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Livro: Cidade das Aves
Autora: Tereza Andrade
Lamparina Editora
432 páginas
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Na literatura brasileira contemporânea recente, poucos romances são tão viscerais quanto: A cidade das Aves de Tereza Andrade. Uma obra complexa gestada em mais de 10 anos de intensa pesquisa e escrita.
Nascida e crescida na região abordada no livro, o Vale do Paranapanema, Tereza traça esse romance entre memória e história, poesia e ensaio científico num entrelaçamento de linguagens para referendar uma busca ética, estética e política na literatura.
É um romance em que a história não entra por acaso: ela é questionada quando sua narrativa cria benefícios apenas para um lado ou teve uma parte sua esquecida propositadamente. A escritora pretende, nas primeiras duas partes do livro, ser uma espécie de arqueóloga da memória e jogar luz para outras histórias que foram silenciadas por uma única verdade. Porque de acordo com a autora: “Uma pessoa sozinha não constrói nada. A vida e os lugares são moldados em mutirão, mexidos e remexidos por todos” (ANDRADE, 2024 pg. 58).

E essas histórias moldadas em mutirão e mexidas e remexidas por todos nem sempre são contadas como deveriam, são camufladas pela História Oficial que é privilegiada em face de interesses políticos e do patriarcado que se fortalece exatamente no silenciamento do que é diferente. Deve-se lembrar que o Romance Histórico não tem o compromisso de ser mais um documento histórico sobre os fatos, ou seja, seu compromisso é com a verossimilhança e não necessariamente com a verdade, ou com o que se acredita que seja. O Romance Histórico muitas vezes se constrói sim com uma farta pesquisa documental, mas sua ficcionalidade se faz dos lapsos da memória e dos vazios que a História Oficial traz, há uma reconstrução a partir do silêncio. Neste sentido, a voz da autora entra na história desenvolvendo muitas vezes a própria narração: “A mitologia agradável do patriarca é fácil de ser aceita por ser considerada protetora. Precisamos de um pai corajoso, forte e destemido nas histórias” (ANDRADE, 2024 pg.58).
Esse pai forte e destemido nas histórias talvez não deixasse as histórias outras serem lembradas, por isso, a narração deste livro tenta ao máximo trazer do esquecimento as outras verdadeiras histórias que a sociedade se negou a enxergar. E numa verdadeira Metaficção Historiográfica em que as vozes da narrativa se confundem com a própria voz autoral, Andrade disseca o ato de contar na linguagem do romance, e a contação se reconfigura novamente, pois como ela diz quando vai contar sobre os Kaingangs no Oeste Paulista: “não saber sobre eles é como não saber sobre mim” (ANDRADE, 2024, pg.63).
Neste livro, a autora se desdobra em narradora, personagem, pesquisadora e cientista. Ela faz o movimento de retornar para as suas origens e raízes para cavoucar não apenas a sua história, sua identidade e ancestralidade, mas relacioná-la com a história do Brasil e de sua região. E nessa viagem, há um enfrentamento da autora consigo mesma primeiramente, com resquícios de um passado que poucos teriam coragem de revelar e confrontar para não enxergar os seus espelhos. Nesse acerto de contas, a autora encontra os Kaingangs e os traz para a narrativa como uma forma de revelar um debate que, até então seria íntimo e constrangedor, mas que se transforma em um debate visceral de uma nação que não consegue enfrentar os seus fantasmas:
Comecei a conversar com Candire Kaingang e contei a ela que, possivelmente, alguns de meus antepassados mataram os seus para reocupar um dos locais onde eles viviam. Ela me pediu a localização geográfica e confirmou. Ficamos nos olhando por um bom tempo. Vi uma dor ainda impossível de ser superada. (ANDRADE, 2024, pg.63)
A autora conta que, para corrigir os erros do passado de seus antepassados, a escrita surge como salvação de que é possível fazer um novo recomeço através da literatura e da linguagem. Os erros dos outros se transformam em penumbras que invadem o eu e, este faz agora da pena, da sua escrita, o lugar da recondução de todas essas memórias, as que se contam e as que se esquecem, para um novo eixo em que essas estas se transformam em diferentes realidades e se reescrevem. É preciso reorganizar as narrativas, enfrentando as penumbras e as dores de uma história que foi feita por dores e violência.
Percebe-se isso neste trecho desde o início:
Os grandes fazendeiros e seus herdeiros não compraram terras. Invadiram, mataram e ganharam titularidades e tomaram posse. Trouxeram africanos escravizados para trabalhar. De comum acordo deicidiram, com urgência, impedir que os negros tomassem posse da terra. ( ANDRADE, 2024, pg 46)
A posse e a da terra é o verdadeiro eixo central de A Cidade das Aves que é um monumento aos meandros de uma memória silenciada, quanto a uma paisagem que demonstra resistência e resiliência, pois enquanto os humanos passam, ela fica. A terra, a paisagem, a sua natureza e suas abundâncias são os verdadeiros personagens desse romance quase sem enredo, mas profundamente descritivo, revelador e poético. Pois como a autora diz no início do livro:
A memória não é para promover vingança, mas para meditar. Admito nossos malfeitos e os de nossos antecessores é doloroso. As pessoas querem esquecer as coisas ruins e preferem acreditar em invenções. (ANDRADE, 2024, pg 62)
A escritora inicia o livro com o narrador em primeira pessoa e a terceira pessoa ou narrador onisciente, porque intercala a sua própria história com a história do lugar e do Brasil. Como já foi dito, a autora entra na narrativa como uma pesquisadora atenta, observadora e contundente, mas os melhores momentos da narração são os que ela esquece a fruição da análise científica e histórica e, deixa aflorar e tomar conta de sua escritura; a poesia, transformando-a em narrativa poética.
Um velho, que parecia não ver ou escutar, se levantou e entregou a Candire, um cocar Kaingang pedindo-lhe que o colocasse em minha cabeça. Um vento suave nos lava e nos abraçamos. A partir de então, sinto-me como uma planta entrelaçada às vizinhas. (ANDRADE, 2024, pg.64)
Já no início do romance, a poeta se enlaça com a natureza à medida que essa história avança como uma história de resistência da paisagem. E mesmo em momentos que se conta de que maneira o homem viola esse ambiente, há uma profunda perspectiva telúrica de que até os algozes precisam dela e com essa terra e a natureza se fundem. Isto é, a perspectiva que a autora coloca em A Cidade das Aves é que não existe maniqueísmo, não há vilões ou mocinhos nesta história de exploração, violência e desespero, mas que existem diversas nuances e situações em que o ser humano se vê completamente só diante dos obstáculos da sobrevivência e que só a paisagem _ desafiadora e constante, podem e devem ser soberanas.
“De quanta terra precisa um homem?” (ANDRADE, 2024, pg 81). Com essa pergunta originalmente feita por Liev Tostói, Tereza Andrade estrutura o livro em três partes de forma semelhante ao livro Os Sertões de Euclides da Cunha, porque sua obra retrata exatamente o mesmo problema do livro inspirador; o Brasil colonial, feudal, latifundiário, escravocrata e genocida. Algo que só a literatura desse país tem a coragem de revelar.
Dividido o romance em Terra Extasiada, Terra Devastada e Terra Extenuada, Andrade narra a história da colonização e da neocolonialismo do Oeste Paulista a partir da visão dos mais oprimidos e da oprimida terra; seus personagens mais emblemáticos são os povos originários e as mulheres. Até os próprios colonos que pensam que apenas oprimem o seio da vida se tornam oprimidos pela própria opressão que carregam dentro deles. Como é o caso de Bento que, na terceira parte, junto de seu avô, os dois desmatam a sua região mesmo sentindo dor: “Vô, minha vida é cheia de dor no corpo por trabalhar derrubando árvores. Não dá tempo de passar. Mas não é só corpo.” (ANDRADE, 2024 pg.191)
Apesar da autora mostrar nessa relação de Bento e Alfredo que, como disse Paulo Freire, o sonho do oprimido é ser o opressor, há o ensaio da possibilidade de outra vida e outra relação com a terra: “Eu podia viver na floresta bebendo água dos cipós e comendo folhas, frutas e mel” (ANDRADE, 2024, pg 191). E essa possibilidade de outra forma de vivência com a terra e na terra é flertada durante toda a narrativa, porém, assim como a memória que é comparada a um rio, essa situação não aconteceu e nem acontece, porque há reprodução de estruturas e dos comportamentos.
A mistura de gêneros textuais é o seu grande trunfo, o que confere à narrativa e ao enredo diferentes camadas que para quem lê, tornando um desafio constante e exigindo desse leitor mais do que simplesmente uma leitura, e sim que ele se torne parte dessa viagem ao passado, a qual não deixa de ser ainda o nosso presente.
A mistura de gêneros linguísticos e literários no cerne da escritura, como o documental, histórico e o poético, faz desse romance; um baú de extrema densidade e complexidade, na qual as diversas histórias de vida e de luta estão lá guardadas e silenciadas, prontas para serem redescobertas, enquanto a História oficial é a todo momento questionada, porque se descobre que ela é uma narrativa de uma enorme simplicidade perto das nuances das outras histórias de vida das pessoas em todas as suas formas e na interação com a paisagem:
Quando estava com a enxó nas mãos preparando um encaixe, Alfredo mergulhava em reflexão e vivia a própria vida. Analisou tudo o que fez e o que se tornou. Às vezes parava e escutava um pássaro cantando até localizá-lo na árvore. Identificava-se como os agaraiti. (ANDRADE, 2024, pg 185)
A paisagem é o principal narrador e personagem desse livro, a natureza modificada e extasiada, a que parece que é a todo momento violentada pelos homens, mas que no fundo, é a que determina e se impõe à vida. A terra é o útero, a mãe, a que acolhe e produz a semente e a comida dos seres, a que guarda os últimos resquícios de sua materialidade no planeta. Como é a que alimenta, gera e nutre, acolhe e dá a vida e a morte, Tereza a relaciona com a mulher, bem como toda a paisagem: as flores, as águas, as árvores. E essa personificação com o corpo feminino se impõe em trechos como este em que Bento compara a madeira com um corpo de mulher: “Nunca chame essa madeira de burra. Ela é muito inteligente e sensível. Das mais bonitas e cheirosas que há. Bem cuidada, pode durar um tempo que muitos de seus filhos, netos, bisnetos e tataranetos não vão viver” (ANDRADE, 2024, pg 187).
Essa personificação não é vista apenas do corpo da mulher ao corpo da natureza, ou da natureza como uma mulher, mas também dos personagens que são tratados como filhos rebeldes. No final há a mistura também das vozes desses personagens com o narrador de forma consciente e abrupta, narrador onisciente se transforma em monólogo interior, a voz da autora também se faz presente, como nesta fala do Bento:
Desmatar é matar. Não entendo por que não se pode viver com a floresta em pé. Essa vida é muito dura. É preciso desmatar para plantar e criar o que comer. Tem dias que tenho muita raiva do que a gente faz. Quando dou uma machadada, sinto parte do meu corpo arrebentar. (ANDRADE, 2024, pg 193)
Neste trecho mais uma vez, o romance coloca seus personagens como corpos que fazem parte de um todo, a paisagem os absorve, é natural tê-los, apesar de toda ferida que estes lhe causam. E nessa transmutação, corpo, paisagem, natureza, ser e terra, surge a poesia, enquanto a autora não quer perder nenhum detalhe ensaístico e científico de sua pesquisa. Ela os insere no texto em meio ao caos da sua própria linguagem organizada. É a tentativa de fazer de um livro muito mais que um romance, mas um romance-monumento. E é por isso que esse livro não pode ser lido rápido, precisa de atenção, observação e delicadeza, como neste trecho em que ela insere um pouco do que pesquisou sobre a Medicina e o conhecimento Botânico dos Kaingangs:
O saber Kaiangang controla parasitas, vermes e peste através das plantas (…) A poia é usada de muitas formas. Tintura de urucum, carvão e argila são utilizados para a pele. Mel e partes de animais também são usados para tratar doenças. Gordura de animais misturadas com ervas são usadas na forma de pomadas e cataplasmas com argilas misturadas a plantas maceradas. Quem plantas, produzindo pós cinzas e carvões. (ANDRADE, 2024, pg 170)
E não só sobre a medicina Kaiangang a autora traz dados que podem ser considerados até inéditos como os da biopirataria cometida pelos europeus contra nossos biomas e minérios com números impressionantes e que deixa qualquer leitor indignado com tamanha espoliação de nossas riquezas e da vida, como com a quantidade de exportação de peles de onças (na casa de 5 mil) para o exterior ou de peles e penas dos beija-flores, isso tudo não apenas na colonização, mas também na chamada Belle Époque, mostrando que todo glamour da vida europeia e do capital se produz em cima de sangue e morte dos inocentes, e do desterro completo de nossa paisagem e biomas. Nesse sentido, o livro permite uma reflexão visceral sobre a nossa história de maneira completa, mais do que muitos anais e enciclopédias mortas nas estantes.
A impressão é que o livro diante de tanta complexidade é que a narrativa não tem um enredo. Mas salvo engano, o verdadeiro enredo já foi dado com a nossa formação barroca e hipócrita, feita de sangue e suor em cima de uma terra extremamente linda e única em que a beleza se concilia com a morte. Por isso, só a salvação e só se consegue atingir a verdadeira profundidade da revelação de tantos silêncios quando a autora se deixa vencer pela poesia.
Sim, é nesse momento em que a poesia vence o ensaio que o romance se sobrepõe com excelência numa escrita que é metapoética e feminina, porque a floresta e a terra são corpos inteiros, unos e que se assemelham ao ritmo dos corpos das mulheres: “Árvores com braços nus, folhas rosadas, alaranjadas ou verdes tenras, rebrotando. Os olhos e os ouvidos se afiam numa inútil tentativa de perceber que desperta sentidos adormecidos” (ANDRADE, 2024, pg 179).
Andrade nos convida a entrar neste ambiente para nos tornarmos protagonistas desta história, porque o que ela se propõe a narrar não é um enredo incomum, mas a história de todos nós, brasileiros. A história dos seres que foram colonizadores e colonizados ao mesmo tempo. Que se misturava à natureza e dela sobrevivia, ao mesmo tempo em que a destruía. Por isso, a autora mistura o passado com o presente, são pequenos flashs que se misturam ao percurso de todos nós e de nossos ancestrais nesse espaço. Ela reescreve uma paisagem farta que vai ficando escassa. Este talvez seria o enredo: o espaço soberano e desafiador, personagem e enredo ao mesmo tempo. E neste sentido, se desenrola as várias histórias de luta e sobrevivência que a poesia extraída dessa comunhão que o texto faz entre corpo, natureza, sentido, passado e floresta conseguem expressar: “Os sons, por maiores que sejam, não rompem o silêncio das árvores. Cada uma delas parece tocar um anjo que desceu das nuvens para descansar” (ANDRADE, 2024, pg 179).
Ouvir a poesia que exala, nestes momentos na narrativa, em cores vivas como uma pintura faz com que o leitor se deslumbre com toda sinestesia possível despertada. Há sons, cheiros, cores, luzes: “faziam tochas com as taquaras para iluminar seus caminhos em noites escuras” (ANDRADE, 2024, pg.175), a floresta e a natureza como um todo é um ser vivo pulsante para abraçar os seres humanos, mesmo aqueles que a maltratam, como nestes trechos todos rimados e ritmados em assonâncias e aliterações:
Entrar numa floresta fechada nativa é uma experiência que se sedimenta na memória. É como assistir a uma orquestra de músicos afinando seus instrumentos. Pisa-se uma cama que afunda, gerando sonos que estalam, quebram, chacoalham e dão origem a outro que correm, batem asas e zunem. Ouve-se o ir e o vir dos cantos dos pássaros, insetos e abelhas ao redor” (ANDRADE,
Os viventes experimentam isso de uma forma única. A uns encantou, a outros trouxe desespero e desencanto (…) A moradia inicial da família expandida foi um rancho de coqueiros, abandonados há poucos anos” (ANDRADE, 2024, pg.180).
No entrelaçamento de tantas histórias, da autora e sua biografia, da história da sua família com a história de sua região com a do Brasil e com a história de cada leitor, de cada brasileiro, Tereza revela que o maior romance que se possa escrever é a revelação de todas as entranhas da formação deste país, regada com sangue, suor e seiva, enquanto a poesia aparece como um suco espremido de tanta dor em meio à beleza esculpida pela vida e pela força do infinito. Nossas vísceras foram finalmente reveladas, resta agora estancar todos os furos para continuarmos nosso enredo talvez de uma maneira mais límpida com o nosso espaço.
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