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Certas tradutibilidades incontornáveis: breve comentário sobre o novo livro de Marcos Aurélio da Silva

Por Rita M. Coitinho

A expressão que dá nome a essa breve apresentação da obra recém-lançada por Marcos Aurélio da Silva foi extraída da orelha do livro, escrita por Manoel Fernandes de Sousa Neto. Este chama atenção para o fato de que o trabalho de Silva promove, em um texto denso e relativamente curto, um reencontro com as categorias inovadoras tecidas por Milton Santos, cujas pistas estavam em Sereni mas também, acrescento, em Hegel.

Escrito em prosa refinada, o livro é densamente povoado de autores centrais ao desenvolvimento da teoria social contemporânea, com os quais Silva dialoga e articula com desenvoltura suas reflexões. É a Hegel que Silva recorre para estabelecer a noção de realidade em sentido forte (Silva, 2025, p.48), que não se equivale ao mundo das aparências, mas à operação que orienta os estudos à apreensão do espírito do tempo. Para definir essa realidade em sentido forte, Silva remete-nos também a Losurdo, com quem colaborou de maneira muito próxima ao longo da segunda década deste século: não é outra coisa senão “a realização da liberdade objetiva ou real, consagrada nas ideias de liberdade e igualdade vitoriosos em 1789” (idem, p.49). 

E é sem perder o vínculo com esse, que é o tema central do nosso tempo – a realização plena de todas as liberdades humanas – que Marcos Aurélio da Silva retoma o debate fundante do marxismo: o problema das crises e das transições, sem os quais não se pode compreender as transformações da sociedade humana. Essa retomada do debate central à geografia miltoniana, que localizou nos Estados Nação a unidade de estudo da geografia, definindo-os como “formações socioeconômicas por excelência, forjadas na dialética entre a complexidade das relações exteriores e as necessidades emergentes das sociedades locais” (idem, p.54). 

Uma operação que, como Silva irá nos mostrar ao longo do seu texto, coincide em larga medida com os temas que ocuparam os estudos de Antonio Gramsci, cujo ponto de partida é o mesmo de Santos: o contexto histórico “da passagem do colonialismo ao imperialismo” (idem, p. 54). O denso trabalho de Silva nos conduz a uma leitura de Antonio Gramsci que é essencialmente geográfica, porquanto histórica e espacial, no sentido que essa palavra adquiriu com Milton Santos.Como lemos em Silva, quando o revolucionário italiano tratou do ‘problema complexo das relações das forças internas”, das “relações de forças internacionais” e da “posição geopolítica do país dado” (idem, p. 55), exprimia-se em termos de “relações de hegemonia”. E isso porque, de fato, tal como faria Milton Santos três décadas mais tarde, dedicava-se Gramsci a uma realidade nascida em um contexto periférico, ainda que em solo europeu. 

Dedicado, por décadas, ao estudo do tema das transições e vias de desenvolvimento, Silva articula os temas tratados por Gramsci às formulações a que se dedicou Lênin, interessado no estudo das vias norte-americana e prussiana de desenvolvimento, chegando ao importante debate travado por Brenner, Dobb e Sweezy acerca da passagem do feudalismo ao capitalismo.

O primeiro, ressalta Silva, leva o debate “ao ponto de uma maior diferenciação, superando a chave interpretativa que se fixa apenas nas grandes vias” (idem, p. 64). Essa retomada das discussões travadas no século XX não se dá por acaso. Ela é essencial ao desenvolvimento das investigações que “têm na categoria de formação social uma embocadura para os estudos de desenvolvimento regional ou territorial atravessados pela dinâmica histórica da luta de classes” (idem) e que nos devolve, mais adiante no livro de Silva, às reflexões gramscianas acerca da hegemonia, agora já desvelada como “territorialização do comando político” (idem, p. 95).

Estamos diante, portanto, de um livro que sintetiza os esforços de décadas de dedicação intelectual em busca de se conferir uma “dimensão mais substantiva, teórica mesmo, aos usos que a ciência geográfica faz da categoria Formação Econômica e Social”, tarefa a que Silva se propõe na premissa a esse estudo. Mais do que isso: deparamo-nos aqui com um texto que corajosamente coloca em evidência sua vinculação com “os princípios da transformação emancipatória do mundo humano”, ousando dar àscategorias fundantes do pensamento marxista as traduções (tradutibilidades) necessárias à análise histórico-geográfica concreta, em tempos de banalização dos debates sobre “hegemonia” e “geopolítica”. 

*Texto publicado originalmente no Boletim da IGS-Brasil, edição de junho de 2026.

Livro: Silva, Marcos Aurélio da. Formação social, território, espaço. Uma leitura gramsciana. Florianópolis: Insular, 2025.