A Fundação Perseu Abramo e o PT da Bahia promoveram, em Salvador, a aula pública “Vida e Obra de Luiza Bairros”, uma homenagem à trajetória, ao pensamento e ao legado de uma das principais referências do feminismo negro e da luta antirracista no Brasil. A atividade foi realizada em parceria com a Secretaria de Mulheres do PT Bahia, a Secretaria de Combate ao Racismo do PT Bahia e a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais da Bahia.
Realizado no Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia -UFBA, o evento marcou os dez anos da morte da socióloga, pesquisadora, militante e ex-ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.
A abertura teve a participação da diretora da FPA Elen Coutinho, que destacou a importância de retomar a memória e celebrar os motivos da luta antirracista que travamos todos os dias. “Gaúcha de nascimento e baiana de boa parte da vida, Luíza formou-se em administração pela Federal do Rio Grande do Sul, foi mestra em Ciências Sociais pela UFBA, com doutorado em Sociologia pela Universidade de Michigan (EUA). Foi uma importante intelectual e militante do movimento negro, referência do feminismo negro, com uma trajetória que reúne militância, produção do conhecimento, atuação na gestão pública, muito firme na disputa política, deixando um legado fundamental para a promoção da igualdade racial no nosso país”, afirmou.
Assista a homenagem Vida e Obra de Luíza Bairros
Participaram a socióloga, professora, feminista e defensora dos direitos humanos Vilma Reis; a pesquisadora, escritora e especialista em políticas de promoção da igualdade racial Vanda Sá Barreto; a professora de História da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autora da exposição “Luiza Bairros: lentes e voz”, Martha Rosa Queiroz; o secretário de Justiça e Direitos Humanos do Estado da Bahia, Felipe Freitas; a professora do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante da Rede de Mulheres Negras para Soberania e Segurança Alimentar Fernanda Bairros; e a secretária-adjunta de Mulheres do PT da Bahia Adele Alcântara, que mediou o evento.
O presidente do PT Bahia, Tássio Brito, fez uma saudação na qual lembrou que a luta de Luíza transcende sua época. “Apesar de não ser baiana de nascimento, ela escolheu viver aqui e foi onde produziu boa parte dos seus conteúdos, tornou-se uma figura política relevante para esse estado e como ministra da Igualdade Racial. Portanto, esse acúmulo da luta dela e do povo baiano é motivo de muito orgulho e alegria”, disse.
Produção intelectual relacionada com a realidade das mulheres negras
A sobrinha da homenageada, Fernanda Bairros, destacou que produção intelectual de Luíza Bairros dialoga com o cotidiano e a realidade das pessoas negras, particularmente as mulheres. “É uma obra que vem da realidade e, com o passar dos anos, se concretizou em políticas públicas. Eu celebro essa trajetória de apenas 63 anos, que foi de um território de colônia africana de Porto Alegre, hoje o bairro do Rio Branco, para o Governo Federal. Que foi da universidade para o movimento negro. É uma marca que se transformou em políticas públicas e foi essencial para a agenda de igualdade racial no Brasil”, pontuou
Para Vanda Sá Barreto, Luíza sempre teve estratégia e soube não é possível fazer a construção da política sem capacidade articulação institucional. “Ela se articulou muito com os órgãos da Nações Unidas e começou a ser chamada, apesar de viver no Nordeste. Ela dizia que não existe a menor possibilidade de fazer lutas antirracistas em qualquer lugar do mundo sem pensar que o racismo é motor da exploração de sociedades capitalistas.”
Vilma Reis lembrou que, no início dos anos 2000, foi necessário enfrentar o horror da direita operando dentro da UnB. “Nós (negros e negras) éramos 4% das universidades brasileiras. Com o trabalho que Luía Bairros fez e a luta dos movimentos negros, nós hoje somos 48%. Essa vitória nossa tem nome e sobrenome. Portanto, nós propagamos o pensamento dessas mulheres, carregamos nossas sacolas de livros. Luíza é uma dessas mestras que nos puxou para entrar pela porta da frente. Durante seus os anos em Brasília, duas vitórias foram decisivas em nossas vidas: a lei de cotas nas universidades públicas e a lei de cotas no serviço público”, destacou.
Trajetória política a ser celebrada e reconhecida
O secretário de Justiça e Direitos Humanos do Estado da Bahia, Felipe Freitas, pontuou que o trabalho de Luíza Bairros o levou a pensar sobre o que significa a presença de um intelectual militante no espaço institucional e sobre como é possível lidar com as críticas do campo progressista para quem se coloca na condição de gestor público. “Esse é um aspecto da trajetória de Luíza que merece a nossa dedicada atenção por várias razões. Para que não incorramos na crueldade com que parte da luta política do nosso campo incorreu no trato com Luíza, no período em que ela ocupou cargos institucionais. E também para que nós nos alimentemos da dignidade com a qual ela reagiu a esses ataques.”
“Penso que somos muito pródigos em refletir sobre a passagem de Paulo Freire na Secretaria (municipal) de Educação de São Paulo, a passagem de Marilena Chauí na Secretaria (municipal) de Cultura, Hermínia Maricato e Raquel Rolnik quando estiveram em gestões públicas. A mais recente passagem de (Fernando) Haddad na Prefeitura de São Paulo gerou um artigo excelente dele na revista Piauí, mas nós não fazemos esse mesmo exercício com relação a pessoas negras, em geral, e a mulheres negras em modo particular”, afirmou.
A professora Martha Rosa Queiroz descreveu Luíza Bairros como estudante atenciosa, militante da escola democrática desde a universidade e uma professora comprometida. “Luíza tinha aula sexta-feira, aí ela tinha um evento em Brasília ou em qualquer outro canto. Na quinta ela voltava na para dar aula na sexta. Uma militante totalmente comprometida com a causa negra, uma gestora de políticas públicas com atuação em órgãos nacionais e uma intelectual que não se furtou em se implicar com todas as questões que lhe chegavam. Registrar a memória dessa gigante não é tarefa fácil, mas felizmente já foi dada a largada e muitos passos foram dados. Espero que seus ensinamentos permaneçam e que as estruturas sociais continuem sendo desestruturadas para que outra coisa seja construída no lugar.”