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Data centers, gulosos e beberrões

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“A IA precisa do seu corpo. A IA não consegue tocar na grama. Você consegue. Receba quando os agentes de IA precisarem de alguém no mundo real”
-slogan do site RentAHuman

Quanta comida e quanta água ao dia você precisa para viver? Por mais que as respostas possam variar, dependendo de suas características físicas pessoais, do ambiente em que está e das atividades que precisa fazer, pode-se dizer que há uma média ponderável.

Pensando na comida como fonte de energia (uma simplificação que destoa do que nós agroecologistas acreditamos, mas que ajuda a dar uma ideia), daria para falar em cerca de 3 mil calorias. Para facilitar, vamos considerar que a média necessária ao consumo humano diário de água, somente para se beber, seja em torno de 2 litros, valor muito disseminado em guias de orientação nutricional.

Pronto. É possível pactuarmos que, com essa disponibilidade garantida, você não vai morrer, certo? Mas o caso não é tão fácil de solucionar, e há outras questões embutidas nessa pergunta inicial que ainda exigem respostas. Uma delas é: em nossa sociedade altamente urbanizada, industrializada e globalizada, o que é necessário fazer para que você tenha, diariamente, acesso à essa comida que come e à essa bebida que bebe?

É aqui que a porca torce o rabo! Se, como descrevemos acima, já há uma considerável variação natural das necessidades de cada pessoa, as variações relativas às respostas desta última pergunta são muito maiores. Para tentar quantificar esses valores, surgiram as “calculadoras” das pegadas ecológicas e hídricas de produtos. Com base nelas, é possível estipular aproximadamente quanto cada tipo de produto impacta o ambiente, ao ser consumido, e se esse padrão de consumo é ou não viável a longo prazo.

Os cálculos tentam levar em conta todos os processos realizados para que uma pessoa tenha, por exemplo, um quilo de arroz em sua despensa ou uma lata de refrigerante em sua geladeira. São aproximações que permitem ter uma consciência maior sobre os impactos do nosso consumo alimentar no planeta, visando estimular uma seleção menos danosa do ponto de vista socioambiental.

Eles podem ser estendidos a todas as necessidades humanas, como vestimenta, moradia, higiene, etc. Com base nessas informações, podemos traçar médias entre diferentes populações, perceber desigualdades, elaborar programas para promover mais equilíbrio e planos para tentar não inviabilizar nosso futuro, caso esse consumo se mostre insustentável, o que é cada vez mais constatado.

Gulosos e beberrões

E o que esses dados estão dizendo é que existe uma minoria populacional planetária que suga quantidades gigantescas de energia, matéria e água, enquanto uma boa parte da população mundial ainda não consegue obter nem o básico.

Para dar uma ideia desse abismo, a Oxfam elaborou um relatório que mostra que, nos primeiros 10 dias de 2026, o 1% mais rico do mundo já teria emitido todo o carbono que poderia emitir no ano (tomando como base o estabelecido pelo Acordo de Paris e a meta de não ultrapassar os 1,5 C°), se não se apossasse das cotas de emissão que são necessárias às outras pessoas para viver – ou entrasse nas reservas das futuras gerações. E traz um dado chocante: os 50 maiores bilionários emitem, em apenas uma hora e meia, mais carbono do que o emitido em toda a vida por alguém que possui um nível médio de consumo.

Essa voracidade injustificável, decorrente de um cotidiano de luxo em que jatinhos e iates são itens colecionáveis, acentua a degradação dos nossos ecossistemas, fonte de tudo o que precisamos para sustentar nossa sociedade. A organização estima, ainda, que as emissões oriundas dos hábitos de consumo do 1% mais rico, entre 1990 e 2030, vão causar prejuízos econômicos em torno de US$44 trilhões. O significado desse valor exorbitante, em termos de impactos reais na vida da gente, é uma fonte inesgotável de inspiração para os nossos mais torturantes pesadelos.

Sendo assim, vale ou não vale descobrir quem são esses sanguessugas, para que possamos exigir mudanças? Para surpresa de quem vive em outro planeta, vamos encontrar entre eles os magnatas das Big Techs. Das 10 maiores fortunas mapeadas este ano pela Revista Forbes, 7 são de donos de empresas do setor. Multi bilionários que controlam Amazon, Meta, Spacex, Google e mais meia dúzia de corporações, com seus tentáculos espalhados pelos quatro cantos do mundo, detêm mais poder do que governos de países, e mobilizam uma grana que está além da compreensão da rapa de terráqueos. Grana que se destina a bolsos bem específicos, diga-se não de passagem.

E eis que, em meio a essa lambança, as gigantes tecnológicas nos presentearam com a multiplicação dos tais programas generativos de Inteligência Artificial (conceito questionado por neurocientistas de peso, como Miguel Nicolelis). Note que, em inglês, o termo usado é Artificial Intelligence, o que gera a sigla AI. Para mim, uma sigla perfeita para expressar o que sinto em relação ao que ela está se tornando: algo que nos machuca profundamente e faz com que eu me manifeste aqui como quem sente uma espécie de dor.

Os motivos dessa apreensão têm relação direta com as pegadas de consumo de recursos sobre as quais falamos. Mas não param por aí; ultrapassam a materialidade, atingem o que poderíamos chamar de alma humana – nossa forma de apreender a realidade, senti-la, interpretá-la e agir dentro dela -, alterando o que conhecemos por capacidade cognitiva e influenciando drasticamente os relacionamentos sociais que mantemos.

Big Water and Big Food para Big Techs

Mas vamos à esfera material primeiro: se os níveis de abuso energético e hídrico por parte da humanidade já eram alarmantes (lembrando da imensa desigualdade entre setores da população), agora eles estão crescendo aceleradamente com a multiplicação das IAs generativas, aquelas capazes de “tomar” decisões sozinhas e “criar” imagens, vídeos, músicas e sabe-se lá mais o que deus (ou o capeta) imaginar.

Elas apenas passam uma ilusão de serem algo imaterial, por agirem aparentemente para nós no mundo virtual. Só que, na realidade, são de uma voracidade assustadora de coisas bem reais e é preciso olhar para sua “corporalidade”. Para que elas sigam funcionando, é necessário criar imensos edifícios capazes de abrigar os supercomputadores responsáveis por armazenar e processar – durante quase 24 horas e todos os dias do ano – volumes avassaladores de informações.

Chamados de data centers ou centros de dados, cada um desses espaços é mantido através do consumo de uma quantidade de energia que pode equivaler ao de várias cidades. E, muitas vezes, podem usar quantias também monumentais de água, algo necessário para resfriar os seus equipamentos, já que geram muito calor ao funcionarem quase ininterruptamente. São verdadeiros monstros insaciáveis, cuja fome e sede tendem a aumentar exponencialmente com o aumento do uso das IAs generativas ao redor do planeta.

Uma dessas mega centrais de dados do Google consumiu – sozinha e em apenas um ano de funcionamento (o ano de 2024) – 3,8 bilhões de litros de água! E a previsão é de que, até 2028, ou seja, daqui a dois anos, os data centers dos EUA somados quadrupliquem seu consumo, avaliado em mais de 60 bilhões de litros (dados de 2023), somente para resfriamento. Atualmente, cada monstro desses pode consumir mais do que 25% do total destinado ao abastecimento de sua localidade. E preste atenção: estamos falando de água potável, o que anda faltando cada vez mais no mundo.

Para ter uma ideia da dimensão desse volume, observe que a média de consumo anual de alguém que mora no Brasil é de cerca de 44 mil litros de água, sendo que 33 milhões não têm acesso regular a ela. A situação em locais do planeta menos abastecidos é ainda mais dramática, com estimativa de que 2 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável, sendo que, ao menos durante um mês por ano, metade da população mundial vivencia a escassez severa. A desertificação avança e o cultivo de vários tipos de alimento já sofre os impactos da transformação climática e ambiental, colocando em cheque nossa Segurança Alimentar e Nutricional.

Dentro de um cenário de colapso do clima, que estamos vivenciando há alguns anos, a chegada de novos e monstruosos sugadores de água certamente já seria motivo de alerta. Mas, neste início de 2026, a ONU decretou que entramos em um estágio de falência hídrica mundial, o que implica em uma condição permanente de escassez, derivada do desbalanço agudo entre o que retiramos e o que a natureza consegue repor. Com mais esse baque, é ou não é para sentirmos uma pontada dolorida no peito, ao constatar o quanto agentes de IA estão tomando (nos dois sentidos da palavra) nossas águas?

Porém, mesmo antes dos data centers iniciarem essa bebedeira interminável, eles já causam impactos materiais pungentes na sociedade, pois essas máquinas vorazes são feitas de elementos extraídos da natureza, sendo muitos deles constituídos de minerais de difícil obtenção. Países do sul global, onde a regulação e a fiscalização são mais frágeis, sempre foram alvos certeiros de empresas exploradoras, muitas delas transnacionais.

Como denunciam as comunidades atingidas e os movimentos ativistas espalhados pelo território brasileiro, as cadeias da mineração hidro-intensiva drenam nossas águas, poluem o ambiente, contaminam as pessoas, destroem ecossistemas e descumprem frequentemente o que determinam as leis, entre elas a Política Nacional de Recursos Hídricos.

Como exemplo de produtos extraídos por essas cadeias, podemos mencionar os minerais críticos, sem os quais não é possível produzir as traquitanas ultra tecnológicas que compõem celulares, placas solares, carros elétricos, turbinas eólicas etc. O debate é urgente, já que a pressão para explorá-los, por parte do atual governo dos EUA e seus conglomerados tecnológicos, ávidos por devorar suas reservas, vem aumentando. A atitude estapafúrdia do governo de Goiás, ao fazer um acordo com os gringos para a exploração das reservas do estado e desconsiderar que esta é uma prerrogativa federal, revela a urgência de encarar a questão.

Devoradores de entranhas

O verbo devorar não é usado de forma gratuita quando falamos do uso de materiais necessários para produzir GPUs, as Unidades de Processamento Gráfico que as Big Techs utilizam para nos oferecer seus serviços. Eles são microprocessadores que realizam simultaneamente milhões de cálculos matemáticos e constituem a base para o treino e a execução dos modelos de IA.

Os chips dessas engenhocas precisam ser trocados frequentemente, conforme perdem desempenho frente ao avanço tecnológico. Daí a voracidade de governos e corporações para abocanhar reservas de minerais críticos, lançando-se em uma corrida frenética pela disputa do protagonismo no desenvolvimento de modelos mais e mais “inteligentes”, como se cada minuto e cada milímetro desse percurso fossem imprescindíveis para a definição do futuro humano. E aqui estamos falando, para variar, do futuro do poder e do dinheiro, só o que importa para essa turma.

No artigo “Das terras raras às terras áridas”, publicado no Outras Palavras e no GGN, procurei expor o dilema de explorar ou não as reservas nacionais desses minerais, já que uma parte delas está em territórios em que a vida ainda é fértil, e que essa fertilidade seria seriamente comprometida, já que os métodos normalmente usados agridem o ambiente. Fertilidade que é, ela sim, cada vez mais rara, como mostra o avanço brutal da degradação do solo, principalmente nos países da América Latina e da África, alvos de um colonialismo exploratório sem fim.

Mesmo que essa exploração fosse feita de modo considerado ambientalmente seguro (o que seria quase um milagre), é impossível que ela não gere impactos danosos na vida de comunidades tradicionais locais, algumas delas formadas por indígenas isolados. O mais provável é que ela escancare as portas para a entrada da dita “civilização” (no que esta tem de pior) em regiões que precisam ser protegidas e que já sofrem pressões por parte do Agronegócio e de corporações nacionais e internacionais.

E nem precisamos nos restringir às terras raras ou a minerais de nome esquisito, quando falamos da gula do setor tecnológico que está envolvido com a Inteligência Artificial. O nosso bom e velho cobre, presente nos fios que conduzem a energia elétrica até nossas casas, tem sofrido um assédio jamais visto. Por ser fundamental nessa indústria, ele teve sua extração turbinada e pode chegar ao pico produtivo bem antes do que era imaginado. Um relatório feito pela S&P Global Energy estima que, até 2040, teremos um déficit de 10 milhões de toneladas métricas no setor, mesmo com o aumento da reciclagem de sua sucata.

O vice-presidente para assuntos geopolíticos da empresa autora do levantamento declarou: “O cobre é a artéria que conecta máquinas físicas, inteligência digital, mobilidade, infraestrutura, comunicação e sistemas de segurança”. Trata-se de algo bem sólido para um setor que diz que opera através da tal nuvem, não é? E ele continua: “a disponibilidade futura de cobre tornou-se uma questão de importância estratégica.” Ele quer dizer que virá mais pressão sobre os territórios ricos no elemento, como o Chile e o Peru. E consequentemente, teremos mais impactos sociais e ambientais.

Devorar mais ainda nossas montanhas e nossos subsolos, impactando áreas biodiversas, para abastecer a demanda por estruturas insaciáveis, como os data centers monumentais que sustentam os agentes de IA, pode ser um tiro no coração de nossos biomas, já em estado de agonia. E vale lembrar que, sem a floresta amazônica e o cerrado suficientemente preservados, o ciclo da água no território brasileiro, já tão fragilizado, entra em colapso. Em tempos de falência hídrica, é tudo o que não precisamos.

Reforço que estamos falando de água e de materiais reais, formados no ventre da terra em bilhões de anos, sendo extraídos para alimentar a rede crescente de agentes virtuais que está substituindo os seres humanos, dotados de carne, osso e inteligência real (este último item pode ser algo discutível, quando se trata dos tecno-sociopatas que nos dominam política e financeiramente) em funções cada vez mais diversificadas e complexas.

É verdade que data centers que mantém a internet e as redes sociais já povoam e sobrecarregam o mundo e o país há décadas, mas os novos data centers, sustentadores da massa de programas de IA generativa que nos inundou nos últimos tempos, são muito mais vorazes. E não apenas de matéria, mas principalmente de energia.

E dá-lhe energéticos

Sabe aquelas pessoas que encaram grandes maratonas, correndo por distâncias que ligam cidades, e precisam repor intensamente as calorias gastas? Os computadores agigantados que sustentam a IA estão em estado de ultra consumo energético o tempo todo. E, diferentemente de esportistas humanos, suas corridas não têm um ponto fixo de descanso ou de chegada, o que não permite estabelecer um teto para seus gastos de energia.

De fato, eles poderiam aumentar seu consumo indefinidamente, se não estivessem em um planeta já sufocado pela demanda de energia imposta por uma minoria populacional que pensa com o bolso – e que, há muitas décadas, deglute sem moderação todos os combustíveis fósseis, como petróleo e gás natural, que conseguem abocanhar, para viabilizar atividades que geram seu enriquecimento pessoal.

Por falar em combustíveis não renováveis, eles seguem sendo a base energética das Big Techs. Apesar do discurso para boi dormir sobre economia verde, os planos delas mostram que o gás natural ainda será, nos próximos tempos, a fonte de cerca de 75% da energia usada nos centros de dados dos EUA, como mostra um levantamento recentemente feito pela CleanView. Segundo o relatório, essas empresas preveem que as renováveis só vão se massificar depois de 2028. E de previsões feitas por corporações o inferno está cheio.

Um exemplo disso é um complexo de data centers da xAI, instalado na região que liga o Tennessee ao Mississipi, e batizado com o nome nada criativo de Colossus por supostamente abrigar o “maior supercomputador de IA do mundo”. Uma parte do complexo, localizada em Southaven, tem usado turbinas a gás sem licença da Agência de Proteção Ambiental do país. Nada surpreendente vindo de alguém que se acha acima da lei, como Elon Musk.

Mesmo se olharmos para outra ala do complexo, que não estaria, como é o caso da ala movida a gás, envolvida no envenenamento do ar e na intoxicação da população (“coincidentemente”, de maioria negra), também não encontraremos refresco. Ela é movida a vento e, seja dia ou seja noite, inferniza os e as habitantes com seu barulho – o que gera problemas de sono, de saúde mental e de audição (algo que se repete ao redor do planeta em outras comunidades vizinhas de “fazendas monocultoras de vento” e passou a ser chamado de síndrome da turbina eólica). E toda essa perturbação é feita no local para dar de mamar ao Grok, o chatbot da xAI.

Voltando aqui para o nosso Brasil, segundo o Data Center Map , já existem mais de 200 centros de dados voltados à sustentação da internet e das redes sociais, embora não existam dados oficiais que confirmem esse número. E sabemos da existência de projetos para implantação de novos e mais potentes desses centros, destinados a atender às demandas de IA, em meio à chuva de benefícios fiscais oferecidos pelo governo. Isso significa que exigirão mais espaço a ser ocupado e maior consumo de recursos materiais e energéticos.

Lugares como Eldorado do Sul (RS), Maringá (PR) e Uberlândia (MG) já têm planos em andamento, sempre acompanhados de falsas promessas e controvérsias legais. Se não houver uma força social que contrabalance o lobby das Big Techs, os próximos centros dedicados às IAs devem brotar aos montes, já que o próprio ministro da economia, Dario Durigan, foi “head” de políticas públicas da Meta no Brasil, antes de integrar a equipe de Haddad no atual ministério. E quanto maior a proximidade com lobistas, mais e mais desses centros poderão atormentar povoados – e mais abacaxis cascudos a rede de ativistas em defesa da soberania terá que descascar.

Podemos dar uma espiada no processo de implantação de um mega data center do TikTok em Caucaia, no Ceará. Ele prevê um investimento de 200 bilhões de reais, deverá ocupar um terreno de 700.000 m², e se vende como ecológico por anunciar o uso majoritário de energia eólica. Mas já está sendo acusado, como os citados acima, de burlar as exigências na obtenção do licenciamento ambiental e assobiar quanto ao consumo massivo de energia e de água, em um local marcado por insegurança hídrica. Caso a obra se livre das pendências e vingue mesmo, tome videozinho fake feito por TikTokers inundando o cérebro do povo!

Sobre os impactos de parques eólicos e solares no país, capturados por especuladores financeiros, recomendo o artigo A “transição energética” nas mãos dos rentistas, publicado no Outras Palavras. Expulsão de populações locais, aumento de tarifas, destruição da natureza e piora no fornecimento são alguns dos presentes recebidos dos capitalistas verdes. O mesmo ocorre quando se trata de fazendas de energia solar. É hora de quem crê que a tecnologia resolverá os problemas que ela mesma criou dar uma bambeada em sua fé.

Emburrecimento em massa

E sabemos que tecnocrentes não faltam! A expectativa de que o desenvolvimento tecnológico nos brinde com um mecanismo que realmente funciona como a inteligência humana tem nutrido um mercado que movimenta somas financeiras ininteligíveis e que parecem infinitas para quem vive com um salário que, antes mesmo de acabar o mês, se mostra bem finito.

Como exposto por analistas econômicos, há o risco do estouro de uma bolha, já que as Big Techs criaram um círculo vicioso de investimentos entre si, responsável por sustentar as bolsas em níveis pra lá de inflados. Além disso, segundo dizem os neurocientistas, as máquinas, por mais desenvolvidas que possam ser, jamais vão adquirir as capacidades inerentes aos seres vivos, incluindo os seres humanos.

O que está ocorrendo, e já conta com um conjunto sólido de evidências, é que nós, pessoas reais e vivas, estamos sofrendo modificações no modo como nos relacionamos em sociedade e com o ambiente. E essas mudanças estão diretamente vinculadas à massificação do uso de redes virtuais e, mais recentemente, de agentes de IA – os tais chatbots, como o chatGPT.

Desde o final de 2022, quando ele foi lançado, transformações sensíveis vêm ocorrendo e sendo observadas, inclusive em nossas mentes. Tanto que já se considera a hipótese de existir a intenção não declarada, por parte das Big Techs, de querer aproximar a “inteligência” artificial da inteligência humana, algo sabidamente inimitável, promovendo o rebaixamento desta última. De fato, do ponto de vista delas, nos emburrecer pode ser uma ótima tática para nos manipular ainda mais, aprofundando nossa dependência de seus serviços.

Um exemplo de alteração cognitiva pode ser encontrado no setor da aprendizagem. O planejamento das aulas e a realização de tarefas propostas pelos cursos passaram a ser feitas, cada vez mais, através de instruções a agentes artificiais. Os efeitos da terceirização desses trabalhos para as tais máquinas “pensantes” já estão se mostrando desastrosos.

Uma pesquisa feita pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) trouxe um alerta sobre redução da atividade cerebral e enfraquecimento da memória. Um grupo de estudantes, instruído a usar IA para “escrever” um determinado texto, não lembrava mais nada do que estava escrito momentos depois de sua redação, ao contrário de quem redigiu sem uso de chatbots. Podemos imaginar o grau de comprometimento do processo de aprendizagem, se a capacidade de buscar, analisar e memorizar conteúdos é dissolvida em meio ao automatismo de mandar um chatbot fazer todo o trabalho.

Subindo no nível acadêmico, uma onda crescente de artigos redigidos através do uso de IA está inundando o setor científico com textos de baixa qualidade, repetitivos e repletos de falhas, já que esses programas costumam ter alucinações, ou seja, passam a responder com informações aleatórias e inverídicas quando não encontram as respostas corretas. A sobrecarga para analisar esse material tende a abrir lacunas na seleção do que realmente tem pertinência. É uma porrada de impacto ainda não dimensionado em nossa trajetória de construção de conhecimento.

Não é por mera curiosidade que foi criada uma Biblioteca de Danos em IA. Ela reúne “casos concretos de impactos negativos causados por sistemas de inteligência artificial… (relacionados a) direitos fundamentais, trabalho, meio ambiente, democracia, segurança pública, crianças e adolescentes ou direitos autorais”. Parte do princípio de que “os riscos da IA já se materializam hoje, deixando de ser hipóteses futuras e tornando-se problemas reais que exigem respostas regulatórias”. Um de seus objetivos é subsidiar o debate relativo ao PL 2338/2023, que tramita no congresso, em meio a um cabo de guerra entre corporações e organizações sociais de dentro e de fora do país.

Doses generosas de cinismo

Retomando a reflexão do início deste artigo, referente às necessidades materiais para a existência de um ser humano, vale trazer aqui a pérola cuspida por Sam Altman, CEO da OpenAI. Segundo ele, as críticas ao gasto monumental de recursos, que agentes de IA exigem para serem desenvolvidos, treinados e usados, desconsideram o quanto se gasta para “produzir” (expressão minha, mas que foi o que ele quis dizer) um/a profissional de carne, osso e cérebro para fazer o trabalho que eles poderiam fazer.

Nem vamos perder tempo esmiuçando o quanto ele demonstra considerar as pessoas somente coisas a serem usadas, não muito diferentes das engenhocas eletrônicas que sua empresa manipula. Sabemos que não somos redutíveis à nossa capacidade produtiva e nem podemos ser tratados/as como simples produtos nos quais se faz investimentos (embora seja exatamente isso que as Big Techs querem que sejamos). Vamos apenas relembrar certas obviedades.

Tendo as condições necessárias para viver e respeitando limites pessoais, os seres humanos podem fazer tarefas das mais simples às mais complexas sem ter que aumentar muito o consumo de recursos para manter seu metabolismo. Ou seja, se eu estiver bem nutrida e hidratada, com saúde física e psicoemocional, posso lavar um prato, 5 pratos ou 10 pratos, sem ingerir alimentos ou água a mais para isso. Também posso escrever um artigo com 100, 500 ou mil palavras e meu consumo metabólico diário não sofrerá alterações consideráveis. Já a máquina…

Cada palavra da resposta de um chatbot implica em um gasto extra de energia. Assim, teríamos que lidar com a chegada de uma multidão crescente de robôs, sendo que cada um deles consome mais e mais conforme executa as tarefas que delegamos a ele, não tendo um teto como limite – algo que não ocorre com seres humanos, quando pensamos em termos da alimentação e da hidratação necessárias para que alguém viva e trabalhe. Como já tem muita gente de verdade sem acesso à água e comida, sabemos onde a fome e a sede vão pegar ainda mais.

Além disso, ao substituirmos pessoas de verdade por agentes de IA, as pessoas que foram substituídas vão ter que seguir (e têm todo o direito a isso) comendo e bebendo, independentemente de realizarem trabalho considerado produtivo pelo mundo corporativo. Então, de todo modo, teríamos que manter seu abastecimento – lembrando que a população humana ainda está crescendo, o que ampliará as quantidades envolvidas nessa missão.

Mas o que já pareceria um arranjo surreal, com “inteligências” artificiais bebendo a água que deveria ser bebida por pessoas de verdade (após tomarem seus empregos), ainda pode ganhar mais camadas de sandice. É que, além de ser dispensada de seu trabalho porque se tornou obsoleta em tarefas “pensantes”, uma pessoa pode ser alugada por um agente de IA para fazer tarefas que exigem um corpo real. Esse mercado já está se formando, como podemos ver com a criação da plataforma RentAHuman.ai – e há casos bizarros.

O que você acha de virar fechador de porta de automóveis que não são dirigidos por motoristas humanos? A cada fechada de porta de um táxi autônomo da Waiymo, você ganharia de 11 dólares a 24 dólares, algo já em funcionamento em cidades como Atlanta e Los Angeles, nos EUA. Ou empregar seus talentos pessoais para levantar robôs de entrega que tombaram devido a algum contratempo no percurso? Seria esse o destino dos atuais entregadores humanos, tão atarantados para conseguir comer com o pagamento ínfimo que recebem de vampiros como o Ifood, caso percam seus postos para entregadores robóticos, supostamente autônomos?

Em uma rasteira traiçoeira e desconcertante, esse poderia ser, até mesmo, o destino de quem trabalha em TI, já que há empresas do setor que andam despedindo em massa seus programadores, conforme agentes não humanos passam a fazer o que eles faziam.

Acelerar o colapso civilizatório

Um dos sinais de que a expansão das IAs provoca uma forte interferência no acesso a materiais bem concretos é o aumento dos preços dos computadores. Quem quiser adquirir um equipamento novo terá que desembolsar um dindin mais gordo daqui para a frente. A disparada dos valores ocorre porque a pipocação de data centers – e de tudo que envolve seu funcionamento – já gerou uma demanda por determinados minerais que é difícil de atender, inflacionando o mercado.

No capetalismo, quem tem mais grana sempre tem prioridade quando algo está escasso. Entre atender as Big Techs ou atender alguém como eu ou você, qual será a escolha de quem produz e vende computadores? É uma situação que deixa explícita a enrascada em que estamos nos metendo. Trata-se do aprofundamento do abismo entre as classes sociais.

De um lado, empresas e pessoas que fazem parte das classes financeiramente abastecidas vão ter acesso às “maravilhas” proporcionadas pela IA, se livrando até de muitos/as de seus/suas empregados/as de carne e osso. De outro, uma massa de gente desempregada ou precarizada vai ter mais dificuldade para comprar o celular ou o computador que permite o contato com chatbots ou com os serviços cada vez mais variados e sofisticados que as Big Techs oferecem e empurram para cima da sociedade.

Além de intensificar desigualdades e sugar o que chamam de recursos naturais, contribuindo para o aumento da fome e da sede no mundo, essa corrida tecnológica desembestada anda de mãos atadas com as guerras e conflitos bélicos. Garantir a obtenção de quantidades crescentes de materiais indispensáveis ao setor implica, muitas vezes, em invadir territórios, pressionar líderes locais e usar diversos tipos de violência, incluindo a física. É um processo que gera mais um circuito vicioso.

Hoje, para participar de guerras, é preciso ter inteligência artificial de ponta, capaz de detectar e atingir alvos com precisão. Então, mais desses materiais são consumidos e mais necessária se torna a obtenção de novos materiais, o que impulsiona novas guerras. A atual guerra de Israel e EUA contra o Irã (que fechou o estreito de Ormuz), além de catapultar o preço do petróleo, também ameaça o fornecimento do gás hélio, indispensável para a manutenção de data centers e a fabricação de semicondutores. O Catar, que produz um terço do que é mundialmente consumido, interrompeu a produção de sua estatal, depois de sofrer ataques iranianos.

É óbvio que também existem (e poderia haver muito mais) os efeitos benéficos desse super desenvolvimento tecnológico. Podemos usar IA para auxiliar procedimentos médicos, como análise de exames; descobrir e testar novos remédios e vacinas; monitorar ecossistemas e fazer cálculos complexos em estudos das mais variadas áreas, inclusive como subsídio para a criação de políticas públicas.

A questão é sobre os tipos de uso que vão predominar e quem vai ter o controle deles. E dar uma olhada em quem tem o poder para tomar essas decisões nos dá uma perspectiva bem desastrosa. Você acredita que pessoas como Elon Musk, Sam Altman, Bill Gates ou Mark Zuckerberg vão ter algum pudor ao direcionar seus produtos e serviços para o que for mais lucrativo e aumente ainda mais o seu poder? Demonstrações de que confiar neles é uma barca furada não faltam.

Recentemente, a Microsoft cortou 97,6% da capacidade de armazenamento de dados da Fiocruz, mesmo tendo recebido mais de 28 milhões da instituição, de 2012 até hoje. Nem precisamos dizer o impacto negativo dessa medida para a pesquisa pública na área de saúde no Brasil. Instituições de vários países também têm experimentado o drama de não terem soberania. E casos de assédio, infrações legais, omissão e distorção de informações podem ser encontrados às pencas na trajetória dos imperadores do mundo digital. Se depender deles, iremos meter contudo o pé no acelerador do fim do mundo, contanto que se safem enquanto viverem.

Cabe a nós, enquanto sociedade, lutar para que seja possível pôr o pé no freio desse veículo – que finge ser um robotáxi não controlável por nós, meros passageiros/as, mas possui motoristas muito reais e totalmente ecocidas, acelerando rumo ao abismo. Regular as Big Techs, controladoras dos programas de IA que se espalham sem se intimidar com fronteiras, é questão de sobrevivência. Nos EUA, berço dessas empresas e país cuja população que vive em situação mais vulnerável já viu suas contas de energia e água dispararem, após a chegada de data centers em suas cidades, a reação está ganhando corpo.

Natureza em primeiro lugar

O movimento Humans First (Humanos em primeiro lugar) se propõe a unir cidadãs e cidadãos estadunidenses no enfrentamento do futuro indigesto que o Vale do Silício vem empurrando goela abaixo do povo. A iniciativa busca evitar que pessoas reais sejam massivamente substituídas por agentes artificiais, processo que está em curso e tem contribuído para tirar o pão da mesa das famílias de quem perdeu o emprego.

É preciso reconhecer a importância de ações como o Humans First para provocar o questionamento sobre como o modo autoritário e irresponsável usado pela IA e seus vorazes centros de dados vem atropelando nossa história. No entanto, também é necessário ampliar essa luta para envolver o que não é humano, mas também não é máquina.

O descolamento, que o sistema tecnológico corporativo tenta criar entre a nossa existência – enquanto matéria e pulsação vital – e a existência da teia planetária que sustenta a vida, é o caminho mais rápido para o precipício. Como vimos, as estruturas materiais que sustentam essa rede virtual exigem muita comida, sob a forma de minérios arrancados do ventre da terra, e muita água, elemento que está cada vez mais escasso para consumo humano.

E, mais do que tudo, exigem uma quantidade de energia que parece ilimitável, a ser gerada a partir de fontes que impactam profundamente nossas comunidades e o destino da nossa civilização. O petróleo e o gás não são renováveis e estão na gênese da emergência climática. As usinas hidrelétricas, solares e eólicas, embora sejam renováveis, dependem de transformações ambientais e sociais críticas. Seus impactos interferem no equilíbrio estabelecido entre as comunidades e os territórios que habitam. A energia nuclear, cuja geração recrudesceu nos últimos anos com a intensificação dos conflitos bélicos, e está nos planos da Meta e da Microsoft, traz riscos incalculáveis.

Se a chegada da suposta Inteligência Artificial se apresenta como definitiva, é hora de lembrar que, sem água, sem energia e sem alimentos, não há sociedade, por mais ultra tecnológica que ela se proponha a ser. Vamos deixar as Big Techs decidirem quem vai ter acesso às facilidades sem fim prometidas por seus agentes sugadores de recursos, enquanto uma massa crescente de seres vivos vai sentir a dor de ter a barriga vazia e a garganta seca?

Controlar a insaciabilidade das Big Techs é um desafio existencial para nossa sobrevivência. A luta é entre o que possuímos de mais visceral (e nenhuma máquina ou programa jamais possuirá nada semelhante) e a sanha por riquezas e poder de uma minoria de tecnocratas capaz de vampirizar o planeta até que seu sangue se esgote, enquanto multiplica os bilhões virtuais que acumulam em seus fundos duvidosos.

A inteligência da vida é ancestral e é, também, maturada em bilhões, mas em bilhões de anos, e não de dólares ou na velocidade cada vez mais frenética com que hoje os chatbots respondem às solicitações que recebem, muitas vezes, de outros agentes inumanos e não naturais. Buscar uma forma de confluência entre a pulsação planetária e a tecnologia, equilibrando o que é analógico com o que é digital, é o desafio que nós, ativistas por respeito à Mãe Terra e por justiça social, teremos que encarar.

Como disse a chamada de um artigo recente, publicado pelo MIT Technology Review Brasil, sobre o avanço da IA: “Data centers são incríveis; todos os odeiam”. Se, como diz o autor, encontramos esse consenso, nos resta lutar para que esses monstros gulosos e beberrões sejam alvo de muito debate, antes que se instalem em nossos territórios. Talvez pudéssemos começar instalando alguns na vizinhança das moradias da elite high tech. Quem sabe, para não incomodar vizinhos tão ilustres, eles se tornam um pouco mais palatáveis.

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