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A Ordem Internacional em ruínas e o desafio do Sul Global 

Após a recente Cúpula da Otan e a escalada da guerra contra o Irã, antes mesmo de concluídas as cerimônias de sepultamento do aiatolá Ali Khamenei, líder político e espiritual morto pelo “consórcio da morte”, constato com angústia que o mundo acompanha os acontecimentos da geopolítica em grande medida paralisado, sem compreender plenamente o nível de desgaste da ordem internacional construída após 1945. É justamente aí que reside o perigo. 

O que durante décadas foi apresentado como um sistema baseado em regras universais revela-se hoje como uma arquitetura em decomposição, incapaz de regular conflitos ou garantir qualquer nível de previsibilidade. E, é bom que fique claro, que não se trata apenas de uma crise conjuntural, mas de uma transformação estrutural profunda, um verdadeiro interregno histórico. 

As instituições que representavam esse sistema, a ONU, como principal referência do regramento internacional, a OMC e outras organizações, continuam formalmente em funcionamento, mas perderam grande parte de sua eficácia, na verdade foram esvaziadas. Em muitos casos, passaram a operar como instrumentos seletivos de poder. Quando as regras deixam de atender aos interesses das grandes potências, são ignoradas ou bloqueadas. A paralisação do sistema de resolução de disputas da OMC, resultado de uma decisão unilateral dos Estados Unidos, ilustra bem esse processo. 

E mais grave ainda é a constatação de que a chamada “ordem baseada em regras” nunca foi, de fato, universal. Sua aplicação sempre refletiu as assimetrias de poder. Princípios como soberania e autodeterminação foram usados ou deixados de lado conforme os interesses geopolíticos do momento. Essa seletividade enfraqueceu a legitimidade do sistema e contribuiu para a desordem atual. 

Estamos, portanto, diante de uma transição marcada não pelo surgimento de um novo equilíbrio, mas por uma fase de pressão permanente. A interdependência econômica, antes vista como garantia de paz, passou a ser usada como arma. O controle dos fluxos financeiros, das cadeias produtivas e dos sistemas tecnológicos tornou-se um instrumento central de pressão geopolítica. Sanções econômicas, bloqueios e confisco de ativos passaram a fazer parte do repertório comum das disputas internacionais. O Trump 2.0 é a expressão mais completa dessa realidade. 

Esse processo gera um efeito decisivo: acelera a busca por alternativas ao sistema dominado pelo Ocidente, sobretudo ao dólar. A desdolarização, embora gradual, deixa de ser apenas um projeto “ideológico” e se torna uma necessidade estratégica para muitos países interessados em proteger sua soberania. 

Nesse contexto, a aproximação entre China e Rússia assume papel central. Mais do que uma aliança circunstancial, trata-se de uma convergência estratégica em torno da construção de um mundo multipolar, uma “comunidade de futuro compartilhado para a humanidade”. A ideia de que nenhuma potência deve monopolizar as regras do sistema internacional deixa de ser retórica e passa a orientar políticas concretas.  

Do lado do chamado Ocidente Coletivo, especialmente no império estadunidense, nota-se um movimento de retração seletiva e redefinição de prioridades. A tentativa de reforçar o controle sobre o hemisfério ocidental (como indica a nova doutrina de segurança nacional dos EUA) e de conter a ascensão chinesa no Indo-Pacífico, na América Latina e no Caribe revela uma mudança de foco, marcada por tensões crescentes. 

Para o Sul Global, esse cenário abre oportunidades e riscos. O Brics emerge como uma plataforma promissora de articulação, mas ainda limitada. Sua capacidade de oferecer alternativas concretas, como sistemas financeiros independentes ou mecanismos eficazes de resolução de disputas, permanece em construção. Ainda assim, representa um dos poucos espaços onde se busca uma lógica de cooperação baseada em desenvolvimento compartilhado, e não em alinhamento militar. 

Brasil, nesse quadro, enfrenta um desafio estratégico decisivo. Não basta navegar passivamente entre blocos e/ou país. É necessário reconstruir um projeto nacional que combine soberania, reindustrialização e inserção ativa nas novas redes de cooperação internacional. A transferência de tecnologia, a integração produtiva e a valorização de recursos estratégicos serão elementos-chave para essa trajetória. A direção nacional do PCdoB, partido ao qual sou filiado, lançou o documento “Rumos Soberanos para uma Nova Arrancada do Desenvolvimento” apresentando uma série de ideias nesse sentido. 

Por fim, é preciso reconhecer que a disputa em torno dessa transição é também uma batalha de informações e narrativas, travada em escala global. A polarização crescente, alimentada por máquinas de desinformação que reduzem o mundo a um duelo infantil entre “bem” e “mal”, empobrece o debate público e bloqueia a construção de saídas políticas sustentáveis.  

Quando forçamos a barra, substituímos a análise concreta da correlação de forças e dos interesses em jogo por slogans morais vazios e, ao mesmo tempo, o controle privado da esfera comunicacional restringe o acesso a dados, censura vozes dissidentes e dificulta que a sociedade compreenda a complexidade real do tabuleiro geopolítico. 

O que vemos não é só a troca de uma hegemonia por outra, mas a tentativa de reescrever as regras do sistema internacional em plena turbulência. Num mundo em que normas perdem peso e o poder material volta ao centro, quem conseguir articular alguma autonomia estratégica, base produtiva sólida e uma diplomacia inteligente terá mais chance de atravessar esse período sem se submeter passivamente à vontade dos mais fortes. 

O interregno está em curso. A questão, agora, é saber quem terá projeto, capacidade e visão estratégica para influenciar o que virá depois. A conferir. 

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