
A deputada federal Daiana Santos (PCdoB-RS) destacou, na Primeira Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, realizada em Porto Alegre, que a luta institucional só ganha força real quando articulada com a mobilização popular. Co-moderadora da mesa sobre “Papel e limites da ação institucional na luta democrática”, a parlamentar enfatizou que derrotar o fascismo exige mais do que disputar espaços formais: é preciso “ouvir as massas” e construir consciência coletiva.
A primeira mesa da Conferência que começa nesta quinta e prossegue até domingo (29) colocou no centro uma questão estratégica: qual o papel — e os limites — da ação institucional na luta democrática. Coordenada pelas deputadas Daiana e Maria do Rosário, a discussão reuniu lideranças de diferentes continentes e tradições políticas.
Desde a abertura, ficou evidente um consenso: parlamentos e governos são espaços relevantes, mas insuficientes. “O parlamento não é um local de soluções, é um campo de batalha”, sintetizou o parlamentar comunista turco Erkan Baş, ao refletir sobre a crise contemporânea das instituições.
Fascismo, capitalismo e disputa de classe
Um eixo estruturante da mesa foi a associação entre fascismo e capitalismo. Diversos participantes apontaram que o avanço da extrema direita está ligado à crise do modelo econômico e à incapacidade das democracias liberais de responder às demandas sociais.
Nesse sentido, o fascismo foi caracterizado como uma resposta autoritária às contradições do sistema, operando tanto por vias institucionais quanto por mecanismos de desinformação, repressão e guerra.
Soberania é comida na mesa, segurança e defesa da classe trabalhadora
Em sua intervenção, Daiana Santos propôs uma releitura do conceito de soberania, conectando-o às necessidades concretas da população. “Que soberania é comida na mesa, que soberania é segurança, que soberania é olhar para o campo e olhar para a cidade”, afirmou. Para ela, a defesa da soberania nacional não pode ser abstrata: deve se traduzir em políticas que garantam direitos à classe trabalhadora.
A deputada reforçou que o enfrentamento ao fascismo não se limita ao campo institucional. “Nós não vamos avançar contra esse fascismo se não tivermos essa compreensão dessa relação direta com a luta, que está no dia a dia, está indicada em cada uma das nossas ações”, sustentou. Segundo Daiana, a vitória sobre forças autoritárias depende da capacidade de organizar coletivamente, “ganhando as mentes” e ampliando a consciência política.
Institucionalidade e mobilização: uma articulação necessária
Daiana Santos sublinhou que a luta parlamentar é importante, mas insuficiente se descolada da organização popular. “A luta institucional só ganha força e vai ter o peso necessário quando ouvir as massas”, avaliou. A parlamentar citou como referência a trajetória da parlamentar gaúcha Jussara Cony (PCdoB), símbolo de décadas de militância que combina atuação institucional com presença nas ruas.
Para a deputada, a articulação entre instituições e movimentos sociais é estratégica num momento de ascensão global da extrema direita. “É com essa consciência, com essa ampliação da consciência, que a gente vai avançar rumo a esta grande retomada”, afirmou, defendendo que o povo seja reconhecido como “soberano diante de tudo isso”.
A parlamentar também saudou a diversidade de participantes da conferência, com representantes de 40 países, ressaltando que o antifascismo é uma causa transnacional. “É um orgulho poder fazer a defesa dessas fileiras”, disse, referindo-se à tradição comunista de combate ao autoritarismo.
Entre conquistas e ilusões da institucionalidade

O senador uruguaio Oscar Andrade apresentou uma das formulações mais diretas do debate ao afirmar que “não há limites” para a luta popular — exceto quando ela se restringe à institucionalidade.
Segundo ele, a experiência latino-americana mostra que governos progressistas ampliaram direitos e condições de vida, mas não conseguiram, por si só, enfrentar o poder estrutural das elites econômicas. O resultado foi uma contradição recorrente: avanços sociais coexistindo com frustrações políticas e perda de base social.
A crítica central é que parte da esquerda superestimou o Estado como instrumento exclusivo de transformação, negligenciando a disputa na sociedade — especialmente no campo da cultura, da subjetividade e da organização popular.
Europa: normalização da extrema direita
A ex-eurodeputada Ana Miranda trouxe o diagnóstico europeu, onde a extrema direita deixou de ser marginal para se tornar componente orgânico das decisões institucionais.
Segundo ela, partidos conservadores tradicionais passaram a “normalizar” forças neofascistas, permitindo sua influência direta nas políticas da União Europeia. O resultado é um deslocamento do centro político à direita, com impactos em temas como imigração, direitos sociais e soberania nacional.
Já o dirigente português João Oliveira (PCP) reforçou que a democracia não pode ser reduzida à dimensão eleitoral. Para ele, sem participação popular e sem enfrentamento às estruturas econômicas, a institucionalidade tende a reproduzir desigualdades.
Estados Unidos e a “armadilha institucional”
O conselheiro norte-americano Abdul Osmanu, da Democratic Socialists of America, destacou o risco de governos progressistas abandonarem os movimentos sociais que os levaram ao poder. Segundo ele, esse afastamento abre espaço para o crescimento do fascismo.
A análise converge com a crítica feita por Glauber Braga (Psol-RJ), que apontou a impossibilidade de enfrentar o avanço autoritário sem romper com políticas neoliberais. “Não existe combate ao fascismo descolado do enfrentamento à austeridade”, afirmou.
América Latina: mobilização como fator decisivo
A argentina Vilma Ripoll trouxe exemplos concretos de sua experiência parlamentar para demonstrar os limites institucionais. Mesmo com leis aprovadas sob pressão popular, governos podem bloquear sua implementação, evidenciando o poder real fora do parlamento.
Para ela, conquistas só se consolidam quando há mobilização contínua nas ruas. Sem isso, decisões institucionais tornam-se frágeis diante de interesses econômicos e acordos políticos.
Unidade internacional e horizonte estratégico
Apesar das diferenças de diagnóstico e ênfase, a mesa convergiu em um ponto: a necessidade de articulação internacional. A luta antifascista foi apresentada como um processo global, que exige coordenação entre partidos, movimentos sociais e governos progressistas.
A defesa da democracia apareceu, assim, vinculada à justiça social, à soberania dos povos e à reorganização da ação política para além das instituições.
Ao final, prevaleceu uma síntese estratégica: a institucionalidade pode ser trincheira, mas a transformação depende da combinação entre ação parlamentar, mobilização popular e construção de alternativas sistêmicas.
A intervenção da deputada do PCdoB-RS reforçou um eixo central da conferência: o antifascismo não é apenas uma posição defensiva, mas um projeto político que exige radicalização da democracia, justiça social e unidade dos povos. Em tempos de ofensiva autoritária global, a mensagem de Porto Alegre é clara: a resistência se faz com determinação, organização e, acima de tudo, com o povo como sujeito da história.
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