
As enchentes que atingiram a Paraíba expõem não apenas a força das chuvas, mas a desigualdade social, a falta de prevenção e o abandono da classe trabalhadora diante de tragédias anunciadas.
Redação Paraíba
SOCIEDADE– Enquanto o calendário marcava o feriado do 1º de Maio, Dia do Trabalhador e da Trabalhadora, a chuva desabava sobre a Paraíba com uma força que o estado não via há mais de trinta anos. Em menos de quarenta e oito horas, vários municípios, do litoral ao agreste, foram engolidos pelas águas, e mais de 2.400 famílias, que já viviam no limite, perderam o pouco que tinham.
Os números da tragédia
Mais de 37.400 pessoas foram afetadas pelas chuvas em várias localidades do estado, segundo boletim do Gabinete de Crise Interinstitucional do governo estadual. Desse total, 2.400 famílias foram desalojadas e 895 desabrigadas, uma distinção que importa pouco para quem dorme em abrigo sem saber quando (e se) vai voltar para casa, mas que os relatórios oficiais fazem questão de manter.
O Corpo de Bombeiros realizou 478 atendimentos e resgatou 349 pessoas diretamente de áreas de risco, mobilizando quase 1.500 militares, com mais de cem embarcações, uma aeronave e cinco drones. O Estado chegando depois do dilúvio, como sempre. O aparato de emergência foi acionado; o aparato de prevenção, onde estava?
Ao final das últimas informações disponíveis, 32 municípios decretaram situação de emergência por causa das enxurradas e da elevação dos rios. Entre eles estão cidades da região metropolitana e dezenas de municípios do interior que raramente aparecem nos jornais de circulação nacional, e que, por isso mesmo, demoram mais a receber ajuda.
A realidade apagada do interior
O número de açudes sangrando praticamente dobrou em cerca de um mês. Até o fim de março, havia 15 açudes vertendo na Paraíba; com apenas quatro dias de maio, esse número chegou a 33 reservatórios. A maior parte está ligada à bacia do Rio Paraíba, o que explica os alagamentos em Santa Rita, Rio Tinto, Conde, Bayeux (cidades onde mora a classe trabalhadora que não pode pagar aluguel em João Pessoa), Ingá (onde uma ponte cedeu e uma casa desabou) e Lagoa Seca (onde barragens se romperam, prejudicando o acesso às zonas rurais).
Em Santa Rita, o Rio Paraíba permaneceu dois metros acima do nível normal e a Prefeitura removeu 75 toneladas de entulho. As aulas foram suspensas. Em Bayeux, que concentra o maior número de atingidos, cerca de 12 mil pessoas, entre 500 e 600 famílias ficaram desalojadas e cerca de 600 desabrigadas. Bayeux é uma cidade pobre às margens de João Pessoa, construída onde a terra é barata porque inunda. Quem mora lá foi empurrado pelo preço do metro quadrado, pela possibilidade de ter onde morar.
Em Guarabira, duas pessoas morreram vítimas de choque elétrico momentos antes de uma corrida de rua em comemoração ao Dia do Trabalhador. Chovia forte, e testemunhas relataram que o caso pode ter sido provocado por um fio energizado em contato com a água. Morreram no Dia do Trabalhador, vítimas da precariedade da infraestrutura elétrica, por aquilo que o sistema reduz a um “acidente”.
A periferia na capital paraibana
A capital não escapou. João Pessoa já havia vivenciado em agosto de 2025 a maior enchente em 40 anos, afetando profundamente a estrutura da cidade e exigindo resgates emergenciais. Menos de um ano depois, a história se repetiu.
A Defesa Civil registrou deslizamentos de barreiras nos bairros São José e Cruz das Armas, além de queda de árvores no Castelo Branco e alagamentos especialmente nos bairros da Zona Sul; dezesseis famílias da comunidade Engenho Velho foram levadas para abrigo temporário. A estação de tratamento que abastece a Capital e Região Metropolitana chegou a parar de funcionar, deixando oitenta bairros sem água. A chuva que transbordou cortou justamente o acesso à água potável, ironia que resume a lógica do subdesenvolvimento capitalista.
O prefeito declarou o esperado: “Temos famílias que perderam tudo, inclusive documentos e casas.” Correto. Mas a pergunta que o prefeito não respondeu é: por que essas famílias moravam onde inunda? Por que a cidade permaneceu sem drenagem, sem contenção de encostas, sem planejamento adequado que proteja quem trabalha?
A urgência que só aparece após a tragédia
Quando o Rio Grande do Sul foi atingido pelas enchentes em 2024, o maior desastre climático do Brasil em décadas, o governo liberou bilhões e o povo se mobilizou. Depois de tudo, as comunidades ribeirinhas continuam onde estão. Os recursos vieram depois, mas a prevenção nunca.
O capitalismo não planeja o território pensando nas pessoas, planeja pensando no lucro. A cidade cresce onde o mercado imobiliário quer e a classe trabalhadora ocupa o que sobra nas margens dos rios, as encostas, os fundos de vale. E quando chove, paga o preço de uma tragédia construída tijolo por tijolo ao longo de décadas de especulação e contenção de gastos públicos.
O Teto de Gastos, hoje chamado pelo nome mais palatável de Arcabouço Fiscal, mas com a mesma lógica de austeridade que amordaça o Estado, funciona como uma guilhotina permanente sobre investimentos em infraestrutura urbana, habitação popular e drenagem. Não falta dinheiro para bancar os juros da dívida pública. Falta para consertar o canal de drenagem de Bayeux, para construir habitação digna para quem vive nos morros e encostas de João Pessoa, para modernizar a rede elétrica de Guarabira e para construir uma ponte resistente em Ingá.
O gasto com desastres é sempre permitido, pois é emergencial, não pode esperar. O presidente Lula assinou medida provisória abrindo crédito extraordinário de 305 milhões de reais para ações de proteção e defesa civil e 305 milhões para limpar o que o descaso do próprio Estado acumulou. Mas o investimento preventivo que evitaria esse custo? Esse precisa ser cortado para se enquadrar no teto – ou arcabouço, como queiram.
O que a chuva revela
Não existe desastre natural puro. Existe a natureza, existem os desafios climáticos e existe a forma como a sociedade se organiza para enfrentá-los, ou para ignorá-los até que seja tarde demais. A Paraíba de maio de 2026 é a mesma Paraíba de agosto de 2025, que é a mesma do Rio Grande do Sul de 2024, que é a mesma de Recife em 2022. A chuva muda de localidade, mas o padrão de quem morre e quem perde tudo, não.
Enquanto a lógica capitalista continuar tratando o território como mercadoria, o desenvolvimento urbano como negócio privado e a relação entre as pessoas e a natureza como problema secundário, resolvível só no decreto, só na emergência, as enchentes continuarão sendo tragédias anunciadas. A classe trabalhadora da Paraíba precisa de drenagem, de habitação, de planejamento urbano que coloque a vida no centro. Precisa que o Estado exista antes do desastre, não só depois.
Isso é direito. E direito que só será plenamente conquistado pela superação do capital e pela construção do socialismo no Brasil.
