraprocessamento não é regra, é aquele jogado pelos times femininos. Dá gosto assistir aos passes. E foi a torcida da nossa seleção feminina que mandou um ”Ei,Trump, vai tomar no c*” no jogo contra os EUA no dia 6 deste mês. Ela sabe quem é o real inimigo.
Botar o campo em campo
O controle do futebol masculino (sobretudo o jogado nos torneios mais conceituados do globo) pela elite tecnocrata, no intuito de atender seus interesses econômicos e ideológicos, vem extraindo a espontaneidade do esporte e tentando sufocar seu potencial disruptivo. Moldar jogos e jogadores para servirem ao mercado e às estruturas de poder é como processá-los até tirar o sabor, o aroma, a textura e a sustança que tanto encantaram e nutriram as torcidas mundo afora.
Nesse entrelaçamento com as BETs, a estrutura atual do esporte ganha um componente ainda mais problemático, tão viciante como um pacote de salgadinhos industrializados. Forma-se um ambiente adoecedor, em que a trama física e psicoemocional da saúde é atingida. Jogos esportivos, algo que deveria ser um estímulo a uma vida saudável — praticar exercícios físicos, celebrando as habilidades individuais e coletivas desenvolvidas pelas pessoas nessas atividades — acaba se tornando lesivo. Sim, lesivo como os alimentos ultraprocessados fabricados por muitas das empresas patrocinadoras dos times e campeonatos.
A população está tendo que engolir um futebol artificializado como os produtos alimentícios que enchem as propagandas, as barrigas das pessoas e os bolsos das Big Foods. Os sabores regionais (tanto as gingas típicas de cada povo no esporte como os pratos tradicionais que dão vida às suas festividades) são triturados até virar uma massa controlável capaz de maximizar os lucros de um pingo de bilionários. A homogeneidade (muitas vezes disfarçada por falsas peças publicitárias, como no caso da Nike), sempre subordinada a uma estrutura financeira vampiresca, é o oposto da criatividade indomável das culturas populares.
Mas a história do futebol ainda nos encanta com exemplos de resistência e ruptura de supremacismos. A seleção da Argélia, formada antes mesmo da independência do país, peitou o governo colonizador francês na Copa de 1958, em plena guerra pela libertação. Aqui no Brasil, não há como não mencionar meu amado Corinthians. O time de Sócrates foi capaz de estabelecer uma gestão democrática em plena ditadura, fonte de inspiração para o discurso de Zohran Mamdani, atual prefeito de Nova York, onde a seleção brasileira joga neste campeonato. E dá gosto acompanhar as garotas do MST chutando para o gol, trilhando o caminho de Marta, Formiga, Sissi e cia.
O movimento também acaba de realizar o Seminário Estadual “Futebol de Mulheres entre Copas: Passado, Presente, Reparação e Legados”. Na pauta do dia, fazer do esporte uma ferramenta de luta. Portanto, vamos nos aquecendo para a Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2027, que será realizada no Brasil e deve fazer nossos estádios vibrarem como nunca.
Queremos jogadas saborosas de verdade em campo e não simulações moldadas pelos marqueteiros de plantão. Queremos comes e bebes saborosos de verdade em nossas mesas festivas, seja em celebrações típicas como os arraiás ou nos encontros para torcer por nossos times do coração. Queremos o campo em campo!
Que a arte apaixonante de conduzir uma bola com os pés possa retomar sua liberdade criativa e sua capacidade de encantar, sem subserviência, racismo nem misoginia. Que os alimentos biodiversos cultivados pelos povos tradicionais e campesinos abram espaço para voltar ao jogo e encher de aroma, saúde e pulsão vital as nossas vidas. Que possamos dar um basta nessa vasta coleção de gols-contra que tem nos impedido de celebrar, junto a todos os povos de nossa Pachamama, o que existe de bom em sermos seres humanos!
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