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Das várias regiões à Palestina, as múltiplas lutas que ecoam no PCdoB

O clima é de efervescência e decisão. Nos corredores do 16º Congresso Nacional do PCdoB, em Brasília, as distintas bandeiras que compõem a esquerda brasileira se encontram. A reportagem ouviu delegados de diferentes setores para entender as perspectivas que buscam moldar o futuro do partido. Das trincheiras da juventude aos territórios indígenas e à solidariedade internacional, um fio em comum: a busca por um projeto de país que seja, de fato, plural e transformador.

Com a energia típica de quem representa o futuro, Maria Silva, 22 anos, delegada da Bahia, não hesita ao eleger o maior desafio. “Nosso congresso debateu muito a unidade da esquerda, e isso é vital. A grande batalha é externa: como conquistar o jovem que está no Uber, no iFood, no telemarketing, que não vê a política como solução?”.

“Precisamos falar de uberização e moradia”, afirma a jovem delegada.

Maria vai além da crítica e aponta o caminho: “Precisamos chegar com respostas concretas. O PCdoB tem que ser o partido que fala de renda, de acesso à universidade, mas também de saúde mental e do direito à cidade. A pauta da moradia, por exemplo, é uma chave para dialogar com a juventude periférica. Não adianta só falar em socialismo se não explicarmos como isso se traduz na vida concreta do jovem que não consegue alugar uma quitinete.”

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A força da diversidade marca o congresso, e a voz dos povos originários ecoa com autoridade. Kahu Pataxó, 35 anos, delegado do PCdoB da Bahia, traz a luta do território para o centro do debate político. “Estar aqui não é sobre integração, é sobre afirmação. Nossa luta pela demarcação das terras é a mesma luta anticapitalista do PCdoB. O agronegócio que envenena nossa terra e nosso povo é o mesmo que precariza o trabalho nas cidades”, analisa.

“Não há justiça social sem justiça para os povos originários”, defende a liderança indígena.

Kahu é enfático sobre o papel do Partido: “O PCdoB tem a obrigação histórica de ser uma trincheira. Não basta incluir nossa pauta no documento. Tem que pressionar o governo Lula pela retomada urgente das demarcações e pelo fim do Marco Temporal. Defender a Amazônia e os povos indígenas não é um tema acessório, é a base para qualquer projeto de desenvolvimento soberano para o Brasil.”

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A defesa intransigente da causa palestina, uma bandeira histórica do partido, ganhou contornos de exigência por ações mais ousadas. Alessandro Mendes, 41 anos, delegado do PCdoB de Brasília, especialista em relações internacionais, é direto: “A solidariedade internacionalista não pode ser só discurso. Este congresso precisa mandar uma mensagem clara: é hora de o partido pressionar o governo Lula a dar um passo à frente.”

“Solidariedade à Palestina exige ações concretas do governo Lula”, afirma o delegado.

Para Mendes, a lista de ações é precisa: “Precisamos recall definitivo do nosso embaixador em Israel, ampliar a ajuda humanitária e liderar um bloco de países na ONU pelo reconhecimento do Estado Palestino dentro das fronteiras de 1967. O Brasil não pode ser espectador de um genocídio. A política externa progressista exige coragem.”

Militante durante o Congresso do PCdoB. Foto: J.Lee Aguiar

O partido precisa olhar para as ruas

Fora do círculo de delegados, mas atento a todos os debates, Jorge Gregory, observador do congresso, traz uma visão panorâmica. “O partido debate profundamente sua identidade e suas resoluções, mas o risco é criar uma fossa entre a riqueza do debate interno e a simplicidade crua dos problemas do povo brasileiro”, reflete.

Para Gregory, o desafio é de tradução. “O PCdoB carrega um tesouro de história e elaboração teórica. O grande teste após esse congresso será transformar essa complexidade em uma linguagem que dialogue com quem sofre no dia a dia com o preço da carne e do ônibus. A renovação passa, inevitavelmente, por essa capacidade de se comunicar com o Brasil real.”

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O congresso do PCdoB revela um partido no espelho de suas próprias contradições e potências. Se por um lado ouve o chamado da juventude por respostas tangíveis à precarização da vida, assimila a urgência climática e territorial trazida pelos povos originários e se mobiliza para transformar a solidariedade internacional em ação concreta, por outro enfrenta o desafio histórico de traduzir sua complexidade doutrinária em um projeto político compreensível e atraente para o Brasil real.

O sucesso na empreitada de costurar essas múltiplas vozes não definirá apenas o futuro do Partido, mas sua capacidade de seguir sendo uma ferramenta relevante na construção de uma alternativa popular para o país. O caminho apontado pelos delegados indica que é hora de fazer da rua a principal trincheira.

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