‘Não vejo a hora de chegar em casa’. Esse comentário, comum no dia a dia, indica que o lar é um espaço de refúgio, pelo menos para a maioria das pessoas. No entanto, para os moradores da Vila Dique essa afirmação corriqueira pode despertar uma sensação de insegurança e de vulnerabilidade.
É que a comunidade vive uma despedida coletiva forçada. A vila, que está localizada no entorno do Aeroporto Salgado Filho, entre a avenida Severo Dullius e a Freeway, fica em um dos equipamentos do sistema de proteção contra as cheias que não resistiu durante as enchentes de 2024.
A comunidade já chegou a ter mais de 1.500 famílias cadastradas, mas, quando a enchente chegou, restavam quinhentas. Aqueles que tentavam se manter onde se estabeleceu essa vila, há mais de cinco décadas, tiveram então de abandonar as próprias casas para sobreviver.
E o recomeço é também a preparação para o fim. A gestão municipal começou a remoção do Trecho 1 em 3 de agosto, para realizar as obras de proteção contra possíveis novas cheias. O início desse processo de remoção, para a comunidade, simboliza a quebra de uma resistência.

Pelo menos desde os anos 2000 os moradores da Vila Dique lutam contra a gentrificação, um processo em que os moradores de uma região precisam resistir à pressão econômica para permanecer, em meio a dificuldades que só aumentam, à medida que o espaço vai se valorizando no mercado imobiliário.
As tentativas de permanecer no endereço passam por inúmeras movimentações, no âmbito político e judicial. Os moradores recorreram à Defensoria Pública e à Justiça Federal, com a reivindicação de uso social do espaço. A situação da Vila Dique é considerada irregular porque a presença dos moradores no local é resultado de um processo de ocupação.

Como em qualquer bairro, as moradias começaram a ser dispostas de acordo com a possibilidade financeira dos moradores. Muitos deles vindo do interior do estado, traziam hábitos rurais, como a criação de galos, galinhas e outras aves.
Mas diferente de outras regiões mais urbanas da Capital, na Vila Dique o campo ainda permanece, na simplicidade e também na gentileza com que os moradores oferecem um assento para que pessoas de fora da comunidade tenham tempo de ouvir e conhecer as histórias que habitam por ali.
A pressão que cerca a comunidade engendra um olhar receoso às instituições governamentais e à própria imprensa. É por isso que, para tratar da remoção, o contato é, inicialmente, intermediado pela associação de moradores e a organização Emancipa Comunidades, que presta consultoria técnica e jurídica a eles.
Os primeiros movimentos de remoção coletiva dos moradores da Vila Dique aconteceram em função das obras de ampliação do Aeroporto Salgado Filho e preparação da Capital para a Copa do Mundo de 2014, entre 2009 e 2010, quando uma parte dos moradores aceitou migrar para loteamentos habitacionais como o conjunto Porto Novo.
Localizado na avenida Bernardino Silveira Amorim, o complexo habitacional foi construído com recursos do programa Minha Casa Minha Vida. Esse período marca a demolição de diversos aparelhos que caracterizavam a luta pela permanência, como o posto de saúde, a escola de educação infantil e uma padaria comunitária.
A adaptação, entretanto, não funcionou para todos, e alguns moradores sofreram situações de violência causadas pela disputa do tráfico na região, e retornaram para a Vila Dique. Eles se somaram aos que não aceitaram deixar o endereço na ocasião e, juntos, refundaram espaços de convivência coletiva, como o Minha Casa, onde organizam ações de assistência e apoio mútuo.
A reconstrução motivada pelo desejo de permanecer na Vila Dique sofreu um grande abalo com as cheias de 2024, quando o dique não conseguiu segurar a vazão do Arroio da Areia, que desemboca no Rio Gravataí. Após as enchentes, a Prefeitura reforçou, junto com o governo federal, a demanda pela desocupação da área, para a realização de obras no entorno do aeroporto.

Diante da extensão das perdas, muitos se convenceram de que a localidade não ofereceria segurança em caso de um novo episódio de evento climático extremo. Outros tentaram, aos poucos, recuperar o lar que agora precisam deixar.
“É tão desumano, porque são pessoas que estão aqui uma vida inteira. Nos acusam de não pagar nenhum serviço e imposto. Faz anos que a gente luta para ter dignidade e sair da marginalização em que eles nos puseram”, reclama a moradora Eliane dos Santos, que herdou do pai a casa que possui na Vila Dique.
“Muitos acham que a gente não existe, tem mais de 500 famílias aqui e eles não vem regularizar a luz ou a água. Eles não nos ajudam em nada para que a gente possa pagar os nossos deveres com os impostos para que a gente possa ter assegurado os nossos direitos. É isso que nos incomoda”, acrescenta Eliane que é moradora do Trecho 2 e também proprietária do Café do Dique.
No ano passado, a associação convocou uma assembleia em que 86% dos moradores aceitaram aderir ao Minha Casa Minha Vida: Reconstrução, na modalidade Compra Assistida. A opção criada pelo governo federal em função da situação de vulnerabilidade de comunidades afetadas pelas enchentes no RS, oferecia, como indenização, uma habitação no valor de R$ 200 mil por família.
A arquiteta Cláudia Favaro, acompanha as ações protagonizadas pelos moradores para adquirir direitos e serviços negligenciados por habitarem uma área considerada irregular. Uma dessas reivindicações é por saneamento.

A moradora Eliane lembra que houve diversas mobilizações pela regularização das unidades. “Eu já fui processada por descarte de esgoto, só que não tem saneamento. Eles não querem fazer isso, porque a vida inteira quiseram nos tirar daqui. Então, sempre foi a Prefeitura impedindo que a gente regularizasse para que pudessem nos retirar daqui”, critica.
Cláudia Favaro destaca que eles carregam o trauma ligado à forma como, em geral, as demolições são apresentadas, com falta de informações e constrangimento imposto por diversos governos.
“Todas as remoções foram muito violentas”, destaca Cláudia, salientando que a estigmatização criada pela condução das gestões incentiva a resistência aos projetos de solução habitacional antes mesmo de eles serem apresentados à comunidade. Por outro lado, ela acredita que falta diálogo com os mais afetados. “Não foram remoções violentas no sentido de polícia, arma, de bater, mas violência no sentido de não saber quem iria sair, quando e como seria a mudança. É uma violência psicológica”, detalha Claudia.

Enquanto estão se preparando para a saída definitiva, os moradores da Vila Dique se organizam para manter a normalidade da rotina para aqueles que ficam. Entre as metas de continuidade até a remoção da última casa está a de impedir a suspensão de serviços essenciais para aqueles que ficam.
A comunidade é dividida em trechos, o que possibilita que a remoção aconteça em etapas, mas eles têm se organizado para que nenhum grupo fique desassistido nesse processo. Às vésperas da remoção no Trecho 1, eles ficaram sem luz, o que gerou apreensão sobre o risco de que os últimos a sair habitem uma “cidade fantasma”.
Com a oferta do “Compra Assistida”, a mobilização que era coletiva se tornou individual. Eles tiveram de se encarregar do processo de encontrar um corretor, para visitar imóveis e adequar as expectativas de vida em uma nova região. Apesar de muitos terem encontrado um destino, mais de cem ficaram em um limbo.
A Associação dos Moradores da Vila Dique alega que muitos moradores que viviam de aluguel não foram orientados sobre seus direitos de receberem indenização, mesmo sendo locatários. Há, também, menores de idade que viviam em moradias compartilhadas e que completaram 18 anos após as enchentes. E apenados que estavam privados de liberdade na ocasião das enchentes.
As reclamações também estão vinculadas ao recenseamento do Departamento Municipal de Habitação (Demhab), que teria sido feito por drone e sem levar em consideração as casas geminadas e os puxadinhos, acomodações que recebem diversas famílias em um mesmo espaço. A Associação defende que a gestão priorize os levantamentos organizados coletivamente.
Outras exceções foram criadas por moradores que se divorciaram nesse período e que foram, pela verificação na documentação dos filhos em comum, agrupados na mesma moradia.
Só no Trecho 1, onde já houve a demolição, 15 foram realocadas para casas desocupadas na comunidade, cedidas por moradores que já conseguiram habitação. E duas famílias tiveram de ser deslocadas para a Estadia Solidária, um programa em que recebem, por um ano, o valor de R$ 1 mil mensais para habitação.
A mudança provisória dentro da própria comunidade é vista como uma estratégia para manter a mobilização, que segue também pela via judicial. É desse desdobramento da luta da comunidade que veio uma das vitórias do grupo, quando a Justiça Federal acolheu, em dezembro de 2025, pedido para que as moradias não fossem demolidas até que todos os moradores tenham para onde ir.
A ação foi ajuizada pela Defensoria Pública da União, que acompanha o caso de 73 famílias que não conseguiram ser acolhidas pelo programa Compra Assistida. A ação reconhece o direito de todas as famílias da Vila Dique, mesmo as que foram contempladas em programas habitacionais anteriormente.
Além daquelas que são remanescentes de outras remoções, há famílias que têm encontrado dificuldade em localizar imóveis e aderir à burocracia do programa ou de enquadrar-se nas regras estipuladas para ter acesso à nova moradia.

O defensor público federal Gabriel Saad, da Defensoria Pública da União, relata que um dos principais problemas apontados pelos 70 moradores que não conseguiram acessar o programa é a lentidão nos processos. “Há relatos recentes de dificuldades colocadas pela Caixa Econômica Federal, uma lentidão nos processos”, afirma, acrescentando que a Defensoria “tem atuado no sentido de que elas não sejam deslocadas e desocupadas das suas residências enquanto não for garantida a solução habitacional”.
A reportagem do Sul21 esteve na comunidade para acompanhar a situação dos moradores que devem sair nas próximas etapas das obras e ouviu as principais demandas daqueles que ainda estão com a situação indefinida, seja por questões burocráticas seja pela dificuldade de se enquadrar nas regras dos programas de compra de novas residências.
Outro problema vem da incerteza, causada, conforme os moradores, pela falta de definição da Prefeitura com relação às próximas etapas de demolição. “A gente não tem ideia do que vai acontecer e vive sob pressão. E ainda temos de ajudar uns aos outros”, reflete a moradora Eliane dos Santos. A reportagem do Sul21 entrou em contato com a Prefeitura de Porto Alegre, solicitando o cronograma de obras, mas, até a publicação desta matéria, não obteve resposta.

A remoção desse ano começou pela área que a comunidade considera mais vulnerável, o trecho 1. A reportagem visitou esse trecho e os outros três, que compõem a Vila Dique. No Trecho 1, é possível identificar que o trabalho de demolição iniciado pela Prefeitura acumulou despejos de casas, com restos, sobretudo, de madeira e de outros objetos esquecidos ou abandonados no espaço.
A falta de serviços como os de limpeza nas margens do Arroio é justificada pela transitoriedade da situação dos moradores. Mas eles destacam que as dificuldades já existiam antes das enchentes. No entanto, a aparência de desamparo, ocasionada pela falta de recursos e de serviços, contrasta com a dedicação da comunidade de fazer do espaço um lar.
A Vila Dique hoje não lida apenas com a mudança, mas também com o peso do estigma causado por uma pressão que vem de diversas esferas de governo. Ao longo das entrevistas realizadas pela reportagem, os moradores repetiram, inúmeras vezes, que não tinham intenção de atrapalhar as obras e que sabiam que muitas pessoas, desde as enchentes, veem a extinção da comunidade como necessária.
“A comunidade não está querendo impedir a obra, apenas quer garantir que todos tenham os mesmos direitos”, diz a presidente da Associação dos Moradores da Vila Dique, Sandra Mara de Oliveira Czerwinsky. Ela vive com cinco dos 11 filhos, todos em idade escolar. Uma das preocupações é garantir a adaptação das crianças ao colégio no novo bairro, depois de abandonar a EMEF Migrantes, que oferece turno integral, um diferencial para as mães e os pais que trabalham.

O semblante triste e as lágrimas que despontam nos olhos de alguns moradores durante as entrevistas sinalizam que a mudança definitiva que se avizinha será traumática para eles. Mesmo onde alguns veriam apenas um amontado de madeira demolida e lixo, eles lembram de cada detalhe de uma moradia que já foi lar para alguém e um ponto familiar para o coração de uma comunidade.
A placa do Café do Dique indica que ele funciona desde 2017: é padaria, vende refeições completas e é um ponto de encontro para quem vive e passa pela avenida Dique. Eliane, a dona, herdou do pai o ponto no Trecho 2, onde ele começou a criar clientela em 1998. “Sem meu comércio, não sou ninguém”, enfatiza Eliane, com lágrimas nos olhos.

Os galpões de reciclagem, ferros-velhos, bares, mercados, serralherias e igrejas que despontam no caminho de chão batido da Vila Dique, assim como os moradores, também vão precisar deixar a área.
Mas ainda não há uma solução proposta pelos governos para esse grupo de empreendedores. Os negócios locais são estimados entre 14 e 16 pela associação, que encaminhou ao Demhab um levantamento e pediu manifestação sobre esses casos.
Eles são fonte de renda e também espaços de convivência, que, como enfatiza Eliane, caracterizam seus donos. Para atender a reportagem na manhã de quarta-feira (5), Miguel abriu seu negócio atrasado. Já havia clientes esperando por ele quando ele descerrou os portões da mercearia.
Enquanto respondia a entrevista e posava para fotos, ele atendeu uma cliente, que solicitou R$ 15 em carne, enquanto uma criança, que ela observava mais distante, brincava com um gato que desfilava na entrada. Conhecido por ser um açougue, o estabelecimento tinha fixado na parede de madeira um cartaz, comum em espaços do gênero, avisando que ali não se vende fiado.

Questionado se pensa onde poderia estabelecer seu negócio diante da mudança iminente, ele considera difícil fazer essa reflexão sem qualquer indicativo de como irá se manter sem o mercado que possui hoje.
“Se não resolverem a questão dos comércios, não vamos arredar pé”, avisa Miguel, no único momento da entrevista em que fecha o rosto, demonstrando incômodo com a indefinição.
Na área externa do imóvel, ele guarda, ainda, os freezers que foram danificados durante as cheias de 2024, quando ele foi fortemente atingido. Ficou dormindo por 15 dias no carro, para monitorar as águas no espaço e também ajudar outros moradores. Como muitos porto-alegrenses, teve de reconstruir o negócio.
É o mesmo caso de Fernando Silva de Oliveira, que comando o Bar do Chico no Trecho 4. Também teve de lidar com as cheias e reconstruir um negócio que serve a comunidade cotidianamente. A Defensoria Pública da União reforça que acompanha apenas casos de moradia, mas salienta que os moradores devem continuar buscando soluções para impasses decorrentes da remoção.

No meio da realização das entrevistas para essa reportagem, observamos de longe, por uma janela de vidro, um jacaré despontar na outra margem do Rio Gravataí. Os moradores encaram a situação com intimidade e comentam, pelo tamanho, que deve ser um filhote, buscando alimento.
A Vila Dique emula modos de vida rurais, do interior, com hábitos trazidos pelos moradores que vêm de fora da Capital em busca de oportunidade. Uma das características dessa zona rural dentro da cidade é o cultivo de animais, que aparecem nos quintais da maioria das residências.

Talvez por isso sejam recorrentes os relatos das dificuldades dos moradores de fazer o orçamento da Compra Assistida caber no sonho de uma casa com quintal. Elizete Rambo dos Santos, tem 45 anos, e diz que tentou, sem sucesso, comprar um sítio para acomodar com mais conforto todos os animais que possui.
“Aqui temos a cultura de ter muitos animais”, comenta Elizete, que lembra de um vizinho que tinha 32 bichos, entre porcos, pavões, cachorros e gatos. Ela também menciona que muitos moradores utilizam a proximidade com a Ceasa para obter alimentos para os bichos.
Em uma passagem pela área demolida, é possível encontrar, ainda, muitos cães deitados, escondidos entre os escombros. A Associação diz que se tratam de bichos abandonados antes de chegarem à Vila Dique, que foram acolhidos na comunidade durante as enchentes sem necessariamente ganharem um tutor. Por isso, mesmo com a demolição, permaneceriam no local.
O Gabinete da Causa Animal esteve na região após a demolição e levou parte dos animais sem tutor. A ideia da Associação é criar uma campanha para incentivar a população a adotar esse outro grupo de moradores da Vila Dique.
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