Seis meses após assumir o governo da Bolívia, o presidente Rodrigo Paz enfrenta uma escalada de protestos em todo o país. As manifestações ocorrem há três semanas e englobam diversos setores, como mineiros, operários, motoristas, professores e camponeses contrários às políticas neoliberais do governo.
Diretamente de El Alto, segunda maior cidade do país, Felipe Limarino, especialista em Inteligência Territorial, Risco Geoeconômico e análise Espacial, observa que os protestos expressam oposição “à subordinação e ao alinhamento do governo Paz aos Estados Unidos e ao retorno das receitas neoliberais”, incluindo a abertura dos mercados e o retorno do país ao Fundo Monetário Internacional (FMI).
“Porque precisamos de dólares e [o governo], simplesmente, recorre ao FMI para conseguir liquidez. Isso implica menos capacidade de manobra para o Estado boliviano e um alinhamento com o sistema financeiro norte-americano. Porém, existe uma memória histórica anticolonial muito forte, primeiro contra o Império espanhol e agora contra os Estados Unidos”, disse o especialista a Opera Mundi.
Ele aponta que os protestos são uma forma “tradicional de disputa política no país” e que já se alastraram em sete dos nove departamentos da Bolívia, o equivalente a “três quartos da extensão territorial”. Frente à repressão do governo, quatro pessoas morreram e mais de 100 foram presas. “Há uma forte rearticulação dos movimentos sociais, após quase duas décadas de governos socialistas”.
Limarino também comentou a expulsão da embaixadora da Colômbia, após as declarações do presidente colombiano Gustavo Petro de que há uma “insurgência popular” na Bolívia. “Segundo esta lógica, eles também deveriam ter expulsado o embaixador dos Estados Unidos, porque o Departamento de Estado fez uma declaração afirmando que estava ocorrendo um golpe de Estado no país”, afirmou.
“São interpretações que moldam o espaço interno a partir de fora, determinando quem são os amigos e quem são os inimigos. É uma forma de ingerência, mas não o expulsam porque há um alinhamento muito claro com os Estados Unidos. Na Bolívia temos lítio, temos também terras raras. O sinal é muito claro. Isso faz parte da estratégia de segurança deles e tudo está mascarado sob o lema da luta contra o narcotráfico”.
Caráter plural das manifestações
Limarino mencionou a presença de diversos setores nas manifestações e a divisão interna dentro deles. “Há mineiros que são mais nacionalistas e outros que não apoiam os protestos porque estão comprometidos com a exportação de ouro para o exterior, por exemplo”.
Ele também destacou a diferença entre os professores que atuam nas zonas rurais e nas cidades, apontando que a adesão é maior entre os docentes rurais, “muito mais numerosos e, por sua própria condição, estão mais em contato com a realidade nacional”.
Na cidade de El Alto, exemplifica, há diferentes conselhos de bairro, sobretudo nas periferias, que aderiram às mobilizações, apesar da existência de localidades onde os chamados “pobres de direita” não aderiram aos protestos. “Mas estes não são a maioria”.
Ainda segundo Limarino, há a força dos povos indígenas, em particular dos egressos das terras baixas, que protagonizaram uma grande marcha de quase um mês até a sede do governo boliviano para reverter a lei que alterava os limites das pequenas propriedades, favorecendo “os grandes latifundiários que visam converter o uso da terra em monocultura, principalmente da soja”.
“São muitas frentes”, sintetiza o especialista, ao citar as mobilizações dos sindicatos dos cultivadores de coca em Potosí e, também, dos motoristas da província de Chuquisaca. Ele lembra que “durante muito tempo” os motoristas receberam combustível de baixa qualidade, atribuindo o feito à Vitol, gigante global de energia, acusada de vender combustível de baixa qualidade na África. “Fizeram o mesmo aqui, aproveitando-se de um governo vulnerável e sem legitimidade”, aponta.

Felipe Limarino / Arquivo Pessoal
Erros do governo
Membro do Observatório de Política Externa Boliviana (OPEXBOL), Limarino afirmou que o governo Paz vem culpabilizando o ex-presidente Evo Morales pelas manifestações, atribuindo ao líder boliviano a autoria intelectual da revolta em uma tentativa de desestabilização do governo. “É importante enxergar a situação boliviana para além da figura de Evo, que foi ressuscitado por esse governo, que está cometendo um erro atrás do outro”, disse.
Em sua avaliação, a posição de atribuir as manifestações a uma liderança é resultado da forma como age a própria oligarquia. “Esse governo que é oligárquico, que é dos brancos, que é das elites, tende a ver sempre a insurreição, a política popular como produto de um caudilho. E não é assim”.
Limarino mencionou que após as declarações do governo boliviano sobre o conflito, a OPEXBOL emitiu um comunicado expressando a preocupação com a crescente internacionalização do conflito. A entidade observa a aliança de governos direitistas da região, como Argentina, Paraguai, Equador e Chile, além do Estado de Israel e de outros atores internacionais, emitirem pronunciamentos sobre a situação interna boliviana, expressando apoio ao governo do presidente Rodrigo Paz.
“Esse comportamento do governo Paz abre caminhos para pressões, alinhamentos e interpretações externas sobre a situação política nacional”.
Vigilância
Ele também manifestou preocupação com o uso do sistema Palantir e outras formas de vigilância no país. Em 13 de março, o narcotraficante uruguaio Sebastián Marset, líder do Primeiro Cartel Uruguaio (PCU), foi capturado em Santa Cruz, com o apoio dos Estados Unidos.
“Imagino que usando sistemas como o Palantir, porque foi uma operação cirúrgica, ele foi encontrado dormindo na residência em que se encontrava”, relatou. “Isso revela que já existe uma cooperação real no âmbito da segurança, utilizando esses sistemas de vigilância cibernética eletrônicos. Há um alinhamento muito claro e o fato de Paz ter participado dessa reunião do Escudo das Américas é apenas a ponta do iceberg. O que vemos aqui é uma subordinação, um retorno à época em que os Estados Unidos ditavam as regras e estão fazendo isso com cada vez mais força”.
O post ‘Bolivianos estão defendendo país da subserviência do governo aos EUA’, afirma especialista apareceu primeiro em Opera Mundi.