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Agrarismo e industrialismo: cem anos de um dilema que persiste

Nos idos de 1926, Octávio Brandão, dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCB, nomenclatura usada pelo partido à época de sua fundação em março de 1922), lançou o livro Agrarismo e Industrialismo. Mais do que apontar a luta existente entre os dois setores econômicos, dois modos de produção que perpassaram e ainda perpassam a busca dos brasileiros pelo desenvolvimento econômico, mostra a ainda absurda subalternização de grande parte das elites do país aos ditames internacionais. O livro que completa cem anos da primeira publicação e descontando alguns erros factuais e de interpretação histórico-dialética, compõe parte importante da historiografia da esquerda brasileira e de sua evolução/involução no tempo decorrido. 

Mais do que exaltar a obra em si, cabe a nós, membros da chamada esquerda socialista brasileira, rememorar o patrimônio do pensamento de caráter marxista que duramente combatido, amesquinhado e incompreendido pela intelectualidade academicista e escolástica, sobrevive e diferentemente de aporias dogmáticas, em permanente evolução teórica. 

Voltando à obra de Octávio Brandão, que nascido em 1896 completaria, em 2026, 130 anos, prova que na jovialidade de seus trinta anos observava a luta que se travava entre o atraso e o progresso; entre a transformação do Brasil em um mero exportador de gêneros alimentícios ( o celeiro do mundo), ou a construção de um polo industrial que colado ao que de mais moderno existia no mundo em transformação (a industrialização) colocasse o nosso país ombreado com as nações mais desenvolvidas: a Europa e os Estados Unidos de então. 

Acertando no principal: as raízes do dilema, talvez pela ausência das principais obras de Hegel, Marx e Engels, Brandão opta por uma solução rasa da interpretação da dialética e pela sistematização da tríade tese, antítese e síntese levando-o a interpretar a insurreição paulista de 1924, liderada pelo general Isidoro Dias Lopes, não como uma quartelada – que virou moda nas Forças Armadas brasileiras, e sim como o início da chamada Revolução Democrático-Burguesa.  

Visto pela ótica mais aprofundada do período, a dita Revolução Burguesa se daria a partir da assunção de Getúlio Vargas, em 1930. Seis anos depois da publicação da obra e com a derrocada da República Velha, após as insurreições de 1924, em São Paulo, os Dezoito do Forte, no Rio de Janeiro, e a Coluna Prestes que percorreu 25 mil quilômetros Brasil afora. A combinação do surgimento do Movimento Tenentista no Exército brasileiro, com a derrota da Aliança Liberal nas eleições, a morte de João Pessoa (vice de Getúlio na disputa), compuseram o caldo de cultura que culminou na Revolução. 

Foi na esteira do Movimento de 1930 que o “racha” entre frações do establishment da ocasião permitiu com que Vargas iniciasse o processo de industrialização e de formalização do operariado urbano. Mesmo assim, as mudanças operadas com a instituição da CLT não abrangeram os trabalhadores do campo, dado a tenaz resistência do latifúndio. 

Entretanto, Octávio Brandão busca no texto que serve de posfácio ao livro apresentar o desenvolvimento do capitalismo já em sua fase monopolista como propugnava Vladimir Lenin no livro Imperialismo Fase Superior do Capitalismo, de 1916, onde o revolucionário russo punha em relevo que sendo essa a última fase do desenvolvimento capitalista restava ao fim e ao cabo sua derrocada. Espécie de determinismo fatalista que aos comunistas brasileiros era inevitável. “O imperialismo continua sua obra. As grandes companhias vão se entrelaçando cada vez mais numa rede regional. Cruzam-se, ramificam-se como vasos capilares. Anastomose* do capitalismo. Entorlaçamento* imperialista. Lembram a espiral da voluta ou do caracol. E só o entorlaçamento comunista, ramificando-se em miríades de células e núcleos sindicais, é que poderá fazer o entorlaçamento imperialista.” 

Cabe destacar que o pioneirismo de Octávio Brandão ao lançar a primeira obra de caráter marxista, ousando fazer uso da dialética hegeliana, cuja compreensão é motivo de discórdias acadêmicas até os dias atuais, reveste sua obra de grande contribuição para a história da esquerda brasileira, suas lutas, derrotas e vitórias. 

Há um longo caminho a percorrer no embate entre as forças da vida e da morte. Do individualismo exacerbado e o coletivismo inclusivo. Entre o socialismo democrático ou a destruição do planeta pela exploração desmedida de suas riquezas. Entre a ânsia pelo dinheiro, o fetiche das mercadorias e a miséria persistente. A concentração de rendas e riquezas em detrimento de um mínimo de dignidade às maiorias. Entre a democracia de massas ou o advento da plutocracia dominante. Até que ponto o capitalismo conseguirá mudar sua aparência sem alterar sua essência, ou como resistir ao modo de produção dominante? 

A vaga neo e ultraliberal necessitam da exclusão de grandes contingentes de mão de obra para sobreviver dominando. Será possível abrigar esses contingentes com Estados fracos? 

A história ao longo dos tempos tem demonstrado que não. Não há mal que sempre dure. Um dia a casa cai. A quem restará os escombros?

Alberto Cantalice é diretor de Comunicação da Fundação Perseu Abramo 

*Anastomose: conexão entre duas estruturas tubulares do corpo: vasos sanguíneos, nervos ou intestino 

*Entorlaçamento: efeito de entrelaçar, cruzar, enlaçar.