
A nova edição do podcast Entrelinhas Vermelhas, exibida nesta quinta-feira (25) pelo TV Vermelho, mergulhou nas dimensões políticas, sociais e econômicas do futebol. Comandado pelo jornalista André Cintra, o programa recebeu a historiadora e pesquisadora Aira Bonfim, mestre pela FGV, especialista em práticas esportivas contra-hegemônicas e autora do livro Futebol Feminino no Brasil: Entre Festas, Circos e Subúrbios.
O bate-papo ocorreu em clima de Copa do Mundo, impulsionado pela vitória da Seleção Brasileira sobre a Escócia por 3 a 0, mas rapidamente extrapolou as quatro linhas para discutir o esporte como um fenômeno de massas que reflete as contradições e potências da sociedade.
Assista a íntegra da entrevista:
A Fifa, o mercado e o veneno das ‘bets’
Durante a entrevista, Aira Bonfim destacou a necessidade de enxergar o futebol para além do mero entretenimento e do consumo. A pesquisadora fez um alerta contundente sobre a influência das casas de apostas online (“bets”) no esporte, defendendo que é urgente a reinvenção do futebol para que ele possa sobreviver e existir sem a dependência da lógica das apostas.
Um dos pontos altos da entrevista foi a desconstrução da imagem da Fifa como uma entidade democrática. Para a pesquisadora, a entidade opera como uma empresa de mercado que busca o lucro máximo, utilizando a Copa de 2026, nos Estados Unidos, como um laboratório para espetacularização e precarização do acesso dos torcedores, com ingressos dinâmicos e especulativos.
Aira também teceu duras críticas ao avanço das casas de apostas (bets) no esporte. Ela classificou o fenômeno como um “envenenamento” do sistema esportivo que atinge desproporcionalmente a população mais pobre e vulnerável, estimulando o vício e alterando a lógica do jogo, inclusive com pausas para hidratação que servem, na prática, para movimentar o mercado de apostas. “Não existe mais um futebol sem a presença dessas bets”, lamentou, cobrando regulamentação governamental urgente.
Para a historiadora, a sociedade precisa se envolver com o esporte de outras maneiras, compreendendo-o como um espaço de disputa cultural. Temas como racismo, diversidade e desigualdade se manifestam nos estádios e nas arquibancadas, e a composição heterogênea do futebol brasileiro pode ser um recado ao mundo sobre a necessidade de valorizar a adversidade e a pluralidade.
A raiz histórica das mulheres no campo
Curadora de exposições no Museu do Futebol, como o Contra-Ataque! As Mulheres do Futebol, Aira desconstruiu a ideia de que a presença feminina no esporte é um fenômeno recente. Ela ressaltou que a historicidade das mulheres no futebol brasileiro é vasta, resistente e distribuída por todo o território nacional.
A conversa também mergulhou na história apagada do futebol feminino. Aira destacou a importância de documentários recentes, como Brasil 88 e A Copa de 1971, para resgatar a memória de pioneiras que jogavam à revelia da proibição imposta no Brasil até 1983.
A pesquisadora citou experiências no Rio Grande do Norte, onde as primeiras jogadoras de futebol e de outras modalidades também se tornaram sufragistas, unindo a luta esportiva à luta por direitos políticos. A capa de seu livro, inclusive, estampa a imagem mais antiga conhecida de brasileiras competidoras, simbolizando a resistência feminina em um esporte que historicamente tentou excluí-las.
Olhos voltados para a Copa de 2027
Olhando para o futuro, a historiadora projetou a Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil não apenas como um evento esportivo, mas como um “ponto de transformação revolucionário”. Segundo ela, o legado do torneio deve ser cultural e social, capaz de alterar estruturalmente a relação das mulheres com o lazer e o esporte, garantindo espaços mais seguros e inclusivos.
Aira celebrou as recentes conquistas políticas para a modalidade, fruto de muita luta e negociação, como a aprovação da Lei Geral da Copa Feminina. A legislação garantiu avanços fundamentais para o legado do torneio, como a gratuidade de ingressos para popularizar os estádios e uma premiação de R$ 500 mil para as mulheres pioneiras que abriram caminho para a modalidade no país, homenageadas em recentes produções audiovisuais do Ministério do Esporte.
Ao ser questionada sobre seus desejos para o torneio e para a Seleção, a historiadora foi enfática ao expressar o sonho de ver a primeira estrela bordada na camisa da seleção feminina. “Se tem uma estrela que eu gostaria de costurar na camisa, é dessa seleção brasileira feminina”, afirmou, reforçando a importância do torneio não apenas como evento esportivo, mas como marco de equidade e visibilidade.
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