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Aumento da violência física, política e digital: os efeitos da machosfera na vida das mulheres

Fruto de anos de pesquisa, o livro“Machosfera: quando a misoginia vira política” de Bruna Camilo aborda os processos organizativos da chamada “machosfera”, uma espécie de subcultura predominante no ambiente virtual que prega a inferioridade das mulheres. Ao estudar a atuação dos grupos nas redes, a pesquisadora teve como foco compreender como a relação entre os ideais dos coletivos masculinistas com a extrema direita dialoga com a radicalização política e enfraquece a democracia.

De acordo com a obra, a misoginia (ódio às mulheres) não se trata de uma ação individual, mas sim de um elemento estruturante de movimentos que utilizam as plataformas digitais para difundir a desinformação e reforçar identidades, baseadas em um sentimento generalizado de ressentimento dos homens em relação às condições de vida. 

A socióloga e cientista política Bruna Camilo (Arquivo pessoal)

A partir do discurso de culpabilização das mulheres, o ódio ultrapassa o ambiente das redes e é materializado no aumento de casos de violência doméstica, sexual e feminicídios. Confira a entrevista: 

O seu livro recém-lançado é desdobramento de um doutorado na área da sociologia, conta um pouco do processo da pesquisa e quais foram as descobertas que te levaram a aprofundar o tema. 

Meu livro é resultado da minha tese de doutorado que defendi em 2023. Veio a partir de uma inquietação sobre como eu percebia a misoginia muito estruturada na extrema direita. É claro que a misoginia existe em toda a nossa sociedade, em todos os espectros políticos, nos espaços de poder e também em espaços privados. Só que eu percebi que na extrema direita era utilizada como um mecanismo, uma ferramenta para estruturar e para, de fato, movimentar, manejar as mulheres à margem da sociedade de maneira muito violenta. Então, quando eu e a minha orientadora entendemos que o objeto seria a pesquisa dos grupos misóginos dentro do Telegram, e a gente pesquisou também alguns blogs, e foram realizadas três entrevistas com Lola Aronovich, Adriana Dias e Michele Prado para entender como que essas mulheres, que sofriam algum tipo de misoginia, percebiam essa misoginia acontecer, qual era a percepção delas. Então, casando os grupos do Telegram, essas entrevistas e alguns blogs, a gente começou a perceber que existia, de fato, uma um espaço na internet onde se disseminava o ódio às mulheres. Então, naquela época, em 2019, ainda não se falava em “machosfera”. Existia um termo em inglês, o “manosphere”, que começava a ser utilizado. Então, a partir desse momento, a gente entendeu que esses grupos misóginos, os blogs que já estavam descontinuados, mas estavam ali alimentando algum tipo de ressentimento, e o que eu ouvi dessas mulheres entrevistadas constituíram a machosfera. 

A machosfera é esse espaço no ambiente digital, principalmente, onde se permite a construção e a disseminação do ódio contra as mulheres e não é delimitado, é qualquer um desses espaços, seja em um perfil de rede social, plataforma de vídeo ou em um grupo de aplicativos de mensagem. 

Uma das percepções que eu tive foi sobre a tendência política desses homens misóginos dentro do Telegram, por exemplo, e também ouvindo as mulheres entrevistadas. Todos, absolutamente todos eles, enaltecem o Bolsonaro. Apesar de existirem alguns homens com a radicalização da misoginia mais forte, a ponto de não aceitarem mulheres nos espaços de poder, odiarem mulheres declaradamente, muitos deles falavam: ‘é, apesar do Bolsonaro colocar conservadias [termo utilizado nos grupos masculinistas para representar mulheres do campo conservador] no poder, eu ainda voto nele porque ele ainda me representa’. Então, o maior nível de insatisfação que eu vi desses homens com Bolsonaro era porque ele tinha colocado mulheres no poder. Percebi nas pesquisas que, enquanto Bolsonaro era visto como piada em programas de TV, lá em 2010, ele já era percebido como um projeto político para ser presidente dentro da machosfera. Eles já se organizavam em torno disso, então acredito que precisamos prestar atenção em colocar humor excessivo em figuras que reproduzem violência. Esses homens, de alguma maneira, são construídos para estarem no poder para dominar a política institucionalizada. O Bolsonaro traz a institucionalização da misoginia.  

A gente sabe que a violência contra a mulher sempre existiu na sociedade. Qual a sua percepção da incidência da formação desses grupos na materialização da violência física? Como esse conteúdo violento que circula no ambiente da machosfera extrapola o virtual? Por exemplo, no crescimento dos índices de feminicídios.  

Sim, é importante a gente dizer que a misoginia sempre existiu. Inclusive, o nosso país foi explorado baseado na misoginia sofrida por mulheres escravizadas e indígenas. É importante a gente frisar. Só que a misoginia, assim como o capitalismo, vai criando novas roupagens, se adaptando, se apropriando. Ao passo que nós, mulheres feministas, estamos utilizando a internet para formação, para nos conectar com mais mulheres, para fazer denúncias, a misoginia também utiliza a internet nessa disputa de narrativas, disputa de indivíduos, para se fortalecer. Então, por exemplo, um homem comum indo para o trabalho, ele vive numa escala 6 por 1, ele se percebe extremamente explorado e frustrado porque vê nas redes sociais pessoas enriquecendo com bets, com casas de apostas e ele não está enriquecendo daquela forma e muitas vezes, envolvido em endividamento, é casado, passando algum tipo de necessidade. Ele ali frustrado, ressentido e sem entender o que é esse ressentimento, esse ódio que ele está sentindo, e dentro desses grupos de mensagem, nos perfis de rede social, nas plataformas de vídeo, começa a perceber uma justificativa para toda essa vida ruim. E muitos homens que têm canais, que vendem cursos, falam: ‘olha, você precisa enriquecer, sua vida só está assim porque as mulheres te exploram, porque as mulheres te trazem prejuízo, porque as mulheres te colocam nesse lugar. A mulher precisa estar no lugar de cuidado, cuidando de você, cuidando da sua casa e se ela questionar alguma coisa é porque ela está querendo seu lugar’. Então todo esse discurso que esses homens reproduzem alimenta o ressentimento, de alguma forma, desses homens. Não é trivial a gente associar esse aumento da violência contra as mulheres com a disseminação do ódio na internet e isso não afeta apenas os homens adultos. Isso afeta também os meninos. A geração alfa nasce na internet e pesquisas já apontam que meninos de 15 anos acham realmente que mulheres devem ser submissas aos seus maridos. Estamos vendo casos de estupros coletivos planejados por adolescentes. É algo muito grave que está acontecendo. A adolescência é uma fase de socialização, então é comum o menino não saber o que fazer com esses questionamentos que aparecem disponíveis na internet, esse é o momento em que a machosfera absorve esses jovens. Então, é um tipo de violência que está atravessando gerações. Essa é a nossa preocupação. Qual é o lugar da machosfera para radicalizar os meninos e os homens e para a submissão e aumento da violência contra as meninas e mulheres?

Já que estamos falando de uma violência que nasce a partir de conteúdos disseminados nas redes sociais, qual você acredita ser o papel das big techs no fomento desses discursos?

A cada mulher que é agredida, a cada mulher que é morta, nós também morremos um pouco. Então, existe a revolta, só que apenas focar no agressor, não é o suficiente. O punitivismo, se ele fosse suficiente, a gente não estaria precisando de mais leis para tentar coibir a violência. A gente tem que pensar o que acontece para que esses homens agressores se sintam autorizados a agredirem as mulheres e não terem pudor disso. Aí entram as big techs e as discussões da regulação, os debates sobre o ECA Digital, sobre qual é o papel das empresas, as responsabilidades. Acredito que as  big techs precisam ser severamente punidas. Elas permitem a produção desses conteúdos, hospedam e produzem algoritmos que fazem com que esses conteúdos cheguem nas pessoas que elas querem alcançar. Então isso é muito grave. A gente tem o exemplo da China, que tem suas próprias redes sociais, colocam pré-requisitos para determinadas empresas de internet, por exemplo, entrarem no país. E a Meta não está lá, por exemplo. No Brasil, a gente precisa entender o porquê dessas big techs ainda estarem moldando os nossos comportamentos. As redes sociais moldam os nossos comportamentos, as nossas vontades e os nossos desejos. Então, a gente tem que pensar, e já existem projetos de lei voltados para isso, na punição das big techs, suspensão, altas multas, medidas que afetem as empresas. A gente tem visto muitos perfis reproduzindo a violência, incentivando. E aí a big tech, enquanto ela tiver lucrando, enquanto ela tiver produzindo conteúdo e esse lucro chegar a partir desse conteúdo, parece que nada vai acontecer, parece que ela vai continuar fazendo. Além da punição dos agressores, temos que entender de onde vem essa radicalização, entender que as big techs são a raiz disso. Nesse sentido, o tema do letramento digital é muito importante para que seja possível, cada vez mais, identificar a violência e não naturalizar o que está acontecendo. 

E esse ressentimento dos homens canalizado para o ódio às mulheres pode ser considerado um fenômeno global?

Sim, essa apropriação da extrema direita na internet, essa radicalização, é uma questão mundial. A gente vê, por exemplo, nos Estados Unidos, existem grupos misóginos declarados, os groypers, que são grupos de jovens que acreditam que o mal do mundo são as mulheres. Então, Nick Fuentes, que é um grande líder do grupo nos Estados Unidos, já falou, declaradamente em rede aberta de televisão, que o mal do mundo é a mulher. E muita gente aqui no Brasil bebe dessa fonte, entre outros grupos. Com relação a ataques misóginos, podemos citar o que aconteceu com Dilma Rousseff em 2014 e 2016, além do processo eleitoral de 2018 que foi extremamente violento para uma série de candidatas mulheres, com casos se repetindo em 2022 e agora em 26. E não podemos esquecer que as big techs, que produzem os algoritmos, nesse contexto, são ferramentas comandadas por Mark Zuckerberg, Elon Musk, que já declararam apoio ao governo Trump. Portanto, é muito difícil enfrentar uma comunicação hegemônica que já tem lado. 

Falamos da relação entre machosfera e a violência, mas como as mulheres se posicionam dentro disso? Do ponto de vista do ideal conservador, por exemplo, temos as chamadas “tradwifes”, que pregam que a submissão feminina é algo positivo para as mulheres. Como você analisa esse grupo? 

Os movimentos feministas permanecem de pé porque o discurso do ressentimento ocupa muitos espaços. Inclusive, nas redes, temos essas grandes influências que mostram o quão incrível são as suas vidas, né? Como é incrível cuidar da sua família, o quão incrível é ser conservadora, o quão incrível é ser uma mulher bela, recatada e do lar, como se as mulheres do cotidiano, as trabalhadoras também não fossem mulheres que cuidam e que estão, de fato, lutando pelas suas famílias. E por trás de todas essas influenciadoras, das esposas tradicionais, há muito engajamento, muito enriquecimento. Então, elas mostram na frente que elas são conservadoras, que elas são mães de família, que cuidam o dia inteiro dos seus maridos, mas por trás estão enriquecendo baseado no que as mães, as mulheres comuns, no que as trabalhadoras têm consumido. Isso gera também um certo ressentimento, né? A mulher também quer ter uma vida tranquila, a mulher comum também quer ter um um momento com a sua família, também quer ter um momento com os seus filhos. As meninas também querem ter esse espaço de notoriedade, o seu lugar na internet, de serem também influenciadoras. Também é muito difícil para as meninas o cenário que está colocado. E qual é a consequência disso tudo? Elas entraram nessa rede de opressão, de submissão, em uma rede de endividamento. As mulheres estão mais endividadas, elas são o arrimo de família geralmente, são elas que tem que sustentar todo o cuidado da família, são elas que tem que ter mais de um emprego, para além do cuidado que é feito, que também faz parte da economia do nosso país, que é a economia do cuidado. Então, à medida que as mulheres se vêem amarradas nesse emaranhado de influenciadores que querem falar o que é ter uma vida boa, as mulheres se sentem frustradas e aí elas querem estar em uma relação com um homem que seja um sonho de princesa, e isso não existe. A gente percebe que muitas mulheres entram em relacionamentos extremamente abusivos, com homens extremamente violentos para formar uma família, ter uma casa, filhos e tudo aquilo que as influenciadoras pregam.Toda essa lógica de rede social de conto da fantasia tem como consequência mulheres violentadas, mulheres mais submissas, mulheres silenciadas, vítimas de violência doméstica e feminicídios. Então as tradwifes são um verdadeiro perigo, uma armadilha, não existe essa vida perfeita que elas pregam.