Quando um governo eleito com o voto do povo mais pobre busca reduzir juros, defender o salário mínimo, expandir direitos e reconstruir a capacidade de investimento público, mas se vê cercado pelo conluio do rentismo, do centrão e da extrema direita, precisamos interrogar o sentido de uma governabilidade que exige, como condição, a contenção do próprio povo.
A derrota no IOF não é apenas uma questão técnica. Ela é o recado de que qualquer passo mínimo em direção à justiça fiscal será bloqueado por um sistema que protege privilégios e transfere a conta para quem menos tem. Cada derrota simbólica no Congresso é um recado: “não ousem tocar nos interesses de quem lucra com os juros altos e a fome.”
Mas o Congresso não é o inimigo. O Congresso e as instituições são, precisamente, o alvo central da extrema direita, como mostraram os atos golpistas de janeiro de 2023. Foi lá, no Congresso, no STF e na Praça dos Três Poderes, que a extrema direita tentou rasgar a frágil democracia brasileira pela força, buscando instaurar um regime de exceção a serviço de seus interesses. A esquerda não pode cair nesta cilada, transformando as instituições em inimigas abstratas e se isolando em uma radicalidade sem eficácia. Não existe democracia sem Congresso, sem instituições, sem disputa real de poder.
Se o Congresso hoje é espaço de chantagem e captura pelos interesses do rentismo, é porque também é lá que se decide orçamento, leis, direitos, limites e possibilidades de ação do Estado. Por isso, não se trata de romantizar o Congresso, mas de compreendê-lo como terreno de disputa. Nossa luta não se esgota no Congresso, mas passa por ele, apesar dele e para além dele. É lá que precisamos pressionar para garantir direitos, tensionar contradições, impedir retrocessos e avançar onde for possível, enquanto organizamos a luta cotidiana nos territórios, nas redes, nos locais de trabalho, construindo força popular para que as instituições sintam o peso da vontade coletiva.
A extrema direita deseja destruir o Congresso para impor seu projeto autoritário. Nós queremos disputar o Congresso e as instituições para transformá-las em instrumentos de ampliação de direitos e reconstrução nacional. Não há projeto popular que se realize isolando-se da disputa institucional, assim como não há transformação real sem a construção de poder popular que vá além dos limites que o Congresso impõe. Por isso, é hora de agir com clareza estratégica: disputar sem ilusões, tensionar sem sectarismo, transformar sem fantasias de atalho.
O isolamento do governo não é destino, a paralisia não é inevitável. Romper essa armadilha exige que os movimentos sociais compreendam a urgência de disputar os rumos do país sem ilusões de atalhos e sem abrir mão da disputa institucional. Sem unidade, vence a extrema direita. Sem unidade, reina a Faria Lima. Sem unidade, quem paga a conta é o povo.
Há quem insista que a crise se resolverá por um novo arranjo de cúpula. Mas não há saída sem o povo organizado, sem pressão popular, sem disputa nos territórios, nas redes e nas ruas. Quem lucra com a paralisia é o inimigo. Quem aposta na dispersão fortalece a extrema direita. O que está em jogo não é apenas o destino de um governo, mas a dignidade do povo trabalhador, a reconstrução do país e a possibilidade de futuro.
Se não for agora, será quando? Se não formos nós, será quem? A história se comprime em semanas. Algumas semanas decidem anos. Esta é uma delas.
(*) Psicanalista, professor, ex-secretário estadual de Turismo, diretor do Instituto SIG – Psicanálise & Política
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